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Ter, Jun

fascismo

  • As manifestações contra o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, lotaram as ruas de ao menos 114 cidades em todas as unidades da federação do país. A maior delas, no Largo da Batata, em São Paulo, reuniu 500 mil pessoas, segundo a organização, durante todo o ato liderado pelo movimento Mulheres Contra Bolsonaro.

    A CTB marcou presença porque “nós queremos receber o 13º salário, o abono de férias e remuneração igual para trabalho igual”, afirma Gicélia Bitencourt, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB-SP. Além disso, diz ela, “esse candidato representa o aprofundamento mais radical das reformas feitas por Michel Temer que causaram desemprego, recessão e retirada de conquistas fundamentais da classe trabalhadora”.

    Gente de todos os gêneros, cores, ideologias, idades, crenças religiosas, coloriram as ruas de São Paulo com a força das mulheres e da juventude para disseminar o amor contra o ódio. “Nós não aceitamos o retrocesso e a humilhação”, acentua Luiza Bezerra, secretária da Juventude Trabalhadora da CTB.

    Para ela, “as forças do campo democrático e popular unidos saberão dar um sonoro não à candidatura do ódio, das armas e da violência. O Brasil precisa de paz, de mais educação, mais saúde, mais justiça, com valorização do trabalho e combte às desigualdades”. Um cartaz dizia: "Vote como uma garota, ele não" e as mulheres cantavam alegres: "O Bolsonaro pode esperar, a mulherada vai te derrotar".

    A manifestação suprapartidária contou com a presença dos presidenciáveis Guilherme Boulos (PSOL), Marina Silva (Rede) e Vera Lúcia (PSTU) e das candidatas à vice-presidentas Manuela D’Ávila (Fernando Haddad), Kátia Abreu (Ciro Gomes) e Sonia Guajajara (Boulos), além de muitos artistas e candidatas e candidatos ao Congresso Nacional e à Assembleia Legislativa de São Paulo.

    “Nós defendemos a liberdade das mulheres, ele não. Nós defendemos o 13º salário, e o direito das trabalhadoras e trabalhadores, ele não. Nós gritamos ‘fora Temer’, ele não. Nós defendemos que as mulheres, os negros, os indígenas, LGBTs tenham dignidade e façam parte de um grande sonho de Brasil, ele não”, postou Manuela em seu Twitter.

    Parte dos manifestantes rumou em passeata por onze quilômetros até o vão do Masp (Museu de arte de São Paulo Assis Chateaubriand), na Avenida Paulista. Durante o percurso muitos "buzinaços" de apoio, um “Lulaço” improvisado com os trompetistas que puxam essas manifestações em diversos pontos do país e cantos e palavras de ordem pela liberdade.

    Por volta das 20h40, terminou o ato com a disposição de se manter o moivmento de resistência ao fascismo firme e forte, mesmo após a eleição. "As mulheres e a juventude mostraram que a unidade é possível para a superação da crise, com criação de empregos e de um projeto nacional de desenvolvimento voltado para os direitos de todas as pessoas", conclui Luiza 

    Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB. Foto: Mídia Ninja

  • As manifestações lideradas pelos chamados coletes amarelos na França suscitaram desconfianças e polêmicas, com muitos observadores (à esquerda, ao centro e à direita) caracterizando o movimento como de extrema direita, mais uma expressão da guerra híbrida ou coisa do gênero, em função dos atos de vandalismo e violência que o acompanharam.

    Não faltaram análises comparando-o (e equiparando-o) às jornadas de junho de 2013 no Brasil, que no final das contas foram capturadas pela extrema direita e serviram como bucha de canhão do golpe travestido de impeachment que veio a dar no deplorável governo Temer.

    É compreensível a perplexidade e a polêmica, uma vez que vivemos tempos bicudos e obscuros, mas esses pontos de vistas parecem agora precipitados e não estão em sintonia com as conquistas obtidas pelos manifestantes, como o aumento de 100 euros mensais (cerca de 445 reais ao câmbio atual) no Salário Mínimo, cancelamento do aumento e congelamento dos preços dos combustíveis e redução de impostos pagos pelo povo. Isto não interessa à extrema direita, que como sugere a agenda do governo Bolsonaro ou de Trump está a serviço do capital no momento em que este decretou guerra contra o Direito do Trabalho e a seguridade social. Não foi muito diferente com Hitler e Mussolini no passado, só por ignorância ou má fé se pode imaginar que o nazi-fascismo teve alguma coisa a ver com a esquerda.

    O Portal CTB reproduz abaixo, para maior reflexão, um ponto de vista diferente e original, de uma historiadora portuguesa, sobre o tema.

