Sidebar

25
Ter, Jun

gênero

  • Nesta sexta-feira (14), a nossa gloriosa União de Negros pela Igualdade (Unegro) completa seus 29 anos de atuação ininterrupta na luta contra o racismo e todas as formas de discriminação, contra as desigualdades de gênero e toda a exploração capitalista.

    Nestes quase 30 anos, enfrentamos muitas batalhas, acumulamos vitórias, mas sobram desafios. A dureza e a profundidade da crise no Brasil nos convocam a jamais esmorecer e continuar lutando por um mundo livre de racismo, sexismo e LGBTfobia, as múltiplas intolerâncias e perseverar na construção de uma sociedade socialista e multirracial!

    Avante militância!!

    Parabéns pelos 29 anos de luta da Unegro!!

    Ângela Guimarães, presidenta da Unegro.

    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

  • A partir da ação final da segunda fase da Operação Glasnost, da Polícia Federal (PF), que investiga crimes de abuso sexual à crianças e pedofilia, levou para a prisão 33 pessoas, entre elas, pais, professores, médicos, estudantes e um porteiro, com idades de 18 a 80 anos, o Portal CTB debate como coibir a pedofilia e o abuso sexual de crianças e jovens.

    A operação ocorreu em 14 estados, mas foi o Paraná que teve o maior número de prisões e apreensão de material pornográfico em computadores, celulares e máquinas fotográficas. De acordo com o delegado da PF, Flávio Augusto Palma Setti, esta ação chamou a atenção pela prisão inclusive de pais abusadores das filhas.

    O problema da pedofilia trouxe à tona o debate sobre a necessidade de ter educação sexual nas escolas como uma das formas de se coibir essa violência.

    “É fundamental o debate sobre as questões de gênero e sexo nas escolas para alertar as crianças e os jovens sobre o que é carinho e o que é abuso”, diz Marilene Betros, dirigente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

    A sindicalista baiana concorda com a nadadora pernambucana Joanna Maranhão que criou a Organização Não Governamental (ONG) Infância Livre, para cuidar de crianças que sofrem abusos em Recife, a partir de sua própria experiência. Em uma entrevista à BBC Brasil, a atleta defende educação sexual nas escolas, inclusive para dificultar a ação de pedófilos.

    Para ela, "mais importante do que desmascarar o pedófilo é educar sexualmente as crianças. É preciso ter uma educação sobre isso, sobre qual carinho pode, qual não pode, o que são certas coisas. É preciso falar disso na escola".

    Betros reforça a necessidade de um amplo debate sobre a sexualidade para “além de coibir ações de pedófilos, orientar as crianças a identificar os abusos e as famílias a apoiarem suas filhas e filhos”.

    É muito importante também, diz, “orientar as educadoras e os educadores sobre como identificar os sinais do abuso que as crianças e jovens dão, porque em muitos casos, as vítimas não entendem o que está acontecendo, mesmo sentindo-se mal com a situação”.

    Ela defende a necessidade de efetivação de políticas públicas capazes de impedir a ação de abusadores com o aparelhamento dos conselhos tutelares que “não têm os equipamentos necessários para prestar ao atendimento devido”.

    Também há necessidade de “locais apropriados de atendimento para as vítimas, com médicos, psicólogos e tudo o que for preciso para salvar a vida da criança abusada. Porque a gravidade da agressão pode levar a vítima até ao suicídio por não enxergar saídas, principalmente porque boa parte dos agressores são pessoas próximas”, conclui.

    A escola exerce papel fundamental para alertar sobre essa violência contra vulneráveis. “Educação, diálogo e informação de qualidade são essenciais para coibir não só a pedofilia, mas toda a ação de exploradores sexuais”.

    Porém, alerta Betros, "somente a educação sexual nas escolas não basta, é necessário criar um amplo movimento nacional para proteger as nossas crianças, orientando as famílias a identificar as situações de violência".

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy. Foto: Coletivo da Cidade

  • A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil reafirmou nesta terça-feira (7) seu compromisso com a garantia dos direitos das mulheres e da população LGBT, posicionando-se de forma contrária a toda forma de discriminação e violação dos diretos humanos em qualquer circunstância e, em especial, em espaços educativos.

    “As desigualdades de gênero, muitas vezes evidenciadas pela violência sexual de meninas, expõem a necessidade de salvaguardar marcos legais e políticos nacionais, assim como tratados internacionais, no que se refere à educação em sexualidade e de gênero no sistema de ensino do país”, diz comunicado da Unesco.

