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Qui, Abr

Abolição

  • 130 anos: a liberdade ainda não cantou!

    O fim do sistema escravista não resultou na inserção da população negra nas relações sociais, culturais e econômicas na vida dos brasileiros no final do século 18. E muito menos agora, 130 anos pós Abolição.

    Em pleno século 21, em meio a uma nova onda tecnológica, e ou uma nova Revolução Industrial (Indústria 4.0) nos deparamos com pautas extremamente atrasadas, com governo golpista, ilegítimo, antidemocrático. E ainda uma agenda de retrocessos nos direitos sociais e trabalhista. Estamos nas ruas pela defesa de reinvindicações do início do século, como as pautas que deflagraram as greves de 1917.

    Após 13 anos de avanços as trabalhadoras negras, os trabalhadores negros, e não negros, em um governo pautado pelo desenvolvimento e inclusão social, que possibilitou um cenário de maior distribuição de renda com o aumento real do salário mínimo, e o reconhecimento das centrais sindicais, as vitórias na área de educação (todos os níveis), saúde, cultura e a paz no campo.

    O que nos deparamos nesta quadra da conjuntura nacional, no que diz respeito ao mercado de trabalho, é o fim dos direitos trabalhista, direitos individuais e coletivos. São as propostas de reformas, uma verdadeira ofensiva contra a classe trabalhadora.

    A previsão do governo ilegítimo é de golpe nos direitos do povo, com a reforma da previdência PEC 287/2016, onde ampliam o tempo de contribuição, em meio a uma reforma trabalhista (PLC 38/2017), que usurpa o direito ao trabalho digno, e que joga sua população nas condições de trabalho precário e rotativo, com direitos e relações flexíveis, tempo de trabalho indeterminado, o uso do trabalho intermitente (Jornada ou Hora de serviço), consequência da terceirização. Esse é o cenário nas relações de trabalho, em meio aos 130 anos da “Abolição”.

    É neste cenário que trabalhadores públicos e privados lutam pela manutenção de seus direitos, contra as reformas e o desmonte do estado. A nova Revolução Técnico Industrial, as TI’s (Indústria 4.0), nos trará como resultante um nível de desemprego nunca visto na história de nosso país. Seremos o 4º pais mais afetado por essa onda tecnológica. E o que podíamos contar como preparo para essa etapa importante das novas relações sociais, foi perdida com a paralisia das crises econômicas e políticas constituídas pela Lava Jato, responsável pela paralisia e quebradeira de vários setores da indústria, com maior nível de empregabilidade na economia do país.

    A política de estado mínimo instalada em nossa estrutura social, com a aprovação da PEC 55, Emenda Constitucional 95/2016, a PEC do fim do mundo, nos retira qualquer forma de perspectiva pelos próximos 20 anos. E as consequências destes desgovernos todos, é o retorno do desemprego, da fome, dos moradores de rua, do fim postos de saúde, e do aumento irrestrito da violência. E uma das violências mais aviltantes é a lógica de exclusão, que ceifa o dia as perspectivas de nossos jovens, não nos permitindo qualquer ponte com o futuro.

    Os indicadores sociais, e do mercado de trabalho, nos revelam que, em alguns aspectos, as desigualdades raciais e a discriminação de gênero se cruzam e se potencializam. A situação da mulher negra evidencia essa dupla discriminação. Ao olhar essa distribuição também por gênero, as desigualdades são ampliadas. No que se refere ao valor da remuneração média do homem não negro. Em 2014, a mulher não negra recebe 72,3% da remuneração do primeiro. Já o homem negro recebe 71,6% e, por último, a mulher negra recebe 50,5%, metade da remuneração do homem não negro.