    A França, isto é uma revolução?

    raquel varela historiadora

    Por Raquel Varela

    Vou contar-vos as coisas magnificas que aconteceram em França nestes dias. Extraordinárias. Polícias que retiraram capacetes e cantaram com os manifestantes a Marselhesa; bombeiros que numa homenagem em frente à prefeitura viraram as costas aos políticos vestidos com cores da França e abandonaram a homenagem; manifestantes de extrema-direita expulsos das manifestações por coletes amarelos; portagens ocupadas pelos manifestantes que impedem que se cobre passagem; há sindicatos da polícia que aderiram já à manifestação de amanhã, e sindicatos ferroviários que decidiram não cobrar bilhete aos manifestante que se dirigem amanhã a Paris. Greves e assembleias gerias de estudantes. As centrais sindicais do status quo pedem recuo nos protestos, mas representam no total menos de 7% dos trabalhadores franceses. A França vive uma revolta – não sei se é uma revolução, mas não é um movimento social como outros. É, na minha opinião, a primeira batalha perdida pelo neoliberalismo, depois da sua grande vitória, marcada pela derrota dos mineiros nos anos 80 por Margaret Thatcher. Um novo processo histórico nasceu este mês na França. Tudo pode acontecer – a história acelera agora a uma velocidade que nos parece estonteante. Em 3 dias Macron recuou 2 vezes, não é certo que o seu mandato sobreviva. O movimento já está na Bélgica.

    Vi com encolher de ombros a facilidade com que tantos aqui acreditaram que era a extrema-direita a dirigir aquele que já é o maior movimento europeu contra o neoliberalismo.

    Continua a espantar-me a facilidade com que acreditamos no senso comum, a credulidade, a ausência de sentido critico. Mas alguém imagina que a extrema-direita tem de perto ou longe alguma organização para dirigir milhões de pessoas nas ruas há 3 semanas? Não, as pessoas acreditam porque querem acreditar. Desta vez não é necessário um aguçado sentido critico, bastava ler o Le Monde, o El País e ver a Euronews para perceber o susto na cara de Le Pen nos últimos dias, o pânico na face de Macron e a situação de crise no poder do Estado. E, sobretudo, o esforço que Macron fez para que Le Pen apareça como responsável e líder de um movimento. Ora, a esquerda aderiu ao Movimento formalmente, e há vários relatos da extrema-direita expulsa das manifestações. Também há de centrais sindicais amarelas – o que a meu ver é errado. O fascismo não pode ter espaço algum, porque é inimigo das liberdades, o reformismo, por pior que seja, deve ter liberdade de manifestação. A cólera do Movimento dirige-se contra as prefeituras, centenas foram atacadas e uma totalmente queimada. A crise dos partidos tradicionais é total, a separação entre representantes e representados de massas. Macron lembrou-se finalmente que foi eleito com menos de 25% dos votos dos franceses. Quantas vezes temos insistido que força eleitoral não é representação social, António Costa e Geringonça?

    A França está a viver uma situação inédita desde o Maio de 68. São trabalhadores, professores e cientistas, reformados e no activo, ferroviários e estudantes, sectores médios proletarizados em massa. O centro da luta é a chamada Diagonal do Vazio, uma área geográfica de pequenas e médias cidades que vai do nordeste ao sudoeste do país. Nevers foi o epicentro. Nestas cidades os manifestantes – todos senhores e senhoras, como poderão ver pelas reportagens, envergando o seu colete amarelo – explicam que têm que usar o carro, idosos, para ir às compras a 10 km de distância porque o grande comércio destruiu as mercearias – conta o El País; o saque das pequenas lojas é mínimo, a maioria das lojas destruídas são as de alta costura e os grandes armazéns – diz o Le Monde. A revolta começou contra os impostos, estão “fartos” de em nome da “economia dita verde” pagarem para serem cada vez mais excluídos, do acesso à cidade também; uma senhora conta que chega ao fim do mês com 70 euros; outro que “não tolera viver num país onde o PM veste um fato de 45 mil euros, 3 salários anuais de um operário”; um engenheiro não sabe se “metade dos manifestantes concorda com a outra metade” mas não vai “sair da rua” até que as coisas mudem. A pressão fiscal em França já é mais de 45%. Querem emprego e não o rendimento mínimo. Não são contra a imigração mas defendem que a solução está nos países de origem e que as políticas dos países ricos têm que mudar radicalmente.

    Não gosto de violência. Nem de vandalismo ou destruição. Nunca mostrei simpatia pelos jovens desempregados ou sub empregados da periferia que vêm para a rua partir carros em França e Inglaterra. Ao contrário da direita, acho que eles não nasceram vândalos, acho que são animalizados pela exclusão social que a direita promove. Ao contrário de uma parte da esquerda organizada não acho que eles sejam uma esperança, nem uma forma de resistência – só vejo no vandalismo desespero e desistência. Sei também que a violência é mínima, a maioria, larga maioria, dos bairros pobres tem gente que com um esforço incrível vive do trabalho mais mal pago, e não desiste de viver. São os milhares de jovens que trabalham no comércio, construção civil, a vida deles não é partir, mas trabalhar por quase nada. Tenho muitas dúvidas sobre se os “partidores” pertencem à classe trabalhadora – sei que são filhos dela, não sei se não estão mais próximo do lumpen-proletariado. Misturar estes fenómenos, recorrentes na Europa, e minoritários, com o Movimento dos Coletes Amarelos é confundir uma tosta mista com um banquete em Versalhes.

    Macron está a caminho de sair mal entrou não porque houve pancadaria no Arco do Triunfo, mas porque os coletes amarelos pararam a circulação de mercadorias há 3 semanas questionando a autoridade do Estado, que não os conseguiu impedir. E viram costas às autoridades políticas locais. O Movimento conta com o apoio oficial de 60% dos franceses.

