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Qui, Fev

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  • A Folha saiu do Facebook. E agora?

    Decisão do jornal é uma tentativa de se reposicionar na disputa por audiência e credibilidade, e escancara os graves problemas do Facebook no controle, sem transparência, da distribuição de conteúdos.

    Nesta briga de titãs, não nos cabe defender um ou outro monopólio. Mas não resta dúvida: Já passou da hora de mais setores da sociedade, em particular da mídia alternativa, repensarem sua presença no Facebook e descortinarem outros mecanismos que recuperem o papel da própria rede mundial de computadores, para enfim reduzir o poder desta corporação que quer fagocitar a internet.

    Nesta quinta-feira, 08 de fevereiro, a Folha de S.Paulo anunciou, em chamada de capa, que não vai mais publicar seus conteúdos no Facebook. Os motivos elencados pelo jornal são: a alteração dos algoritmos implementada pela plataforma que “passou a privilegiar conteúdos de interação pessoal, em detrimento dos produzidos por empresas, como as que produzem jornalismo profissional”, e o fato de o Facebook não ter conseguido “resolver satisfatóriamente o problema de identificar o que é conteúdo relativo a jornalismo profissional e o que não é”, o que de acordo com a Folha contribui para a disseminação das “fake news”.

    Há vários aspectos a serem analisados tanto na decisão da Folha, quanto nos argumentos por ela explicitados. É importante, também, refletir sobre este momento do Facebook, talvez a primeira crise da rede social criada por Mark Zuckerberg em fevereiro de 2004, e que tem em torno de 2 bilhões de usuários.

    A encruzilhada do jornalismo como produto comercial

    Os últimos anos foram mortais para as empresas jornalísticas. O surgimento da internet abalou os pilares que sustentavam essas empresas e abriu caminho para que o monopólio da produção de notícias fosse ameaçado.

    No Brasil, as empresas jornalísticas privadas gozavam do privilégio de serem, praticamente, as únicas produtoras de notícias para grandes massas. A barreira econômica de entrada para esta atividade empresarial sempre foi muito elevada e, portanto, reservada a grandes capitalistas, primeiro no meio impresso, depois no rádio e na televisão. Por integrarem um extrato da elite econômica, essas empresas também sempre tiverem o monopólio do discurso, impondo à sociedade uma agenda política, social e cultural baseada nos seus interesses de classe.

    A Internet mudou isso. Novos grupos sociais, políticos e econômicos passaram a ter a possibilidade de produzir conteúdo informativo e opinativo, disputando a atenção de parcela da sociedade e criando um ambiente mais plural e diverso na arena da comunicação. O “valor” da notícia caiu. Informações das mais variadas fontes passaram a estar disponíveis “sem custo” para o internauta. Esse novo ambiente abalou o modelo de negócios no qual – principalmente a mídia impressa – se baseava.

    Esse modelo era o da criação de uma escassez artificial da notícia. Mas o que é isso? Sinteticamente: A informação é um bem intangível (não existe fisicamente). Se eu te “dou” uma informação eu não deixo de tê-la. Eu a divido com você e nós dois passamos a ter a mesma informação. É diferente dos bens tangíveis, uma cadeira, por exemplo. Se eu dou a cadeira para você, eu deixo de tê-la. Bom, e daí? Daí, que este é um dos elementos que determinam o preço das coisas e todo o seu ciclo econômico. Com a informação, a notícia, não é assim. Por isso, o que as empresas faziam era criar uma escassez artificial da informação, a partir do controle de acesso (tiragem, bilhete, assinatura), da obsolescência programada (ninguém compra o jornal do dia anterior, ele perde a “validade e o valor” em 24 horas), propriedade intelectual e outros mecanismos.

    O valor da produção da notícia em si é aproximadamente o mesmo para a Folha e para um site da mídia alternativa. O que muda é o preço da impressão e distribuição. A internet eliminou estes dois e “desmonetizou” a notícia.

    Agora, a informação é dada em tempo real pela internet muito antes de sair nos jornais e está disponível em dezenas, centenas de páginas. Esse é o dilema das grandes empresas jornalísticas que se veem diante da eminência do já anunciado juízo final dos jornais impressos.