    É histórico perceber que negras e negros sempre estiveram em situação de desvantagem, e os acontecimentos infelizmente ratificam essa questão, a relatora especial das Nações Unidas sobre questões de minorias nos alerta como sempre que “A pobreza tem cor no Brasil”, e os negros são os mais vulneráveis nas crises, é o elo mais fraco da corda econômica do país. A situação das relações produtivas dos negros e negras nas relações de trabalho, revelam que a situação econômica da população dos nossos trabalhadores no contexto recente do processo de estruturação passou por melhorias significativas, mas, no entanto, não podemos deixar de entender que essa mesma dinâmica ainda expressa uma construção, racista, homofóbica e sexista.

    Segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego - PED, o rendimento médio por hora recebido pelos negros corresponde a 76,6% dos não negros, outra questão é a distância observada em relação às taxas de desemprego, e aí podemos perceber que as mulheres negras ainda se encontram em situação de desvantagem. Já essas ocupam a maior posição na taxa de desempregados ainda se mantendo em situação de maior vulnerabilidade em relação ao homem negro.

    Os desafios que os movimentos sociais, e em especial o sindical, têm pela frente é a compreensão das nuances e singularidades da luta de classes em um outro ponto de vista. Não nos confundindo com o terceiro setor e, muito menos, nos direcionando por falta de compreensão ao multiculturalismo. Mas principalmente nos receber como instrumento essencial nos duelos de classes e no combate à estrutura dominante. Vide a base da composição histórica de nossa nação.
    A luta antirracismo e a luta das mulheres, e tantas as outras que vêm no lastro das questões de gênero raça e classe, não podem ser entendidas como políticas subjetivas. Elas se portam nas relações de trabalho como fator determinante nas mais valia absoluta e relativa, essência da exploração do homem sobre o homem, segundo Karl Marx.

    A Constituição Federal de 1988, no seu Artigo 5ª nos diz que: “Somos todos iguais perante a lei”. Só que não! O que temos é um estado dando nitidez a quem que ele serve. À burguesia. O que temos é o racismo institucional, que busca a todo tempo nos manter como base da pirâmide econômica e social, e também como exército de reservas de mão-de-obra. Nos constituindo sempre na condição de cidadãos de segunda classe.
    Desta forma nossa luta continua por Salário Igual para Trabalho de Igual Valor. Pela vida de Nossa Juventude: Porque nossa Vidas Valem!

    PRA SENZALA EU NÃO VOLTO NÃO!
    FORA TEMER! DIRETAS JÁ!

    Mônica Custódio é secretária de Promoção da Igualdade Racial da CTB.

    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

  • Aos quase 130 anos da Abolição, a mentalidade escravista ainda domina a sociedade brasileira

    Reza a história oficial nos livros didáticos que a princesa Isabel, chamada de a Redentora, assinou a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, e assim colocava fim ao período de quase 400 anos de escravidão no país. Aliás, o Brasil foi o último a abolir essa violência contra seres humanos.

    “A Abolição tirou nossos ancestrais das senzalas e os jogou em verdadeiras prisões a céu aberto, uma verdadeira senzala sem paredes e sem teto”, diz Mônica Custódio, secretária de Promoção da Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) ao participar de uma reunião do Coletivo Nacional de Promoção da Igualdade Racial.

    Por isso, diz ela, “não comemoramos o 13 de maio”. Já Cherry Almeida, secretária de Saúde da CTB-BA, afirma que essa é uma data de reflexão. “Precisamos estudar a história para compreender os dias atuais e do porquê a população negra sofre tanta discriminação”, acentua.

    "Após a Abolição, a vida dos negros brasileiros continuou muito difícil. O Estado brasileiro não se preocupou em oferecer condições para que os ex-escravos pudessem ser integrados no mercado de trabalho formal e assalariado", analisa Marcelo Black, secretário-geral do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro.

    Silvio Pinheiro, dirigente da CTB-BA lembra que houve um aumento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da população negra nos últimos 10 anos, mas “ainda não conseguimos a igualdade e não temos as mesmas oportunidades”.

    Aliás, o Brasil foi cobrado por diversos países de maioria negra no Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a questão do racismo vigente no país. Onde lembraram a violência policial, o genocídio da juventude negra e a discriminação no mercado de trabalho e na sociedade.

