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Qui, Jun

Cristina Kirchner

  • Em encontro das duas lideranças aconteceu na Casa de Portugal, em São Paulo, na noite desta sexta-feira (9), as eternas presidentas Cristina Kirchner (Argentina) e Dilma Rousseff (Brasil) debateram “A luta política na América Latina hoje”.

    Com centenas de jovens brasileiros e argentinos, a conferência não poderia ser mais feliz. Rousseff iniciou dizendo que “hoje a mesa é feminina e feminista”. Bem oportuno, porque se vivencia em mais de 160 países os 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres.

    Então, o Portal CTB conversou com Bárbara Figueroa, presidenta da Central Única dos Trabalhadores, do Chile. Aliás, a única mulher a presidir uma central sindical na América Latina. “É muito complexo e desafiador ser a única mulher à frente de uma central sindical nessa parte do nosso continente”, diz Figueroa.

    Para ela, o encontro dessas “importantes lideranças políticas reforça a luta das mulheres latino-americanas por igualdade no mundo do trabalho e na sociedade”.

    Já Pablo Gentili, presidente da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), entende a conjuntura atual muito complexa. “Vários fatores nos levaram a esta situação”, afirma.

    Assista a conferência completa 

    “A direita estabeleceu uma nova estratégia e com muita competência conseguiu seus objetivos para chegar ao poder na Argentina e no Brasil e nós precisamos entender essa estratégia e reorganizar as forças populares com muita unidade na resistência à ofensiva do capital sobre o trabalho”.

    O presidente da Fundação Perseu Abramo, Marcio Pochmann vê o fracasso dos projetos econômicos do governo golpista. “O projeto deles se baseia em três eixos: mudança da expectativa dos empresários, expansão do mercado externo e entrada de recursos estrangeiros com essa onda de privatizações”. Explica. Como não está dando certo, "o governo está sem estratégia".

    A presidenta Dilma falou sobre a reforma da Previdência e lembrou que “o ministro da Fazenda (Henrique Meirelles) tem uma aposentadoria de R$ 250.000” mensais e o “Temer (Michel) se aposentou com 55 anos” e querem idade mínima de 65 anos para homens e mulheres.

    A ex-presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, historiou a vida política, social e econômica de seu país nos últimos 15 anos e defendeu uma resistência contundente à política de retirada de direitos.

    “As forças do campo nacional e popular precisam de profundas reflexões para avançar nas lutas com essa juventude que se incorporou na política", reforça. “Em um forte contraponto à lógica da velha política feita por homens, as duas mulheres arrancaram aplausos e emoções da plateia diversas vezes”, diz texto do Mídia Ninja.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy. Foto: Fundação Perseu Abramo

  • Por Altamiro Borges*

    Na semana passada, a Argentina viveu momentos de alta tensão. O dólar bateu novo recorde, a inflação deu sinais de total descontrole, o chamado “risco-país” disparou e as projeções para o crescimento da economia foram ainda mais frustrantes – com alta do desemprego, das falências e da miséria. Diante do caos, cresceu a boataria de que o presidente Mauricio Macri – o direitista paparicado pelo tucano-fake João Doria e pelos fascistinhas mirins do MBL – até poderia cair antes do final do seu mandato.

    A situação é tão dramática que o Financial Times, a bíblia dos neoliberais, postou nesta sexta-feira (26) que a “Argentina está à beira” do colapso, “consolidando-se como o segundo maior risco do mundo, atrás da Venezuela”. O jornal destaca a “inquietação” dos abutres financeiros diante do governo Mauricio Macri, que “luta para lidar com inflação recorde, desaceleração do crescimento e enfraquecimento da moeda” e registra que o acordo firmado com o Fundo Monetário Internacional (FMI) só serviu para agravar a miséria social.

    Diante desse quadro, o próprio “deus-mercado” já teria rifado o serviçal argentino, que agora dá tiros para todos os lados e está totalmente fragilizado. No desespero, Mauricio Macri anunciou na semana retrasada um pacote de congelamento de preços de mais de 60 produtos, incluindo as tarifas de transportes, luz e gás – uma heresia para um presidente que se elegeu com o falso discurso ultraliberal. Seu objetivo foi o de tentar conter a disparada da inflação, que fechou em março a 4,7% e atingiu 54,7% nos últimos doze meses.