    Sabem que mais? Estou tão feliz estes dias. Ando há anos ouvir falar da “aristocracia” operária europeia e da esperança na periferia do mundo, qualquer movimento camponês com 200 pessoas pessoas na Ásia é mais aplaudido pela esquerda do que uma greve de médicos na Alemanha, logo apelidados de “privilegiados”. Foi por isso que escrevi um livro de História da Europa, que lembrasse o passado de resistência na Europa, a importância dos sectores médios, a centralidade da produção de valor nos países centrais, a tradição de consciência de classe na Europa – superior a qualquer parte do mundo – os trabalhadores na Europa, sem os quais não haverá solução civilizada no mundo. Passámos de um eurocentrismo para ujm periferocentrismo absurdo. Agora…sorte, sorte, sorte mesmo, porque tal precisão temporal não pode ser atribuída à previsão cientifica, é que o meu livro Um Povo na Revolução foi publicado em França justamente este mês. Eles não fazem ideia, os coletes amarelos, como esse pedaço de coincidência irrelevante para a história da humanidade me divertiu. Vou ceder no meu gosto por roupa bonita e vestir o tal do colete amarelo amanhã.

    Não sei se é uma revolução. Pode ser. Ou não. Se não for, será adiada mas não evitada. Se estão com medo do mundo do trabalho, não imaginam que a ele devemos tudo o que de mais civilizado possuímos. Não olhem para o Arco do Triunfo em chamas, essas imagens de caos, mas para o triunfo da defesa organizada da cidade humanizada, do emprego com direitos, de um mundo justo, sem impérios e brutalidade social. Os coletes amarelos são isso, quanto mais apoio tiverem de pessoas que acreditam na vida civilizada mais serão ainda parte da solução.

    O original encontra-se em https://raquelcardeiravarela.wordpress.com/2018/12/07/a-franca-isto-e-uma-revolucao/

  • Por Altamiro Borges

    Qualquer ser humano com um mínimo de dignidade ficou triste e abatido com a morte prematura do menino Arthur Araújo, de 7 anos, neto do ex-presidente Lula. Mas os fascistas, os que cultivam o ódio e a violência, não são seres humanos. Não dá nem para chamá-los de vermes, já que estes têm função na natureza. Cínicos, eles berram “Deus acima de todos”. No fundo, eles veneram o demônio, a morte. Para estes psicopatas deveria servir a lição do Papa Francisco: “Quando você comemora a morte de alguém, o primeiro que morreu foi você mesmo”. Em vida, esses milicianos laranjas deveriam pagar por seus crimes. No poder, Hitler e Mussolini festejaram a morte de milhões de pessoas indefesas. Ao final, eles foram devidamente punidos!

    Logo que a notícia da morte por meningite meningocócica do garoto foi estranhamente postada por um colunista de O Globo, na manhã desta sexta-feira, o ódio ao ex-presidente Lula saiu do esgoto. Dezenas de leitores deste jornal – que ajudou a chocar o ovo da serpente fascista com sua criminalização da política e sua satanização das esquerdas – fizeram questão de postar seus comentários asquerosos. Muitos desses babacas desalmados são apenas massa de manobra da cloaca burguesa, que nunca tolerou o “reformismo brando” do ex-presidente que tirou milhões de brasileiros da miséria. Manipulados, eles acreditam que todos os males da humanidade – inclusive sua imbecilidade e nulidade – são culpa de Lula. Por isso, festejaram a morte do neto Arthur Araújo, da esposa Marisa Letícia e do irmão Genivaldo Inácio da Silva, o Vavá, no mês passado.

    No clima de ódio e irracionalidade que corrói a sociedade, eles inclusive já não se escondem no anonimato, como é o caso da “youtuber” Alessandra Strutzel. Logo após a notícia da morte, a figura escrota postou uma foto de Lula com Arthur e a frase sádica: “Pelo menos uma notícia boa”. Diante da reação de um seguidor – “Qual é a notícia boa?” –, a doente respondeu: “Um filho da puta a menos”. O seguidor replicou: “Acho que você não entendeu. Quem morreu foi o neto, uma criança de 7 anos”. E a tréplica da fascista bem que justificaria um processo na Justiça e uma severa punição: “Entendi sim. Pensa, iria crescer com exemplo do avô, um filha da puta a menos para roubar nosso país”. Na sequência, como todos os covardes fascistas, ela pediu desculpas e alegou que “com a postagem que fiz, eu só queria saber como as pessoas reagiriam”.

    O pior neste dia triste não foram os comentários escrotos no jornal O Globo ou as postagens da “youtuber” babaca. O mais lastimável foi a postura do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente do laranjal da República. Diante de uma enquete sobre a liberação de Lula para acompanhar o enterro do neto, o que é previsto na legislação, o “pimpolho” do fascista respondeu: “Lula é preso comum e deveria estar num presídio comum. Quando o parente de outro preso morrer, ele também será escoltado pela PF para o enterro? Absurdo até se cogitar isso, só deixa o larápio em voga posando de coitado”. Para quem tem um pai que disse que não o visitaria no presídio da Papuda, é compreensível o rancor deste fascistinha!