    Trecho de Navio Negreiro, de Castro Alves:

    "Tinir de ferros… estalar de açoite…
    Legiões de homens negros como a noite,
    Horrendos a dançar…

    Negras mulheres, suspendendo às tetas
    Magras crianças, cujas bocas pretas
    Rega o sangue das mães:

    Outras moças, mas nuas e espantadas,
    No turbilhão de espectros arrastadas,
    Em ânsia e mágoa vãs!

    E ri-se a orquestra irônica, estridente…
    E da ronda fantástica a serpente
    Faz doudas espirais …
    Se o velho arqueja, se no chão resvala,
    Ouvem-se gritos… o chicote estala.
    E voam mais e mais…

    Presa nos elos de uma só cadeia,
    A multidão faminta cambaleia,
    E chora e dança ali!
    Um de raiva delira, outro enlouquece,
    Outro, que martírios embrutece,
    Cantando, geme e ri!"

    Mesmo com as políticas afirmativas dos governos Lula e Dilma, “a igualdade de direitos ainda é um sonho”, reforça Custódio. “Ainda mais agora com o governo ilegítimo acabando com todas as nossas conquistas, retornando ao século 19”.

    Pinheiro ressalta que as reformas trabalhista e previdenciária como estão colocadas vão “provocar um distanciamento ainda maior entre pobres e ricos”. Isso porque “com o fim da Política de Valorização do Salário Mínimo a economia de muitos municípios afundará”.

    De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 54% da população brasileira é constituída de afrodescendentes. Mas “ainda vivemos em condições subumanas com falta de saneamento básico e sem políticas públicas que nos deixam vulneráveis”, reforça Almeida.

    Violência que incide principalmente sobre a juventude e as mulheres. “Muitas mulheres negras são chefes de família e com o desemprego adoecem, sofrem depressão e chegam ao suicídio”. Mara Kitamura, do Sindicato dos Professores de Sorocaba e Região explica que os filhos e filhas da classe trabalhadora começam a trabalhar muito cedo.

    Com isso, diz ela, “deixam de ir à escola e essa reforma do ensino médio piora ainda mais essa situação”. Ela questiona a propaganda do Ministério da Educação. “A propaganda afirma que o jovem escolherá o que deseja estudar, mas quem vai acabar escolhendo é o Estado”.

    Porque, assinala, “essa reforma tira a responsabilidade do Estado e diminui os investimentos na educação pública e na prática tira a obrigatoriedade de matérias essenciais ao conhecimento humano”.

    Kitamura lembra que as escolas particulares continuarão tendo o ensino de História, Geografia, Artes, Filosofia e Educação Física. “Com isso o conhecimento da população mais pobre fica mais restrito. Aí como exigir direitos, como reivindicar posse de terra, por exemplo”.

    Ouça Lei Áurea, do grupo Zap-san: 

    Everaldo Vieira, secretário de Combate ao Racismo da Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos e Mineradores da Bahia, ataca a proposta de vender terras brasileiras a estrangeiros e a sanha do agronegócio para com as terras indígenas.

    “A posse da terra é essencial para as populações quilombolas e indígenas sobreviverem. É de onde tiram ao seu sustento e organizam a vida”, afirma Vieira. “A reforma agrária”, portanto, “é primordial para essas populações e para o desenvolvimento do país”.

    Ele ressalta ainda que a cultura popular brasileira tem forte herança africana. “A cultura do nosso povo é uma forma de resistência. A capoeira surgiu dessa maneira, assim como o samba e as religiões de matriz africana”.

    Já Black acentua que "a reforma trabalhista do jeito que está vai fazer os direitos conquistados duramente pelos  trabalhadores retroceder ao final do século 19, ao período da escravidão.  Pontos como o acordado sobre o legislado que irá permitir mudanças nos salários e na jornada de trabalho, empurrando  para uma vida miserável milhões de trabalhadores e trabalhadoras".

