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Qua, Jun

Clarice Lispector

  • Pouca gente sabe, mas a escritora inglesa Virginia Woolf, conhecida por clássicos como Mrs. Dalloway (Ed. Cosac Naify), Ao Farol (Ed. Autêntica) e As Ondas (Ed. Novo Século), é também autora de um importante ensaio que marcou a luta feminista a partir dos anos 1920. Um Teto Todo Seu (Ed. Tordesilhas), que estava esgotado há algum tempo, acaba de ganhar nova edição no Brasil.

    O livro reproduz a conferência histórica que Virginia ministrou em 1928, em Newham e Girton - duas faculdades frequentadas por mulheres dentro da Universidade de Cambridge, na Inglaterra -, falando sobre mulheres e a ficção.

    “Era uma conferência organizada numa universidade que aceitava mulheres, num país e numa época onde as mulheres sequer podiam entrar em bibliotecas que possuíam manuscritos de Shakespeare”, explica Carla Cristina Garcia, professora da PUC, que atua na área de Sociologia de Gênero, Estudos Feministas e Lazer Urbano.

    Ela começa a conferência falando da diferença encontrada no próprio prédio da universidade, conta Carla. Na ala onde dormem os estudantes homens, o jantar é maravilhoso, há abundância. Já o jantar servido na ala feminina era uma sopinha sem graça, praticamente uma água com sal.

    “E a partir dessa ideia da diferença entre a alimentação das moças e rapazes, ela vai mostrando como as mulheres ainda têm fome de conhecimento, fome de lugar no mundo e, principalmente (que é de onde vem o título do livro), de um teto todo seu. Ela vai defender o quanto é importante que a mulher tenha o dinheiro dela e um teto só dela para poder escrever. Porque o mundo fica requerendo da gente muita coisa, o que impossibilita um momento só nosso, que é o que criatividade precisa”.

    Ao falar da sua teoria, Virginia também vai contando a história da Literatura, passando por autoras inglesas do século 19, como Jane Austen, as irmãs Brontë, Emily e Charlotte, além da George Eliot.
    Carla desenvolveu uma lista de romancistas que trouxeram grande contribuição ao feminismo. Ela ressalta que é importante lembrar que vai depender muito também do olho de quem lê para entender o que as escritoras estão colocando.

    “Elas não estão escrevendo só porque são feministas, mas a maneira como são construídas as personagens femininas vão fazendo com que se tornem heroínas e inspirem gerações futuras de mulheres”.

    Margaret Atwood

    É uma escritora canadense que cria personagens femininas totalmente fora do padrão que se espera num cânone que tem uma fórmula definida de romances escritos por mulheres. Em A Noiva Ladra (Ed. Rocco), ela cria personagens do mal e trata de assuntos como estratégia militar. No livro A Odisseia da Penélope (Ed. Companhia das Letras), ela reconta o famoso mito subvertendo a narrativa original. Não é a história do marido que viaja e, sim, da mulher que vai tecer e desmanchar, mas renunciando à passividade. Ela faz uma nova leitura da Penélope, personagem emblemática da fidelidade e da obediência feminina, que passa a ocupar o centro da história.

    Gioconda Belli

    Ela é da Nicarágua e trata não só da questão feminina, como fala do papel da mulher latino-americana. Seu principal romance é O País das Mulheres (Ed. Record), cuja personagem principal é Viviana Sansón - presidenta de Fáguas, um pequeno país latino-americano. Pelas memórias de Viviana, vamos conhecendo a história do Partido da Esquerda Erótica (PEE) e de suas integrantes, todas convictas de que o poder exercido pelas mulheres, com humor e amor, pode conquistar o que em séculos o poder masculino não alcançou.

    Angelica Carter

    Escritora e jornalista inglesa, também escreveu ensaios, poemas, críticas, contos infantis e colaborou com o cineasta Neil Jordan na criação do roteiro de A Companhia dos Lobos, baseado em O Quarto do Barba-Azul, de sua autoria. No livro 103 contos de fadas (Ed. Companhia das Letras) ela reconta sob o ponto de vista feminista os contos de fadas, colocando o protagonismo das mulheres nas histórias já tão conhecidas por trazerem mocinhas indefesas, o que muda totalmente o sentido das histórias.

    Isabel Allende

    Escritora chilena que mora nos Estados Unidos há muito tempo e seu livro mais famoso é a Casa dos Espíritos (Ed. Bertrand Brasil). Suas protagonistas nunca são mulheres fracas, não há uma sequer que coloque em cheque a questão da subalternidade feminina ou situações em que você imagine que as mulheres não irão atuar e nem tomar a frente da própria história. Ela também dá muitas palestras hoje em dia sobre o lugar das mulheres tanto no mundo literário quanto político.

