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Qua, Jun

El País Brasil

  • Depois da polêmica provocada na Festa Literária de Paraty (Flip) deste ano envolvendo a falta de escritores negros no evento, a nova curadora da Flip, a jornalista e historiadora Josélia Aguiar, tomou a decisão de homenagear o escritor Lima Barreto.

    Essa homenagem vem em boa hora, porque se há um escritor brasileiro que se possa dizer injustiçado e desprezado, esse é Afonso Henriques de Lima Barreto. Porque a crítica literária da época desprezou a linguagem coloquial utilizada pelo autor para narrar a vida de pessoas comuns.

    O seu livro de estreia, "Recordações do escrivão Isaías Caminha", foi muito criticado por ser considerado “personalista demais”, em vez de verem ali o início da renovação da literatura brasileira.

    A primeira biografia do escritor foi publicada em 1952. O clássico “A vida de Lima Barreto”, de Francisco de Assis Barbosa, conta como o autor carioca sofria com as críticas e o desprezo que a elite sentia por ele.

    Isso tudo porque a sua autodenominada “literatura militante” era confundida muitas vezes como relatos autobiográficos. Porém, Barreto usou sua escrita para denunciar as mazelas da sociedade racista, colonialista e que desprezava o povo.

    Como escreveu o escritor paulista Monteiro Lobato: “De Lima Barreto não é exagero dizer que lançou entre nós uma fórmula nova de romance. O romance de crítica social sem doutrinarismo dogmático. Conjuga equilibradamente duas coisas: o desenho dos tipos e a pintura do cenário. É um revoltado, mas um revoltado em período manso de revolta. Em vez de cólera, ironia; em vez de diatribe, essa nonchalance filosofante de quem vê a vida sentado num café, amolentado por um dia de calor”.

    A curadora da Flip 2017 que vai lançar uma obra sobre o escritor baiano Jorge Amado disse ao El País Brasil que “ele lia muito Lima Barreto nos anos 30 e o considerava ‘o escritor do povo’”.

    Lima Barreto 2

    Filho de ex-escravos, o pai tornou-se tipógrafo, a mãe professora de 1ª à 4ª séries, Lima Barreto dizia sobre si: “Nasci mulato, pobre e livre”. Apadrinhado pelo Visconde de Ouro Preto, tornou-se jornalista e transformou-se em um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos.

    Reagiu com sarcasmo à hipocrisia da elite brasileira, que ele considerava preconceituosa. Simpático ao anarquismo inicialmente, impressiona-se com a Revolução Russa, de 1917, então começa a militar na imprensa socialista.

    Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu a 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro. Cedo descobriu seus pendores literários e era comumente encontrado na Biblioteca Nacional. Critica com veemência a visão elitista, arrogante, passadista e ufanista de parte dos literatos da época.

    Recusado pela Academia Brasileira de Letras por duas vezes, foi maltratado pela crítica, justamente por ser revolucionário na forma de escrever as vicissitudes do homem comum do povo, com uma linguagem coloquial, que fugia aos padrões elitistas da literatura do início do século 20.

    a vida de lima barreto

    O autor de “Clara dos Anjos”, “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, ”O Homem que Sabia Javanês”, entre outros clássicos foi vencido pelo alcoolismo falecendo aos 41 anos, no Rio de Janeiro, em 1º de novembro de 1922.

    Com essa homenagem, a Flip resolve dois problemas de uma vez só. Coloca em cena os escritores negros, invariavelmente marginalizados, e faz justiça ao talento inovador de Lima Barreto, que trouxe modernidade à literatura brasileira.

    Algumas de suas obras:

    Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909)
    O Homem que Sabia Javanês (1911)
    Aventuras do Dr. Bogóloff (1912)
    Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915)
    Numa e a Ninfa (1915)
    Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919)
    Histórias e Sonhos (1920)
    Os Bruzundangas (1922)
    Clara dos Anjos (1948)
    Outras Histórias e Contos Argelinos (1952)
    Contos do Reino de Jambom (1953)

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • Thauane,

    Em 4 de fevereiro, você postou o seguinte texto em sua página no Facebook: “Vou contar o que houve ontem, pra entenderem o porquê de eu estar brava com esse lance de apropriação cultural: eu estava na estação com o turbante toda linda, me sentindo diva. E eu comecei a reparar que tinha bastante mulheres negras, lindas aliás, que tavam me olhando torto, tipo ‘olha lá a branquinha se apropriando da nossa cultura’, enfim, veio uma falar comigo e dizer que eu não deveria usar turbante porque eu era branca. Tirei o turbante e falei ‘tá vendo essa careca, isso se chama câncer, então eu uso o que eu quero! Adeus’. Peguei e saí e ela ficou com cara de tacho. E, sinceramente, não vejo qual o PROBLEMA dessa nossa sociedade, meu Deus”.

    Ao final, você fez a hashtag: #VaiTerTodosDeTurbanteSim.

    Desde então, Thauane, você deu entrevistas, foi xingada e foi elogiada nas redes sociais. Desde então, produziu-se uma grande quantidade de textos de opinião, matérias e posts sobre o que aconteceu com você. Uma parte significativa desse material produzido continha acusações ao movimento negro, de que estaria fazendo algo nomeado como “racismo reverso”.

    O episódio relatado por você e a repercussão do seu relato são tudo menos uma banalidade. Ambos contam de um momento muito particular do Brasil no que se refere à denúncia do racismo. Um momento que, por sua riqueza, não pode ser interditado por muros. É por isso que decidi escrever minha coluna pública como uma carta para você. Porque não poderia falar de você como “a branca do turbante”, apenas. Sim, você é branca. E você colocou um turbante. Mas você também é Thauane, uma mulher e suas circunstâncias. E, assim, a carta é o gênero com que posso melhor expressar meu afeto.