    A entidade baseia-se nos alarmantes índices de violência contra as mulheres no país e em recentes acontecimentos com estupros coletivos, principalmente o ocorrido no Rio de Janeiro, no qual mais de 30 homens estupraram uma menina de 16 anos.

    Por isso, para a Unesco no Brasil, é essencial aprofundar o debate sobre sexualidade e gênero no país. “Aprofundar o debate sobre sexualidade e gênero contribui para uma educação mais inclusiva, equitativa e de qualidade”.

    Recentemente a nadadora Joanna Maranhão defendeu em entrevista à BBC Brasil a inclusão de educação sexual nos currículos escolares como forma de se coibir a pedofilia. Para ela, "É preciso ter uma educação sobre isso, sobre qual carinho pode, qual não pode, o que são certas coisas. É preciso falar disso na escola". Joanna sofreu abuso sexual na infância e criou a ONG Infância Livre para combater essa prática.

    Marilene Betros, dirigente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e secretária da Mulher da CTB-BA acredita que “a escola tem que ser plural. Precisa ter um olhar amplo sobre tudo o que acontece no Brasil e no mundo”. Por isso, “nós defendemos que a escola forme cidadãos e cidadãs plenamente, com uma pedagogia voltada para o respeito e para a igualdade”.

     todas sangrando

    Porque isso, “orienta as crianças sobre algo que elas ainda não são capazes de entender sozinhas e, portanto, não sabem lidar", afirma Isis Tavares, presidenta da CTB-AM. "Esse tipo de orientação para crianças e adolescentes nas escolas deve ser abordado com base na biologia e na psicologia, levando em conta a afetividade e questões sobre a cidadania, tudo de modo interligado para possibilitar o conhecimento pleno e sem tabus", complementa.

    “Isso se torna ainda mais importante uma vez que a educação é compreendida como processo de formar cidadãos que respeitem às várias dimensões humanas e sociais sem preconceitos e discriminações”, diz a Unesco.

    A presidenta da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, Camila Lanes, defende que a educação deva ser compreendida com uma área estratégica em qualquer país e, portanto, sirva para disseminar o saber, voltado para o respeito ao ser humano, às diferenças” e, assim, “combater todas as formas de violência, ódio e discriminação”.

    Ela lembra inclusive que no ano passado o tema de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira". O que provocou a fúria dos setores reacionários da sociedade, principalmente porque muitas meninas retrataram casos reais (leia aqui).

    Em todos os seus documentos, a Unesco defende que “estratégias de educação em sexualidade e o ensino de gênero nas escolas é fundamental para que homens e mulheres, meninos e meninas tenham os mesmos direitos, para prevenir e erradicar toda e qualquer forma de violência, em especial a violência de gênero”.

    Com diz, Ivânia Pereira, secretária nacional da Mulher Trabalhadora da CTB, “não existe sociedade democrática sem a participação efetiva das mulheres na construção de uma civilização que respeite os direitos de todos e todas dialogarem e se posicionarem sem medo de serem felizes”.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy - Foto: Gabo Morales/Acnur

  • As pautas do combate à LGBTfobia, da luta contra o racismo e pela emancipação da mulher trabalhadora foram tônicas presentes no 4º Congresso da CTB. As mulheres mostraram que a organização e o protagonismo na luta dos últimos quarto anos levaram a CTB RJ a um novo patamar nesse debate e se fizeram presente de forma expressiva, qualificando o debate.

    Para Kátia Branco, Secretaria da Mulher Trabalhadora da CTB-RJ, a massiva presença das mulheres no congresso é um reflexo da importância que a CTB dá à questão da mulher trabalhadora. Kátia também acredita que outros debates importantes mostraram o caráter plural da central classista

    “Foi um congresso com uma participação expressiva das mulheres, o que reflete o empoderamento da mulher dentro do sindicalismo classista. Um congresso onde a questão racial foi debatida de foram profunda e onde o respeito à diversidade e o combate à homofobia não foram ignorados. Enfim, um congresso onde a CTB-RJ conseguiu mostrar que o sindicalismo classista consegue fazer o recorte das pautas identitárias sem esquecer a questão da classe e que nos preparou para enfrentar as opressões do capital.”

