Sidebar

19
Ter, Fev

Belchior

  • Belchior 70 anos: “Eles venceram e o sinal está fechado para nós que somos jovens”

    Os versos da emblemática canção “Como nossos pais”, de Belchior mostra toda a importância e atualidade do cantor e compositor cearense, que fez muito sucesso nos anos 1970 e 1980 com suas canções icônicas.

    Belchior completou 70 anos de idade na quarta-feira (26) sem festa porque ninguém sabe ao certo o seu paradeiro desde 2009, quando ele sumiu sem dar notícias. "Como nossos pais", que contém o verso do título, é uma das mais executadas até hoje na voz da cantora gaúcha Elis Regina (1945-1982).

    Como nossos pais 

    Com “Apenas um rapaz latino-americano”, Belchior canta a latinidade e a necessidade de união dessa parte do continente americano tão maltratada pelos países do Hemisfério Norte. Ela permanece tão atual que o grupo paulistano de rap Racionais MCs a cita na sua canção “Capítulo 4 versículo 3”.

    “Não me peça que eu lhe faça/Uma canção como se deve/Correta, branca, suave/Muito limpa, muito leve/Sons, palavras, são navalhas/E eu não posso cantar como convém/Sem querer ferir ninguém”, diz uma estrofe da música do artista nordestino.

    Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, o Belchior, nasceu em Sobral, Ceará. Carrega em sua obra toda a rica herança cultural da cultura cearense e nordestina, sob muita influência do rock, principalmente dos Beatles, algumas vezes citados em suas músicas, além de Luiz Gonzaga, como não poderia deixar de ser.

    Apenas um rapaz latino-americano

    Do Ceará para o mundo a sua força poética e o seu jeito de cantar fizeram que alguns críticos o comparassem com o compositor norte-americano Bob Dylan, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura deste ano.

    Conseguiu gravar seu primeiro disco em 1974, “Mote e glosa”, onde canta “Passeio”, na qual fala em fugir em um disco voador. Como no disco “Todos os sentidos”, de 1978, na canção “Até amanhã”, ele diz que o reencontro pode não acontecer porque pode não haver amanhã. O sumiço parece algo presente em sua obra.

    Além de “Como nossos pais”, e “Apenas um rapaz latino-americano”, muitos sucessos de Belchior estão eternizados no imaginário popular. Em “Velha roupa colorida” ele canta o seu tema predileto o tempo e a juventude.

    Velha roupa colorida 

    “Você não sente, não vê/Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo/Que uma nova mudança em breve vai acontecer/O que há algum tempo era novo, jovem/Hoje é antigo/E precisamos todos rejuvenescer”, diz o clássico da MPB.

    Outros clássicos de sua autoria nunca são esquecidos. “Paralelas”, “Galos, noites e quintais”, “Medo de avião”, “Retórica sentimental”, “A palo seco”, “Tudo sujo de batom”, “Divina comédia humana”, “Alucinação”, “Saia do meu caminho”, entre outras dezenas de belas canções, eternizadas no acervo histórico da MPB.

    Então pouco importa o paradeiro de Belchior, que de acordo com o jornal Folha de S.Paulo está no Uruguai para traduzir a obra do italiano Dante Aleghieri (1265 dC-1321 dC), o clássico “Divina Comédia”.

    Divina comédia humana 

    Belchior já fez o suficiente para permanecer eternamente na história da cultura brasileira e mora nos corações dos brasileiros, com ou sem medo de avião.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • Belchior e Nietzsche muito além do bigode

    Leitura das letras do compositor mostra aproximação surpreendente com as ideias do filósofo. “A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”, cantava em “Alucinação” (1976).

    A semelhança entre o compositor brasileiro Antônio Carlos Belchior e o filósofo alemão Friedrich Nietzsche vai muito além do bigode. Sem ostentar e sequer se manifestar diretamente sobre esta influência, Belchior bebia nos conceitos nietzschianos, como a moral do rebanho, vontade de poder, eterno retorno e a crítica ao mundo idealizado pela própria filosofia, pela religião e pela ciência. A relação fica evidente quando se faz um passeio pelas letras do cearense.