    Eu acredito muito em cartas, Thauane, porque elas pressupõem um remetente e um destinatário. E elas expressam algo ainda mais fabuloso, que é o desejo de alcançar o outro. Poucas coisas são mais tristes que cartas perdidas, extraviadas. Cartas que não chegam ao seu destino. E quando a gente conversa com um muro no meio, as cartas não chegam. O muro barra o movimento da palavra.

    Assim, Thauane, eu início dizendo a você que não sei como é receber um diagnóstico de leucemia. Não sei como é perder o cabelo aos 19 anos. Não sei como é acreditar que encontrou uma saída estética para cobrir a nudez da cabeça e ouvir que esta saída não é ética. Não sei. Mas tento saber. Acredito profundamente em vestir a pele do outro. Mas sei também do limite deste gesto. Buscamos vestir, mas não conseguimos vestir por completo. A beleza deste movimento é justamente a busca.

    Ao tentar vestir a sua pele, consciente dos limites deste gesto, posso sentir o quanto deve ter sido duro ouvir o que você conta ter ouvido: “Você não pode usar turbante porque é branca”. Ter câncer é estar nu de tantas maneiras diferentes, e a sua nudez estava exposta na sua cabeça. E você tinha encontrado um abrigo que te fazia sentido, que era um turbante bonito. Para você também não era só um acessório, talvez fosse quase uma casa. E a estranha que te aborda, cortando esta cena com um “não”, pode ter doído em porções do seu corpo que você nem sabia que existiam até então.

    É isso que eu apalpo quando tento te alcançar tendo apenas lido você no Facebook. Você doendo. E, sentindo-se atacada, apropria-se do que considera seu direito de vestir o que quiser, de se expressar como quiser pelo que bota sobre seu corpo, e diz que, sim, TODOS podem usar turbante mesmo que negras digam a você que não porque, afinal, qual é o problema de ser branca e usar turbante? Afinal, não seria até mesmo um reconhecimento e uma homenagem, já que você considera algo identificado com a cultura negra tão bonito que escolhe botar na cabeça? E isso te parece bastante óbvio. E parece bastante óbvio para muitas pessoas que te apoiam.

    Eu escuto você. E compreendo o caminho do seu pensamento. E percebo que, para mim, não é difícil vestir a sua pele, ainda que não possa, jamais poderei vesti-la por completo. É neste ponto que sou atravessada pela primeira interrogação. É mais fácil para mim vestir a sua pele branca do que vestir a pele negra da mulher que te abordou com um não. Eu tenho mais elementos para vestir a sua pele branca e bem menos elementos para vestir a pele negra dela. Por uma razão bastante óbvia: eu tenho uma vida de mulher branca num país como o Brasil.

    Esta constatação me faz perceber que, exatamente por ser mais difícil, eu preciso tentar mais. Bem mais. Sabe, Thauane, eu nasci e cresci numa cidade em que a maioria é descendente de imigrantes europeus, especialmente alemães. Eu mesma sou descendente de italianos. Cresci observando o racismo ser uma condição tão natural quanto comer e dormir. Não o racismo disfarçado de tantos, mas o racismo que sequer estranha a si mesmo. Assim, quando começaram os debates das cotas sociais X cotas raciais, e isso porque não estou contando a parcela da população que acha que não precisa de cota nenhuma, não me foi difícil concluir que as cotas deveriam ser raciais.

    Na cidade da minha infância, as negras sequer eram aceitas como empregadas domésticas. Como os patrões eram descendentes de imigrantes europeus, não traziam a experiência da Casa Grande, em que os negros escravizados faziam todo o serviço pesado, dentro e fora das casas. Ao contrário. Os avós e bisavós da maioria, como os meus mesmo, conseguiram escapar da fome de seus países de origem graças à ideia de branqueamento do Brasil que esteve no cerne das políticas de imigração do século 19. Para evitar o risco de que o Brasil ficasse mais preto, importou-se carne branca. Na região em que eu vivia, havia dois párias: os indígenas e os negros.

    No Brasil da minha infância, ser empregada doméstica era quase ser escrava. Como todos sabemos, ainda hoje, em tantos lugares, segue assim. Mas o racismo era tão profundo que nem para cozinhar, lavar e limpar sem limite de horas para terminar a jornada e ganhar um salário miserável ao final as negras serviam. Sabe por quê? Porque boa parte das famílias brancas não queria a pele negra “sujando” a sua comida, a sua roupa de cama, o seu mundo. Assim, até para os serviços com a pior remuneração e com as piores condições de trabalho a preferência era pelos brancos pobres. O racismo, mais uma vez, condenava as negras a ver seus filhos passarem fome.

    Percebi então que eu, como mulher branca, descendente de imigrantes europeus, já nasço neste país com muitos privilégios. Percebi primeiro pela intuição, ao observar o meu entorno, e depois fui estudar para compreender também através dos fatos, das reflexões e do processo histórico. Nasço neste país com privilégios. Mas não só. Percebo que já me insiro neste mundo pela experiência de “existir violentamente”. Vou aprofundar este conceito mais adiante.

    Quando a gente ouve um “não”, Thauane, nossa primeira reação é dizer um “sim”. Sim, eu faço. Sim, eu vou. Sim, eu posso. Especialmente numa época em que se vende a ideia de que podemos tudo. E de que poder tudo é uma espécie de direito. Mas não, não podemos tudo. E nos deparamos com essa realidade a cada dia. Compreendo também, Thauane, que você sabe disso talvez melhor do que a maioria, porque não há nada mais revelador de nossos limites do que uma doença que nos coloca diante da tragédia maior da condição humana, que é morrer. E uma doença como câncer, mesmo quando há muitas chances de cura, nos lança neste abismo. Porque só a possibilidade já é devastadora.

    Mas tenho aprendido, Thauane, e isso me veio com o envelhecimento, que, muitas vezes, mesmo quando a gente pode a gente não pode. Ou, dizendo de outro modo: o fato de poder não quer dizer que a gente deva. Assim, é verdade. Você pode usar um turbante mesmo que uma parte significativa das mulheres negras digam que você não pode. Mas você deve? Eu devo?