    Em tempo: Qual seria sua atitude diante da prisão de algum membro da famiglia Bolsonaro – seja devido aos vínculos com as milícias assassinas do Rio de Janeiro; ao uso de dinheiro público no emprego de laranjas; ou por apologia ao estupro e a violência; ou por outros crimes?

    Postado por Altamiro Borges

  • Portugal comemora nesta segunda-feira (25) a Revolução dos Cravos, que trouxe a tão esperada liberdade, ceifada por 48 anos de ditadura fascista, comandada por Antônio Oliveira Salazar, que quase levou o país à bancarrota, pelos desmandos e terror.

    E para festejar esse feriado, símbolo da liberdade, da Justiça e da igualdade, os portugueses promovem desfile em Lisboa. Neste ano um grupo estará prestando solidariedade à presidenta Dilma e à democracia brasileira.

    Em 25 de abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, juntamente com populares e a fundamental liderança do Partido Comunista Português (PCP), o governo salazarista foi deposto e uma nova Constituição erigida no país.

    "A revolução de abril é patrimônio do povo e é patrimônio do futuro. Patrimônio construído pela luta dos trabalhadores e do povo e que nós comunistas nos orgulhamos de ter dado uma contribuição inigualável, não apenas na longa e heroica resistência, mas em todos os momentos decisivos da sua construção", afirma Jerônimo de Sousa, secretário-geral do PCP.

    A senha para o início da revolução foi a execução da música “Grândola Vila Morena”, de Zeca Afonso, proibida pela censura salazarista. Um trecho da bela canção diz:

    “Em cada esquina, um amigo
    Em cada rosto, igualdade
    Grândola, vila morena
    Terra da fraternidade

    Terra da fraternidade
    Grândola, vila morena
    Em cada rosto, igualdade
    O povo é quem mais ordena”

    Assista o clipe e ouça Grândola Vila Morena (Zeca Afonso):

     

    O nome Revolução dos Cravos veio porque a população saiu às ruas em comemoração distribuindo cravos, a flor nacional, aos soldados rebeldes. Eles colocavam as flores na ponta de seus fuzis.

    O movimento revolucionário foi saudado pelos democratas e partidos de esquerda do mundo todo. Muitos celebraram a novidade de ver um Portugal livre, assim como proporcionou a liberdade às suas colônias. Era a vida e a solidariedade vencendo o ódio e a violência.

    Chico Buarque rendeu a sua homenagem à revolução. A canção “Tanto Mar” acabou censurada pela ditadura brasileira por ver ligação com o ideal de liberdade e igualdade da Revolução dos Cravos. Escreveu Chico:

    “Sei que está em festa, pá
    Fico contente
    E enquanto estou ausente
    Guarda um cravo para mim”

    Assista clipe de Tanto Mar (Chico Buarque): 

    Como escreveu Adalberto Monteiro, presidente da Fundação Maurício Grabois e editor da revista Princípios, na sua poesia “Cravos de Abril” (leia a poesia na íntegra aqui):

    “Portugal que criou a ciência dos mares,
    Vê Lisboa alagada pela esperança,
    Vê, novamente, nos punhos cerrados do povo
    A bravura de quem venceu a fúria dos oceanos,
    E a selvageria dos tiranos”.

    Assista depoimento que a deputada Joana Mortágua fez na Assembleia de Portugal, contra o golpe em marcha no Brasil. 

     

    No final os cravos foram recolhidos, mas a democracia prevaleceu. Mesmo porque “esqueceram a semente em algum canto do jardim”, como canta Chico Buarque, e os sonhos dos portugueses do 25 de abril de um mundo mais igual persiste.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • Esu é a “pedra fundamental” da tradição ioruba. Ele sustenta o edifício dessa milenar forma de sacralização das forças cósmicas do universo, de acordo com Oga Gilberto Antônio Ferreira[2]. Nas palavras do babalorisá José Tadeu de Paula Ribas[3], a “degradação” de Esu foi decisiva para a escravização dos povos das regiões atuais das Repúblicas da Nigéria, do Benim e Togolesa, na África Ocidental.

    O etnocídio foi articulado com o objetivo de submeter os povos negros às condições degradantes.

    É esse o cenário das violências perpetradas contra as tradições africanas. Ela procura manter o processo de desumanização do elemento negro, inaugurada no século VII, pelos povos da península arábica, e a partir do século XVI, pelos povos europeus[4].

    A desarticulação do legado das civilizações negras foi a condição sine qua non para o êxito da “corporação escravocrata”.

    Desde a “abolição formal”, as táticas de sujeição mudaram, mas mantiveram a essência desumanizadora.

    No período pós 1888, os terreiros [locais de síntese das diversas tradições africanas das matrizes ioruba, jejê e bantu] foram espaços de rearticulação dos universos cosmológicos desses povos.

    Neles, foram tecidas as novas narrativas sagradas, formas de organização sociais e associativas, práticas pedagógicas tradicionais [imanências e transcendências], visões éticas e estéticas, para a “nova ecologia humana” que se descortinou.

    Um ponto de inflexão da “quilombagem”[5]!