    Mônica Custódio, Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da CTB, logo após fazer o balanço da luta racial dentro do sindicalismo classista, se mostrou muito satisfeita com a construção do congresso, com a participação das mulheres e com a atividade como um todo:

    “Foi um congresso exitoso desde a organização, com uma organização que foi tranquila, com uma comissão que se dava muito bem. A abertura foi extremamente representativa, as pessoas vieram com maior carinho e com vontade. As outras forças políticas com enorme respeito. Fizemos a abertura num sindicato centenário, que acabou de completar 100 anos agora, os metalúrgicos do Rio, o que valoriza muito a nossa diretoria. Uma participação impressionante das mulheres na atividades. As companheiras vieram e participaram ativamente das intervenções. Foi um congresso muito bacana, de muita felicidade.”

    A pauta da diversidade sexual e do combate à homofobia também marcou presença no 4º Congresso da CTB Rio de Janeiro. O presidente da União Nacional LGBT – Carioca (UNA LGBT Carioca) e diretor do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro, Marcelo Max, pontuou a questão da população LGBT dentro do mercado de trabalho e chamou os sindicalistas classistas a também se inserirem nessa luta:

    “A gente vem fazendo esse debate no próprio Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro, onde a gente faz esse recorte porque a população LGBT porque essa população tem pouco amparo e pouco espaço para pautar as demandas do seu dia a dia. A gente vem mensurando que existe muito preconceito dentro do local de trabalho, existe falta de pessoas LGBTs no mecado de trabalho e as poucas que estão inseridas sofrem muito assédio moral e nós acreditamos que isso é uma cosia que tem que ser debatida pela central. Nós trouxemos esse debate aqui para o congresso para criar condições de lutar pela população LGBT no mercado de trabalho e para caminhar junto contra as opressões que estamos sofrendo desse governo golpista.”

    Para o dirigente José Carlos Madureira, a força com que os debates da questão racial, da mulher e LGBT apresentarem nesse congresso apenas reflete a própria diversidade da sociedade. O dirigente elogiou a diversidade do Congresso:

    “Um congresso que foi representativo no que tange à sua diversidade: hoje temas e pautas fazem parte da agenda da CTB fruto da organização da diversidade que existe na sociedade e se reflete também entre os sindicalistas.”

    José Roberto Medeiros - CTB RJ. Fotos: Bruno Bou

  • Para a deputada estadual gaúcha Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), 35 anos, o movimento sindical não pode adiar o debate envolvendo questões de gênero. “Quem não perceber isso estará cada vez mais distante de suas bases. Não há como abstrair a dimensão de ser mulher na fábrica, no campo ou no escritório com as responsabilidades sociais que nossa cultura patriarcal ainda impõe às mulheres”, diz a parlamentar. Formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, D’Ávila ingressou no movimento estudantil em 1999 e foi vice-presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 2003. No ano seguinte, elegeu-se a vereadora mais jovem de Porto Alegre.

    Em 2006, ela foi eleita deputada federal e ganhou da mídia o título de “musa do Congresso”, em muitas reportagens que celebravam a beleza da parlamentar. “Isso me fortaleceu, fez com que eu trabalhasse ainda mais para desconstruir esses estereótipos”. D’Ávila se destaca na luta pela defesa dos direitos humanos e como ativista pela igualdade de gênero. Ela concedeu, por email, uma entrevista à revista Mulher de Classe:

    Mulher de Classe: Muito difícil ser parlamentar num país predominantemente machista?

    Manuela D’Ávila: Sim, é muito difícil. Sempre foi. E parece que crescem cada vez mais as dificuldades com essa onda conservadora.

    MC: Você despontou no movimento estudantil, como vê as ocupações de escolas e as lideranças femininas nessas lutas?

    MD: Essas ocupações, sobretudo as ocupações das escolas, têm ensinado a geração mais velha como é possível reinventar o movimento estudantil. É incrível que a maior parte delas é dirigida por jovens meninas, que enfrentam dificuldades muito grandes, inclusive nos seus núcleos familiares, que reproduzem o machismo na ocupação das escolas. Uma reinvenção de práticas do movimento estudantil.

    MC: Apesar das políticas públicas de acolhimento das mulheres e de combate à violência, o Brasil é um dos países que mais estupra e assassina mulheres, como vê isso?

    MD: Isso reflete muito da cultura do estupro na sociedade brasileira, da cultura de culpabilização das vítimas, de não falar sobre o assunto, de fazer reproduzir silêncios que na verdade são cúmplices da violência. O Brasil é um país machista, e dentro do machismo existe a idéia da posse da mulher, e da posse da mulher para a violência física e sexual são alguns passos.

    MC: O golpe que derrubou a presidenta Dilma acirrou a violência?