    Eliane Brum é jornalista e colunista do El País Brasil.

    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

  • O festival de cinema mais antigo do país está usando a sua própria fórmula para se reinventar. É o que garante a curadoria do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que atrai à capital, até 27 de setembro, um público interessado em filmes autorais e que – não raro – cultiva uma forte cinefilia. São mais de 40 títulos, além de encontros e debates, em uma programação que traça um panorama da produção nacional recente e que não teme discussões políticas.

    Com nove longas e 12 curtas-metragens inéditos em competição, vindos de seis Estados, e outras tantas obras repartidas em mostras paralelas de forte carga política, a edição atual tem duas ambições: mostrar que o país produz cinema de qualidade além do eixo Rio-SP e que filmes têm o poder de despertar consciência. “Nossa ideia é retomar o que sempre marcou o Festival de Brasília: ser um lugar de ponta da produção cinematográfica brasileira, onde a política aparece como aquilo que é em primeiro lugar: o cidadão agindo no mundo”, diz o curador Eduardo Valente.

    É uma tradição sujeita a crises, mas que resiste. Criado em 1965 pelo crítico Paulo Emilio Salles Gomes, então professor do curso de cinema da recém-fundada Universidade de Brasília (UnB), o festival pegou carona no surgimento, poucos anos antes, do Cinema Novo – movimento em prol de um cinema voltado à realidade nacional, produzido “com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, como dizia o cineasta baiano Glauber Rocha, e distante de propostas comerciais que vigoravam então.

    O evento ganhou forma, ao longo dos anos, com filmes brasileiros seminais, como O bandido da luz vermelha (Rogério Sganzerla), Tabu (Julio Bressane) e, mais recentemente, Amarelo manga (Cláudio Assis). Sofreu com a mão pesada da ditadura militar (1964-1985), que cancelou três de suas edições nos anos 70. E, na última década, apesar de não ter perdido a relevância, perdeu espaço para outros festivais com forte seções nacionais, como o Festival do Rio e o de Paulínia – hoje cancelado.

    Mas chegou a hora do resgate, e, nessa toada, o longa que abriu o evento na última quarta-feira, 20 de setembro, dando esse recado foi Cinema Novo – dirigido por um dos herdeiros diretos do movimento, Eryk Rocha, filho de Glauber. Eleito o melhor documentário do ano no Festival de Cannes, o filme editado a partir de imagens de arquivo resgata depoimentos de cineastas e trechos de seus filmes, numa ode que causou comoção na Riviera Francesa. O mesmo aconteceu em Brasília, onde, além das palmas, incitou gritos de protesto contra o Governo de Michel Temer que marcaram a exibição hors concours.

    O clima inflamado deve se espalhar pela competição, nas seções dos candidatos que disputam o Troféu Candango – que representa prêmios em várias categorias num total de 340.000 reais. A mostra teve início na noite de quarta, com a exibição de dois curtas, Ótimo amarelo e Quando os dias eram eternos, e do longa de ficção gaúcho Rifle, de Davi Pretto, sobre uma família de pequenos proprietários rurais no Sul do país. Outros destaques competitivos são o documentário pernambucano Martírio, de Vincent Carelli, e Antes o tempo não acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo, uma ficção do Amazonas.

    Merecem atenção também as sessões especiais, que este ano celebram trabalhos de nomes caros ao festival, como o cineasta Julio Bressane – que exibe seu novo longa-metragem, Beduíno – e o crítico, roteirista e ator Jean Claude Bernardet, retratado em A destruição de Bernardet. Já nas novas mostras paralelas, A política no mundo e o mundo da política e Cinema Agora!, os títulos selecionados abordam, respectivamente, a confrontação do homem com as instituições e experiências estéticas mais ousadas e feitas de maneira independente. Aqui valem a entrada filmes como o documentário Precisamos falar de assédio, de Paula Sacchetta, inspirado pela campanha #MeuPrimeiroAssédio, que dominou as redes sociais no fim de 2015.

    Para fechar as cortinas em 27 de setembro, o Festival de Brasília preparou a exibição de Baile perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, no ano em que se celebra 20 anos de lançamento do filme que marcou a retomada do cinema pernambucano. E um dia antes, promove com outro representante de Pernambuco, Kleber Mendonça, um debate sobre direção cinematográfica em que devem surgir as polêmicas discussões ao redor de seu segundo longa-metragem, Aquarius. Nada mais propício a um evento que gosta de lotar não só as salas de exibição, mas também as rodadas de debates. E consegue.

    Fonte: El País Brasil

  • “Trump (presidente dos Estados Unidos) engaiola crianças, Temer (presidente golpista do Brasil) mata”, mensagem que circula pela internet após a morte, “com tiro pelas costas”, como diz laudo da própria polícia, do garoto Marcos Vinícius da Silva, de apenas 14 anos, durante uma operação militar no Complexo da Maré, quando o jovem caminhava para a escola, na quarta-feira (20).

    Nem a Copa do Mundo da Rússia e o choro midiático de Neymar após a vitória sofrida contra a Costa Rica, abafaram este crime contra a pessoa humana. Desta vez a dor da gente tem que sair nos jornais, nas redes sociais, em todos os veículos possíveis.

    Não dá mais para segurar tanta indignação contra tamanha injustiça. As mães e pais de jovens da perifieria não aceitam mais perder seus filhos nas tais “balas perdidas” que sempre encontram corpos inocentes de meninos e meninas como Marcos com uma vida inteira pela frente.

    Pobres, favelados, pretos quase todos, tratados como inimigos pelas forças da repressão, que desta vez uniu as polícias civil, militar e o Exército que intervém militarmente no Rio de Janeiro desde fevereiro e tem gente que apoia essa intervenção militar que só trouxe mais mortes e desespero para as comunidades pobres da capital fluminense.

    A violência está banalizada por uma mídia cúmplice ao propagar o ódio de classe e colocar os interesses comerciais e ideológicos acima dos fatos e principalmente acima dos direitos humanos e da justiça. 