    Facebook alavanca novos produtores

    O Facebook condensou na sua plataforma mecanismos de distribuição de conteúdo que romperam a lógica dos grandes jornais e portais, permitindo a ampliação do alcance de outras veículos. Novas fontes de informação e opinião ganharam um grande alcance na rede social. O fenômeno já vinha desde o final de 2010. Mas, em particular no Brasil, houve um boom de novos coletivos de comunicação e cultura, que passaram a ser referência e ter grande alcance. Um deles é a própria Mídia Ninja.

    É nesta fase que se dá uma disputa mais acirrada pela audiência entre a mídia tradicional e as “novas mídias”. Isso se refletiu, inclusive, na distribuição de publicidade privada e estatal. É neste período que empresas e governos passam a investir mais recursos de publicidade na internet e em plataformas como Google e Facebook.

    Parecia inevitável que, em algum momento, a contradição entre os interesses deste novo gigante da internet e os da mídia tradicional fossem se chocar.

    Bate a assopra

    Há alguns anos o Facebook buscou estabelecer uma “aliança” com os tradicionais veículos de mídia, criando a funcionalidade dos “instant articles”. O recurso, lançado em 2015, permitia que as empresas de comunicação “hospedassem” seus conteúdos no Facebook. Desta forma, a pessoa poderia ler o conteúdo diretamente na plataforma do Zuckerberg sem ser direcionado para a página do jornal. A vantagem para o jornal seria o carregamento mais rápido do seu conteúdo e o estímulo ao usuário ler seus artigos na integra.

    Esse recurso coincide, mais ou menos, com o crescimento das ofertas de Facebook grátis para os planos de internet móvel, o chamado zero-rating. Operadoras e plataforma firmavam algum tipo de parceria e na hora de adquirir um pacote de dados para acesso à internet pelo celular, o cliente ganhava o Facebook – ou seja, a navegação na plataforma do Zuckerberg não descontava do plano de dados do usuário.

    Isso parecia interessante naquele momento, já que dados da Organização União Internacional das Telecomunicações (UIT) mostravam (e ainda mostram) que a maior parte das pessoas com acesso à internet estão conectadas pelo celular. Grandes empresas jornalísticas aderiram à proposta do Facebook: The New York Times, National Geographic, The Atlantic, NBC News. No Brasil o Estadão, a revista Exame e Catraca Livre.

    A força centrípeta do Facebook e seu crescimento no último período tornava de certa forma inquestionável que, apesar das contradições, as empresas jornalísticas ainda tinham algo a ganhar de visibilidade e audiência compartilhando seus conteúdos na rede social. Um pouco na lógica de ruim com ele, pior sem ele.

    Mas em janeiro desse ano, Mark Zuckerberg anuncia mais uma mudança nos algoritmos do Facebook e diz que sua plataforma vai mudar os critérios de indexação dos conteúdos para dar mais visibilidade a compartilhamentos pessoais, de amigos e família.

    Em sua página, o CEO do Facebook disse que uma pesquisa feita internamente mostra que “quando nós usamos as redes sociais para nos conectarmos com pessoas que gostamos, pode ser bom para nosso bem-estar”. E segundo ele esse é o objetivo da sua plataforma.“Uma vez que há mais conteúdo público do que posts de amigos e da família, o feed afastou-se da coisa mais importante que o Facebook pode fazer: ajudar a nos conectarmos uns com os outros”.

    Na sua avaliação, “nós podemos nos sentir mais conectados e menos sozinhos, e isso faz um paralelo com uma série de medidas sobre felicidade e saúde. Por outro lado, ler artigos passivamente ou assistir a vídeos — mesmo que eles sejam para entretenimento ou informativos — pode não ser tão bom.”

    A medida foi mal recebida pelas empresas jornalísticas, por outros produtores de conteúdo para o Facebook e inclusive para a bolsa de valores de Nova York – Nasdaq.

