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Qua, Jun

Contra a cultura do estupro

  • A Câmara dos Deputados da Alemanha aprovou uma lei nesta quinta-feira (7) que amplia o conceito de estupro. A partir de agora, quando uma mulher disser não, qualquer ato sexual forçado será considerado crime.

    É a campanha Não Significa Não, que ganhou o país europeu depois das violências contra as mulheres ocorridas recentemente. Na Alemanha são registrados em média 8 mil estupros por ano, mas os especialistas dizem que menos de 10% das agredidas denunciam.

    “Muito importante essa lei, porque muda todo o conceito da cultura de estupro. Com isso, as mulheres podem sentir-se mais respeitadas como mulheres, como pessoas”, diz Ivânia Pereira, secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

    “Depois de três meses de uma discussão cheia de tensões, os deputados aprovaram por unanimidade (todos os 601 votos emitidos foram a favor) o endurecimento legal com o qual o Ministério da Justiça pretende garantir que nenhuma agressão sexual fique impune”, afirma Luis Doncel, do jornal espanhol El País.

    Para Ivânia, é um grande avanço. “Imagina hoje no Brasil, com as mulheres ficando cada vez mais vulneráveis, uma lei como essa seria fundamental para manter o respeito nas relações entre as pessoas". Aqui, garante ela, "a cultura do estupro nos impinge o conceito de que somos subalternas, tratadas como objetos, propriedades dos homens”.

    De acordo com Doncel, basta que a mulher "diga ‘não’ ou ‘pare’, ou que mostre alguma outra forma de descontentamento, como, por exemplo, chorar. Aquele que não respeitar esse posicionamento terá de enfrentar as consequências legais, com penas que podem chegar a até cinco anos de prisão”, na Alemanha.

    nao significa nao alemanha

    Muito diferente do Brasil, onde o Congresso Nacional conta com projetos que retiram direitos e conquistas das mulheres. “Com esse governo golpista algumas propostas que trazem enorme retrocesso vêm ganhando muita força”, acentua Ivânia.

    De acordo com ela, é necessário um amplo debate sobre a cultura do estupro, inclusive levando o debate sobre as questões de gênero para dentro das escolas. “Acredito que educação sexual, que ensine os meninos a respeitar as meninas, é fundamental para construirmos uma sociedade regida pelo respeito à dignidade humana”, diz.

    Aqui, segundo Ivânia, inclusive o conceito do que seja estupro é minimizado. “A mentalidade atrasada dos brasileiros ainda não compreende a mulher como sujeita e dona do seu próprio nariz e ainda querem retroceder em nossos direitos”.

    “A maioria não entende como estupro”, diz ela, “quando o marido força a mulher a manter relação sexual, mesmo contra a vontade dela”. Ivânia conta que “o sujeito xinga a mulher de feia, reclama da comida, não tem um carinho o dia todo, mas quando chega a noite quer transar”.

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    “E não adianta a mulher dizer não. Na cabeça de grande parte dos homens, as mulheres têm obrigação de atender seus desejos”, complementa.

    Para ela, essa lei alemã representa um grande avanço civilizacional. “A partir dessa mudança de conceito, a relação sexual entre as pessoas deixa de ser por obrigação e passa a ser de carinho, de troca de afeto, o que é fundamental para a vida de todas e todos”.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • Mais uma violência contra as mulheres brasileiras. Na sexta-feira (3), MC Biel, de 20 anos, foi acusado de assédio sexual, insinuando vontade de estuprar a uma repórter do portal iG, que lhe entrevistava. Áudios e textos divulgados pelo portal complicam a vida do funkeiro paulista.

    O boletim de ocorrência foi feito na 1ª Delegacia da Mulher de São Paulo. Segundo a matéria publicada pelo iG, o diálogo foi gravado em áudio e vídeo, e o conteúdo já foi entregue à polícia.

    Apesar de tão jovem, é acusado de chamar a jornalista de “gostosinha” e teria dito que “se eu te pego, te quebro no meio”, bem ao estilo do ator pornô – promovido a conselheiro educacional do governo golpista – Alexandre Frota, que faz escola.

    A secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil em São Paulo (CTB-SP), Gicélia Bitencourt, afirma que essas agressões misóginas acontecem por que “a situação política e o machismo secular da sociedade brasileira contribuem para isso”.

    Para ela, “o cantor parece ter arrumado uma maneira de aparecer na mídia, que dá muito espaço para atitudes desse tipo e apresenta as mulheres como meros objetos”. 

    “Parece que após o afastamento temporário da presidenta Dilma e a posse do governo golpista com Michel Temer na presidência, parece que todas as políticas voltadas para os direitos da classe trabalhadora e o respeito às pessoas caiu por terra”, reforça.

    Nesta terça-feira (7), o portal iG publicou o que Biel disse, inclusive com áudio e vídeo, que complica a vida do cantor. Um jornalista do Portal da Música, postou em sua página no Facebook, onde relata outro caso de assédio sexual envolvendo o funkeiro como outra repórter. Para quem, ele teria dito: “não quer fazer (a entrevista) no meu colo?”.

    Segundo o iG, o jornalista escreveu que Biel se mostrava solícito e humilde, mas “o que me assusta, é a brusca mudança em seu comportamento diante das câmeras em menos de um ano. A incessante tentativa de se posicionar como hétero e pegador. As piadas machistas e sem cabimento com qualquer figura feminina que tentou entrevistá-lo. E o orgulho do pai nisso tudo”.

    Biel diz que tudo foi um “mal-entendido”, que não passou de “brincadeira”. Isso mostra que “a cultura do estupro é tão marcante em nossa sociedade que os rapazes tratam o tema com brincadeira, mas uma brincadeira que deixa marcas para toda a vida das mulheres”, ataca Ivânia Pereira, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB Nacional.

    biel

    Os reflexos dessas “brincadeiras”, segundo Ivânia, “são os altos índices de violência contra as mulheres”. Ela se refere aos dados oficiais de que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, apenas dentre os casos denunciados. Mas há estudos que apontam que esse número é muito superior.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy. Foto: Rosa Rovena/Agência Brasil

  • Nesta terça-feria (31), às 15h30, ativistas, feministas e sindicalistas realizarão ato denominado ‘Marcha das flores_ 30 contra todas’. A concentração será na Passarela das Flores no Mercado Central de Aracaju_ Thales Ferraz. Em seguida, as manifestantes sairão em caminhada em direção à Praça Fausto Cardoso. Elas enviaram moção à Justiça pedindo mais rigor na legislação contra a violência sexual e de combate à cultura do estupro.

    O ato é alusivo ao estupro coletivo e à forma tida como ‘parcial’ que a Polícia Civil carioca tratou inicialmente o crime contra a adolescente de 16 anos, estuprada por 33 homens, na favela do Morro São José Operário, no Rio de Janeiro.

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    Déa Jacobina - Seeb-SE