    O congelamento de preços apavorou a cloaca burguesa e sua mídia venal – incluindo as filiais rastaqueras do Brasil. O bombardeio só não é mais intenso porque haverá eleições na Argentina em outubro próximo. O que a ultradireita argentina, latino-americana e ianque mais teme é o retorno ao poder da ex-presidenta Cristina Kirchner. Na mais recente pesquisa, a peronista já aparece com 9 pontos de vantagem em um segundo turno contra Mauricio Macri, que pode até ser descartado pelas forças neoliberais e nem concorrer ao pleito.

    A inquietação do 'Council of the Americas'

    O caos econômico, o acelerado desgaste do atual presidente e a “saudade” da peronista já acenderam o sinal de alerta no império. Em artigo intitulado “E se Cristina voltar?”, postado neste sábado (27), Roberto Simon, diretor sênior de política do “Council of the Americas” – um antro que reúne representantes do governo dos EUA e os donos das maiores corporações ianques –, chamou a atenção da cloaca burguesa brasileira, que tem muitos interesses econômicos no país vizinho.

    Sem citar o criminoso processo de judicialização da política, que tenta barrar a candidatura de Cristina Kirchner – a exemplo do que o Partido da Lava-Jato fez no Brasil contra Lula –, o autor não esconde sua maior torcida. “Nem sequer sabemos se a ex-presidente disputará” a eleição. Mesmo assim, ele teme pelo pior. “Tem chão ainda e o caminho é incerto. Mas, nas últimas semanas, o cenário Cristina 2019 ganhou força inesperada. Pesquisas recentes a colocam à frente de Mauricio Macri tanto no primeiro quanto no segundo turno”.

    Roberto Simon observa que a queda de prestígio do presidente pode não ter mais reversão. “Sua aprovação, que já esteve na casa dos 70%, foi parar nos 30%. E 65% dos argentinos dizem que as políticas macristas os deixaram mais pobres. ‘Na disputa entre os menos piores, claramente ganhamos’, diz Juan Durán Barba, o estrategista de campanha de Macri. Talvez. Mas fantasmas do cenário Cristina já estão à solta no noticiário. O mais visível deles é a expectativa de um default: esta semana, o risco país atingiu patamares de 2014”.

    “Ao Brasil, a ressurreição kirchnerista imporia um choque em dois temas chave. O primeiro é o futuro do Mercosul e da política comercial brasileira... O segundo é Venezuela. Ferrenhamente chavista, o kirchnerismo afrouxaria o cerco regional ao regime de Nicolás Maduro. Das três maiores economias latino-americanas, duas – Argentina e México – recusariam a ideia de que Juan Guaidó é o legítimo presidente em Caracas”.

    A 'Bolsonara' da Argentina

    Ao final, o diretor do “Council of the Americas” sugere que o fascista nativo fique longe da eleição no país vizinho: “Bolsonaro já disse que a vitória da oposição argentina criará ‘uma nova Venezuela’. Macristas se incomodaram. O presidente fará duas viagens à Argentina nos próximos três meses – na primeira, em junho, será recebido na Casa Rosada. Sua imagem é muito negativa entre argentinos. Se virar tema de campanha, sobrará mais um pepino a Macri”.

    A ultradireita argentina, que tem saudades das torturas e assassinatos da ditadura militar, parece concordar com essa avaliação. Segundo reportagem de Patrícia Campos Mello, publicada na Folha, “o sonho de Cynthia Hotton é ser a ‘Bolsonara argentina’, mas ela acha que a Argentina ainda não está pronta para uma revolução bolsonarista. Por isso, Hotton vai começar lançando uma frente de candidatos em defesa da família e dos valores cristãos para as eleições deste ano no país... Estamos construindo uma base forte cristã para, em poucos anos, termos o nosso Bolsonaro – quem sabe Bolsonara?’”.

