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Seg, Jul

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  • A boa imagem e comovente narrativa que a mídia hegemônica construiu em torno do juiz curitibano Sérgio Moro (um magistrado austero, impoluto, implacável no combate à corrupção, infenso a pressões políticas e a paixões partidárias) nunca foram mais que mitologia. O Mito levou isto em conta ao escalá-lo para sua malfadada equipe, recompensando-o pelos serviços prestados antes e durante a campanha presidendial.

    Mas como toda mitologia, esta que produziram cuidadosamente sobre o chefe da República de Curitiba também está cedendo aos fatos, que aos poucos vão removendo a maquiagem nele aplicada pela mídia. A descortesia que o agora ministro da Justiça cometeu contra a cientista política Ilona Szabó, por ele convidada e depois desconvidada para o Conselho Nacional de Política e Penintenciária por ordem do Clã Bolsonaro, é emblemática sobre sua personalidade, subserviente e oportunista.

    Szabó não é uma esquerdista, mas tem opiniões independentes, muitas delas conflitantes com as do governo Bolsonaro, como em relação à liberação do porte de armas, e durante a campanha eleitoral cometeu o sacrilégio de assinar um manifesto em defesa da democracia hostil à candidatura do líder da extrema direita. Foi a princípio convidada por Moro para o conselho, a julgar pelo que o próprio informou, pelo conhecimento e reconhecimento que angariou na área de segurança.

    Reino da intolerência

    O desconvite ordenado pelo chefe, e obedecido prontamente, é mais uma prova de que no governo da extrema direita não há lugar para diferenças e nem para quem defende princípios democráticos ou venha a ter alguma veia progressista. É o reino da intolerância, do fanatismo e da ignorância.

    Moro foi fundamental para a eleição do capitão neofascista. Primeiro, ao determinar a prisão de Lula, interditando sua candidatura presidencial, que conforme todas as pesquisas seria vitoriosa. Depois, ao vazar ilegalmente delações do traíra Antonio Pallioci contra Lula e o PT na véspera do primeiro turno das eleições presidenciais, o que alavancou a candidatura da extrema-direita.

    A máscara do algoz de Lula, um homem da extrema-direita, começou a se decompor depois que ele aceitou o convite para ser uma espécie de superministro de Bolsonaro. Sua moral baixou um pouco mais com a reação cínica e evasiva diante do escândalo de corrupção promovido pelo filho Flavio Bolsonaro, eleito senador. Moro disse que não tinha nada a ver com o caso, que no entando é da alçada da pasta que dirige. Foi rebatizado pelo cineasta José Padilha como Sergio Bolsomaro.

    “Queira ou não queira, ao aceitar o convite de Jair Bolsonaro para trabalhar no Ministério da Justiça, Sergio Moro avalizou implicitamente o governo Bolsonaro. Deu a este governo um carimbo de ética e de luta contra a corrupção. E, ao fazê-lo, colocou a sua biografia em jogo”, disparou o cineasta num artigo temperado pela desilusão publicado recentemente na “Folha de São Paulo”.

    Cargo e carreira

    O vergonhoso comportamento no episódio da cientista política Ilona Szabó indica que ele merece o novo nome atribuído por Padilha e, ainda, que mesmo a blindagem da mídia pode vir abaixo quando não for mais possível continuar tapando o sol com a peneira. Sinal disto foi o apelo de Ricardo Noblat em seu Blogo da revista “Veja”:

    “Moro, pede pra sair!

    “No dia em que anunciou que seus filhos não mandam no governo, sem dizer quem de fato manda, o presidente Jair Bolsonaro rendeu-se à pressão dos seus seguidores nas redes sociais e ordenou ao ministro Sérgio Moro, da Justiça e Segurança Pública, que retirasse o convite que fizera à cientista política Ilona Szabó para o Conselho Nacional de Política e Penitenciária. Moro obedeceu sem piar.” Ou seja, o cargo e a carreira acima de tudo, conforme sugere a maldosa nota postada pelo jornalista da “Veja” no facebook.

    Agente dos EUA

    Para quem enxerga a realidade com olho crítico, o senhor Bolsomoro nunca foi flor que se cheire. Basta refletir um pouco sobre os favores que prestou ao imperialismo norte-americano com a operação Lava Jato (que além de bombardear políticos e governos progressistas destruiu as multinacionais brasileiras da indústria de construção para deleite das concorrentes nos EUA) para concluir que, como dizia Cayme sobre quem não gosta de samba, "bom sujeito não é".

    O estranho relacionamento do juiz curitibano com o Departamento de Estado dos EUA é fonte de legítimas desconfianças e fez com que fosse acusado de agente do imperialismo por personalidades como o jurista Fábio Konder Comparato, o historiador Muniz de Souza (falecido em 2007) e a filósofa Maurilene Chauí. As relações perigosas de Bolsomoro com o imperialismo permanecem na obscuridade principalmente por conta da cumplicidade da mídia burguesa, coautora do golpe de 2016. Porém mais cedo ou mais tarde a verdade há de vir à tona, se é que já não está a caminho.

    Umberto Martins

  • Por Altamiro Borges*

    Desconfie sempre das “otoridades” que rosnam contra a corrupção e se dizem seguidoras do “ético” Jair Bolsonaro – inclusive dos padres, bispos e pastores. Na quarta-feira (20), por ordem direta do Papa Francisco, o goiano Jean Rogers Rodrigo de Sousa, mais conhecido como padre Rodrigo Maria, perdeu o status clerical. Ordenado sacerdote há 19 anos, ele foi acusado por ex-freiras e ex-noviças de ter cometido crimes de abuso sexual e agora é expulso da Igreja Católica. A punição, a mais dura que o Vaticano pode impor a um clérigo, é o desfecho de uma longa investigação canônica e atinge o religioso que, após ser transferido para inúmeras dioceses, atualmente respondia aos bispos da cidade paraguaia de Ciudad del Este.

    “O sacerdote Jean Rogers Rodrigo de Sousa, desta diocese, recebeu do Santo Padre o decreto de perda do estado clerical e a dispensa das obrigações correspondentes", diz o comunicado assinado pelo monsenhor Guillermo Steckling. O agora expulso padre Rodrigo Maria foi citado como molestador de ao menos 11 mulheres. Desde meados de 2006 que já pairavam denúncias contra o clérigo. Na época, ele liderava uma comunidade católica em Anápolis (GO), a Arca de Maria, e foi acusado de fazer lavagem cerebral em jovens que recrutava para a missão religiosa. Uma ex-noviça narrou à Folha que “ela e colegas raspavam a cabeça e passavam a rejeitar as famílias e, se cometessem alguma ‘rebeldia’, eram castigadas pelo padre – que, segundo ela, as submetia à dieta de pão e água. Depois vieram denúncias de conduta sexual criminosa, de estupro a masturbação no meio de um papo virtual”.