    MD: O golpe fragilizou todas as nossas instituições e, evidentemente, a violência aumentou com isso. A quem a gente deve algum grau de obediência se as instituições não são respeitadas?

    Eu acredito que o golpe acirrou a violência contra a mulher. E mesmo antes disso, o processo de construção do golpe, que foi um processo absolutamente ceticista e misógino, também fez com que essa violência crescesse.

    MC: Qual o papel da mídia?

    MD: A maior parte da mídia é cúmplice dessa construção do discurso machista relacionado com a presidenta Dilma. Basta lembrar das capas das grandes revistas. Na realidade, em um país que tem uma mídia com um comportamento misógino contra a presidenta da República, o que podemos esperar do tratamento dado à mulher comum que trabalha em casa, que auxilia nos serviços da sociedade?

    MC: Você postou em suas redes sociais uma foto amamentando sua filha. Foi atacada e sua resposta viralizou na internet. Como vê uma sociedade em que o ato de amamentar é agredido?

    MD: Tudo aquilo que é considerado público é retirado das mulheres. Às mulheres cabem os atos privados, e amamentar deve ser mantido no ambiente privado, porque na mentalidade machista é assim.

    MC: O que as mulheres precisam fazer para mudar essa cultura machista?

    MD: Elas precisam ocupar o ambiente público. Acho que esse é o principal debate que devemos fazer. Seja o espaço de Poder ou sejam os espaços das cidades.

    MC: Mais mulheres na política pode transformar essa realidade?

    MD: A curto prazo, eu só acredito nas cotas. E que elas sejam pra valer. Com cotas do financiamento público para candidaturas de mulheres, porque as pessoas dizem que mulheres não votam em mulheres. As votações de mulheres para a Presidência da República comprovam que isso não é verdade. As mulheres votam sim em mulheres.

    MC: Poucas têm sido eleitas. Por quê?

    MD: O problema é que elas precisam conhecer essas candidaturas, portanto, é preciso que as mulheres apareçam na televisão e que tenham os mesmos instrumentos que os homens.

    MC: Quando foi eleita pela primeira vez, a mídia te apresentou como a “musa do ongresso”. Como lidou com isso?

    MD: Naquela ocasião, em 2006, uma década atrás, quando eu assumi, foi tudo muito difícil, chegar em Brasília tão jovem como eu cheguei, com 24 para 25 anos, sem ter nenhum parente político, sem ser filha, sem ser neta, sem ter nenhum padrinho político, sem ser casada com um político, eu era a única deputada com menos de 30 anos sem ter um sobrenome importante, e aí eles ainda colocam esse rótulo. Isso me fortaleceu, fez com que eu trabalhasse ainda mais para desconstruir esses estereótipos.

    MC: Como mãe de uma menina, o que espera do futuro na questão de gênero?

    MD: Ser mãe de outra mulher é algo bastante desafiador, porque a gente vê e passa o tempo inteiro em um estado de vigilância com relação à perpetuação desses padrões, dos padrões estéticos, dos padrões de felicidade, dos padrões de divisão de brinquedos que refletem a divisão social dos trabalhos.

    MC: Ser mãe de menina aumenta a responsabilidade para ajudar a romper as barreiras da opressão machista?

    MD: A gente deve ser vigilante com a gente mesmo, mas também com os outros, desde as divisões das cores, das divisões de brinquedos, até a ideia de que menina não brinca com carrinho, e depois ela não pode dirigir, porque ela nunca brincou com aquilo, aquilo não é familiar. Então, é algo que exige muito cuidado porque o movimento da sociedade é muito forte para colocar a mulher no lugar que acreditam que seja o lugar da mulher.

    MC: Acredita que o movimento sindical e os partidos políticos agem para combater o patriarcado?

    MD: Eu acho que o movimento sindical e os movimentos sociais em geral, cada vez mais percebem a relevância da pauta de gênero para a conquista dos trabalhadores, porque não há como abstrair a dimensão de ser mulher na fábrica, no campo, no escritório, com a desigualdade que isso impõe, seja pela não contratação na idade ideal, pela demissão pós maternidade ou pelas responsabilidades sociais que nossa cultura patriarcal ainda impõe às mulheres. Então quem tem que levar na creche, quem tem que levar no posto de saúde é a mulher, isso faz com que ela falte mais dias ao trabalho.

    Tudo isso junto é uma pauta urgente do movimento sindical, e aqueles que não a pautarem estarão cada vez mais distantes das suas bases.