    Nietzsche só viveu 56 anos. Contudo, bastou para ele ser considerado um dos maiores marcos do pensamento contemporâneo. Embora não muito valorizado pelo establishment, o autor é uma referência para organização da história desde o século 19 e se tornou pop entre o público jovem. Desconstruiu a moral e os valores estabelecidos pela filosofia grega, chegando ao desmantelamento da cultura dos ídolos e da religião. Nietzsche, portanto, foi o primeiro a interromper a órbita de compreensão do mundo criado por Sócrates, Platão e Aristóteles.

    Os gregos inauguraram a filosofia ocidental, separando a natureza humana e toda sua relação instintiva/sensível da parte racional e objetiva da vida, a fim de criar um mundo ideal – o metafísico –, resultado de um imaginário: o homem projeta nas coisas aquilo que ele gostaria de ser. Essa mesma lógica, posteriormente, foi popularizada pelo cristianismo, já que o povo em geral não tinha acesso nem compreensão da filosofia.

    Por isso, para o alemão, o juízo moral tem em comum com o juízo religioso o crer em realidades que não existem. Ou seja, no entendimento dele, assim se criou o mundo ideal para negar o real.

    Realista e vitalista tal como na linha das ideias afirmadas pelo filósofo alemão, Belchior entendia a experiência com o real como a verdadeira emancipação do ser humano. Como em A Palo Seco: “Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava, de olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava”.

    Essa leitura pode ser percebida explicitamente em vários fragmentos das letras do compositor e, de modo geral, permeia toda a obra do músico. “Eu não estou interessado em nenhuma teoria, nem nessas coisas do oriente, romances astrais. A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”, cantava no disco Alucinação, em 1976.

    O cantor via a arte com finalidade útil para o homem se emancipar, um instrumento para libertar os sentidos e a certeza de viver coisas novas, não como algo meramente ornamental e ideal. Na mesma perspectiva, Nietzsche tinha a arte como estimulante da vida, afirmava que ela só era possível com a embriaguez de todo o ser, com a manifestação da vontade de potência dos sentidos fisiológicos. O filósofo comparava a verdadeira arte ao grego Dionísio, deus da festa, do sexo, da alegria, da liberdade, enfim, dos sentidos do corpo e dos afetos. Ao contrário, portanto, à lógica da razão e da verdade, representado pelo deus Apolo.

    O embate de Belchior também se dava em torno das travas morais da culpa e das coisas idealizadas por certo pensamento filosófico. Para se firmar poeta de sua geração, o compositor atravessou territórios entre a alma e o corpo para forjar sua obra, buscando elementos na crueza da realidade e na sinceridade das coisas, até mesmo empregar certa violência na construção de suas letras, em que a dor ensina aproveitar melhor os momentos alegres. Ou nas palavras dele, “a felicidade é uma arma quente”.

    Ademais, traziam à tona as frustrações ideológicas, filosóficas e políticas. Para este mundo cruel e caótico, Belchior procurava despertar uma lucidez e luminosidade com o conteúdo do seu discurso. Ele sabia que nada era divino e maravilhoso, e a vida real era bem pior que a letra de uma canção.

    Viver é melhor que sonhar

    Esta leitura mostra que a arte e a vida não podem ser separadas da realidade, em nome de um mundo idealizado, seja filosófico ou religioso. Conforme o pensamento nietzschiano, o homem forte e verdadeiro aceita e vive a vida como ela se apresenta. Já o sujeito que busca a certeza e o paraíso é um fraco e decadente, porque não sabe conviver com a pluralidade do mundo e com a incerteza do devir – as mudanças.

    Como Nossos Pais , de Belchior 

    De forma simples e em bom português, o cearense também deixava claro sua preferência pelo mundo real. “Deixando a profundidade de lado, eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia fazendo tudo de novo. E dizendo sim à paixão, morando na filosofia”, diz a letra da Divina Comédia Humana.

    Por isso, quem vive só na razão e na verdade está separado dos sentimentos humanos – aquilo que Platão fazia, por exemplo: corpo x espírito, pensamento x sentimento – com o objetivo de criar o mundo da luz e da razão. Para Nietzsche e Belchior, pelo contrário, a verdadeira experiência vem da realidade e do pensamento vivo que só pode ser coletado na prática humana mais visceral, como aquela que se experimenta na aspereza das ruas.