    “Uma ex-freira disse à Folha, pedindo para ter seu nome preservado, que o episódio aconteceu há cerca de cinco anos, quando os dois se falavam pela internet. ‘Aí ele baixou [a roupa] e se masturbou, e nisso eu imediatamente desliguei o Skype’. Antes, ela tirou um print da conversa – a imagem foi anexada aos autos do processo canônico. Há processos contra o ex-padre correndo em sigilo na Justiça comum, todos ainda sem veredicto. No ano passado, Jean disse à reportagem que era alvo ‘de calúnia há algum tempo, razão pela qual estou processando criminalmente 11 [mulheres que o acusam]’. A Folha não conseguiu novo contato com ele ou seu advogado nesta quarta-feira”.

    De raspão, sem fazer maior escarcéu, a Folha registra apenas que “em redes sociais, o padre já elogiou Jair Bolsonaro e pediu ‘uma Ave Maria para livrar o Brasil do comunismo’”. Já a revista Fórum, em reportagem postada na quinta-feira (21), destaca que o padre sempre posou de moralista e agiu como um fascista. “Durante a campanha eleitoral, que antecedeu as eleições de 2018, ele divulgou um vídeo no qual pede votos para Jair Bolsonaro, por ser ‘o único candidato que combate o comunismo e é contra a ideologia de gênero e a política LGBT’. Antes disso, em 2016, Sousa escreveu um ‘artigo’, cujo título é ‘Cristãos contra o golpe do PT’. Em um trecho, ele diz: ‘É preciso reagir com energia. E além de rezar (melhor seria o exorcismo), temos que protestar nas ruas e na internet. Devemos utilizar de todos os meios legítimos para retirar Dilma, Lula, o PT e todos os que cometeram ilícitos’”.

    O ex-padre também era admirador do ex-juiz e hoje superministro do laranjal de Jair Bolsonaro. “O juiz federal Sergio Moro, juntamente com o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, têm feito excelente trabalho para desbaratar toda essa organização criminosa composta por empresários, doleiros, políticos e outros que, liderados pelo PT, se apropriaram do Estado brasileiro para se enriquecerem e sobretudo manter um projeto de poder”. O deputado Eduardo Bolsonaro, do Partido Só de Laranjas (PSL), inclusive acompanhava a militância virtual do falso religioso. Recentemente, ele replicou um Twitter do estuprador e postou: “Padre Rodrigo Maria denuncia a invasão socialista na igreja – já notável na CNBB – fato que vai contra os princípios da própria igreja católica”.

    *Jornalista e presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itaráré

  • O grito de protesto contra o governo Bolsonaro ecoou forte no Carnaval 2019. Blocos e escolas de samba desfilaram nas avenidas embalados por sambas e marchinhas temperadas com críticas ao presidente e à extrema direita. Entre os hinos que mais empolgaram as multidões constam o já famoso “Ei, Bolsonaro, vai tomar no c...” e “Ai, ai, ai, Bolsonaro é o carai”.

    O capitão não gostou. Para se vingar postou terça-feira (5) no twitter um vídeo com uma performance pornográfica protoganizada por dois jovens cariocas, insinuando que a putaria tinha corrompido de vez a maior festa popular do Brasil, motivo para admiração e atração de turistas de todo o mundo. O gesto tresloucado pegou mal aqui, inclusive entre seus correligionários, e em todo o mundo, onde o episódio causou estupefação e inspirou piadas.

    Muitos acusaram o presidente de cometer crime de responsabilidade, atentando contra a dignidade e o decoro do cargo, e três advogados já ingressaram com ação na Justiça contra o capitão. O jornalista Jamil Chade, correspondente do “Estadão” na Europa, narrou que um deputado do Parlamento Europeu, perplexo, chegou a lhe indagar se a notícia não era “Fake News”.

    Mas eis que no dia seguinte, sentindo a repercussão negativa e procurando amparo entre os militares, o presidente da extrema direita aprontou mais uma. Disse que a Democracia não existiria no Brasil sem a anuência das Forças Armadas, o que além de despertar indignação entre todos os que prezam a Democracia, está longe de corresponder à verdade e foi interpretado como um recado ameaçador ao Congresso para que os parlamentares aprovem sua indigesta proposta de reforma da Previdência. A Democracia foi conquistada no Brasil contra a vontade dos militares, que promoveram um golpe de Estado em 1964 e saíram da cena política desmoralizados em 1985 após a derrota do seu candidato, Paulo Maluf, no Colégio Eleitoral. Será que vão desejam repetir a lastimável experiência, ignorando as duras lições da história?

    Ele quer sufocar os sindicatos

    Outro destaque da semana foi a Medida Provisória MP 873, baixada por Bolsonaro no dia 1º de março, véspera do Caraval, com o claro propósito de sufocar financeiramente o movimento sindical brasileiro, colocando novos obstáculos à arrecadação de contribuição dos trabalhadores e trabalhadoras nas bases para a manutenção de suas entidades de classe. Note-se que isto ocorre num momento de luta contra a famigerada reforma da Previdência.

    Nota subscrita pelas nove principais dirigentes das maiores centrais considera a MP “um grave ataque contra o princípio da liberdade e autonomia sindical e o direito de organização dos trabalhadores, dificultando o financiamento das entidades de classe no momento em que cresce, no seio da classe trabalhadora e do conjunto da sociedade, a resistência ao corte de direitos de aposentadoria e previdenciários em marcha, com a apresentação da proposta de Reforma da Previdência que já tramita no Congresso Nacional”.

    Além de não tratar de tema que reclama urgência, a Medida Provisória contém uma série de outras inconstitucionalidades, de acordo com advogados e juristas. Como resposta os sindicalistas também prometem intensificar a mobilização para o Dia Nacional de Luta contra a reforma da Previdência da dupla Bolsonaro/Guedes. Será em 22 de março.

    Lula é mesmo um preso político

    Também no dia 1º de março, depois de muitas idas e vindas, o ex-presidente Lula foi autorizado pela Justiça a acompanhar o velório e o enterro do seu neto de 7 anos, que faleceu vítima de meniginte. As restrições que precederam a autorização e o forte efetivo policial mobilizado para impedir qualquer contato de Lula com o povo serviram para evidenciar o que os críticos do golpe de 2016 não se cansam de repetir: Lula é um preso político e o desejo majoritário dos brasileiros e brasileiros é ver Lulalivre.