    As ações da companhia caíram, só em 12 de janeiro (um dia depois do anúncio), 4,47%. Essa queda representou uma perda de U$ 24,2 bilhões de dólares no valor de mercado do Facebook.

    Essa foi a gota da água, pelo menos para a Folha de S.Paulo, que ousou ao anunciar sua “retirada” do Facebook. Desde meados de 2017, mudanças nos algoritmos da plataforma já estavam afetando o alcance e a visualização de conteúdos de páginas, inclusive da mídia alternativa. No caso da Folha, “a importância do Facebook como canal de distribuição já vinha diminuindo significativamente antes mesmo da mudança do mês passado, tendência também observada em outros veículos”.

    Eles mostram que “o volume total de interações obtido pelas 10 maiores páginas de jornais brasileiros no Facebook caiu 32% na comparação com o mesmo mês do ano passado”.

    O fato é que ninguém sabe ao certo como funcionam os algorítimos do Facebook.

    Não há nenhuma transparências nos parâmetros que definem o que aparece ou não na nossa timeline.

    Não há mecanismos de accountability e os usuários (indivíduos ou empresas) são completamente reféns da caixa-preta do Facebook e do que o CEO considera que deva ser a missão da plataforma. Nos últimos anos, a plataforma de Zuckerberg foi se tornando cada vez mais um grande filtro de informação, ou como se diz no jargão jornalístico, um gatekeeper. Passou a direcionar o que a gente vê, lê ou assiste, de acordo com nossos “gostos”. O Facebook criou grandes bolhas que têm trazido impactos preocupantes para a vida em sociedade, amplificando a intolerância ao impedir a saudável contraposição de opiniões.

    Folha x Facebook

    A disputa econômica é o pano de fundo da decisão da Folha, que está apostando em outros mecanismos para recuperar relevância e audiência na internet. Entre eles, a mudança nos algoritmos do Google, que ao contrário do Facebook, passaram a privilegiar os veículos de grande mídia na indexação de suas buscas sobre o argumento de combater as “fake news”. Ou seja, se a notícia foi produzida por uma empresa jornalística sai ganhando na hora de aparecer nas primeiras colocações dos resultados do Google.

    Se o que moveu a Folha foi o fator econômico, o argumento público para justificar o “abandono” do Facebook é justamente o do combate às notícias falsas, ou “fake news”.

    Segundo avaliação do jornal, ao tirarem a “prioridade” dos conteúdos jornalísticos do seu feed, o Facebook está aumento o espaço para a disseminação de “fake news” e reduzindo o do jornalismo profissional.

    Aqui tem um termo que vale a reflexão: Jornalismo Profissional. Ele foi cunhado há mais um menos um ano, quando a Folha de S.Paulo lançou o seu novo Projeto Editorial.

    Estava claro, ali, que o objetivo já era tentar diferenciar o conteúdo produzido pelo jornal dos produzidos pela mídia alternativa.

    Ao adjetivar o jornalismo com o termo profissional, a Folha buscava recuperar a sua credibilidade, bastante comprometida pela cobertura explicitamente pró impeachment e subordinada ao projeto de retomada de uma agenda regressiva na área econômica, política e social.

    O termo profissional é uma maneira de qualificar o conteúdo da Folha, e desqualificar todo e qualquer conteúdo produzido por sites da mídia alternativa, independente, popular, comunitária. É uma forma de recuperar o valor comercial da notícia. Assim, tudo o que for produzido por coletivos e outros veículos que não sejam de empresas jornalísticas privadas não é “jornalismo profissional” e, portanto, não merece credibilidade.

    Se não é da grande mídia não tem qualidade, é suspeito e pode ser, potencialmente, uma notícia falsa. Por detrás do alarde criado em torno das “fakes news” há um velho conglomerado de empresas midiáticas monopolistas, que passaram a ter a sua hegêmonia econômica e política abaladas e que precisam a todo custo recuperar sua posição.

    Este divórcio entre Folha e Facebook é importante porque contribui para trazer à tona tanto o caráter prejudicial da rede social, quanto para mostrar as verdadeiras intenções dos jornalões que fazem de tudo para sobreviver.