    Mônica Custódio conclui que ainda não "nos libertamos totalmente e agora estão querendo nos devolver à senzala”. Por isso, “a nossa resistência se dá provando que somos humanos, temos direito à vida e à liberdade. Resistir é preciso”.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy. Arte Pawel Kuczynski

  • Combater o racismo é defender o futuro da humanidade

    Que o Brasil é um país altamente racista é fato inquestionável. Desnudar e combater as manifestações racistas faz parte do ideário de todas e todos ativistas do movimento negro brasileiro.

    Todos os dias os jornais estampam notícias de jovens negros e pobres mortos pela polícia nas periferias das grandes cidades. O assassinato e o estupro de mulheres negras crescem vertiginosamente a cada ano. E não adianta se espantar, isso é realidade.

    Recente levantamento do IBGE mostra que 63,7% dos mais de 13 milhões de desempregados no país são negros. Lembrando que representamos 54,9% da população brasileira, nota-se a gravidade do racismo institucional, a começar pelo mercado de trabalho.

    No ano que estaremos refletindo sobre os 130 anos da Abolição, que marginalizou os seres humanos escravizados, a partir de então sem trabalho, sem terra, sem moradia, abandonados ao léu. Aos olhos da elite escravocrata só serviam para o trabalho escravo.

    Já para o trabalho remunerado como determinava o nascente capitalismo, foi importada mão de obra europeia, na vã esperança de “branquear” a sociedade, como se a negritude ferisse o orgulho da classe dominante.

    É exatamente essa mentalidade que dizima a população negra onde 71 em cada 100 pessoas assassinadas são negras no país. Matam a nossa juventude por única e exclusiva falta de vontade política em se avançar para uma sociedade sem discriminações, onde predomine a solidariedade.

    Mas insistimos e resistimos pela nossa humanização. Permaneceremos nas ruas e nas redes em defesa da vida de nossas filhas e filhos. Precisamos fortalecer a memória de Zumbi dos Palmares no Dia da Consciência Negra (20 de novembro) em respeito aos nossos ancestrais, mas principalmente pelo direito ao trabalho e a uma vida digna com igualdade de direitos.

    Mônica Custódio é secretária da Igualdade Racial da CTB.

    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

  • De Shaperville à Marielle Franco: a resistência à discriminação racial

    Cena do filme "Corra!" (Get Out), de Jordan Peele, que denuncia o racismo (Crédito: Divulgação)

    O 21 de março foi instituído, em 1966, pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial em homenagem às vítimas do episódio conhecido como Massacre de Shaperville, ocorrido nessa data em 1960.

    Em pleno apartheid (regime sul-africano de segregação racial, que vigorou de 1948 a 1994), a polícia da África do Sul reprimiu e matou 69 pessoas que participavam de uma marcha de mais de 20 mil negros contra a Lei do Passe, que determinava espaços restritos aos negros.

    “Combater o racismo é defender a emancipação da humanidade”, afirma Mônica Custódio, secretária da Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

    “O que está acontecendo atualmente no Brasil é assustador porque mostra uma virulência extremada contra uma população que foi o sustentáculo da nação por quase quatro séculos como escravos”, acentua.

    Para ela, no ano em que acontecem os 130 anos da Abolição, “é essencial refletirmos sobre as nossas ações para barrar o avanço das ideias conservadoras, racistas, sexistas e misóginas”.

    A sindicalista lembra ainda o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) no dia 14 deste mês. Para ela, esse crime hediondo remonta à mesma visão de ódio e de discriminação racial da África do Sul sob o apartheid.

    “O Brasil ainda não superou totalmente a mentalidade escravista. A reação às políticas afirmativas e mais ainda contra as pessoas que ousam levantar a voz pela igualdade de condições de vida está matando mais do que muitas guerras”, diz.

    marielle franco presente

    A questão é tão marcante, lembra Custódio, que uma empresária do Pará decidiu fazer a festa de 15 anos da filha com o tema “Imperial Garden" e postou nas redes sociais fotos de um ensaio preparativo da festa onde a menina está vestida de sinhá e é servida por atores interpretando escravos.