    *Jornalista, presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé

  • A fórmula Alberto Fernández-Cristina Kirchner garante o voto kirchnerista e amplia o espectro de apoiadores

    *Por Mariano Vázquez

    **Tradução de Vinicius Sartorato

    Novamente, a ex-presidenta colocou toda sociedade argentina a falar dela. A natural apatia dos sábados se transformou em um dia de debate político, após o anúncio, por meio de suas redes sociais, de que ela apoiaria Alberto Fernández, seu ex-chefe de gabinete, em uma chapa presidencial que pode por de joelhos Mauricio Macri.

    O eleitorado argentino estava dividido em terços. A saber, o mais fiel, o que segue Cristina Fernández de Kirchner; o que responde a Mauricio Macri; e um terceiro que agrupa a peronistas ortodoxos, a esquerda tradicional, independentes e setores instáveis. Com essa decisão, Cristina rompe essa tripolaridade, assume que sua figura divide o voto opositor e dá um aceno aos eleitores que não compactuam com ela nem com o atual presidente.

    Com essa decisão acabam as especulações se Cristina seria candidata. A resposta é sim, porém em um lugar impensado. E contra o anúncio clássico da história, a líder decide ocupar o lugar de copiloto e oferece a outro que comande o avião.

    A fórmula Alberto Fernández-Cristina Kirchner garante o voto kirchnerista e, por vez, amplia o espectro de apoiadores. A presença de Alberto Fernández golpeia as candidaturas do independente Roberto Lavagna e de Sergio Massa, peronista e ex-funcionário de Cristina, que seguramente terminará somando-se a esse campo político. Além disso, desafia a Alternativa Federal, o peronismo não-Kirchnerista, e obriga Cambiemos de Mauricio Macri a buscar uma nova estratégia eleitoral.

    Alberto Fernández possui todas as qualidades para afrontar esse caótico momento político: capacidade, pragmatismo, diálogo, relações. Foi chefe de gabinete de ministros (Casa Civil) nos governos de Néstor e Cristina Kirchner. Se distanciou, renunciou a seus cargos, voltou à planície, não deixou de construir e retornou como conselheiro principal de Cristina faz pouco mais de um ano.

    “Não tenho dúvidas, a situação do povo e do país é dramática. Trata-se de governar uma Argentina outra vez em ruínas. Mais que ganhar uma eleição, necessitamos de homens e mulheres que possam governar uma Argentina que se encontra em uma situação pior que em 2001”, disse a ex-presidenta em seu anúncio nas redes sociais.

    Sem dúvidas, Cristina também considerou a raiva por trás do ataque judicial-midiático que Lula e o PT sofreram no Brasil.

    Por último, Cristina Kirchner segue sendo a jogadora principal e dominante da política argentina. Ninguém pode deixar de falar de suas decisões, seja para elogiar ou contestar. Ninguém fica indiferente. É um terremoto.

    *Mariano Vásquez (@marianovazkez) é um jornalista argentino residente em Buenos Aires. Documentarista, possui experiência em temas políticos internacionais e laborais, tendo trabalhado por muitos anos na TV boliviana e em vários meios argentinos.

    **Vinicius Sartorato (@vinisartorato) é jornalista e sociólogo. Mestre em Políticas de Trabalho e Globalização pela Universidade de Kassel (Alemanha).

    Fonte: Forum

  • A Argentina se debruça à beira do abismo. Com o peso em queda livre, as Bolsas no vermelho e um risco-país que chegou a transbordar os mil pontos, a jornada da quinta-feira (25) demonstrou que a crise de confiança se agrava. A crescente incerteza política, com o presidente Mauricio Macri caindo nas pesquisas e com a ex-presidenta Cristina Kirchner cada vez mais bem situada, soma-se à incerteza econômica: pesam grandes dúvidas sobre a capacidade governamental de controlar a inflação.