    Venezuela

    A queda de braço entre Maduro e o golpista Guaidó, lacaio do imperialismo americano, ainda parece longe de um desfecho. O golpista voltou e tenta organizar uma greve do setor público. Já os chavistas preparam grandes manifestações contra o imperialismo e em defesa do governo bolivariano para este sábado (9).

    Semana da mulher

    Além do Carnaval, esta foi também a “Semana da Mulher”, marcada por debates, manifestações e protestos no Brasil e em todo o mundo. O 8 de Março foi um grito pela igualdade, contra o feminicídio, a discriminação e a violência, da qual as mulheres são as maiores vítimas. No Brasil, o foco maior foi dado pela luta contra a reforma da Previdência e em defesa da democracia, da soberania nacional e dos direitos sociais, alvos do governo de extrema direita presidido por Bolsonaro.

    Posse de José de Abreu

    Autoproclamado presidente do Brasil, o ator José de Abreu tomou posse no inívio da noite de sexta-feira numa animada solenidade diante do aeroporto do Galeão no Rio. Promoteu promover “o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil”, valores fundamentais que o atual governo resolveu jogar na lata de lixo. Foi aclamado e carregado pela multidão presente à solenidade de posse.

    A decadência irreversível dos EUA

    Apesar da guerra comercial deflagrada em março do ano passado pelo presidente Donald Trump, os EUA acumularam em 2018 o maior déficit comercial registrado ao longo dos últimos 10 anos, notícia que abalou os mercados de capitais nesta sexta-feira. O rombo somou US$ 891,3 bilhões e só com a China foi de US$ 419 bilhões. Com razão, o presidente norte-americano enxerga no déficit a principal causa da decomposição da hegemonia econômica dos EUA no mundo. Promoveu a guerra comercial proclamando o propósito de revertê-lo, mas os fatos mostram que não teve sucesso, agiu como Dom Quixote contra os moinhos do vento. O déficit de mercadorias é a medida do parasitismo que graça na maior economia capitalista do mundo. Reflete o excesso de consumo sobre a produção e é ao mesmo tempo efeito e causa do processo de de desindustrialização e financeirização que corrompe o tecido econômico e social do país. É um fenômeno que torna a decadência irreversível.

    Servidores paulistanos encerram greve

    Em assembleia realizada na tarde de sexta-feira (8) os servidores paulistanos decidiram encerrar a greve iniciada em 4 de fevereiro contra a reforma da Previdência do governo Bruno Covas. O acordo que pôs fim ao movimento prevê que não será instituída a contribuição extraordinária para os servidores ativos; não haverá migração dos ativos para o regime complementar e será mantido o teto de R$ 24 mil. O prefeito garantiu o pagamento das aposentadorias e pensões atuais com recursos do tesouro municipal, independente de déficit atuarial do Iprem; o cumprimento do piso da educação com reajustes anuais;abono emergencial para os ativos de nível básico e nível médio até mesa negocial e apresentação de incorporação; mesa negocial para todas as carreiras e pagamento dos dias parados.

  • Sob forte pressão de políticos no Congresso Nacional, governadores e especialistas no tema, Jair Bolsonaro alterou o decreto sobre armas, substituindo-o por um novo decreto que proíbe posse de fuzis, carabinas, espingardas - classificadas como "portáteis" - para cidadãos comuns, mas autoriza "arma de fogo portátil (posse de arma) para domiciliados em imóvel rural", numa brecha para latifundiários ampliarem a violência e matança no campo

    Após críticas de diversos setores, Jair Bolsonaro alterou o decreto que ampliou a posse e o porte de armas. Em nota, divulgada pelo portal Consultor Jurídico nesta quarta-feira (22), o Palácio do Planalto explica as mudanças e ressalta que “não será conferido o porte de arma de fuzis, carabinas, espingardas ou armas ao cidadão comum”.

    Violência no campo

    No entanto, segundo as explicações do Planalto, o novo decreto, publicado na edição desta quarta-feira (22) do Diário Oficial da União (DOU), abre brecha para que ruralistas adquiram e tenham a posse de fuzis.

    O decreto diferencia arma de fogo de porte e arma de fogo portátil. “A arma de fogo de porte (autorizada) é aquela que de dimensões e peso reduzidos, que pode ser disparada pelo atirador com apenas uma de suas mãos, a exemplo de pistolas, revólveres e garruchas. A arma de fogo portátil (não autorizada) é aquela que, devido às suas dimensões ou ao seu peso, pode ser transportada por uma pessoa, tais como fuzil, carabina e espingarda”.

    Apesar de dizer que serão vedadas a concessão de porte de armas de fogos portáteis – fuzis, carabinas, espingardas – para a defesa pessoal ao cidadão comum, o texto do Planalto abre exceção para “domiciliados em imóvel rural”. É um estímulo à violência dos grandes proprietários no campo contra pequenos produtores e trabalhadores sem-terra.

    “A autorização para aquisição de arma de fogo portátil (posse de arma) será concedida apenas para domiciliados em imóvel rural, considerado aquele que tem a posse justa do imóvel rural e se dedica à exploração agrícola, pecuária, extrativa vegetal, florestal ou agroindustrial, nos termos da Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993”, diz o documento presidencial, que cai como luva sobre os interesses da indústria bélica que financiou sua campanha.

    Menores e Anac

    Outro ponto criticado e que agora foi alterado pelo governo trata da prática de tiros por menores de idade. O texto anterior dizia que era permitida a prática por menores de 18 anos desde que autorizados por um dos responsáveis.

    Já o novo texto afirma que o tiro esportivo só poderá ser praticado a partir dos 14 anos, com a autorização de ambos os responsáveis, mas abole a necessidade de autorização judicial, prevista na atual legislação.

    Com Forum

  • Esu é a “pedra fundamental” da tradição ioruba. Ele sustenta o edifício dessa milenar forma de sacralização das forças cósmicas do universo, de acordo com Oga Gilberto Antônio Ferreira[2]. Nas palavras do babalorisá José Tadeu de Paula Ribas[3], a “degradação” de Esu foi decisiva para a escravização dos povos das regiões atuais das Repúblicas da Nigéria, do Benim e Togolesa, na África Ocidental.

    O etnocídio foi articulado com o objetivo de submeter os povos negros às condições degradantes.

    É esse o cenário das violências perpetradas contra as tradições africanas. Ela procura manter o processo de desumanização do elemento negro, inaugurada no século VII, pelos povos da península arábica, e a partir do século XVI, pelos povos europeus[4].

    A desarticulação do legado das civilizações negras foi a condição sine qua non para o êxito da “corporação escravocrata”.