    Clarice Lispector

    Clarice tem que aparecer sempre. Ainda que ela não trate diretamente de questões feministas, não há nada mais feminista do que um livro como A Paixão Segundo G.H. (Ed. Rocco). Ela serve para tudo e ninguém passa impune à sua leitura. Perto do Coração Selvagem, A Hora da Estrela (Ed. Rocco), todos são ótimos romances. Ela enfia o dedo na ferida sem dó, e propõe questões humanas com protagonistas femininas.

    Laura Esquiavel

    É uma autora mexicana que ficou famosa pelo livro Como Água para Chocolate (Ed. Martins Fontes), em que relaciona a arte de cozinhar aos amores, desamores, risos e prantos. Nos últimos 20 anos ela fez diferença no cenário que se chamou de boom das novelas femininas, exatamente por fazer um questionamento de dentro para fora.

    Lygia Fagundes Telles

    Entre as escritoras nacionais, a Lygia tem uma história importante no feminismo. Se formou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco nos anos 1940, época em que os estudantes do curso eram majoritariamente homens. Seu livro As Meninas (Ed. Companhia das letras) foi escrito e lançado em plena ditadura militar e traz a história de Lorena, Ana Clara e Lia em meio às pressões da época. Já A Disciplina do Amor (Ed. Companhia das Letras), conta episódios da sua vida entremeados com ficção.

    Nélida Piñon

    Ela é pouco lida no Brasil, mas importantíssima na Literatura Brasileira e mundial. Foi a primeira mulher presidenta da Academia Brasileira de Letras e é muito traduzida lá fora. Não é uma leitura fácil, mas é maravilhosa. Tem crônicas, contos e romances importantes como A Doce Canção de Caetana (Ed. Record), A República dos Sonhos e Vozes do Deserto - neste último ela revela a mulher oculta por trás do mito da mais famosa narradora da literatura oriental, Scherazade.

    Isak Dinesen

    É o pseudônimo de Karen Blixen. É dinamarquesa e teve uma fazenda na África por muito tempo, no começo do século 20. Quando retorna à Dinamarca, resolve ser escritora e publica A Fazenda Africana (Ed. Cosac Naify) que inspirou o filme Entre Dois Amores, com Meryl Streep e o Robert Redford. O livro tem como ponto de partida a vida amorosa infeliz de uma baronesa europeia que se recusa a assumir seu papel dominante no mundo colonial. O marido transmite-lhe sífilis logo no primeiro ano de casamento e segue sua vida de playboy, enquanto ela fica sozinha à frente da fazenda de café.

    Simone De Beauvoir

    As leituras de Simone são praticamente obrigatórias. Não apenas O Segundo Sexo (Ed. Quetzal) que é a Bíblia feminista, mas todos os seus romances como A Convidada (Ed. Nova Fronteira), que aborda questões existencialistas, o amor de diversos ângulos, o ciúme, a decepção, raiva, frustração. Ela vai tratar não só das suas preocupações filosóficas, mas ponderando o papel da mulher nelas.

    Fonte: Vermelho, Maria Fernanda Moraes

  • A Confederação Nacional das Profissões Liberais (CNPL) entrou com ação civil coletiva para impedir a redução salarial, de até 60%, dos mais de 6 mil profissionais liberais da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT).
    Os cortes em grande escala no salário contrariam a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e estão em desacordo com o entendimento do Tribunal Superior do Trabalho (TST), além de violar princípios da dignidade da pessoa humana e da isonomia.

    Neste mês de fevereiro, a ECT iniciou, sem critério objetivo e de forma desigual, a extinção de inúmeras funções gratificadas e de unidades de gestão. Fato que implicou na queda salarial de inúmeros profissionais liberais que recebiam as gratificações há mais de 10 anos.

    De acordo com a Associação dos Profissionais dos Correios (ADCAP) a redução salarial é indevida, tendo em vista que as referidas gratificações foram estabelecidas como forma de reconhecimento da defasagem salarial existente. Para a entidade, o salário-base dos profissionais liberais da ECT é muito inferior ao praticado em outras empresas estatais federais.

    As denominadas "funções técnicas" foram criadas pela própria empresa para diminuir as diferenças salariais em relação ao mercado e, por isso, não podem simplesmente ser extintas, já que os empregados continuam desempenhando as mesmas atividades.