    O Banco Central teve que elevar para 70% os juros das LELIQs (letras de liquidez) a fim de proteger a moeda local, que despenca semana após semana. Os mercados financeiros haviam aberto com cifras muito alarmantes. O dólar era negociado a mais de 47 pesos, as ações de bancos e empresas de energia caíam mais de 10 pontos em Wall Street, e o risco-país (o ágio que os investidores cobram para emprestar dinheiro) superava os mil pontos, ou seja, 10%. Para se ter uma ideia da desconfiança internacional em relação à Argentina, convém salientar que nenhum outro país da região, exceto a Venezuela, paga um risco-país superior a 250 pontos.

    As coisas se acalmaram um pouco no final da jornada. O dólar ficou em 46,30 pesos (45 no mercado varejista), e o risco-país em 950 pontos. Mas todos os sinais eram claros. Reina a impressão de que Macri está perdendo o controle da situação e que seu “pacto entre cavalheiros” com várias empresas para congelar os preços de 60 produtos de primeira necessidade era uma atadura pequena demais para conter a hemorragia inflacionária. Estima-se que em abril os preços voltarão a aumentar mais de 4% e que os combustíveis, atrelados ao dólar, subirão de forma iminente por causa da desvalorização do peso.

    Macri foi à Casa Rosada, e seu chefe de gabinete, Marcos Peña, se reuniu com vários ministros. Não houve declarações. O ambiente era “pesado”, segundo uma testemunha presencial, e os rostos refletiam a tensão do momento. Um porta-voz de Peña admitiu as dificuldades, mas salientou que as eleições de outubro e novembro ainda estão distantes.

    A chamada “Opção V” irrompeu no debate político. Consistiria em Macri abrir mão de disputar a reeleição, lançando em seu lugar a candidatura de María Eugenia Vidal, a atual governadora de Buenos Aires. O PRO (Proposta Republicana), partido de Macri, se apressou em reafirmar que o atual presidente será candidato, e os porta-vozes de Vidal insistiram em que a governadora, de 45 anos, não tinha intenção de aspirar à Casa Rosada. Mas os rumores não cederam. O fato de Vidal apresentar um plano de contenção de preços limitado à província que governa — e que, diferentemente do que fez Macri na passada semana com seu “pacto entre cavalheiros”, o tenha lançado pessoalmente, sem delegar isso a um grupo de ministros — contribuiu para reforçar sua visibilidade.

    A Casa Rosada diz que o motivo das turbulências econômicas e políticas tem nome e sobrenomes: Cristina Kirchner. A ex-presidenta continua sem dizer uma palavra sobre se será ou não candidata. Restam poucas dúvidas, entretanto. Kirchner já age em modo eleitoral, e as pesquisas, agora, a dão como vencedora diante de Macri. Os mercados financeiros e a metade do país que não simpatiza com o peronismo estão alarmados com a possibilidade de um retorno da ex-presidenta. Dá-se como certo que, se voltar à chefia do Estado, renegaria o acordo com o Fundo Monetário Internacional (que entre junho e setembro passados emprestou 57 bilhões de dólares) e suspenderia o pagamento da dívida.

    O peso da dívida

    Mas a possibilidade de um default argentino existe, com Kirchner ou sem ela. Cada vez mais economistas expressam sua opinião de que os 34 bilhões de dólares a serem devolvidos no ano que vem representam uma carga excessiva para uma economia que continua em recessão, e que o aumento da dívida em termos reais (pela desvalorização do peso) exigiria cortes orçamentários quase insuportáveis. A dívida pública argentina supera 90% do PIB, e quase toda ela está expressa em dólares.

    Na quarta-feira, Macri voltou a culpar Kirchner. “O mundo duvida, porque acha que os argentinos querem voltar atrás; isso mete medo no mundo, então aumenta o risco-país, e são tomadas posições defensivas. Mas estão equivocados, as dúvidas são infundadas: os argentinos não vão voltar atrás, entendemos que não existe mágica e que o messianismo nos leva a destruir a sociedade”, disse. O presidente salientou que o FMI concedeu à Argentina o maior empréstimo de sua história porque tinha fé nas políticas liberais que seu governo desenvolvia. “Temos que manter a calma”, disse, eludindo o fato de que foi sua política neoliberal, ditada pelas forças do mercado, que condenou o país ao abismo.