    Em Apenas Um Rapaz Latino Americano, o cearense afirma essa visão. “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve: correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém. Mas não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo. Isso é somente uma canção: a vida realmente é diferente. A vida é muito pior”.

    Divina Comédia Humana, de Belchior 

    À proporção que se passeia pela obra do músico e se recolhem algumas amostras, tanto mais se evidencia o pensamento do alemão. Na faixa Como Nossos Pais, Belchior usa as expressões “viver é melhor que sonhar” e “mas sei também que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”, construções que valorizam o sujeito em detrimento de uma projeção metafísica.

    Mais adiante na mesma música, deixa transparecer certa frustração com a eterna repetição das coisas, geração após geração. “Minha dor é perceber, que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos, e vivemos, como nossos pais”. Sugerindo, portanto, que é preciso alterar a ordem social e instaurar uma nova forma de vida para as coisas mudarem, assim como Nietzsche fez ao romper com a órbita do pensamento grego e cristão.

    Moral de rebanho

    A postura de sempre desobedecer, nunca reverenciar também é comum entre os dois autores. Essa atitude é assumida pelo homem forte e predador como uma ave de rapina, que encara a vida com altivez e anda solitário; não como um carneiro, que anda sempre em bando porque e fraco e submisso. Num artigo acadêmico publicado em 2017, sob título – Nietzsche e Belchior: muito além do bigode -, já foi discutida essa comparação.

    Escreveram as autoras, Regina Rossetti e Paula Cristina: “A construção do conceito de Ave de Rapina, defendido pelo filósofo alemão, ganha voz na poesia de Belchior. Segundo Nietzsche, a ética cristã é uma moral de escravos, de indivíduos fracos e que havia – em função da construção religiosa – desvirtuado o espírito senhorial e dominante do homem”.

    Para Nietzsche, os valores foram invertidos, pois tudo aquilo que é débil, humilde, sofrido ou mediano passou a ser encarado como “bom”. Por outro lado, valores como austeridade, vivacidade e ímpetos foram taxados como “mal” pelo homem fraco. Graças a essa inversão, a região, a ciência e o própria conceito de verdade ganharam tantos seguidores e submissos, porque não conseguem viver a vida como ela é e aceitar a falta de controle do futuro.

    No mesmo sentido, Belchior instiga o homem a se desvincular do animal de rebanho, seguir a vida num ‘andar com os próprios pés’. “Não quero regra nem nada. Tudo tá como o diabo gosta, tá. Já tenho esse peso que me fere as costas, e não vou eu mesmo atar minha mão. O que transforma o velho no novo, Bendito fruto do povo será. E a única forma que pode ser norma. É nenhuma regra ter. É nunca fazer nada que o mestre mandar. Sempre desobedecer, nunca reverenciar”, afirma em Não Leve Flores.

    Espíritos livres

    No livro Humano, demasiado humano, Nietzsche afirma o destino do espírito verdadeiramente livre: “Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem”.

    Não Leve Flores, de Belchior 

    Belchior, nos últimos anos de vida, aplicou radicalmente as palavras do alemão e levou uma vida de andarilho, errante. Enfrentou dias e noites incertas, encontrou muitas portas fechadas e em alguns lugares conseguiu repouso. A tudo está sujeito quem vive livremente, mas só assim é possível “o equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos”, escreveu Nietzsche.

    Os pensamentos e as evidências em comuns entre as obras dos dois autores mostram que o cearense de Sobral se guiou e aplicou muitas ideias do filósofo alemão na música brasileira. O próprio Nietzsche declarava que a música era a linguagem que mais se aproximava da genuína comunicação humana. De modo que, além da ligação direta do gosto pela música, os principais conceitos do alemão aparecem nas letras de Belchior, semelhança bem mais profunda que os bigodes.

    Elstor Hanzen é jornalista, especialista em convergência de mídias e assessor de comunicação social, para o Portal Vermelho

     

  • Dez músicas para comemorar com muita reflexão os 10 anos da CTB

    No dia 12 de dezembro de 2007 nascia a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), para mostrar a força da classe trabalhadora num ritmo bem brasileiro, classista, de luta, democrático e repeitando a diversidade do país. São 10 anos de um caminho trilhado pelos interesses da nação e do povo que trabalha rumo a um sociedade mais justa e mais igual.