    MC: O que fazer para acabar com a ideologia patriarcal?

    MD: Acho que nós temos que começar tudo junto ao mesmo tempo, desde legislações mais punitivas, até um amplo debate sobre gênero nas nossas escolas e vigilância com conteúdo televisivo e midiático. São muitas as ações necessárias para que a gente tenha um país com uma outra cultura com relação às mulheres.

    Portal CTB - Marcos Aurélio Ruy. Foto: Reprodução do Facebook de Manuela D'Ávila

    Entrevista publicada originalmente na revista Mulher de Classe número 6, de abril de 2017.

  • A secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Ivânia Pereira, coordenou as reuniões – segunda (16) e terça-feira (17) - entre todas as secretárias estaduais da Mulher na sede da CTB nacional, em São Paulo.

    “Encaminhamos a organização de nosso encontro que ocorrerá de 18 a 20 de novembro, no Rio de Janeiro”, diz Pereira. Ela afirma também que esse encontro sobre as questões de gênero contará com as secretarias da Mulher Trabalhadora, Formação e Cultura, Igualdade Racial e Políticas Sociais. "Iremos debater inclusive a cota de gênero de 30% determinada em nosso último congresso".

    Para ela, “é muito importante que as mulheres trabalhadoras se organizem com mais perseverança ainda nestes tempos de propostas extremamente conservadoras no Congresso Nacional, com a retiradas de conquistas fundamentais das brasileiras”.

    As mulheres da CTB não fogem à luta. “Nós sabemos da importância de elevarmos o debate sobre a igualdade de gênero no país e no mercado de trabalho”, complementa Pereira. “As cetebistas responderão à altura os ataques aos nossos direitos”.

    Leia mais

     

    Marcos Aurélio Ruy (texto e foto) - Portal CTB

  • No primeiro Dia Internacional da Mulher – 8 de março – depois do golpe à democracia brasileira com a deposição da presidenta Dilma Rousseff, as brasileiras prometem sair às ruas para pôr fim à violência de gênero e os retrocessos do governo Temer.

    As mulheres prometem cruzar os braços, pelo mundo afora, contra a cultura do estupro e todas as formas de discriminação de gênero. O slogan usado já diz tudo: “Se nossas vidas não importam, produzam sem nós”.

    De acordo com Ivânia Pereira, secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), “já passa da hora de dar um basta. Todas juntas podemos derrotar o machismo que nos oprime e construir um mundo onde predomine a justiça e a igualdade”.

    A CTB defende a equidade para avançar à igualdade nas questões de gênero. Entre as principais bandeiras que tremulam na campanha feminista deste ano está o combate às reformas da previdência e trabalhista (saiba mais aqui).

    Assista depoimento da atriz Sonia Braga aos Jornalistas Livres: 

    As mulheres são as primeiras a serem demitidas e as últimas a se recolocarem no mercado de trabalho. Além disso, “trabalhamos horas a mais que os homens todas as semanas, temos que dar conta de casa e dos filhos, geralmente sem apoio de ninguém”, reforça Kátia Branco, secretária da Mulher da CTB-RJ.

    A situação das mulheres negras é ainda mais degradante, informa Mônica Custódio, secretária de Igualdade Racial da CTB. “Trabalhamos em situação mais precarizada, em serviços de menores salários e ainda moramos mais longe, em situação de vulnerabilidade total”.

    Tristemente, o Brasil é um dos países mais violentos com as mulheres. “A cultura do estupro mata milhares todos os anos, grande parte constituída de meninas, com menos de 14 anos e dentro de casa, por pessoas conhecidas ou da família”, diz Lenir Fanton, secretária da Saúde da CTB-RS.

    Confira explicação da deputada estadual gaúcha Manuela D'Ávila sobre a reforma da previdência: 

    “É muito importante que a CTB e as demais centrais sindicais definam como prioridade a bandeira da igualdade de gênero para que as mulheres, que constituem 52% da população do país possam viver em paz, em segurança e possa realizar-se plenamente como ser humano”, defende Érika Piteres, secretária da Mulher da CTB-ES.