    Renata Mielli é jornalista, coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e secretária geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e colunista da Mídia Ninja.

    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor. 

     

  • Emicida grava clipe com participação das Mães de Maio e pede respeito à juventude pobre

    A canção “Chapa” de autoria do rapper paulistano Emicida ganha clipe com a participação das Mães de Maio e viraliza na internet.

    O rapper conta ao Ponta Jornalismo que “os trabalhadores têm que agir, mano. Esse estalo, eu tive quando aquele moleque de 17 anos tomou um tiro de um policial, no Jardim Brasil, e ainda teve forças pra perguntar por que o cara tinha atirado nele” (leia a entrevista completa aqui).

    Ele se refere ao adolescente Douglas Rodrigues, morto por um PM em 2013, sem ter esboçado nenhuma reação à abordagem policial. Fato muito comum na periferia de São Paulo. Por isso, o clipe também apresenta dados da violência policial.

    Participam do vídeo cinco mulheres que contam suas histórias.  “Você vê, né, mano, a história dos filhos dessas senhoras é parecida. Parece que, se você não souber, é uma história só. Saiu de casa, foi abordado e… [faz sinal de tiro com as mãos]”, diz ele.

    O movimento Mães de Maio foi criado em 2006. Porque entre os dias 12 e 21 de maio houve ação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e a PM saiu às ruas e matou 564 pessoas. A falta de solução para essa chacina de “suspeitos”, deu origem ao movimento (saiba mais pelo Facebook do grupo aqui)

    crimes de maio 1

    “O Mães de Maio é um movimento de mulheres donas de casas, mas que aprendeu, ao longo desses anos, a trabalhar com esse sistema. E quando as donas de casa saem de suas casas e começam a militar perante o Brasil, acabam ultrapassando as fronteiras. O nosso grito é um grito que tem que ecoar porque nosso país é um país omisso”, Débora Maria Silva, fundadora do movimento.

    Chapa é um menino morto pela polícia. Os dados apresentados pelo vídeo são tão fortes quanto a letra da música. Em 10 anos, a PM paulista matou quase 12.000 jovens, na maioria absoluta negros, pobres, moradores da periferia, desarmados e sem passagem pela polícia.

    Assista o clipe 

    Chapa (Emicida)

    Chapa, desde que cê sumiu

    Todo dia alguém pergunta de você

    Onde ele foi? Mudou? Morreu? Casou?

    Tá preso, se internou, é memo? Por quê?

    Chapa, ontem o sol nem surgiu, sua mãe chora

    Não dá pra esquecer que a dor vem sem boi

    Sentiu, lutou, ei "Jhow" ilesa nada,

    Ela ainda tá presa na de que ainda vai te ver

    Chapa, sua mina sorriu, mas era sonho

    Quando viu, acordou deprê

    Levou seu nome pro pastor, rezou.

    Buscou em tudo, Face, Google, IML, DP

    (E nada)

    Chapa, dá um salve lá no povo

    Te ver de novo faz eles reviver

    Os pivetin' na rua diz assim:

    Ei tio, e aquele zica lá que aqui ria com nóiz, cadê?

    Chapa pode pá, to feliz de te trombar

    Da hora, mas deixa eu fala prucê

    Isso não se faz, se engana ao crê

    Que ninguém te ame e lá

    Todo mundo temendo o pior acontecer

    Chapa, então fica assim, jura pra mim que foi

    E que agora tudo vai se resolver

    Já serve, e eu volto com o meu peito leve

    Até breve, eu quero ver sua família feliz no rolê

    Mal posso esperar o dia de ver você

    Voltando pra gente

    Só voz avisar o quanto ama-te

    Você de um riso contente

    Vai ser tão bom, tipo São João

    Vai ser tão bom, que nem reveillon

    Vai ser tão bom, Cosme e Damião

    Vai ser tão bom, bom, bom

    Chapa, desde que cê sumiu

    Todo dia alguém pergunta de você

    Onde ele foi? Mudou? Morreu? Casou?