    Mesmo assim muitos internautas tentam mais uma vez manipular e divulgam fake news mostrando foto de um garoto com se fosse o Marcos Vinícius com uma arma nas mãos, tentando justificar o injustificável. 

    Bruna Silva, mãe de Marcos, mostra a sua lucidez em querer justiça, já que a vida de seu filho ninguém pode devolver. "Dizem que minha comunidade é violenta. Mas a minha comunidade não é violenta, ela é muito boa. É a operação que, quando vai lá, vai com muita truculência".

    O assassinato da vereadora Marielle Franco, que viveu no Complexo da Maré, e do motorista Anderson Gomes no centro do Rio de Janeiro, no dia 14 de março, a execução de cinco jovens, no episódio conhecido como Chacina de Maricá, no interior do estado, por milicianos, uma semana depois e a morte de Marcos Vinícius denunciam a intervenção militar no Rio de Janeiro como desastrosa e vergonhosa para as Forças Armadas brasileiras.

    Matam "suspeitos" e muitos inocentes, numa inversão de valores. Porque se é suspeito, não é criminoso comprovadamente. A brutalidade contra os mais pobres, em nome da "guerra às drogas" não se justifica. E o Exército não deve se atribuir a função de atirar em brasileiras e basileiros, muito menos em jovens com uniforme da escola.

    Mais uma vez Bruna mostra lucidez ao responsabilizar o Estado pelo assassinato de seu filho. “Sua morte não vai ser mais uma, a gente vai lutar por justiça. Porque esse Estado tem que melhorar. Ele não pode matar inocente e criança", disse ela ao jornal El País Brasil.

    Violência cresce com Estado de exceção

    Os números do Atlas da Violência 2018 atestam que o golpe de Estado de 2016 aumentou a violência no país. Os números são aterradores e confirmam as palavras de mais uma mãe que enterra seu filho. Dor inimaginável. Os dados mostram 33.590 jovens entre 15 e 29 anos mortos em 2016, 56,5% de todos os homicídios ocorridos no país.

    Além disso, foram registrados 49.497estupros no mesmo ano, sendo que 50,9% das vítimas tinham menos de 13 anos. Fato que mostra a dificuldade de ser criança num país que criminaliza qualquer manifestação a favor da liberdade e da igualdade de direitos.

    Compete aos candidatos na eleição, deste ano, pensar um Sistema Nacional de Segurança Pública que contemple toda a sociedade e valorize as pessoas e a vida e não o patrimônio. Já passa da hora de agir. Porque estão matando nossos jovens à plena luz do dia e não estamos fazendo nada. E se fosse o seu filho?

    Marcos Aurélio Ruy é jornalista. Foto: Mauro Pimentel/AFP

    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

  • A 14ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro, encerra-se neste domingo (3), reforçando o clima de politização de amplos setores da intelectualidade brasileira. Diz reportagem do "El País Brasil" que a expressão "primeiramente, fora Temer" virou cumprimento entre os participantes da Flip 2016.

    Após receber críticas por não contar com mulheres na edição passada, os organizadores fizeram esta Flip com número paritário de escritoras e escritores. Inclusive, a poeta Ana Cristina Cesar – Ana C., é a homenageada neste ano.

    “A geração de Ana Cristina ajudou a redescobrir Paraty e a despertar a vocação literária da cidade. Vai inspirar uma Flip com o sabor dos anos 1970 e 80, um momento chave para compreender o Brasil e Paraty de hoje”, diz Mauro Munhoz, presidente da Associação Casa Azul, mantenedora da Flip.

    A fluminense Ana Cristina Cruz Cesar, que assinava Ana C., nasceu em Niterói, em 2 de junho de 1952 e morreu em 1983, aos 31 anos. Sua obra permanece atual e uma das grandes representantes do movimento denominado Poesia Marginal ou Geração Mimeógrafo, que fugiu dos padrões convencionais de distribuição da escrita.

    A Poesia Marginal predominou nos anos 1970, onde despontaram, grandes nomes como Paulo Leminski, Heloísa Buarque de Hollanda, Chacal, Torquato Neto, Ana C. e Waly Salomão, entre outros.

    “A obra de Ana C. é densa, pulsante, e conquista leitores em todas as partes do mundo. A homenagem vai poder iluminar áreas menos conhecidas de sua obra e desfazer alguns lugares-comuns a respeito de sua vida”, diz o curador da Flip, Paulo Werneck.

    O movimento foi batizado pelo artista plástico Hélio Oiticica - um dos principais nomes do Tropicalismo - e conquistou corações e mentes por apresentar uma temática contemporânea e jovem.

    flip 2016

    Outro fato marcante é que, apesar de todo avanço tecnológico, a procura por livros cresce ano a ano. Estudos recentes mostram um aumento no número de leitores no Brasil, atingindo uma média de leitura de 4,96 obras por ano, de acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.

    “Eu fico dividindo o meu tempo. Fico um pouco lendo, um pouco usando o celular e dá para fazer tudo. Se eu gosto da história e do autor, eu procuro na internet sobre os outros livros dele e aí compro para ler. Eu gosto de ver o livro, a capa, acho legal”, fala a adolescente Ana Clara Mazzoni, ao site Notibras. 

    Para muitos, a Poesia Marginal significa um passo adiante do movimento modernista em busca de valorização da cultura nacional sem xenofobia. Certamente, um traço relevante da produção literária brasileira.

    A Flip 2016 fortalece o debate sobre o papel da literatura no mundo contemporâneo, onde os acontecimentos ganham maior velocidade a cada dia, dificultando a disponibilidade para reflexões.