    Desde a “abolição formal”, as táticas de sujeição mudaram, mas mantiveram a essência desumanizadora.

    No período pós 1888, os terreiros [locais de síntese das diversas tradições africanas das matrizes ioruba, jejê e bantu] foram espaços de rearticulação dos universos cosmológicos desses povos.

    Neles, foram tecidas as novas narrativas sagradas, formas de organização sociais e associativas, práticas pedagógicas tradicionais [imanências e transcendências], visões éticas e estéticas, para a “nova ecologia humana” que se descortinou.

    Um ponto de inflexão da “quilombagem”[5]!

    No período “duro” da transição demográfica [entre os anos de 1870 e 1930, quando se decidiu pelo extermínio do elemento negro, no prazo de cem anos, segundo as palavras do representante brasileiro no Congresso Universal das Raças, em Londres, em 1911, João Batista de Lacerda[6]], os terreiros foram as bases das novas identidades negras.

    O arquétipo dos òrìsá, nkisi e vodun alimentou a autoestima, a coragem e a valorização dos traços negros, ante a violência da sociedade global e do estado.

    Eles foram o anteparo ao preconceito [visão de menor valia], à discriminação [segregação física e simbólica] e ao racismo [genocídio] que se abateu sobre os afrodescendentes.

    Na fase moderna, em que as cidades se transformaram em local das grandes disputas políticas [tangíveis e intangíveis], segundo o geógrafo Milton Santos[7], o espaço vital do terreiro se converte em obstáculo à fúria neoliberal.

    O terreiro foi o hospital, a escola, a moradia, o “porto seguro das políticas públicas” das populações desassistidas. Nas periferias abandonadas pelo estado [morros, favelas, cortiços, áreas alagadas e degradadas] insurgiam “as cidadelas” negras.

    A fúria “sectária” neopentecostal é a configuração litúrgica do capital e da expropriação global da mais-valia. O “ter” procura esmagar o “ser” com o “desejo oculto” de aniquilamento da diversidade.

    Os valores civilizatórios afro-brasileiros enlaçados nos terreiros [oralidade, circularidade, religiosidade, corporeidade, musicalidade, cooperativismo/comunitarismo, territorialidade/território, ancestralidade, memória, ludicidade e energia vital/asé, segundo a pedagoga Azoilda Loretto da Trindade[8]] são obstáculos a essa sanha.

    A razão que se esconda por trás das violências contra as tradições africanas, portanto, é a desumanização da afrodescendência, como uma das estratégias para ocupação do território das cidades pelo capital. Fanatismo religioso convertido em reacionarismo político!

    Esse enfrentamento se repete em todas as “quebradas” do mundo, onde essas tradições são polos de resistência.

    Por esses motivos, a defesa das tradições afrodescendentes e afro-brasileiras é uma imposição ética para todas e todos que sonham [mas com a condição de realizá-la] com uma sociedade igualitária, diversa e múltipla, e com a presença imprescindível das digitais africanas no barro civilizatório brasileiro.

    *Juarez Xavier é coordenador Executivo do Núcleo Negro Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” [UNESP] para a Pesquisa e Extensão [NUPE].

    [2]Disponível em http://ogagilbertodeesu.blogspot.com.br/2010/05/resumo-ao-defendermos-tese-de-que-esu.html.

    [3]Disponível em http://blog.ori.net.br/?p=687.

    [4]Disponível em http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-view/news/general_history_of_africa_collection_in_portuguese-1/#.Vull6PkrKM8.

    [5]Disponível em http://www.grabois.org.br/portal/resenhas/135474/2015-06-19/o-pensamento-radical-de-clovis-moura.

    [6]Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702011000100013.

    [7]Disponível em http://www.geografia.fflch.usp.br/semangeo/pdf/Capitulos_do_livro.pdf.

    [8]Disponível emhttp://www.diversidadeducainfantil.org.br/PDF/Valores%20civilizat%C3%B3rios%20afrobrasileiros%20na%20educa%C3%A7%C3%A3o%20infantil%20-%20Azoilda%20Trindade.pdf


    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

  • “Eu me sinto péssimo. Quando você pensa que justo no momento em que você está começando a vida, o mundo está vivendo uma crise e seu país um grande retrocesso. Isso acaba com seus sonhos, suas perspectivas vão para o fundo do poço. A vontade que se tem é largar todos os estudos e voltar a trabalhar em qualquer coisa.”

    Ygor Silva Santos tem 20 anos. Está no segundo ano de Análise e Desenvolvimento de Sistemas na Fatec do bairro de Heliópolis, região sudeste da cidade de São Paulo, onde vive com a mãe e um irmão.

    O jovem, que trabalhava como office-boy, deixou o emprego para estudar, já que a Fatec só tem aulas diurnas. Mas já corre o risco de, como outros tantos milhões, voltar a ser engolido pela falta de oportunidades e o desemprego que voltaram a assolar o país.

    Na década de 2000, explica o professor Euzébio Jorge Silveira de Sousa, o Brasil experimentou um substantivo crescimento econômico, fruto do ciclo das commodities, que favoreceu as exportações brasileiras, a elevação do nível médio dos salários e a ampliação do crédito e do consumo dada a melhor distribuição de renda.

    “Com o fim desse ciclo de crescimento e o aprofundamento da crise política e econômica, o mercado de trabalho voltou a reproduzir suas características estruturais de país subdesenvolvido: baixos salários, alta rotatividade e elevado desemprego, com grande exploração dado o maior número de trabalhadores pressionando o mercado de trabalho”, explica Euzébio, que é presidente do Centro de Estudos e Memória da Juventude (CEMJ) e doutor em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da Unicamp.

    E os jovens, segundo o especialista, são os mais afetados pela crise. “Com o declínio da renda das famílias, a juventude, que experimentou protelar o ingresso na vida laboral a fim de ampliar sua escolarização, busca um espaço no mercado de trabalho, qualquer tipo de ocupação para contribuir na composição da renda familiar”, afirma. “A verdade é que no Brasil inexistem condições de permanecer desempregado para se dedicar aos estudos. É uma juventude que trabalha e estuda e não estudantes que trabalham.”

    Na sua casa, Ygor foi o primeiro a “fazer faculdade”. A mãe estudou somente até a 4ª série do ensino fundamental. O irmão tem o ensino médio completo.