    A cena é tão grotesca que a Ordem dos Advogados do Brasil, seção Pará decidiu enviar uma representação ao Ministério Público pedindo providências. A empresária nega a acusação de racismo.

    Ela disse ao G1 que “racismo é uma acusação pesada. Em nenhum momento passou pela nossa cabeça menosprezar uma raça, tanto que em nossa família existem negros e índios”.

    Custódio comenta a atitude da empresária. “O racismo está tão internalizado, que as pessoas já acham natural discriminar negras e negros”. Nesse caso, “remontam ao passado escravista que parece estar na psiquê da elite brasileira”.

    Outro episódio demonstrativo da intolerância e do ódio às origens sociais e culturais africanas do Brasil, está no fato de o Sesi de Volta Redonda (RJ) ceder à pressão de grupos fundamentalistas religiosos proibindo a utilização do livro “Omo-Oba: Histórias de Princesas”, de Kiusam de Oliveira, mesmo depois de adotá-lo em seu currículo.

    Everaldo Vieira, secretário de Combate à Discriminação Racial da Fetim-BA, afirma que o ódio já atinge níveis inimagináveis e é necessário reagir. Após o assassinato de Marielle Franco, “milhares de Marielle surgiram e se espalham por todo canto deste país” dando uma lição de mobilização política pela “eliminação do racismo, do ódio, da intolerância religiosa” e a defesa intransigente “dos direitos humanos”, lutando pela “retomada da economia, da soberania, da inclusão e do poder político nas mãos da classe trabalhadora”.

    Custódio concorda com ele afirmando que “é fundamental o movimento sindical atuar de forma mais contundente pela igualdade, combatendo o genocídio da juventude negra e a discriminação racial no mundo do trabalho, onde os negros ganham menos e as negras salários muito menores ainda”.

    Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB

  • O samba completa 100 anos cantando a alma do Brasil

    Neste ano, comemora-se o centenário do gênero musical com maior prestígio em todo o território nacional: o samba. É consenso entre os historiadores de que este ritmo genuinamente brasileiro nasceu com os escravos e se firmou no início do século 20, no Rio de Janeiro, então capital federal, para onde migraram milhares de negros após a Abolição.

    Para o pesquisador de cultura popular Roque de Souza, a criação do samba passa pela necessidade que os negros brasileiros sentiram de “que era a hora de se soltar, de mostrar sua alegria”. “Mesmo perseguidos pela polícia e atingidos em cheio pelo preconceito de uma elite voltada para a Europa, os ex-escravos criaram sua própria cultura, que é a força motriz de nossa cultura popular, para resistir à opressão. Após a Abolição, o que era feito pelo Senhor de escravos passou para as mãos do braço armado do Estado”, complementa.

    A casa mais famosa, onde se reuniam grandes nomes no nosso cancioneiro popular, foi a casa de Tia Ciata. Por lá apareciam para mostrar seus trabalhos Através da história brasileira, a criação e a popularização do samba se confundem com a própria história de nosso povo. Por lá apareciam para mostrar seus trabalhos nomes como Alfredo da Rocha Vianna Filho (Pixinguinha), Ernesto Joaquim Maria dos Santos (Donga), João da Baiana, João Barbosa da Silva (Sinhô) e Heitor dos Prazeres, entre outros bambas da música popular brasileira.

    Pelo Telefone (Donga e Mauro de Almeida) 

    Foi na casa dela que nasceu o primeiro samba registrado, sob a autoria de Donga e Mauro de Almeida, na Biblioteca Nacional, em 6 de novembro de 1916. Na mesma ocasião, registrou-se o próprio termo “samba”. Em disco, o samba só apareceria no ano seguinte, na gravação de “Pelo Telefone”, pelo cantor Baiano.