    No período “duro” da transição demográfica [entre os anos de 1870 e 1930, quando se decidiu pelo extermínio do elemento negro, no prazo de cem anos, segundo as palavras do representante brasileiro no Congresso Universal das Raças, em Londres, em 1911, João Batista de Lacerda[6]], os terreiros foram as bases das novas identidades negras.

    O arquétipo dos òrìsá, nkisi e vodun alimentou a autoestima, a coragem e a valorização dos traços negros, ante a violência da sociedade global e do estado.

    Eles foram o anteparo ao preconceito [visão de menor valia], à discriminação [segregação física e simbólica] e ao racismo [genocídio] que se abateu sobre os afrodescendentes.

    Na fase moderna, em que as cidades se transformaram em local das grandes disputas políticas [tangíveis e intangíveis], segundo o geógrafo Milton Santos[7], o espaço vital do terreiro se converte em obstáculo à fúria neoliberal.

    O terreiro foi o hospital, a escola, a moradia, o “porto seguro das políticas públicas” das populações desassistidas. Nas periferias abandonadas pelo estado [morros, favelas, cortiços, áreas alagadas e degradadas] insurgiam “as cidadelas” negras.

    A fúria “sectária” neopentecostal é a configuração litúrgica do capital e da expropriação global da mais-valia. O “ter” procura esmagar o “ser” com o “desejo oculto” de aniquilamento da diversidade.

    Os valores civilizatórios afro-brasileiros enlaçados nos terreiros [oralidade, circularidade, religiosidade, corporeidade, musicalidade, cooperativismo/comunitarismo, territorialidade/território, ancestralidade, memória, ludicidade e energia vital/asé, segundo a pedagoga Azoilda Loretto da Trindade[8]] são obstáculos a essa sanha.

    A razão que se esconda por trás das violências contra as tradições africanas, portanto, é a desumanização da afrodescendência, como uma das estratégias para ocupação do território das cidades pelo capital. Fanatismo religioso convertido em reacionarismo político!

    Esse enfrentamento se repete em todas as “quebradas” do mundo, onde essas tradições são polos de resistência.

    Por esses motivos, a defesa das tradições afrodescendentes e afro-brasileiras é uma imposição ética para todas e todos que sonham [mas com a condição de realizá-la] com uma sociedade igualitária, diversa e múltipla, e com a presença imprescindível das digitais africanas no barro civilizatório brasileiro.

    *Juarez Xavier é coordenador Executivo do Núcleo Negro Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” [UNESP] para a Pesquisa e Extensão [NUPE].

    [2]Disponível em http://ogagilbertodeesu.blogspot.com.br/2010/05/resumo-ao-defendermos-tese-de-que-esu.html.

    [3]Disponível em http://blog.ori.net.br/?p=687.

    [4]Disponível em http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-view/news/general_history_of_africa_collection_in_portuguese-1/#.Vull6PkrKM8.

    [5]Disponível em http://www.grabois.org.br/portal/resenhas/135474/2015-06-19/o-pensamento-radical-de-clovis-moura.

    [6]Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702011000100013.

    [7]Disponível em http://www.geografia.fflch.usp.br/semangeo/pdf/Capitulos_do_livro.pdf.

    [8]Disponível emhttp://www.diversidadeducainfantil.org.br/PDF/Valores%20civilizat%C3%B3rios%20afrobrasileiros%20na%20educa%C3%A7%C3%A3o%20infantil%20-%20Azoilda%20Trindade.pdf


    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

  • Em vídeo gravado pelo Brasil de Fato e pelos Jornalistas Livres, a atriz Letícia Sabatella contou o que aconteceu no caso da agressão da qual foi vítima, na tarde deste domingo (31). Ela disse que mora ali perto e estava indo almoçar para depois ir ao ato “Fora Temer”.

    Sem se abater, Sabatella diz que sentiu “uma falta de argumento, que acabava chegando a um xingamento”, mas, que ela parou ali apenas para conversar com uma senhora que a abordou. “Isso é uma coisa que está fazendo parte do nosso país”, afirma.

    A secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Ivânia Pereira afirma que isso aconteceu "em decorrência das posições políticas assumidas por ela". Portanto, "os ataques à atriz acontecem porque essas pessoas acreditam que a mulher não pode opinar sobre política, economia, cultura, enfim, sobre nada que seja relacionado aos interesses da nação".

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    "Infelizmente uma agressão cometida não há como voltar atrás", lamenta Pereira, mas "a CTB repudia toda agressão misógina sofrida por uma mulher". Ela diz que "para essas pessoas, a mulher só presta se for de direita e submissa. Mas isso acontece graças ao golpe desse governo machista, misógino, homofóbico e racista". 

    Já Sabatella afirma que “é uma pena que não dá para conversar com as pessoas”. A atriz conta ainda que a “manifestação deles deve ter sido muito ruim” e, por isso, provavelmente agridem. E a “do ‘Fora Temer' foi muito mais amorosa”.

    A sempre inteligente e politizada Sabatella garante também que “isso está acontecendo com muitas pessoas, com pessoas maravilhosas, que eu estou vendo sofrer este tipo de coisa, ou coisas piores, injustiças mesmo. Como as prisões e mortes de índios Guarani e Kaiowá (leia mais aqui), com os sem-terra”.