    Abaixo dez músicas do cancioneiro popular brasileiro que representam uma face da vida do país, da classe trabalhadora e da luta por liberdade, direitos iguais e uma vida digna para todos. CTB é a central que veio para ficar e mostrar que trabalhadores e trabalhadoras devem lutar de braços dados contra a opressão e a injustiça.

    Velha Roupa Colorida, de Belchior

    "Você não sente nem vê
    Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
    Que uma nova mudança em breve vai acontecer
    E o que há algum tempo era novo jovem
    Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer"

     

    E Vamos à Luta, de Gonzaguinha

    "Aquele que sabe que é negro
    O coro da gente
    E segura a batida da vida
    O ano inteiro
    Aquele que sabe o sufoco
    De um jogo tão duro
    E apesar dos pesares
    Ainda se orgulha
    De ser brasileiro
    Aquele que sai da batalha"

    Um Satélite na Cabeça, de Chico Science

    "Eu sou como aquele boneco
    Que apareceu no dia na fogueira
    E controla seu próprio satélite

    Andando por cima da terra
    Conquistando o seu próprio espaço
    É onde você pode estar agora"

     

    Refavela, de Gilberto Gil

    "A refavela
    Revela o salto
    Que o preto pobre tenta dar
    Quando se arranca
    Do seu barraco prum bloco do BNH"

    Hoje, de Taiguara

    "Hoje
    Homens de aço esperam da ciência
    Eu desespero e abraço a tua ausência
    Que é o que me resta, vivo em minha sorte" 

    Homem Primata, de Titãs

    "Desde os primórdios
    Até hoje em dia
    O homem ainda faz
    O que o macaco fazia
    Eu não trabalhava
    Eu não sabia
    Que o homem criava
    E também destruía" 

    Porta Estandarte, de Geraldo Vandré

    "Por dores e tristezas que bem sei
    Um dia ainda vão findar
    Um dia que vem vindo
    E que eu vivo pra cantar
    Na Avenida girando, estandarte na mão pra anunciar" 

    Dias de Luta, Dias de Glória, de Charlie Brown Jr.

    "A vida me ensinou a nunca desistir
    Nem ganhar, nem perder, mas procurar evoluir
    Podem me tirar tudo que tenho
    Só não podem me tirar as coisas boas
    Que eu já fiz pra quem eu amo" 

    Rancho da Goiabada, de João Bosco e Aldir Blanc

    "Os bóias-frias quando tomam umas biritas
    Espantando a tristeza
    Sonham , com bife à cavalo, batata frita
    E a sobremesa
    É goiabada cascão, com muito queijo, depois café
    Cigarro e o beijo de uma mulata chamada
    Leonor, ou Dagmar" 

    Primeiro de Maio, de Chico Buarque e Milton Nascimento

    "Hoje a cidade está parada
    E ele apressa a caminhada
    Pra acordar a namorada logo ali
    E vai sorrindo, vai aflito
    Pra mostrar, cheio de si
    Que hoje ele é senhor das suas mãos
    E das ferramentas" 

    Afinal são 10 anos de pessoas juntas nas ruas, nas redes sociais, em todos os estados, na cidade e no campo, pessoas determinadas a construir o mundo novo, onde os meios de produção passem para as mãos da classe trabalhadora e a desigualdade desapareça de vez do planeta. Dez anos parecem poucos, mas basta olhar para trás para ver o quanto já se caminhou. A CTB faz aniversário, mas a festa é sua. Só não esqueça que existem direitos para recuperar e um país para reconstruir.

    Portal CTB - Marcos Aurélio Ruy. Foto: Manoel Porto

  • É impossível ouvir Belchior e não querer transformar o mundo num local bom para se viver

    O Portal CTB presta homenagem ao poeta, cantor e compositor Belchior que nos deixou no dia 30 de abril, em Santa Cruz do Sul (RS). Uma verdadeira legião de fãs ficou atônita, mesmo com o autor cearense, nordestino, brasileiro, latino-amercicano estando fora dos palcos há muitos anos.