    Na família de Jessy Dayane da Silva Santos, não é diferente. “Como muita gente da minha geração, fui a primeira da família a entrar numa universidade”, conta a vice-presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE). Nascida e criada em Aracaju (SE), mudou-se para São Paulo em 2015, quando trocou o curso de Serviço Social na Federal de Sergipe pelo Direito na FMU paulistana. “Minha mãe é empregada doméstica, não teve acesso à educação em nenhum nível, é analfabeta. Meu pai tem ensino médio, já trabalhou com muita coisa mas atualmente está desempregado.”

    “A renda das famílias é determinante para o tempo de estudo dos filhos”, afirma Euzébio, explicando porque tantos pais e mães, jovens de antigamente, nunca puderam completar os estudos.

    Euzébio: “Ajuventude será impactada de forma não homogênea pela crise, mas todos os jovens do país serão afetados”.

     

    “A juventude é uma categoria que muda ao longo da história, é fruto de um processo histórico. Mais que a fase entre a infância e a vida adulta, é um fenômeno que surgiu na sociedade urbana industrial.”

    Ou seja, a juventude, mais que uma faixa etária – que no Brasil soma 50 milhões entre os 15 anos e os 29 anos –, é fruto de como a sociedade se relaciona com questões como educação e mundo do trabalho.

    “Ela se diferencia pelo processo de construção da autonomia e transição para a vida adulta. Mas existe uma classe que tem de construir autonomia antes da outra”, afirma.

    Assim, os jovens cujos pais têm mais escolaridade e nível salarial mais alto, terão mais tempo de estudo e oportunidades no mercado de trabalho. “Os países com menor taxa de participação de jovens no mercado de trabalho são aqueles nos quais esses mesmos jovens têm mais escolarização”, explica Euzébio.

    Para o professor, o Brasil guarda relação profunda do mercado de trabalho com o período escravista. “A heterogeneidade étnica não existe nas universidades brasileiras. A abolição não levou à contratação de negros. Importou trabalhadores brancos que ascenderam socialmente. Basta ver que as periferias são eminentemente negras, mas a Mooca (bairro paulistano formado pela imigração italiana) é branca.”

    Jovens em perigo, não perigosos

    Numa caminhada de dois quarteirões próximos à Escola Dieese, no centro de São Paulo – onde se deu a palestra do professor Euzébio –, a reportagem viu duas “duras” batidas policiais. Ambas tinham como alvo negros e negras jovens.

    “Por que o jovem é considerado um sujeito social tão perigoso, exposto a uma política de perseguição e massacre nas periferias?”, questiona o presidente do CEMJ, para responder: “Isso tem a ver com o trabalho, com a não assimilação do jovem negro. A sociedade continuou com esse arranjo para manter o excedente da força de trabalho disposto a aceitar qualquer coisa. O trabalho barato torna a situação da classe média muito mais confortável financeiramente. Basta lembrar o alvoroço causado pela lei das domésticas.”

    A situação, para ele, deve se agravar com as recentes mudanças nas leis que regem o mercado de trabalho, com uma reforma que rebaixou direitos e ampliou as possibilidades de trabalho precário, como o temporário e o intermitente. “Vão colocar os jovens numa condição pior do que vivia a geração anterior”, avalia, utilizando como parâmetro a taxa de subutilização da força de trabalho.

    “Isso leva em conta quem trabalha só algumas horas, o que não consegue buscar emprego e isso cresce entre os jovens. Enquanto o Brasil crescia essa taxa era menor. Mas voltou a subir em 2015. Dois em cada três jovens estavam procurando emprego em 2017. Com o passar dos anos jovens foram entrando mais tarde no mercado de trabalho e isso está retrocedendo e afetando a escolarização.”

    Jane Rosa da Silva, 24 anos, é um retrato do receio diante dessa precarização. Formada em Geografia pela Unesp, tinha como perspectiva fazer um concurso e trabalhar numa instituição pública. “Tenho visto isso se reduzir cada vez mais, principalmente depois de 2016, com o golpe, com Michel Temer. E agora, no ano que vem, não tenho perspectiva de que isso vai melhorar, até porque a lógica de Bolsonaro (presidente eleito) é privatizar tudo”, afirma.

    “Não vão abrir concursos e vou ser contratada por empresa terceirizada e terceirização significa precarização do trabalho. Daí fico pensando: pra mim, profissionalmente, quais serão as condições de trabalho. Acredito que será precarizado, muito diferente do que eu imaginava quando entrei na faculdade em 2013. Ou então o desemprego.” Como jovem e mulher, Jane se preocupa: como sobreviver a esse mundo? “A gente vê a composição do governo Bolsonaro, majoritariamente de homens. A gente vinha num movimento oposto, com mulheres ocupando cargos de poder. Não existe representatividade pra mim, no governo dele.”

    Esse otimismo que moveu Jane em seus anos de estudo tinha base no mundo real. Um período de crescimento vivido pelo Brasil entre os anos de 2003 e 2014, que chegou a se aproximar do pleno emprego, de carteira assinada, a ampliação do acesso às universidades, mas que, na avaliação de Euzébio, não foi suficiente para romper com as deficiências do mercado de trabalho brasileiro. “Ele está estruturado de forma a manter a atual estrutura social e, para isso, é indispensável que os jovens ofertem sua força de trabalho o mais cedo possível”, critica.

    E agora, com a degradação das relações de trabalho e a perspectiva de sucateamento do ensino e da pesquisa, além do retrocesso nas políticas de acesso ao ensino, como será a vida dessa moçada?

    “A juventude será impactada de forma não homogênea pela crise, mas todos os jovens do país serão afetados”, lamenta Euzébio. “A reforma trabalhista provocará a elevação da informalidade, redução dos salários e elevação da subutilização da força de trabalho.”

    O professor acredita que a queda da renda das famílias obrigará uma grande massa de jovens a ingressar mais cedo no mercado de trabalho, o que elevará o desemprego e reduzirá o nível de escolarização dos jovens. Isso, acompanhado pela reforma do ensino médio e a destruição das universidades públicas, para ele, garantirá a consolidação de nossa histórica desigualdade.

    “Enquanto as famílias mais abastadas terão recursos para manter seus filhos estudando, as famílias pobres verão seus filhos, jovens ou crianças, buscando alguma ocupação precária, na maioria das vezes em ocupações informais e inseguras. As consequências para políticas tão excludentes será a explosão da violência urbana que tende a ser combatida pelo novo presidente Bolsonaro com toda a violência possível. A juventude volta a ser vista como questão de polícia e não de política.”

    A esperança, mais uma vez, reside na capacidade da juventude de resistir. “Esperamos que façam o que sempre fizeram no Brasil, lutem para continuar existindo e ajudem a transformar o país.”