    Assista o vídeo com o depoimento de Letícia Sabatella 

    Veja o vídeo da agressão feito pela própria atriz 

    Acompanhe vídeo com Alexandre Frota na manifestação fracassada em defesa golpe na avenida Paulista, em São Paulo, e entenda o clima de ódio, alimentado por quem não tem o que dizer 

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • Não tenho esperança no povo que elegeu um Fascista, nem nos partidos nem nos jovens individualistas lacradores

    Por Mara Telles* no Facebook

    Não levem a sério meus posts nestes dias. Eu tô com muita raiva e me sentindo impotente. Trabalhei desde os 16 anos. Sempre sem carteira assinada. Fui bolsista de Iniciação Científica. Depois Bolsa de Aperfeiçoamento, que nem existe mais. Após, bolsa de Mestrado e Doutorado.

    Enquanto fazia pesquisas, nunca me lembrei de pagar INSS. Fui bolsista de ProDoc no Nordeste, Programa que nem existe mais. Passei a vida feito caixeiro viajante, em busca de oportunidades de trabalho e com minha filha na mala. Rodei o Brasil: onde tinha dinheiro, eu corria atrás. Fui de SP ao Nordeste.

    Passei num concurso pra Federal, embora ganhasse o triplo no mercado, em São Paulo. Fiz pós-doutorado, com bolsa da Capes e da Espanha. Voltei várias vezes praquele pais com recursos da Espanha.

    Hoje não tenho nada.

    Não sobrou uma só pedrinha pra pagar os estagiários de pesquisa. A grana sumiu. Ganho muito menos que se estivesse optado por continuar no mercado. Um agregado do Ministro diz que somos ensinadores de Pedofilia e Incesto. Outro diz que estamos pelados, apesar de eu ter pelancas soltas por ficar horas sentadas defronte ao computador.

    Não tenho esperança no povo que elegeu um Fascista, nem nos partidos nem nos jovens individualistas lacradores.

    Eu só sinto raiva e impotência por ter passado a vida toda dedicada à pesquisa e terminar minha vida pobre, falida, acusada de “incesto” pelo governo, processada pela universidade por não me “dedicar” exclusivamente a ela, sem nenhuma esperança de sair do cheque especial.

    O mundo que eu vivia acabou. Eu não sirvo mais pro meu país. Sou apenas uma professora pelancuda, pelada e Comunista doutrinando alunos. Quem não se toca em ser descrito assim não tem mais alma.

    Fim.

    *Professora no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política/Fafich/UFMG

  • Em discurso endereçado aos militares, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou nesta quinta-feira (7) que democracia só existe se as Forças Armadas "assim o quiserem", uma noção golpista que ignora a história e despreza o povo e as lutas sociais.

    A democracia no Brasil foi conquistada e reconquistada, em 1985, pelas mãos do povo, a despeito e contra a vontade e os interesses dos militares que promoveram um golpe de Estado em 1964, apoiados pelos EUA, e só largaram o poder depois da memorável campanha das Diretas Já, com  milhões de brasileiros e brasileiras pedindo democracia nas ruas, quando perderam a batalha presidencial no Colégio Eleitoral.

    Lições da história

    Convém lembrar que, à época, o candidato dos generais era Paulo Maluf, do PDS (filho pródigo da Arena), que perdeu o pleito indireto no Congresso Nacional para Tancredo Neves. A morte de Tancredo, poucos dias depois de eleito, levou a multidão de volta às ruas (entre 3 a 4 milhões só em São Paulo) e foi o que impediu um novo golpe, garantindo a posse do seu vice, José Sarney, e a transição para a democracia, que infelizmente não foi plena o suficiente para punir torturadores e banir do cenário político nacional o fantasma do fascismo, da ignorância e intolerância, encarnado agora na figura sinistra de Jair Bolsonaro.   

    As Forças Armadas nunca foram fiadoras da democracia no Brasil. As lições elementares da história revelam o contrário, infelizmente. Há muito elas servem a interesses reacionários, opostos aos do povo e mesmo aos da nação.

    O presidente da extrema-direita fez um rápido discurso na cerimônia no 211º aniversário do Corpo de Fuzileiros Navais, na Fortaleza de São José da Ilha de Cobras, no centro do Rio de Janeiro. Ele descreveu sua vitória nas eleições do ano passado como uma missão, certamente a missão de servir os interesses da burguesia, dos latifundiários e do imperialismo em detrimento do povo e da nação.

    “A missão será cumprida ao lado das pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa, daqueles que amam a democracia. E isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Força Armada assim o quer”, afirmou. Note-se que, em nome do alinhamento ideológico (com Donald Trump dos EUA) ele já está causando sérios prejuízos econômicos ao Brasil, comprando encrenca gratuita com a China (simplesmente a maior economia do mundo, que suspendeu investimentos no país) e os países árabes, indignados com o anúncio de que a embaixada do Brasil em Israel será transferida para Jerusalém, em detrimento dos palestinos. Observem a mentira e o cinismo: ele disse que não ia governar com base em ideologias, mas subordina todos os seus gestos e iniciativas à ideologia mais tosca e obscura do planeta, que pode sem erros ser classificada de neofascista.