    As suas músicas inundam a alma e o cérebro de quem sente e vê que o novo sempre vem. Um dos mais importantes porta-vozes de uma geração que foi à luta por liberdade e democracia. Que deixou os cabelos crescerem, vestiu minissaias, tirou sutiãs e rompeu barreiras, mesmo em tempos sombrios,

    Impossível, portanto, ouvir Belchior e ficar impassível com as mazelas da vida. Impossível não querer mudar as coisas. Mesmo quando se deixa de ser como os nossos pais e passe a ser como os nossos tataravós.

    “Já faz tempo eu vi você na rua cabelo ao vento gente jovem reunida

    Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais

    Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos

    Ainda somos os mesmos e vivemos

    Como nossos pais” (Como nossos pais)

    Poucos interpretaram como ele a juventude dos anos 1970 e 1980. Principalmente na vontade de transgredir a ordem patriarcal vigente. Cantando o social e o individual, o amor e a revolução, a utopia e a vida, tudo ao mesmo tempo e uma coisa de cada vez.

    “Tenho vinte e cinco anos

    De sonho e de sangue

    E de América do Sul

    Por força deste destino

    Um tango argentino

    Me vai bem melhor que um blues” (A palo seco)

    A palo seco (Belchior)

    O autor cearense morreu aos 70 anos, completados no dia 26 de outubro. Legou para a posteridade centenas de obras-primas da MPB.  Suas composições viajam do lírico ao épico com uma desenvoltura intrínseca à miscelânea de sons que unia Beatles, música regional nordestina, Bob Dylan, Luiz Gonzaga, bossa nova, música de nossos vizinhos latino-americanos.

    “Moro num lugar comum, perto daqui, chamado Brasil.

    Feito de três raças tristes, folhas verdes de tabaco

    e o guaraná guarani.

    Alegria, namorados, alegria de Ceci.

    Manequins emocionadas:

    - são touradas de Madri

    ...que em matéria de palmeira ainda tem o buriti perdido.

    Símbolo de nossa adolescência,

    signo de nossa inocência índia, sangue tupi.” (Retórica Sentimental)

    De Sobral (CE) para o mundo, nada faltou à sua obra eternizada no imaginário popular. Cantou a vontade de superar a vida mesquinha, a vida contida, a vida sozinha. Falou de amor, de desamor, de dor, de relacionamentos que fomentam a vida, habitam os sonhos, os desejos, a pressa de viver e o poder da alegria.

    “A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia

    E pela dor eu descobri o poder da alegria” (Fotografia 3x4)

    Fotografia 3x4 (Belchior)  

    “Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja

    Não quero o que a cabeça pensa

    Eu quero o que a alma deseja

    Arco-íris, anjo rebelde

    Eu quero o corpo, tenho pressa de viver” (Coração Selvagem)

    Levou o seu canto com a vontade de unir a América Latina contra os ataques do imperialismo e a sordidez do capital que desumaniza até as relações afetivas. Combateu com sua arte os preconceitos e o autoritarismo de uma sociedade atrasada, sob uma feroz ditadura.

    “Não me peça que eu lhe faça

    Uma canção como se deve

    Correta, branca, suave

    Muito limpa, muito leve

    Sons, palavras, são navalhas

    E eu não posso cantar como convém

    Sem querer ferir ninguém” (Apenas um rapaz latino-americano)

    Cantou o medo. O medo de pegar na mão da menina no amor adolescente, o medo do avião, mas sintonizou a profundidade do medo que paralisa e mumifica. Transpôs o medo de ter medo de ser feliz e chutou o balde da repressão e do individualismo, sublimando o sentimento de solidariedade, generosidade e superação.

    “Eu tenho medo e medo está por fora

    O medo anda por dentro do teu coração

    Eu tenho medo de que chegue a hora

    Em que eu precise entrar no avião” (Pequeno mapa do tempo)

    Medo de avião (Belchior) 

    “Foi por medo de avião

    Que eu segurei

    Pela primeira vez a tua mão

    Agora ficou fácil

    Todo mundo compreende

    Aquele toque Beatle

    I wanna hold your hand” (Medo de avião)

    Sonhou, desejou, ensejou a vontade de ver um mundo igual, onde qualquer pessoa tenha a plenitude de andar sozinha e sem medo. Andar pelas ruas livres de amarras e preconceitos. A alma límpida e a mente viajante.