    Para conhecer um pouco mais sobre Ana C., uma dica importante é a leitura de “Inconfissões – Fotobiografia de Ana Cristina Cesar”, biografia organizada pelo escritor Eucanaã Ferraz. Abaixo um pouco da limpidez da poesia de Ana C.:

    Soneto

    Pergunto aqui se sou louca
    Quem quer saberá dizer
    Pergunto mais, se sou sã
    E ainda mais, se sou eu

    Que uso o viés pra amar
    E finjo fingir que finjo
    Adorar o fingimento
    Fingindo que sou fingida

    Pergunto aqui meus senhores
    quem é a loura donzela
    que se chama Ana Cristina

    E que se diz ser alguém
    É um fenômeno mor
    Ou é um lapso sutil?

    E penso

    a face fraca do poema/ a metade na página
    partida
    Mas calo a face dura
    flor apagada no sonho
    Eu penso
    A dor visível do poema/ a luz prévia
    Dividida
    Mas calo a superfície negra
    pânico iminente do nada.

    Mocidade independente

    Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem
    medir as consequências. Por que recusamos ser proféticas? E
    que dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei pra
    cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma
    graça atravessando o estado de São Paulo, de madrugada, por
    você, e furiosa: é agora, nesta contramão.


    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • Entrevistado pelo El País Brasil, Ha-Joon Chang, economista sul-coreano e professor da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, disse que a desindustrialização pela qual o Brasil está passando é a pior da história e terá efeitos cruciais no futuro do país.

    “As pessoas têm que entender como é séria a redução da indústria de transformação no Brasil. Nos anos 80 e 90, no ponto mais alto da industrialização, esse setor representou 35% da produção nacional. Hoje não é nem 12% e está caindo. O Brasil está experimentando uma das maiores desindustrializações da história, em um período muito curto. O país tem que se preocupar”, afirma Chang.

    Ele explica ainda que os países ricos, que defendem o livre comércio, “se tornaram ricos usando o protecionismo e as empresas estatais”. Depois que enriqueceram é passaram a defender o “livre comércio”, principalmente em relação aos Estados emergentes.

    Por isso, Chang critica a receita de austeridade como forma de solucionar a crise do capital, que teve início em 2008. “A receita de austeridade usada na Grécia é a mesma tentada na América Latina, na África e em alguns países da Ásia nas décadas de 1980 e 1990, e que criou desastrosos resultados econômicos”.

    “A política de austeridade beneficia o setor financeiro em detrimento do produtivo e isso leva a estagnação e recessão, como estamos vendo no Brasil, numa velocidade inimaginável”, afirma Ivânia Pereira, vice-presidenta da CTB.

    Para ela, o golpe de Estado que depôs a presidenta Dilma Rousseff em 2016 veio exatamente para aplicar “essa política ultraliberal para resolver o problema dos países ricos usurpando os países em crescimento como o Brasil”.

    Chang diz que “os governos de economias emergentes têm que proteger suas indústrias até que elas cresçam e possam competir com as indústrias de países ricos”. Pereira acrescenta que o governo brasileiro faz “justamente o contrário disso, cortando investimentos nas áreas sociais e desprotegendo nossa economia, entregando o patrimônio nacional a preço de banana”.

    Dessa forma, “o que esperar do futuro se essa política persistir?”, questiona Pereira. O professor de economia avisa que “se você corta os gastos, seu endividamento pode ficar um pouco menor, mas a renda precisa crescer”. E como “fazer crescer se estamos dando de bandeja as nossas riquezas, como o pré-sal, terras e estatais importantes”, denuncia a sindicalista.

    Para o economista, “um jeito melhor de reduzir o déficit é fazer a economia crescer mais rápido”. Mas, reforça Chang, essa política de concentração e cortes de gastos “vem sendo usada várias vezes, como no Brasil nas décadas de 1980 e 1990, e nunca funcionou”.

    Mas, “as políticas macroeconômicas têm sido muito ruins para o setor industrial, especialmente a alta taxa de juros, uma das maiores do mundo”, afirma. Dessa maneira, conclui Ivânia Pereira, “temos que lutar para a retomada do crescimento com distribuição de renda como o país experimentou nos governos Lula e Dilma, mas isso só se consegue com um Estado forte a serviço dos interesses nacionais e da classe trabalhadora. A eleição deste ano pode ser essa reviravolta”.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • “O Brasil vive um momento especialmente dramático de sua história. Nas eleições mais conturbadas após o fim da ditadura civil-militar, assistimos à perigosa afirmação, por um dos candidatos à Presidência, de princípios antidemocráticos, expressos num discurso fundado no ódio, na intolerância e na violência”, diz trecho da carta das brasileiras em defesa da democracia (leia a íntegra da carta abaixo).

    Depois de ultrapassar o número de 2 milhões de integrantes, em poucos dias, a página de Facebook Mulheres Unidas Contra Bolsonaro foi hackeada e o Facebook a tirou do ar para averiguar os acontecimentos (Saiba mais aqui). Depois dessa violência, começama surgir diversas páginas com o mesmo teor.

    A página foi reativada no domingo (16). Além do ataque cibernético, pessoas ligadas ao candidato Jair Bolsonaro disseminaram fakes pelas redes sociais sobre o grupo. Eduardo, deputado federal e filho do candidato da extrema-direita, divulgou texto acusando o jornal britânico The Guardian de mentir sobre as integrantes do grupo e a sua procedência.

    Além disso, o deputado afirmou que "uma página qualquer do Facebook tinha 1 milhão de seguidores quando foi vendida para a esquerda. Então, sem qualquer vergonha, eles mudaram o nome dela para 'Mulheres Unidas Contra Bolsonaro' e saiu alardeando por aí que havia uma onda de mulheres contra o presidenciável", como mostra o jornal El País Brasil.

    A página retornou às verdadeiras proprietárias agora como “secreta”, ou seja, para participar desse grupo somente recebendo convite ou indicação de alguém que já está. De acordo com uma das administradoras o hacker foi identificado. Usa o nome de Eduardo Shinok. A página dele no Facebook não está mais disponível. De acordo com essa administradora ele recebeu ajuda da namorada no hackeamento. A investigação prossegue.