    Fugindo de jornalistas

    Bolsonaro discursou por pouco mais de quatro minutos e, como era de se esperar, não atendeu a imprensa após o evento. Ele morre de medo das perguntas incômodas dos jornalistas depois de transformar o Brasil em piada internacional com atitudes destrambelhadas orientadas pelo ódio anticomunista e antipetista e a bizarrisse de postar um vídeo pornográfico no Twitter para caluniar o Carnaval, a maior festa popular do Brasil, que neste ano foi marcada pela hostilidade e oposição ao seu desastrado desgoverno.

    Em janeiro, em seu segundo dia de governo e também diante de militares, Bolsonaro havia adotado um discurso na mesma linha. Na ocasião, disse que as Forças Armadas do Brasil são obstáculo para quem quer usurpar o poder no país. “A situação em que o Brasil chegou é prova inconteste de que o povo, em sua grande maioria, quer respeito, quer ordem, quer progresso”, afirmou naquele dia. Que o povo quer ordem e progresso ninguém duvida, mas o presidente da extrema direita é o demônio do caos, do retrocesso e da discórdia.

    A repercussão negativa não tardou. Sobre o discurso fascista, o professor Fernando Haddad (PT), que foi candidato nas últimas eleições presidenciais, cobrou uma explicação. "Infelizmente, o presidente não atendeu a imprensa para explicar o raciocínio", escreveu no Twitter. Já a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, não deixou por menos. "Essa pessoa não tem limites na agressividade! A Democracia foi conquistada pela sociedade brasileira. Não é objeto de tutela ou permissão. Terá muita luta pra defendê-la, apesar de vc e seus aliados", disse ela na rede social.

    Não é concessão

    Para o deputado Orlando Silva, líder do PCdoB na Câmara, a democracia é uma conquista de toda a sociedade brasileira e resulta de uma história complexa e cheia de sacrifícios. “E não é concessão. O presidente da República deveria ser mais cuidadoso quando fala sobre temas-chave da vida nacional. A democracia brasileira precisa ser cultivada”, pontuou.

    Líder da Oposição no Senado, Ranfolfe Rodrigues (Rede-AP) também criticou a fala do presidente. “Os equívocos de raciocínio na cabeça de Jair Bolsonaro são tantos que ele confunde o que chama de valores familiares com liberdade e democracia. Presidente, a democracia é soberana! As Forças Armadas têm o dever constitucional de defender a democracia”, destacou.

    "Ele ataca a Constituição que diz `Todo poder emana do povo´. Mais uma vez comete crime de responsabilidade e atenta contra a dignidade do cargo. Pior, constrange os militares a assumirem o autoritarismo", escreveu o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP).

    O deputado federal Alexandre Padilha (PT) disse que Bolsonaro cometia um "ataque irreparável" à Constituição ao "tutelar a nossa democracia ao bem dispor dos militares".

    Umberto Martins, com informações das agências

  • O publicitário Floriano Amorim, futuro chefe da Secom (Secretaria de Comunicação) do governo de Jair Bolsonaro, mantém um perfil no Twitter com discursos de ódio contra a mídia e jornalistas e opiniões bem similares às do chefe, seus filhos e correligionários.

    Amorim, que hoje é assessor do gabinete do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), tem o hábito de replicar postagens da família. Ele costuma tratar a Folha, por exemplo, como “Foice”, símbolo do comunismo.

    Ao republicar post sobre uma pesquisa do instituto Datafolha, o futuro secretário comentou: “Mais ridículo ainda é perceber que ainda tem gente que dá crédito a uma pesquisa encomendada pela Globo e Folha de SP! Isso já está ficando bizarro e feio pra essa esquerdalha”.

    Amorim afirmou também, na rede social que, ao cortar verbas de propaganda oficial, Bolsonaro estará fazendo girar a economia.

    “Com essa ação, aqueles que sempre se deram bem nas contas de governo irão ter que mostrar serviço no mercado privado. Em consequência, irão aquecer o mercado. 17!”, disse, citando o número do PSL, sigla de Bolsonaro.

    Ele também sugeriu punição ao homem acusado de matar a pauladas uma idosa de 106 anos no Maranhão: “Um animal desses só tirando toda a pele e soltá-lo no meio do sertão”, escreveu o publicitário.

    Foto: Reprodução Twitter

    Amorim terá como atribuição cuidar dos contratos de publicidade oficial do governo. Sua indicação para a Secom não foi oficializada por Bolsonaro, mas nesta semana o futuro ministro da Secretaria-Geral, Gustavo Bebianno, afirmou que ele é o escolhido.

    Sobre um jornalista do UOL, Amorim endossou post de Carlos Bolsonaro (PSC) e comentou: “Essa escória com alcunha de jornalista é um peso morto pro país”.

    Ele também comparou o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, ao cachorro do ex-presidente americano George Bush, que ficou ao lado do caixão do dono no funeral: “Nem Haddad agiu assim com seu mentor”, em alusão a Lula.

    Amorim foi informado por email e mensagem sobre o teor desta reportagem, produzida pela Folha, mas não respondeu sobre os posts.

    “Dentro do possível estou tentando responder diversas demandas. Na oportunidade certa vamos nos falar”, disse.