    “No presente a mente, o corpo é diferente

    E o passado é uma roupa que não nos serve mais

    No presente a mente, o corpo é diferente

    E o passado é uma roupa que não nos serve mais” (Velha roupa colorida)

    Alucinação (Belchior) 

    “Um preto, um pobre

    Uma estudante

    Uma mulher sozinha

    Blue jeans e motocicletas

    Pessoas cinzas normais

    Garotas dentro da noite

    Revólver: cheira cachorro

    Os humilhados do parque

    Com os seus jornais” (Alucinação)

    Mostrou o poder da canção em cativar pessoas e conquistar corações e mentes. A vontade de superar o passado e viver o presente com os olhos no futuro. A força da felicidade como arma para derrotar a solidão e a opressão.

    “O tempo andou mexendo

    Com a gente

    Sim!

    John!

    Eu não esqueço

    (Oh No! Oh No!)

    A felicidade

    É uma arma quente” (Saia do meu caminho)

    Saia do meu caminho (Belchior, interpretada por Margareth Menezes) 

    “Eu quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno

    Viver a divina comédia humana onde nada é eterno

    Ora direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso

    Eu vos direi no entanto

    Enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não

    Eu canto” (Divina comédia humana)

    Não sucumbiu ao deus mercado, ao contrário se impôs. Não cedeu aos ditadores de plantão, resistiu. Sublimou as vicissitudes do seu povo em arte da maior qualidade.

    “Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo

    O mal que a força sempre faz

    Não sou feliz, mas não sou mudo

    Hoje eu canto muito mais” (Galos, noites e quintais)

    Falar da morte de Belchior é impossível fugir do clichê de que ele nos deixou, mas sua obra está tatuada em nosso corpo, em nossa alma, em nosso sangue. Nem por ser clichê deixa de ser verdade.

    Aparências (Belchior) 

    “Aparências, nada mais,

    Sustentaram nossas vidas

    Que apesar de mal vividas têm ainda

    Uma esperança de poder viver

    Quem sabe rebuscando essas mentiras

    E vendo onde a verdade se escondeu

    Se encontre ainda alguma chance de juntar

    Você, o amor e eu” (Aparências)

    Quisera todos pudéssemos transformar nossos fantasmas, nossas dores, medos, alucinações em arte de tamanha qualidade.

    Outro clichê: Belchior vive. Vive nas agruras de brasileiros e brasileiras que sonham construir o novo. Como Belchior cantou "vem viver comigo, vem correr comigo, meu bem"... 

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • Treze canções para Lula que servem à reflexão sobre a conjuntura atual

    Com base nas listas de músicas preferidas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que têm circulado em shows pelo Brasil afora, o Portal CTB homenageia o ex-presidente com treze canções do rico acervo da Música Popular Brasileira. Para exigir Lula Livre, democracia já e liberdade para todas e todos poderem sonhar e viver como desejam, construindo o Brasil que queremos e merecemos.

    Neste sábado (14) completa-se uma semana da prisão de Lula e um mês do assassinato de Marielle Franco. Que país é este, onde predominam o ódio de classe, o racismo, o sexismo, a misoginia e a homofobia? Onde predomina o desrespeito aos direitos humanos e aos mais pobres?

    Esta é uma forma de carta ao ex-presidente. Aumente o som, quem sabe Lula ouve em Curitiba:

    Xote Bandeiroso (Língua de Trapo)  

    Cidadão (Zé Geraldo) 

    Canção da América (Fernando Brant e Milton Nascimento) 

    Latinoamerica (Calle 13) 

    Apenas um rapaz latino americano (Belchior) 

    Lama nas ruas (Zeca Pagodinho) 

    Tenho sede (Dominguinhos e Gilberto Gil) 

    O bêbado e a equilibrista (Aldir Blanc e João Bosco) 

    Asa Branca (Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga) 

    Blues da  piedade(Cazuza) 

    Juízo Final (Nelson Cavaquinho) 

    Gente (Caetano Veloso) 

    Vai Passar (Chico Buarque e Francis Hime)  

    Marcos Aurélio Ruy - Portal CTB. Foto: Francisco Proner