    Portal CTB

    Leia a carta na íntegra:

    Carta das brasileiras em defesa da democracia, da igualdade e respeito à diversidade

    O Brasil vive um momento especialmente dramático de sua história. Nas eleições mais conturbadas após o fim da ditadura civil-militar, assistimos à perigosa afirmação, por um dos candidatos à Presidência, de princípios antidemocráticos, expressos num discurso fundado no ódio, na intolerância e na violência.

    Se a posição deste  candidato era pública, tendo sido reiteradamente manifesta  ao longo dos 27 anos em que vem atuando na Câmara Federal, causa perplexidade a adesão a tais princípios por parte significativa da sociedade brasileira.

    O tratamento desrespeitoso dirigido às mulheres, aos negros,  indígenas, homossexuais,  o culto à  violência, a   agressão contra adversários, a defesa da tortura  e de torturadores,  constituem  manifestações que devem ser combatidas por aqueles que acreditam nos princípios civilizatórios que possibilitam a existência de uma sociedade democrática e plural.

    Neste contexto, nós, mulheres, vítimas  de agressões e desqualificações por parte deste candidato, viemos à público expressar nosso mais veemente repúdio aos princípios por ele defendidos, conclamando a população brasileira a se unir na defesa da democracia, contra o fascismo e a barbárie.

    Somos muitas, para além de um milhão que integra este grupo. Defendemos candidatos e candidatas distintas, dos mais diferentes matizes político- ideológicos.  Temos experiências e visões de mundo diversas,  assim como são distintas nossas idades, orientação sexual, identidades étnico- raciais e de gênero, classe social,  regiões do país em que vivemos, posições religiosas, escolaridade e atividade profissional. Na verdade, nos constituímos como coletivo a partir de uma causa comum, expressa nesta carta: a rejeição à prática política do candidato  e aos  princípios que a regem. Nos constituímos nas redes sociais, unidas  numa corrente crescente e ativa, pela necessidade de tornar pública nossa posição no exercício da cidadania e participação, a partir da identidade feminina que nos congrega. 

     Nós, mulheres, historicamente inferiorizadas e marginalizadas, sujeitas  a toda sorte de violência e  desrespeito,  recusamos hoje o silêncio e a submissão, herdeiras de uma luta  há muito travada por mulheres que nos antecederam.

    Somos aquelas que constituem a maioria do eleitorado brasileiro, ainda que sub-representadas na política partidária. Somos aquelas que, gestando  e alimentado  novas vidas, defendemos o direito de todos e todas  a uma vida digna. Somos aquelas que, temendo pelas  nossas vidas, pelas vidas de nossos filhos, filhas,   companheiros e companheiras, diante da violência que assola e corrói  a sociedade brasileira,  somos contra a liberação do porte de armas, que  só irá piorar o já dramático quadro atual.

    Somos aquelas que, recebendo salários inferiores, com menor chance de contratação e progressão nos espaços de trabalho,  entendemos que cabe  aos governantes, à semelhança do que já ocorre em muitos países, construir políticas de igualdade salarial entre homens e mulheres.

    Somos aquelas que , vítimas  de assédio, estupro, agressão e feminicídio, defendemos  o direito à liberdade no exercício da vida afetiva e sexual,  demandando do   Estado proteção e punição aos crimes contra nós cometidos 

    Somos aquelas que protestam contra a perseguição e violência contra a população LGBTQ, porque entendemos que  cada ser humano tem direito a viver sua identidade de gênero e orientação sexual.

    Somos aquelas que se insurgem contra todas as formas de racismo e xenofobia, que defendem um país   social  e racialmente mais justo  e igualitário, que respeite as diferenças e  valorize as ancestralidades.

    Somos aquelas que combatem o falso moralismo e a censura às expressões artísticas, que defendem a livre manifestação estética, o acesso à cultura em suas múltiplas manifestações.

    Somos aquelas que defendem  o acesso à informação e a uma educação sexual responsável, através de  livros, filmes e materiais que eduquem as crianças e jovens para o mundo contemporâneo. 

    Somos aquelas que defendem  o diálogo e parceria com  escolas,   professores e professoras  na educação de nossos filhos e filhas, sustentados  na laicidade, no aprendizado da ética, da cidadania e dos direitos humanos.

    Somos aquelas  que querem um país com políticas sustentáveis, que respeitem e protejam o meio ambiente e os animais, que garanta o direito à terra pelas  populações tradicionais que nela vivem e trabalham.  

    Somos muitas, somos milhões, somos: 

    #MulheresUnidasContraBolsonaro

    Contra o ódio, a violência e a intolerância

  • Arte de Ribs mostra a disposição das mulheres contra o candidado da extrema-direita, misógino, racista e LGBTfóbico

    A três semanas das eleições, hackers (criminosos cibernéticos) conseguiram invadir a página de Facebook do grupo Mulheres Unidas Contra Bolsonaro, que já havia ultrapassado os 2,2 milhões de integrantes, em poucos dias de funcionamento.

    “As mulheres estão cada vez mais unidas e conscientes de que só mudaremos a política participando dela e neste momento o nosso principal inimigo é o candidato da extrema-direita”, diz Celina Arêas, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB.

    Para ela, “de nada adianta criminosos agirem contra a democracia e a liberdade de expressão”, certamente, “não nos calarão”. De acordo com a sindicalista, a ação dos hackers seguidores do candidato Jair Bolsonaro, chamou mais ainda a atenção a importância para o voto feminino, "contra as pautas do ódio e da violência".

    Ao mesmo tempo em que viraliza na internet a campanha com a hashtag #EleNão, Celina afirma que “não mudarão nosso voto com o uso da violência; não os intimidarão”. Segundo a sindicalista, “a campanha contra o machismo e o desrespeito às mulheres seguirá firme e forte. Descobrimos o caminho da unidade e não abriremos mão de votar nas candidaturas a favor da cultura da paz, da justiça e da igualdade de direitos”.