    A vida do negro, musicada

    O samba nasceu entre meados do século 19 e início do século 20. Entoado pelos negros em rodas de samba e casas de tias, o gênero foi perseguido e ainda hoje é preterido por setores elitistas da sociedade. “Os escravos não podiam ter instrumentos para realizar seus batuques, então começaram a utilizar os pés e as mãos – enfim, o corpo todo – para cantar suas dores e alegrias. Cantando e dançando, assim nasceu o samba de roda na Bahia, ainda no século 19”, diz Souza.

    Ele explica que a arte adquiriu um caráter descritivo da vivência desses pioneiros. Diversos compositores cantavam o sofrimento dos negros libertos e marginalizados no processo de Abolição no início do século 20. “Até ‘Pelo Telefone’ falava da intimidade entre a polícia e os cassinos ilegais no país”, conta.

    “Como tudo o que está relacionado à população negra e à nossa cultura, o samba foi muito perseguido e discriminado ao longo de sua história”, explica a cantora e compositora Leci Brandão. “O mesmo aconteceu com o candomblé, com a capoeira e com todas as manifestações de origem negra em nosso país. Apesar de ter havido mudanças, a discriminação contra o nosso povo continua e com a nossa cultura também”.

    Cabide Molambo (João da Baiana) 

    De acordo com Leci, “o samba, para ser aceito, teve que passar por um longo processo. Muitas vezes se moldou para cair no gosto das grandes gravadoras e do grande público. Mas o samba das comunidades, por exemplo, está fora da mídia”. Ela ressalta ainda que, “no Brasil, onde a mulher negra é o segmento mais discriminado da população, quando uma mulher negra resolve ser cantora ela enfrenta muitos desafios a mais. Nós vivemos em uma sociedade dominada não só pelo racismo, mas pelo machismo também, no samba não é diferente”.

    Carnaval dá samba

    A popularidade do gênero ganhou as ruas em 1928, com um casamento inédito e duradouro: a união com o carnaval de rua, que tornaria o samba ainda mais popular. Nasceu ali a primeira escola de samba do país, a Deixa Falar, criada pelo grande sambista Ismael Silva. As escolas de samba foram ganhando terreno e os desfiles carnavalescos transformados em verdadeiras “óperas” a céu aberto. Os desfiles monumentais se destacam com a entrada em cena do carnavalesco Joãosinho Trinta, nos anos 1970, com grandiosos carros alegóricos E a introdução de celebridades nos desfiles.

    “Virou uma verdadeira indústria, que atrai milhões de turistas todos os anos”, diz Souza. “Mas isso deveria ser pensado o ano inteiro, com as escolas fazendo investimentos em formação, fortalecendo a cultura, com cursos sobre como fazer um enredo, por exemplo”, reforça. “É muito importante para o país criar cultura através da música, e o carnaval pode servir bem para essa importante missão”.

    É hoje (samba enredo da escola de samba União da Ilha do Governador) 

    Música e identidade

    Com a Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, veio a necessidade de criação de uma identidade nacional. Num tempo em que não havia televisão e muito menos internet, o veículo de maior penetração era o rádio. “A força desse novo veículo e a popularidade do samba fizeram com que Getúlio utilizasse ambos de forma muito eficaz”, diz Souza.

    Nas décadas de 1930 e 1940, surgiram grandes nomes do samba, que transformaram o gênero e o espalharam pelo Brasil com os variados sotaques nacionais. Pixinguinha, que vinha do chorinho, flertou com o samba. Junto com ele, vieram Ataulfo Alves, Heitor dos Prazeres, Ismael Silva, Wilson Batista, Sinhô, entre muitos outros.

    Getúlio liberou a capoeira e a prática de religiões de origem africana e, com isso, foi criando um ambiente propício à solidificação de nossa formação nacional. Nesse tempo, o Brasil ainda era eminentemente rural, mas iniciava um processo de urbanização inevitável com o processo de industrialização que engatinhava.