    Tá preso, se internou, é memo? Por quê?

    Chapa, ontem o sol nem surgiu, sua mãe chora

    Não da pra esquecer que a dor vem sem boi

    Sentiu, lutou, ei "Jhow" ilesa, nada

    Ela ainda tá presa na de que ainda vai te ver

    Chapa, sua mina sorriu, mas era sonho

    Quando viu, acordou deprê

    Levou seu nome pro pastor, rezou.

    Buscou em tudo, Face, Google, IML, DP

    (E nada)

    Chapa, dá um salve lá no povo

    Te ver de novo faz eles reviver

    Os pivetin' na rua diz assim:

    Ei tio, e aquele zica lá que aqui ria com nóiz, cadê?

    Chapa pode pá, to feliz de te trombar

    Da hora, mas deixa eu fala prucê

    Isso não se faz, se engana ao crê

    Que ninguém te ame e lá

    Todo mundo temendo o pior acontecer

    Chapa, então fica assim, jura pra mim que foi

    E que agora tudo vai se resolver

    (Vô menti prucê não mano

    Às vez eu acho de bobeira um retrato lá em casa

    Olho não aguenta não, enche de água)

    Mal posso esperar o dia de ver você

    Voltando pra gente

    Só voz avisar o quanto ama-te

    Você de um riso contente

    Vai ser tão bom, tipo São João

    Vai ser tão bom, que nem reveillon

    Vai ser tão bom, Cosme e Damião

    Vai ser tão bom, bom, bom

    Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB

  • Engenheiro desafia presidente da OAB a justificar o pedido de impeachment

    "Pode um presidente da República ter seu mandato cassado em processo de impeachment sem que contra ele exista crime de responsabilidade provado?", questiona o engenheiro Ivo Pugnaloni, sobre a decisão da OAB, presidida por Cláudio Lamachia, de apoiar o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff.

    Nestes dias confusos de crise por que passa o Brasil, tem sido tantos os presos condenados e tantos os delatores criminosos confessos que foram perdoados, que muita gente pode estar em dúvidas se a corrupção está mesmo sendo enfrentada. Ou se, depois de passada a crise política, virá mais pizza por aí.

    Inúmeros juristas famosos questionam tanto a eficácia e como a própria legalidade dos procedimentos jurídicos adotados, que podem ser revistos, embora seus efeitos políticos possam ser imensos.

    Por isso resolvi encaminhar ao meu advogado uma carta, na qual fiz dez perguntas, relacionadas a noticias sobre a chamada “Operação Lava Jato” que a mídia tem trazido na ultima semana e à matéria investigativa da Revista IstoE de 2003, intitulada “Raposa no galinheiro” , disponível no Google, sobre o Caso Banestado.

    Afinal nesse caso Banestado, ocorrido em seguida às escandalosas privatizações da Vale, da Telebrás, de várias geradoras e distribuidoras de energia, vendidas na “bacia das almas” por preços insignificantes, mais de 520 bilhões de reais foram convertidos em dólares na cotação da época, que era de um por um. E remetidos para o exterior, ilegalmente.

    Entretanto, vale notar que segundo a revista, graças às imperfeições jurídicas do processo, ninguém foi condenado e o processo foi arquivado no STF. Por falta de provas.

    Após entregar a carta, resolvi compartilhar o tema com os amigos na forma desse artigo, pois acho que fiz perguntas sobre conceitos básicos do Direito que, como simples engenheiro, eu pensava que já sabia. E que muitos podem estar equivocados como eu, que pensava que sabia as respostas, pois achava que deveriam ser todas, um simples e sonoro “Não”.

    Dez “Nãos”, portanto.

    Vamos às perguntas?

    1. Um juiz, recebendo de um denunciante uma lista de suspeitos, pode simplesmente escolher “não investigar” as evidencias, alegando que elas “são difíceis de investigar?”

    2. Um promotor da área criminal, recebendo o oferecimento de uma empresa para fazer delação premiada, pode recusar a receber as denuncias e toda a vasta documentação que a acompanha?