    Na noite desta quarta (12), no entanto, o seu perfil no Twitter foi alterado e passou a ser fechado. Com os tuítes protegidos, novos seguidores terão que ser autorizados pelo dono.

    O nome da página também mudou para “Brasil” e a foto de Amorim foi substituída por uma imagem da bandeira nacional.

    Fonte: Portal Fórum

  • Por Leonardo Sakamoto, em seu blog na UOL

    Um ataque em duas mesquitas em Christchurch, terceira cidade mais populosa da Nova Zelândia, deixou 49 mortos e 48 feridos, entre eles, crianças, nesta sexta (15). O atirador, um australiano, transmitiu o massacre via uma live no Facebook.

    No manifesto de ódio deixado por ele, descreve-se como “um homem branco comum”, de “sangue europeu”, “etnonacionalista” e “fascista”. Com seu ato, quis, segundo ele, “mostrar aos invasores que nossas terras nunca serão as terras deles, enquanto um homem branco viver”.

    Independentemente do nível de sanidade ou psicopatia do autor, o discurso que ele reproduziu como justificativa para o massacre está alinhado às porcarias ultranacionalistas e xenófobas pregadas por grupos políticos de extrema direita ao redor do mundo. Porcarias que conquistam cada vez mais espaço à medida em que seus líderes assumem o poder em diferentes países.

    Xenofobia

    Nesta sexta, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, solidarizou-se com as vítimas na Nova Zelândia, chamando o ocorrido de “perverso ato de ódio”.

    O mesmo Trump, contudo, havia afirmado “nós devemos manter o ‘mal’ fora de nosso país!”, em sua conta no Twitter, em referência a uma decisão do Tribunal Federal de Seattle que havia suspendido temporariamente o seu decreto impedindo a entrada de pessoas de sete países de maioria islâmica em 2017.

    Essa paradigmática declaração é útil para entender o massacre desta sexta nesse pacífico país da Oceania. A ideia de “mal” usada por Trump tem significados que se desdobram. A princípio representa o terrorismo de algumas organizações que ele afirma tentar evitar – apesar de nenhuma pessoa dos países barrados por ele, até aquele momento, ter cometido atentados nos EUA. Mas ao baixar uma proibição indiscriminada a todos os cidadãos desses países, Trump os tornava suspeitos simplesmente porque foram proibidos de entrar. E a percepção do que seja o “mal” se estende, metonimicamente, aos inocentes. É a tática do linchamento: se adoto uma punição contra você é porque você fez algo errado.

    Durante a campanha de Trump à Presidência, o tema da migração ganhou destaque com o então candidato culpando os estrangeiros pobres por todas as desgraças que acontecem em solo norte-americano – de estupros ao tráfico de drogas e principalmente o terrorismo.

    Supremacistas brancos

    E isso está longe de corresponder à realidade. Mayra Cotta, pesquisadora da New School for Social Research, em Nova York, mostrou, em artigo neste blog na época, que 64% dos ataques com armas em espaços públicos nos Estados Unidos eram causados por homens brancos que nasceram naquele país. Homens, frequentemente supremacistas brancos, que entraram armados com sua ideologia racista em jardins de infância, escolas, universidades, cinemas, igrejas, mesquistas, repartições e escritórios e começaram a matar as pessoas ao se redor, sem necessariamente um alvo específico.

    Líderes nacionalistas em várias partes do mundo evitam se referir aos seus “soldados”, que matam e morrem em nome dessa ideologia, como o “mal”. Até porque seria muito difícil explicar a seus eleitores – pelo menos os que buscam soluções fáceis para o medo que sentem – que parte da violência em seu país está ligada a desvios e questões mal resolvidas de seus próprios indivíduos e sociedade e não necessariamente de agentes externos.

    Trump, o presidente da maior potência global, cumpriu um papel importante para os ultranacionalistas em todo o mundo ao escancarar tudo isso sem mediações e esticar a corda, ultrapassando o limite da racionalidade e atingindo pilares da democracia. Ao eleger inimigos, tachá-los (famílias de latino-americanos como ladrões e estupradores, muçulmanos, terroristas, chineses, desleais…) e afirmar que estão apodrecendo a sua sociedade, transfere o problema para terceiros e enfraquece a possibilidade de reflexão.

    O “mal” é sempre o outro, o migrantes, o islâmico, o negro, o homossexual, o que não se parece conosco, nunca nós mesmos. Mesmo que tenha sido um homem branco de “sangue europeu” a causar o mal, não migrantes e refugiados.

    Com já disse aqui, esse discurso empodera muita gente. Nos Estados Unidos, isso ajudou a que centenas de desprezíveis racistas e neonazistas marchassem em Charlottesville, carregando tochas e entoando palavras de ordem contra negros, migrantes, homossexuais, judeus.

    Mas também no resto do mundo. Os 49 migrantes em Christchurch eram culpados, na cabeça do atirador. Afinal, iriam morrer por suas mãos para o reestabelecimento da ordem.

    O que fazer quando o “mal” somos nós mesmos? A resposta que vem sendo largamente adotada é encontrar um inimigo e insistentemente transferir o problema a ele até que nos esqueçamos de nossa responsabilidade.