  •              Por Luiza Bezerra*

                O Governo Bolsonaro colocou em pauta a Reforma da Previdência, como havia prometido em sua campanha eleitoral. Embora a Reforma atinja um amplo setor da população brasileira, boa parte da juventude não está atenta ou não se interessa pelo assunto. Muitos se questionam o que têm a ver com a Previdência já que a aposentadoria está tão distante. Pode não parecer, mas a juventude tem tudo a ver com a Reforma da Previdência. É preciso lembrar que o jovem de hoje é o idoso de amanhã.

                O alvo principal dessa reforma somos justamente nós, que compomos a juventude brasileira, em especial a que ainda está por ingressar no mercado de trabalho. Com um discurso ameçador de que o jovem terá que escolher entre ter direitos ou trabalhar, o governo tenta impor a ideia de que só é possível gerar empregos ao reduzir as garantias trabalhistas, o que é facilmente contestado com dados.

                No período Lula e Dilma, alcançamos o pleno emprego sem ser preciso retirar direitos. A diferença para aquele período era o fato de que nossa economia crescia, gerando emprego e renda. Ou seja, não precisamos reduzir direitos e sim retomar o desenvolvimento do país. Os governos de Temer e Bolsonaro defendem medidas que agravam ainda mais as consequências da crise econômica, aumentando o desemprego, a miséria e o número de trabalhadores informais (em 2017, pela primeira vez o número de trabalhadores informais superou os de carteira assinada). Ao invés de aumentar o investimento público em áreas estratégicas que dariam retorno financeiro, o governo Temer (apoiado pelo então deputado Bolsonaro) congelou os recursos públicos por 20 anos.

               Eles querem que a gente pague a conta!

               A questão da Previdência vem sendo debatida há anos e em diversos países, já que a realidade demográfica tem mudado com o aumento da expectativa de vida. Em um cenário com uma populaçao numerosa de idosos e com maior expectativa de vida, é aceitável que se revejam algumas regras. A questão é: por que na maioria dos países, assim como no Brasil, as reformas atingem apenas a classe trabalhadora? Por que não se inclui nas mudanças os altos salários que afetam consideravelmente as contas da Previdência? E, mais importante, por que não se cobra e fiscaliza os grandes empresários que devem hoje para a Previdência mais do dobro do suposto rombo que justificaria a reforma (enquanto o saldo devedor de tais empresas é de R$374,9 bilhões, o rombo alegado pelo governo é de R$149 bilhões). A resposta é simples: querem que apenas nós paguemos a conta, enquanto meia dúzia segue com seus privilégios.

                  A Previdência é mais do que a aposentadoria

                Talvez o jovem não se enxergue neste debate da Previdência porque a aposentadoria é ainda algo muito distante. Embora tenhamos que esclarecer do por que é preciso pensar desde já na sua aposentadoria, é preciso dizer também que a Previdência é mais do que isso. Além disso, é importante explicar para aqueles que estão ingressando no mercado de trabalho que a sua cobertura é para todos, formais e informais, bastando apenas contribuir para a mesma. Ao contribuir para a Previdência você acessa uma série de direitos, como a auxílio-doença, o salário-maternidade, o seguro-desemprego e o auxílio-acidente. São direitos conquistados para podermos trabalhar mais tranquilos, com a garantia de renda em casos de doença, acidente, gravidez, prisão, morte, demissão e velhice. Porém, para mantermos estes direitos é preciso que defendamos a Previdência pública e para todos!

                Carteira de trabalho verde-amarela e previdência por capitalização

                Para a juventude que está por ingressar no mercado de trabalho o atual governo defende a intensificação da precarização do trabalho, tudo de forma legalizada. Não bastou a Reforma Trabalhista, que legalizou os “bicos” através das novas formas de contratos (precários) como a terceirização irrestrita, a pejotização e o trabalho intermitente. Neste último, o empregador define quantas horas vai precisar de você no mês, o que pode (e tem) acarretado em salários inferiores ao salário mínimo.

                O governo Bolsonaro quer ir além e instituir duas categorias de trabalhadores: os assistidos pelos direitos trabalhistas, com proteção dos sindicatos, salários melhores, férias, FGTS, 13º; e uma outra categoria sem direito a nada disso, com uma carteira de trabalho verde-amarela. A “escolha” a qual das duas carteiras se vincular seria do indivíduo. O argumento é de que só assim seria possível gerar empregos o que, como já vimos, é história pra boi dormir. Junto a essa proposta, o governo estuda a possibilidade de implementar a Previdência por capitalização para os jovens que ainda vão ingressar no mercado de trabalho. O modelo de capitalização, adotado pelo Chile na década de 80 e com consequências desastrosas (a maioria dos idosos recebem metade de um salário mínimo), é o defendido por Paulo Guedes, atual ministro da Economia. Como sairia muito caro modificar nosso sistema por completo, a proposta estudada é a de aplicá-lo apenas para uma parcela da população.

               O modelo de capitalização funciona como uma poupança individual, administrada por bancos e fundos de pensão, ambos privados. Atualmente no Brasil nós repartimos as despesas da previdência entre trabalhador, empregador e Estado. Na proposta da capitalização apenas contribuiria para a previdência o próprio beneficiário, patrões e governos deixarão de contribuir. Além disso, o risco de receber um valor muito menor ao salário da ativa é grande, já que, além da fonte ser única e estar sujeito às flutuações do mercado de trabalho, também não há garantias com relação aos rendimentos das aplicações feitas no mercado. Assim, fica claro a quem interessa esse modelo: às grandes empresas e aos bancos privados. Caso seja aprovada alguma proposta nesse sentido a juventude será uma das parcelas que mais vai sentir na pele seus efeitos nefastos.

               Previdência para poucos: é isso que queremos?

                A carteira verde-amarela e o modelo de capitalização ainda estão sob estudo e precisamos ficar atentos para combater sua implementação. Porém, já está em pauta a proposta da Previdência que retira direitos e, na prática, impediria que boa parte do povo brasileiro se aposentasse. A nova proposta aumenta o tempo mínimo de contribuição para 20 anos (hoje é de 15 anos), sendo que para adquirir 100% do benefício a que temos direito precisaríamos contribuir por 40 anos.

               Atualmente, a realidade da juventude no mercado de trabalho brasileiro é de altas taxas de desemprego (em torno de 30%) e alto índice de informalidade (os jovens trabalhadores sem carteira assinada são cerca de 70%). Ou seja, neste cenário é extremamente difícil que este jovem consiga contribuir por 40 anos para ganhar, na maioria dos casos, um salário mínimo. Entre as jovens meninas é ainda mais difícil, pois é comum elas terem que sair do mercado de trabalho por meses ou anos por conta dos cuidados domésticos (gravidez, idosos que exigem atenção, adoecimento na família, etc).