    Por isso, “levaremos para as manifestações em todo o país, além da denúncia da perversidade das reformas do Temer, a necessidade de termos mais mulheres na política para asvançarmos nas conquistas dos últimos anos. Políticas públicas abandonadas pelo governo golpista”, sintetiza Pereira.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • Este tema é um desafio dos mais oportunos para nós da UBM (União Brasileira de Mulheres), da corrente feminista emancipacionista, que defendemos que gênero e raça se realizam em uma estrutura de classe. E mais que características, gênero e raça são processos históricos pautados em hierarquias, opressões e explorações, que se corporifcam em relações sociais e modos como se é tratada/o em instituições diversas, no mercado de trabalho e pelo Estado. Os governos preocupados com bem-estar social e de orientação social democrata modelam políticas compensatórias, no entanto, se omitem de políticas redistributivas. Consideram a pobreza um grande mal e não as desigualdades sociais e a produção de riquezas para poucos.

    Leia também

    Manuela D’Ávila: precisamos falar sobre gênero

    Agora que o governo impostor se apossou do Estado brasileiro, até as políticas compensatórias estão em risco e com a PEC da maldade, que congela investimentos sociais por duas décadas, não vai ter nem como fscalizar a aplicação da lei Maria da Penha, o combate à violência contra as mulheres e os programas por uma educação não sexista. Com a chegada desta onda fundamentalista conservadora que proíbe até de se falar em gênero nas escolas, por considerar o tema uma “ideologia”, isso tudo já era.

    Mas o mundo se move e as mulheres se agitam. Voltando ao desafo: sim, existe um novo feminismo que está descendo da favela e, por vielas próprias, enfrentando a ordem capitalista patriarcal. É um feminismo que não equaciona o projeto do feminismo emancipacionista, que tem como frente mais imediata a emancipação política e como horizonte a emancipação humana. Identifca-se com o que vem sendo chamado de “feminismo negro”, advoga a interseccionalidade de raça, classe e gênero, insistindo que sexismo, racismo e situação de classe se realizam por opressões que se combinam. Angela Davis (foto), uma das precursoras deste feminismo, observa, a partir do ambiente de esquerda norte-americano, nos anos 1980:

    “As organizações de esquerda têm argumentado dentro de uma visão marxista e ortodoxa que a classe é a coisa mais importante. Claro que classe é importante. É preciso compreender que classe informa a raça. Mas a raça também informa a classe. E gênero informa a classe. A gente precisa refetir bastante para perceber as intersecções entre raça, classe e gênero. Ninguém pode assumir a primazia de uma categoria sobre as outras.”

    Um dos princípios básicos do feminismo é descolar do corpo, da materialidade das condições de vida das mulheres, muitas assujeitadas, dóceis e passivas, outras tendendo a rebeliões. Então primeiro há que se conhecer quem é a mulher da favela, suas condições de vida, aqui também englobando aquela nas áreas urbanas periféricas, os ditos ‘bolsões de pobreza’, e como ela vem se fazendo feminista, ou seja, lutando individual e coletivamente por direitos que desestabilizem hierarquias entre homens e mulheres e reivindicando políticas de Estado contra violências e condições infra-humanas de vida.

    Mães públicas

    Nas falas de mulheres jovens que afrmam orientação libertária: “Vou pro funk e fco com quem eu quero. O corpo é meu”. Junto dessa consciência moldes comunitários, tanto de ajuda mútua no cuidar dos flhos da vizinha ou de se unirem contra um marido violento, como as ações em movimento social. Vem chamando atenção as associações de mães de jovens mortos pela polícia que se unem para pedir justiça. O caso das mães públicas é um tipo singular de feminismo. Cito as Mães de Acari, que por quase 15 anos gritaram pelos corpos dos flhos, depois da chacina de Acari, em 1990, quando 11 jovens foram sequestrados, assassinados e sumidos por forças policiais, no Rio.

    Leia também

    Ana Cañas e mais 86 mulheres exigem respeito à diversidade e à vida em novo clipe. Assista!

    As Mães de Acari desencadearam um movimento internacional. Hoje são vários os movimentos de mães contra “o terrorismo de Estado”, a violência policial nas periferiase envolve o engajamento com a coisa pública, como a busca do corpo do flho morto e por justiça pelo assassinato legitimado pelo Estado. Sim há um feminismo que vem das favelas que se anuncia, em que os direitos do eu e do nós se acentuam e que há que se apoiar e seguir. Além
    do Complexo do Alemão, outros casos são registrados de um feminismo “por mim e por muitos”. Entre outros movimentos contemporâneos, cito as Mães de Maio, as Mães de Copacabana, as Mães do Rio. Mães públicas, mães de muitos.

    Por Mary Garcia Castro, socióloga e membro da União Brasileira de Mulheres (UBM). Foto: Geledés

    Texto publicado originalmente na revista Mulher de Classe número 6, de Abril de 2017.