    Outro ponto destacado pela associação é a justificativa para a supressão ou a redução das funções. Segundo informações da entidade, parte dos profissionais tiveram cortes entre 25% e 60% das suas remunerações mensais, sob a alegação da ECT de que seria necessária a redução do orçamento de funções para garantir a sustentabilidade da empresa. Entretanto, outros profissionais foram promovidos exatamente na mesma data, sem critérios objetivos, o que contraria a justificativa apresentada.

    A redução salarial afeta diretamente diversas categorias de profissionais liberais da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, entre elas administradores, advogados, analistas de sistemas, arquitetos, assistentes sociais, bibliotecários, contadores, economistas, engenheiros, estatísticos, pedagogos, psicólogos, técnico em comunicação social, entre outras.

    Pela definição legal, prevista no artigo 468 da CLT, nos contratos individuais de trabalho só é lícita à alteração das respectivas condições por mútuo consentimento, e ainda assim desde que não resultem, direta ou indiretamente, prejuízos ao empregado, sob pena de nulidade da cláusula infringente desta garantia.

    Nesse sentido, o artigo 9º da CLT também reforça a defesa dos profissionais liberais ao afirmar que serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos contidos na presente Consolidação.

    O Tribunal Superior do Trabalho (TST) também resguarda os profissionais liberais da ECT, na súmula 372 e jurisprudência faz menção: “após alguns anos de recebimento de gratificação, tal valor incorpora ao salário do empregado sendo proibida sua supressão”.

    Por Michelle Rocha Calazans, jornalista da CNPL

  • Por Táscia Souza*

    Dia desses, numa daquelas mesas das publicações em destaque nas livrarias, havia uma edição comemorativa dos 50 anos, completados no ano passado, do romance “Meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos. A lembrança das três tardes do fim da infância debruçada na cama sobre aquele livro e das lágrimas derramadas sobre aquelas páginas — na verdade outras, de uma edição bem mais antiga, que até confundia pelos “êles” acentuados já muito fora de lugar — foi imediata, trazendo de novo um sorriso terno e um ardor nos olhos. Memória afetiva tem esse poder. Um livro — desses para “para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o”, como no conto “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector — também.

    Na história de Clarice, o livro quase venerado pela menina-personagem é “As reinações de Narizinho”, cujo autor, Monteiro Lobato, completaria 137 anos hoje. Por causa dele e do seu “Sítio do pica-pau amarelo”, desde 2002, o dia 18 de abril tornou-se o Dia Nacional do Livro Infantil. E, se Lobato anda afastado das escolas sobretudo por sua admiração, como revelam historiadores e estudiosos de literatura, por teorias eugenistas e pelo racismo presente em suas obras, mesmo essa problematização, extremamente necessária e pertinente, revela o potencial crítico que o incentivo à leitura, desde a infância, pode assumir.

    De acordo com a última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2016 (a próxima deve ser lançada no próximo dia 23, Dia Mundial do Livro), 44% da população brasileira não leem e 30% nunca compraram um livro. No entanto, segundo o mesmo levantamento, adolescentes entre 11 e 13 anos são os que mais leem por gosto (42%), seguidos por crianças de 5 a 10 anos (40%), o que evidencia a potência — e um vasto campo a ser cultivado e incentivado — da literatura na formação infantojuvenil.

    Em contrapartida, livros proibidos, suspensos e retirados das escolas têm sido uma realidade cada vez mais frequente. No segundo semestre do ano passado, a obra “O menino que espiava pra dentro”, de Ana Maria Machado, foi acusada de fazer apologia ao suicídio. Trata-se da história de um garotinho que, fascinado com os contos de fada que lê, busca soluções para desaparecer deste mundo para viver na fantasia. Logo depois, “Meninos sem pátria”, de Luiz Puntel, foi alvo, no Rio de Janeiro, de ataques por suposta “doutrinação de esquerda”, já que história de uma família que vivenciou o exílio durante a ditadura civil-militar no Brasil e o regime ditatorial no Chile. Isso sem falar no livro “Aparelho Sexual e Cia.”, de Philippe Chappuis e Hélène Bruller, sobre a descoberta do corpo na puberdade, o qual foi transformado por Jair Bolsonaro e Cia. em elemento do mítico e inexistente kit gay, fake news que se alastrou como pólvora no WhatsApp durante as eleições.

    Diante dessa cruzada, em que se empunham as mesmas armas brandidas hoje contra os professores, entender e incentivar a leitura — bem como a imaginação e a reflexão que ela ajuda a despertar — como exercício sobre a diversidade e, principalmente, sobre a alteridade (como quem se depara com a pobreza e a amarga doçura de Zezé e seu pezinho de laranja lima pela primeira vez) é fundamental.

    *Assessora de comunicação da Contee