              Além do tempo de contribuição há a proposta de instauração da idade mínima de 65 anos para homens e 62 para mulheres. A imposição da idade mínima prejudica os mais pobres, que além de começarem a trabalhar desde muito jovens, também possuem a expectativa de vida mais baixa, sendo que em muitos bairros periféricos esta expectiva média não chega aos 60 anos. Isso significa que uma parcela importante dos trabalhadores irão trabalhar até morrer, sem conseguir usufruir de sua aposentadoria, um direito conquistado. É também o caso da maioria dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.

              A juventude rural também será atingida por essa reforma caso venha a ser aprovada, já que o tempo de contribuição e a idade mínima foram alterados. Além disso, o governo baixou uma Medida Provisória (MP 871) que dificulta a comprovação dos anos trabalhados no campo, bem como tenta repassar para os bancos uma intermediação que era antes feita pelos sindicatos e os representantes eleitos destes trabalhadores. Um dos principais debates feitos pela juventude rural é o da sucessão e de como tornar o ambiente rural mais atrativo para a juventude. Tais medidas vão na direção contrária, dificultando a perspectiva de uma aposentadoria digna para os trabalhadores rurais e podendo causar pobreza e um deslocamento ainda maior para as áreas urbanas em busca de oportunidades.

              A proposta do Governo Bolsonaro é de uma aposentadoria digna para poucos, enquanto a maioria da população ou não atingiria os requisitos e ficaria sem nenhum benefício ou os que atingissem os requisitos básicos receberiam menos de um salário mínimo, em sua maioria. Essa não é a Previdência que o Brasil precisa e não é a que queremos.

             Todos à luta em defesa da Previdência pública e inclusiva!

             Deu para ver que tais mudanças tornariam ainda mais difícil o acesso a uma aposentadoria digna, em especial para a juventude que ingressa num mercado de trabalho com poucas oportunidades. Por isso, a defesa da Previdência pública é uma das principais batalhas que iremos travar no próximo período. Nossos adversários são poderosos e irão investir pesado em propagandas enganosas. É preciso que conversemos com os trabalhadores e trabalhadoras, em especial os mais jovens, trazendo eles para o nosso lado da luta. Garantir a Previdência pública e inclusiva é combater a miséria, a desigualdade social, é garantir o mínimo de segurança para o trabalhador. Neste sentido, convidamos a todos e todas a comparecerem na Praça da Sé, em São Paulo, no dia 20 de fevereiro, às 10h, para juntos construirmos uma grande Plenária Nacional da Classe Trabalhadora em Defesa da Previdência. Nos vemos nas ruas!

     *Bancária, Socióloga e Secretária Nacional de Juventude da CTB

  • Dar visibilidade e contribuir para o fim da discriminação contra a mulher. Esses são os objetivos da cartilha O ABC da violência contra a mulher no trabalho, lançada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) por meio do GT de Gênero da Coordenadoria Nacional de Promoção de Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho (Coordigualdade), tendo em vista os 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra mulher.

     A publicação traz conceitos como assédio moral e assédio sexual no trabalho, divisão sexual do trabalho, cultura do estupro, além dos mais recentes mansplanning, manterrupting e bropriating palavras trazidas do inglês para homens que, respectivamente, explicam coisas óbvias para mulheres, as interrompem e se apropriam de suas ideias.

    “A violência contra a mulher repercute negativamente no ambiente de trabalho. Ela afeta diretamente a mulher, vítima ou testemunha, que sofre com baixa autoestima, inúmeras interrupções na carreira, adoecimento físico e mental. Como resultado, há redução da lucratividade da empresa pelo desperdício de talentos e de conhecimento,” afirma a procuradora do trabalho Adriane Reis.  

    A cartilha pretende contribuir para evidenciar o problema e orientar trabalhadores, empresas, sindicatos e toda a sociedade civil a debater a igualdade de gênero no trabalho. 

    16 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher: 16 dias de ativismo se iniciam no dia 25 de novembro, Dia Internacional para a não-Violência Contra as Mulheres. A Organização das Nações Unidas (ONU), desde 1999, reconhece o dia 25 de novembro como desta data para conscientizar os homens sobre o papel que precisam desempenhar para colaborar com o fim da discriminação e violência contra as mulheres.

    A data surgiu em decorrência do Dia Latino-americano de Não Violência Contra a Mulher, que foi criada durante o Primeiro Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho de 1981, realizado em Bogotá, Colômbia. O dia foi escolhido em homenagem às irmãs Pátria, Maria Tereza e Minerva Maribal, que eram ativistas de direitos humanos, que foram violentamente torturadas e assassinadas nesta mesma data, em 1960, a mando do ditador da República Dominicana Rafael Trujillo.

    Clique aqui para ler a cartilha.

    Fonte: MPT

  • O  anteprojeto de lei apresentado por Sergio Moro nesta segunda (4) viola a Constituição afrontando a presunção de inocência e ainda amplia a “subjetividade judicial na aplicação das penas”, entre outros defeitos. É o que avalia a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, em nota divulgada à imprensa.  

    A Defensoria criticou as alterações propostas no Código de Processo Penal, Código Penal e na Lei de Execuções Penais por Moro. A instituição lembrou que a reforma dos códigos vem sendo discutida em “ambientes específicos mais adequados” no Congresso Nacional.  

    Os defensores ainda afirmaram que estão debruçados sobre a proposta de Moro e devem publicar uma nota técnica a respeito do impacto do PL assim que possível.   Moro apresentou 14 mudanças nos códigos com o objetivo de combater o crime organizado, criminalizar o caixa 2 e endurecer a lei de execuções penais.

      Leia, abaixo, a nota da Defensoria do Rio:  

    NOTA PÚBLICA

    A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro vê com preocupação as propostas de alteração legislativa anunciadas pelo Governo Federal, em especial aquelas voltadas aos Códigos Penal e de Processo Penal e à Lei de Execuções Penais.

    Diversas medidas violam frontalmente os princípios constitucionais da presunção de inocência, da individualização da pena e do devido processo legal, como por exemplo a prisão antes do trânsito em julgado da condenação, o acordo penal e a ampliação da subjetividade judicial na aplicação das penas e de seus regimes de cumprimento.

    Um projeto que se propõe a aumentar a eficiência do sistema de Justiça não pode enfraquecer o legitimo e regular exercício do direito de defesa, nem esvaziar garantias fundamentais. É dever das Instituições a preservação de tais pilares do Estado Democrático de Direito. A harmonia do sistema legislativo também é necessária à segurança jurídica e à operação dos institutos de que trata o Projeto.