    Música de autora desconhecida viraliza: #EleNão 

    "O grupo foi temporariamente removido após detectarmos atividade suspeita. Estamos trabalhando para esclarecer o que aconteceu e restaurar o grupo às administradoras", informa o Facebook.

    A invasão criminosa ocorreu na sexta-feira (14). Os criminosos invadiram o perfil de uma das administradoras e chegaram a alterar no nome do grupo. Além de agredir outras administradoras.

    Chegaram a divulgar dados pessoais de uma delas e ameaçaram outra via WhatsApp. “Esquerdistas de merda” foi um dos xingamentos. “É de conhecimento geral que os apoiadores do fascismo utilizam-se dos meios mais sórdidos para tentar calar aqueles que não aceitam passivos a disseminação do discurso de ódio proferido pelo candidato que fazemos frente de resistência absoluta”, afirmam as responsáveis pelo grupo.

    hacker

    Hackers fascistas cometem crime cibernético: serão punidos?

    Celina acentua que “as mulheres têm consciência de que lutar por igualdade de direitos incomoda as mentes reacionárias, principalmente de homens violentos e sem a mínima condição de administrar qualquer coisa, muito menos um país".

    E questiona: "Será que essa invasão não configura crime eleitoral para uma possível impugnação do candidato da extrema-direita?".

    Já as organizadoras da página invadida Mulheres Unidas Contra Bolsonaro afirmam que “nossa resposta será nas urnas, onde iremos mostrar a força das mulheres, pois nossa união não é feita através da violência, mas na certeza de que juntas somos mais fortes e que temos o poder de direcionar nosso país para longe de um discurso racista, misógino e homofóbico”.

    Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB com Catraca Livre e El País Brasil

  • A judoca Rafaela Silva, campeã olímpica em 2016, denuncia em suas redes sociais ter sofrido abordagem racista de policiais militares, na noite de quinta-feira (22), quando voltava para casa na capital fluminense. Ela conta que os PMs fizeram o taxista encostar, o chamaram para conversar e depois com arma na mão um policial bateu em seu vidro e a mandou sair.

    "Quando o taxista encostou eles o chamaram para um canto, quando olhei na janela outro policial armado mandando eu sair de dentro do carro, levantei e saí”, conta Silva em seu Twitter. Perguntaram se ela trabalhava e onde morava e não explicaram o motivo da abordagem.

    Assista ao vídeo de Rafaela Silva no Instagram 

    Mônica Custódio, secretária de Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), afirma que esse tipo de acontecimento significam "as ‘novas formas’ de racismo baseadas nas páginas dos velhos livros. Esse pensamento vem sendo forjado desde o Brasil colônia para justificar a escravidão e depois o capitalismo continuou porque precisa criar diferenças para justificar a exploração do homem pelo homem”.

    Se você é negro 

    Exatamente por isso, os youtubers Spartakus Santiago e AD Junior ensinam a como sobreviver a uma abordagem indevida das forças repressoras em todo o país. Mas com a intervenção militar no Rio de Janeiro o vídeo deles viralizou.

    “Se você é negro, preste atenção nisso que vamos falar (...) evite sair de casa em altas horas (...), leve o cupom fiscal de equipamentos caros e nunca ande sozinho e sempre com documentos”, dizem eles.

    Assista o vídeo com o manual de sobrevivência para negros  

    Não é a primeira vez que Rafaela Silva sofre discriminação. Após ser eliminada na Olimpíada de Londres em 2012 por ter aplicado um golpe proibido na competição, ela foi xingada de “macaca” para baixo. Superou e ganhou o primeiro Ouro brasileiro no Rio de Janeiro quatro anos depois.

    Leia os twitters da judoca carioca

    rafaela silva tweet 1 reproducao

    rafaela silva tweet 2 reproducao

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    Para Custódio, “é muito difícil ser negro no Brasil, apesar de sermos maioria na população, porque o racismo é histórico e institucionalizado”. Como contam os youtubers ser negro no Brasil é correr o risco de ser morto por policiais pelo simples fato de estar com uma furadeira nas mãos.

    "A gente no Rio de Janeiro tem que passar essa vergonha. Descobri que preto não pode andar de táxi, porque deve estar assaltando ou roubando", afirma a atleta em um vídeo no Instagram.

    Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB com informações de Gil Alessi, do El País Brasil. Foto: UOL

  • Mulheres continuam acampadas em frente aos batalhões da PM no Espírito Santo

    (Foto Naiara Arpini/G1)

    Há uma semana as mulheres dos policiais do Espírito Santo mantêm-se à frente dos protestos por melhores condições de trabalho e aumento salarial para os maridos. “A situação da classe trabalhadora está aviltante no estado”, afirma Jonas Rodrigues de Paula, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil no Espírito Santo (CTB-ES).

    Ele explica que o governo de Paulo Hartung (PMDB) iniciou um ajuste fiscal que tem pesado sobre “as costas de trabalhadores e trabalhadoras. O resultado desse ajuste neoliberal é isso que estamos vendo nas ruas da Grande Vitória, em uma semana já contabilizamos 120 mortes violentas”.

    Na noite desta quinta-feira (9), as lideranças do movimento protagonizado pelas mulheres dos PMs vararam a madrugada em negociação com o governo estadual, porém, sem acordo. O El País Brasil afirma em reportagem que as mulheres reivindicam 43% de aumento (segundo os PMs, essa é a defasagem salarial da categoria) e anistia para os policiais. Também participaram da reunião, representantes das entidades sindicais dos policiais.

    Fernanda Silva, umas das representantes do movimento, afirmou ao El País que "o governo disse que chegou ao limite da negociação, a gente pede o reajuste, mas eles dizem que não tem mais negociação". Ao fim da reunião, as representantes saíram de mãos dadas aos gritos de “mulheres unidas jamais serão vencidas”.

    Segundo a Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiro Militar do Estado do Espírito Santo (ACS), o salário base de um policial no estado é R$ 2,6 mil, enquanto a média nacional chega a R$ 4 mil.