    Os temas urbanos começavam a cair no samba, principalmente nas lindas composições de Noel Rosa. “Ele era um estudante de medicina branco que subiu o morro e bebeu na matriz da fonte dos negros. Tornou-se, apesar de ter vivido apenas 26 anos, um dos maiores nomes do nosso cancioneiro popular”, conta Souza.

    Ele explica também que Ary Barroso foi nome fundamental na chamada Era do Rádio, comandando programas radiofônicos e compondo canções ufanistas como “Aquarela do Brasil”. Ela viria a se tornar praticamente um hino. Além de Ary, ganhavam destaque João de Barro (Braguinha), Agenor de Oliveira (Cartola), Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Elizeth Cardoso, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Beth Carvalho, Clara Nunes e muitos outros.

    Aquarela do Brasil (Ary Barroso) 

    O lugar merecido

    Em 1963, a crescente penetração do samba na cultura nacional levou o governo do então presidente João Goulart a estabelecer o Dia Nacional do Samba, instituído em 2 de dezembro justamente para homenagear Ary Barroso.
    Como o Brasil é um verdadeiro continente, o gênero ganhou projeção sob sotaques diferentes. Compositores como Dorival Caymmi, Batatinha e Riachão se destacaram na Bahia; Lupicínio Rodrigues, no Rio Grande do Sul; Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini e Geraldo Filme em São Paulo. O ritmo ganhou penetração popular e notoriedade, mas não conquistou as páginas da mídia comercial e muito menos dos setores da elite, que ainda o vê como expressão cultural inferior justamente por sua origem popular e a sua matriz africana.

    Nomes como Martinho da Vila, sua filha Mart’nália, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, João Nogueira, Silas de Oliveira e Wilson Moreira lentamente integraram os imortais do gênero. Souza realça a figura de Paulo da Portela, compositor carioca, como um dos nomes mais emblemáticos do samba, pela capacidade de “sistematização do ritmo”. Citou também o Zicartola, bar de Cartola e sua companheira Zica, como importante ponto de encontro de grandes músicos.

    Com o desenvolvimento da arte, foram surgindo os sotaques regionais nas batidas do ritmo em cada unidade da federação nacional. A arte influenciou também o principal movimento de renovação da música popular brasileira, a bossa nova. “Vinicius de Moraes, Tom Jobim e outros também subiram o morro para beber na fonte da cultura popular e criar um ritmo novo genial, com uma nova maneira de tocar e cantar com João Gilberto”, contou o estudioso. “A bossa nova, influenciada pelo jazz e pelo samba, projetou o Brasil lá fora e passou a influenciar o jazz, com o novo som feito por Tom Jobim”.

    Na década de 60, vieram os festivais e surgiram Candeia, Sérgio Ricardo, Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Gonzaguinha, muito influenciados pela bossa nova e pelo samba de raiz. Por causa desses novos músicos, surgiu o gênero MPB. “Não sabiam como classificar a música deles”. Mas “uma coisa é certa”, disse, “todos foram influenciados pelo samba”.

    Vai Passar (Chico Buarque e Francis Hime) 

    A origem da palavra samba A palavra “samba” é de origem africana. Seu primeiro registro no Brasil remonta ao ano de 1838, na revista “O Carapuceiro”, de Pernambuco. No entanto, ainda não existe um consenso entre os historiadores sobre suas possíveis origens. Segundo o pesquisador Nei Lopes, seria da etnia quioco, na qual samba significa brincar, divertir-se como cabrito. Há quem diga que vem do quimbundo “semba”, com o significado de “umbigo” ou oração”. Para os povos bantos, a música era um elemento religioso e a umbigada se referia a danças sagradas, uma espécie de ritual de fertilidade e conexão com as forças do universo.

    Portal CTB - Marcos Aurélio Ruy - (Texto publicado originalmente na revista Rebele-se número 2)