    A reforma dos Códigos Penal e de Processo Penal já vem sendo discutida no Congresso Nacional em ambientes específicos e mais adequados aos debates, ao amadurecimento e à composição sistêmica das propostas com a ordem político-jurídica brasileira.Defensores públicos estão debruçados sobre o texto com o objetivo de elaborar Nota Técnica a ser divulgada nos próximos dias.

    O documento pretende contribuir com os imprescindíveis debates que devem anteceder a aprovação de reformas que não podem ser apreciadas de afogadilho, sobretudo quando impactam de modo estrutural na legislação penal e processual penal do país.

    A Defensoria Pública, constitucionalmente destinada à promoção dos direitos humanos e à defesa integral e gratuita das populações vulneráveis, estará mobilizada e articulada junto à sociedade civil organizada com o objetivo de levar ao Parlamento e ao Governo Federal a experiência institucional nas áreas afetadas pelo Projeto, sempre no objetivo de preservação dos direitos e garantias fundamentais.

    Fonte: Carta de Campinas

  • O presidente sem voto Michel Temer afirmou nesta quinta (6) que a política de privatização do futuro "super ministro" da Economia, Paulo Guedes, pode ser boa para o país. 

    “Privatização é algo que deu certo no Brasil. Portanto, quanto mais privatizar eu acho melhor”, disse Temer em mensagem a Jair Bolsonaro. A declaração foi dada em entrevista a jornalistas da imprensa estrangeira, no Palácio da Alvorada.

    Vale lembrar que Temer sempre deixou claro que queria privatizar tudo o que pudesse e entregar o patrimônio nacional ao capital estrangeiro. Inclusive, os bancos públicos que, desde 2016, têm sido desmontados. 

    Fim da aposentadoria

    Temer também falou sobre a proposta de reforma da Previdência que acaba com a aposentadoria. Disse que Bolsonaro tem pressa na aprovação da idade mínima e afirmou que o melhor caminho seria aproveitar a proposta apresentada pelo seu governo.

    “Eu sugiro que se possa aprovar a nossa proposta. Já está prevista lá, seria muito útil. Tem a vantagem que já tramitou, seria só aprovar na Câmara e no Senado, em 2 turnos”, disse.

    Portal CTB - Com informações das agências

     

  • A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Violência Contra Jovens Negros e Pobres vem realizando sucessivas audiências públicas para encontrar o caminho da extinção do genocídio da juventude negra no Brasil. “Essa CPI pode cumpri um papel pedagógico importante para reeducarmos a sociedade a olhar par ao outro de forma mais humana e solidária”, argumenta Mônica Custódio, secretária de Promoção da Igualdade Racial da CTB. Em audiência nesta quinta-feira (21), a ministra Nilma Lino Gomes, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, disse que “todos nós somos responsáveis pelo futuro dos nossos jovens”. Ela perguntou ainda: “que juventude é essa que o mundo adulto tem ajudado a construir?”.

    Para Edson França, presidente da União de Negros pela Igualdade, a violência contra a juventude reflete o conservadorismo e o racismo arraigado da sociedade brasileira. Ele vê três questões principais, que a CPI pode ressaltar, neste momento. Primeiro ele acredita ser essencial aprovar o projeto de lei 4471/2012, que extingue o auto de resistência, “que permite aos policiais utilizarem esse argumento para justificar verdadeiros assassinatos”. Realizar um amplo debate sobre a proposta de redução da maioridade penal é o segundo item com objetivo de “informar à sociedade sobre os malefícios que isso pode trazer à formação da juventude, além de fomentar mais violência e favorecer a criminalidade”. Por fim, “é necessário dar visibilidade à juventude dando-lhes espaços apropriados para se expressarem com liberdade, em paz e em segurança”, concatena.

    A CPI traça o perfil dos jovens assassinados no país. Segundo os especialistas a violência no Brasil tem idade, cor e classe social. Houve consenso de que ocorre um verdadeiro genocídio da população jovem, negra, pobre e que mora na periferia das grandes cidades. “Temos sob nossos ombros o grande desafio de impedir que mais vidas tão jovens sejam desperdiçadas. Inclusive custa caro ao país porque esses jovens poderiam produzir muito, então por que não se investe muito mais na construção de escolas e na criação de espaços culturais, esportivos de lazer para os jovens?”, questiona Mônica.

    O presidente da CPI, Reginaldo Lopes (PT-MG) acha necessário promover melhorias no Plano Juventude Viva para toda a sociedade ser envolvida. No mesmo rumo vai João Jorge dos Santos, presidente do Grupo Cultural Olodum. Para ele é necessário “impedir que a sociedade e o Estado brasileiro continuem pensando em bala, violência, redução de maioridade, preconceito e selvageria”, segundo Santos, “essa é uma lição do passado e queremos ir para o futuro".

    O Senado também criou uma CPI para o tema. A CPI do Assassinato de Jovens, presidida por Lídice da Mata (PSB-BA). Ela pensa serem assustadores os dados da violência e, apesar disso, percebe que são “ignorados e invisíveis para a população”. Essa CPI também visa efetivar um diagnóstico e apontar soluções para o drama das milhares de mortes anuais de jovens entre 15 e 29 anos no Brasil, um dos países onde morrem mais jovens.

    Comunidade LGBT

    seminariolgbt congresso 2015

    Além das duas CPIs que apuram o genocídio da juventude negra brasileira, nesta quarta-feira (20) começou o 12º Seminário Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT) do Congresso com o tema “Nossa Vida das Outras - Empatia a Verdadeira Revolução”. Coma presença de inúmeras lideranças religiosas. Sobraram críticas à intolerância religiosa e ao discurso de ódio contra homossexuais. "O recurso da violência em nome do credo religioso constitui uma deformação do ensinamento da religião. O uso da violência nunca poderá justificar ações válidas na religião nem promover o sentimento religioso autêntico", defende o sacerdote católico da Diocese de Lorena (SP) Wagner Ferreira da Silva.

    "Tivemos de enfrentar os deputados conservadores para conseguir aprovar o ‎Seminário LGBT. O discurso de ódio está também dentro do Congresso. Nosso compromisso é confrontar o ódio com a empatia", conta o deputado federal Jean Wyllys (PSol-RJ). O seminário é organizado pelas comissões de Legislação Participativa, Cultura e Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática, a pedido dos deputados Jean Wyllys, Luiza Erundina (PSB-SP), Glauber Braga (PSB-RJ), Janete Capiberibe (PSB-AP) e Luciana Santos (PCdoB-PE).

    Por Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB com informações das agências Câmara e Senado