    Para Érika Piteres, secretária da Mulher da CTB-ES, “a atuação das mulheres dos policiais tem sido fundamental para manter a greve”. De acordo com ela, a CTB-ES “apóia a reivindicação deles porque sempre se mantém ao lado de trabalhadores e trabalhadoras”.

    Ainda mais, diz ela, “são as mulheres que sentem primeiramente o peso da crise. As que estão no mercado de trabalho perdem o emprego em primeiro lugar, as que trabalham em casa, percebem antes a falta do essencial para uma vida digna”.

    Movimento se alastra

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    Familiares de PMs iniciam movimento no Rio de Janeiro nesta sexta-feira (Foto: Agência Folha)

    A Polícia Civil do Espírito Santo ameaça aderir ao movimento. E mesmo com apelo de um policial feito nesta quinta para que os PMs retornem às ruas, o movimento permanece forte. Alguns especialistas temem um alastramento desse tipo de protesto pelo país afora.

    A cidade do Rio de Janeiro amanheceu, nesta sexta-feria (10), com familiares de policiais militares protestando em ao menos cinco batalhões. Contudo, a PM ainda está fazendo o policiamento nas ruas.

    Já a Polícia Civil fluminense está em greve há duas semanas. Os salários dos servidores do estado do Rio de Janeiro estão atrasados. Eles ainda nem receberam nem o 13º.

    Para De Paula, da CTB-ES, “a população capixaba não suporta mais o terror ao qual está submetida já há uma semana. É preciso que os governantes negociem com mais rapidez e façam acordo para pôr fim ao caos”.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • Manifestação pela legalização do aborto em Buenos Aires (Foto: Eitam Abramovich)

    Por 38 votos a 31 o Senado argentino se rendeu ao patriarcado e rejeitou o projeto de lei que legalizaria a interrupção da gravidez até a décima segunda semana de gestação, como ocorre em muitos países. O aborto continua ilegal na Argentina, com uma lei em vigor desde 1921. Nova votação somente em 2019. “Esta lei não vai sair esta noite, não será este ano, será o próximo ou o seguinte", discursou a senadora e ex-presidenta argentina Cristina Kirchner.

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    A descriminalização do aborto é aprovada pelos deputados argentinos nesta quinta (14)

    A luta foi grande. Mais de 2 milhões de mulheres tomaram as ruas de Buenos Aires, na quarta-feria (8) e vararam a madrugada até a quinta-feira, para acompanhar as mais de 16 horas de votação do projeto já aprovado pela Câmara dos Deputados. As manifestações se espalharam pelo mundo, inclusive lotando a avenida Paulista, em São Paulo, na noite desta quarta-feira (8).

    “Apesar da rejeição, as argentinas saíram vitoriosas”, afirma Celina Arêas. “Elas conseguiram levar o debate sobre a importância da legalização do aborto para toda a sociedade de seu país e até rompeu fronteiras”.

    Segundo Celina, “é muito difícil superar a ideologia do patriarcado na América Latina, onde o machismo é marca registrada”. Mas, garante a sindicalista, “estamos e sempre estaremos nas ruas para conquistarmos nossos direitos de uma vida digna e para sermos enxergadas como donas de nossos corpos e de nossas vidas”.

    O aborto é legalizado somente em Cuba, Guiana, Porto Rico e Uruguai, nesta parte do mundo. Como mostra a organização estadunidense Guttmacher Institute, 97% das mulheres latino-americanas e caribenhas vivem sem o aborto seguro.

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    Faixa em frente ao Congresso da Argentina (Foto: Marcos Brindicci/Reuters)

    De acordo com a organização, em 74 países, o aborto não sofre nenhuma restrição, como acontece no Brasil e na Argentina onde a interrupção da gestação só é permitida em casos de estupro, risco de morte para as mães e fetos anencéfalos (essa possibilidade somente no Brasil).

    Mesmo assim, assegura Berenice Darc, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB-DF, “milhares de abortos são feitos todos os anos em clínicas clandestinas, sem nenhuma segurança”. O que causa um grande número de mortes ou conseqüências para o resto da vida dessas mulheres.

    De acordo com um estudo do Instituto Bioética, somente de 2015 para 2016 ocorreram mais de 700 óbitos causados por abortos mal feitos. Portanto, “a legalização é uma questão de saúde pública", afirma Gicélia Bitencourt, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB-SP.

    Celina lembra que o Supremo Tribunal Federal (STF) realizou audiência pública sobre o tema e deve votar da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 442 (ADPF 442), ajuizada pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

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    Para ela, os debates foram importantes e há esperança de que o STF dê decisão favorável à ADPF 442 e, com isso, “proteja a vida das mulheres, essencialmente as mais pobres”, porque ”mesmo na ilegalidade, quem tem dinheiro paga caro e faz o aborto em boas condições, mas quem não tem boa condição financeira corre muitos riscos”.

    Nadine Gasman, da ONU Mulheres no Brasil, defende que "o debate na Argentina foi um avanço para a região. A rejeição teve uma margem muito pequena e a discussão vai ter que voltar. No Brasil, o debate no Supremo também teve altíssima qualidade".

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    Segundo estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS), a prática do aborto diminui onde é legalizado. Entre 1990 e 1994, tiveram 39% abortos realizados, esse índice caiu para 28% de 2010 a 2014. Enquanto na América Latina, mostra o estudo, o número de abortos cresceu passando de 23% para 32%, nos mesmos períodos.

    "Isso comprova que o aborto legal e seguro carregam consigo um trabalho educativo que diminui a gravidez indesejada”, assinala Celina. Já Kátia Branco, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB-RJ.

    Ela argumenta que “vivemos numa região extremamente conservadora, que não reconhece a mulher com uma pessoa sujeita de direitos”. Mas, “essa realidade vai mudar com nossa luta cotidiana em defesa de direitos iguais”.

    Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB com informações da BBC News Brasil, El País Brasil e Clarín