    Na verdade, quem parece mais tranquila é Kirchner. Em 9 de maio ela apresentará na Feira do Livro uma autobiografia intitulada Sinceramente, cuja enorme tiragem inicial (60.000 exemplares) já está esgotada antes de chegar às lojas. A publicação do livro, às vésperas da corrida eleitoral, foi interpretada como sinal inequívoco de que Kirchner tomou a decisão de lançar sua candidatura. Seus inimigos argumentam que a ex-presidenta precisa recuperar o poder para se blindar das numerosas ações judiciais por corrupção; seus seguidores têm saudades da relativa prosperidade dos anos de Néstor e Cristina Kirchner, e clamam por seu retorno. Ela, por enquanto, se cala. Limita-se a difundir mensagens sobre a necessidade de “recuperar a ordem” frente ao “caos” de Mauricio Macri. A expectativa pela apresentação de seu livro, e pelo que possa dizer durante esse ato, é enorme.

    Cristina Kirchner desfruta de uma vantagem paradoxal. Quanto mais provável se torna sua volta ao poder, mais alarmados ficam os mercados financeiros, e mais os indicadores econômicos pioram. O que por sua vez complica a situação de Macri. Em geral, a sociedade argentina está cada vez mais decepcionada com a gestão dele, e isso se reflete em todas as pesquisas. O homem que prometeu resolver de uma vez por todas os males endêmicos da economia (inflação e desvalorização, pobreza, corrupção) enfrenta no final de seu mandato uma crise devastadora, em grande medida por causa dos seus próprios erros.

    Lawfare

    A ascensão de Cristina Kirchner nas pesquisas coincide com novos problemas judiciais para ela. O juiz Claudio Bonadio, encarregado do chamado "processo dos cadernos", ampliou nesta quarta-feira (24) a denúncia contra a ex-presidenta e pediu pela sexta vez sua prisão preventiva por suposta corrupção. Kirchner é acusada de liderar uma associação ilícita montada no ministério de Infraestrutura, responsável pelas obras públicas, a fim de arrecadar dinheiro ilegal de empresas beneficiadas nos contratos. A prisão "se tornará efetiva quando o Senado da Nação aprovar a perda do seu foro privilegiado, ou, quando o foro privilegiado cessar", escreveu o juiz Bonadio em sua resolução.

    O magistrado considerou "inverossímil" a alegação da hoje senadora de que desconhecia as manobras de seus subordinados. A decisão contra a ex-presidenta soma novas acusações ao processo graças às delações de testemunhas que, na qualidade de arrependidas, contaram ao juiz que parte do dinheiro arrecadado ia parar no apartamento que Cristina Kirchner e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, falecido em 2010, mantinham em bairro rico de Buenos Aires.

    Trata-se de uma manobra conhecida como lawfare, que consiste na utilização da Justiça para a consecução de objetivos políticos, a mesma que foi usada no Brasil para condenar, prender injustamente e tirar Lula da corrida presidencial de 2018, o que abriu caminho à vitória de Bolsonaro.

    Fonte: El País

  • O principal jornal dos Estados Unidos, The New York Times(NYT) publicou recentemente uma reportagem “South America’s Powerful Women Are Embattled. Is Gender a Factor?” (“Mulheres no poder são alvo de machismo latente na política da América Latina?”).

    “Gênero, dizem os analistas, não é a causa dos atuais problemas das líderes. Mas, acrescentam eles, o declínio coletivo das três mulheres aponta para uma persistência de atitudes machistas na região, especialmente dentro do establishment político”, afirma o NYT.

    Esse declínio, segundo o jornalista argentino Sergio Berensztein, mostra que há “forças poderosas que resistem a estas mudanças”. Já a secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Ivânia Pereira afirma que “o capitalismo reforça o patriarcado para manter o poder dos ricos contra os pobres”.

    Para a sindicalista, “a pressão contra as mulheres no poder é muito mais intensa em relação aos homens. Isso ocorre porque a luta por igualdade de gênero, assusta a elite. Então atacam as mulheres como se fossem responsáveis pelos erros dos homens”.

    “É como se as líderes mulheres estivessem recebendo toda a repercussão pela corrupção dos homens”, diz Farida Jalalzai, professora de política de gênero na Universidade Estadual de Oklahoma para o NYT. “Seria surpreendente se não houvesse a dinâmica do gênero por trás disso”, reforça.

    O jornal norte-americano destaca ainda que vários políticos têm sido acusados de corrupção. Mas tem sobrado para as mulheres. Nesse contexto, “as mídias locais têm contribuído muito para perpetuar os ataques às mulheres mandatárias de seus países”, lembra Gicélia Bitencourt, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB-SP.

    A presidenta do Chile, Michelle Bachelet também é citada na reportagem porque enfrenta problemas similares às suas vizinhas. Tem sido sistematicamente acusada de atos ilícitos que, lá como aqui, são feitos sem provas.

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    Em relação ao Brasil, o jornal diz que “a indignação pública sobre um escândalo de propinas na companhia nacional de petróleo se aglutinou em torno de Dilma e ajudou a impulsionar o processo de impeachment, mesmo que ela não esteja diretamente nomeada na investigação”.

    Aqui, fala Ivânia, “os ataques misóginos à presidenta Dilma têm sido a tônica da mídia, como fez a revista IstoÉ, com várias acusações sem nenhuma comprovação, tentando dizer que as mulheres não são preparadas emocionalmente para governar”.

    Manifestação de mulheres contra a cultura do estupro na avenida Paulista em São Paulo:

     

    “Mesmo que o sistema de cotas venha impulsionando as carreiras de mulheres políticas na região, há uma sensação de que as atitudes tradicionais nunca realmente ficaram para trás”, diz o NYT. “A mais recente safra de esposas presidenciais, dizem os observadores, são modelos de feminilidade”.

    A reportagem cita o governo golpista de Michel Temer, “que nomeou um gabinete desprovido de mulheres” e “é casado com uma ex-participante de concurso de beleza”. Marcela Temer foi personagem da reportagem “bela, recatada e do lar”, da revista Veja, que provocou fúria das feministas, tão deslavado machismo”, diz Gicélia.

    Na Argentina não é muito diferente, diz o jornal. Juliana Awada, esposa do presidente Mauricio Macri, é uma designer de moda e faz o jogo “bela, recatada e do lar”, quase tanto quanto a esposa do Temer.

    Berensztein cita alguns exemplos de “atitudes machistas residuais”. Tanto que “Isabel Macedo, a nova noiva de Juan Manuel Urtubey, um proeminente governador argentino com ambições presidenciais, foi uma atriz de telenovelas, como tem Angélica Rivera, a primeira-dama do México”, observa a reportagem.

    Mas, nem tudo está perdido. O NYT ressalta o movimento de mulheres que tomou as ruas, principalmente no Brasil, mas também na Argentina com o movimento “Ni Una Menos”, também contra os sucessivos estupros ocorridos no país.

    No Brasil, as mulheres tomam as ruas para combater tenazmente a cultura do estupro, que levou o ator pornô, Alexandre Frota, ao Ministério da Educação para propor cerceamento do debate de gênero nas escolas e censura aos educadores.

    ChX212dU4AAZy01“Estaremos nas ruas e nas escolas, todas por nós e sempre unidas vamos transformar o mundo. O machismo mata, mas o feminismo nos redime e constrói o mundo novo”, afirma Camila Lanes, presidenta da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas.

    O debate de gênero nas escolas é essencial para a “construção de uma sociedade mais humana”, realça Camila. “Uma civilização só avança com conhecimento e conhecimento pressupõe democracia e liberdade”.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy, com agências

  • Manifestação pela legalização do aborto em Buenos Aires (Foto: Eitam Abramovich)

    Por 38 votos a 31 o Senado argentino se rendeu ao patriarcado e rejeitou o projeto de lei que legalizaria a interrupção da gravidez até a décima segunda semana de gestação, como ocorre em muitos países. O aborto continua ilegal na Argentina, com uma lei em vigor desde 1921. Nova votação somente em 2019. “Esta lei não vai sair esta noite, não será este ano, será o próximo ou o seguinte", discursou a senadora e ex-presidenta argentina Cristina Kirchner.

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    A descriminalização do aborto é aprovada pelos deputados argentinos nesta quinta (14)

    A luta foi grande. Mais de 2 milhões de mulheres tomaram as ruas de Buenos Aires, na quarta-feria (8) e vararam a madrugada até a quinta-feira, para acompanhar as mais de 16 horas de votação do projeto já aprovado pela Câmara dos Deputados. As manifestações se espalharam pelo mundo, inclusive lotando a avenida Paulista, em São Paulo, na noite desta quarta-feira (8).

    “Apesar da rejeição, as argentinas saíram vitoriosas”, afirma Celina Arêas. “Elas conseguiram levar o debate sobre a importância da legalização do aborto para toda a sociedade de seu país e até rompeu fronteiras”.

    Segundo Celina, “é muito difícil superar a ideologia do patriarcado na América Latina, onde o machismo é marca registrada”. Mas, garante a sindicalista, “estamos e sempre estaremos nas ruas para conquistarmos nossos direitos de uma vida digna e para sermos enxergadas como donas de nossos corpos e de nossas vidas”.

    O aborto é legalizado somente em Cuba, Guiana, Porto Rico e Uruguai, nesta parte do mundo. Como mostra a organização estadunidense Guttmacher Institute, 97% das mulheres latino-americanas e caribenhas vivem sem o aborto seguro.

     abuerto legal argentia

    Faixa em frente ao Congresso da Argentina (Foto: Marcos Brindicci/Reuters)

    De acordo com a organização, em 74 países, o aborto não sofre nenhuma restrição, como acontece no Brasil e na Argentina onde a interrupção da gestação só é permitida em casos de estupro, risco de morte para as mães e fetos anencéfalos (essa possibilidade somente no Brasil).

    Mesmo assim, assegura Berenice Darc, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB-DF, “milhares de abortos são feitos todos os anos em clínicas clandestinas, sem nenhuma segurança”. O que causa um grande número de mortes ou conseqüências para o resto da vida dessas mulheres.

    De acordo com um estudo do Instituto Bioética, somente de 2015 para 2016 ocorreram mais de 700 óbitos causados por abortos mal feitos. Portanto, “a legalização é uma questão de saúde pública", afirma Gicélia Bitencourt, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB-SP.

    Celina lembra que o Supremo Tribunal Federal (STF) realizou audiência pública sobre o tema e deve votar da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 442 (ADPF 442), ajuizada pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

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    Para ela, os debates foram importantes e há esperança de que o STF dê decisão favorável à ADPF 442 e, com isso, “proteja a vida das mulheres, essencialmente as mais pobres”, porque ”mesmo na ilegalidade, quem tem dinheiro paga caro e faz o aborto em boas condições, mas quem não tem boa condição financeira corre muitos riscos”.

    Nadine Gasman, da ONU Mulheres no Brasil, defende que "o debate na Argentina foi um avanço para a região. A rejeição teve uma margem muito pequena e a discussão vai ter que voltar. No Brasil, o debate no Supremo também teve altíssima qualidade".

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    Segundo estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS), a prática do aborto diminui onde é legalizado. Entre 1990 e 1994, tiveram 39% abortos realizados, esse índice caiu para 28% de 2010 a 2014. Enquanto na América Latina, mostra o estudo, o número de abortos cresceu passando de 23% para 32%, nos mesmos períodos.

    "Isso comprova que o aborto legal e seguro carregam consigo um trabalho educativo que diminui a gravidez indesejada”, assinala Celina. Já Kátia Branco, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB-RJ.

    Ela argumenta que “vivemos numa região extremamente conservadora, que não reconhece a mulher com uma pessoa sujeita de direitos”. Mas, “essa realidade vai mudar com nossa luta cotidiana em defesa de direitos iguais”.

    Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB com informações da BBC News Brasil, El País Brasil e Clarín