    3. Em um mesmo processo, um Juiz pode determinar o sigilo para uma lista de suspeitos e a publicidade de gravações de pessoas públicas, como o presidente da Republica, que não são suspeitos?

    4. Um juiz pode mandar gravar e dar a publicar, em uma só rede de televisão, conversas entre um advogado e seus clientes?

    5. Um juiz pode negar aos advogados acesso a um processo, mas ao mesmo tempo dar para essa mesma rede de televisão, cópia integral do mesmo processo?

    6. Pode um Juiz determinar a condução coercitiva de alguém que não foi intimado e não se negou a dar depoimento, avisando à mesma rede de televisão o local da sua detenção, transbordo e destino final, favorecendo o aumento de audiência da empresa de comunicações e denegrindo a imagem pública do conduzido?

    7. Um promotor criminal poderia trabalhar na investigação de crime no qual seu cônjuge é indiciado?

    8. Um juiz, recebendo no processo a informação de que o promotor do caso que preside é casado com uma das principais suspeitas, poderia ter ignorado o fato e não ter determinado o afastamento do mesmo por suspeição, conforme pedido formal?

    9. Um juiz poderia despachar favoravelmente à petição desse promotor apontado como não isento por suspeição, para que não se permitisse o acesso da Polícia Federal às contas bancárias que teriam recebido remessas provenientes das contas abertas pela esposa desse mesmo promotor, quando esta era gerente da agencia bancária investigada?

    10. O doleiro que operacionalizou as remessas e confessou a autoria, poderia ter deixado de ser condenado no caso BANESTADO e agora receber o benefício da delação premiada na Operação Lava Jato?

    Essas dez perguntas parecem genéricas.

    Mas quem acompanha os casos Banestado e Lava Jato sabe que não são. Afinal quem acompanha os dois casos sabe que tanto o doleiro delator beneficiado, como o promotor federal suspeito de falta de isenção e o juiz federal dos dois casos, são exatamente as mesmas pessoas.

    Como engenheiro, experimentei calcular a probabilidade de que três pessoas quaisquer, nessas mesmas posições se encontrassem novamente em um mesmo caso.

    Fui buscar então saber quantos juízes e promotores federais existem no Brasil. A menos de que as informações que recebi de meu advogado estejam erradas, no Brasil existem aproximadamente 2000 juízes e 1100 promotores federais. E os delatores da Operação Lavajato, beneficiados com o perdão e diminuição da pena são até agora 12.

    Para obter a probabilidade da ocorrência de um fato com esses três condicionantes, ( mesmo Juiz, mesmo promotor e mesmo doleiro ) basta multiplicar o inverso desses três números.

    O resultado foi: uma vez, em cada 26 milhões de casos.

    Como eu não acredito em coincidências, mas apenas na Providência Divina, é que fiz essas dez perguntas ao meu advogado.

    Mas se algum outro advogado, algum do Conselho Federal da OAB, seu presidente Cláudio Lamachia, por exemplo, quiser responder, seria muito bom. Acho que essa seria uma das finalidades da OAB, inscrita nos seus estatutos.

    Aproveitando a oportunidade, o eminente causídico o Dr Lamachia, titular da conceituada empresa Lamachia e Advogados, de Porto Alegre, poderia responder a mais essas outras quatro perguntas:

    1. Pode um presidente da republica ter seu mandato cassado em processo de impeachment sem que contra ele exista crime de responsabilidade provado?

    2. Seria conveniente para o exercício, de agora em diante, da nobre profissão de advogado, que a Ordem dos Advogados do Brasil defendesse o impeachment de presidente da republica sem estar presente a condição de existir crime nessas condições?

    3. Seria essa a única e mais correta maneira de que os adversários do atual governo que ocupam cargos na OAB possam exercer o seu sagrado direito de usar todo seu saber jurídico para fazer valer suas opiniões políticas?

    4. Estaria o Dr Lamachia disposto a fazer à nobre classe dos advogados, que soma mais de 800 mil profissionais em todo o Brasil, uma Consulta Pública sobre o assunto? Ou seja uma consulta sobre como a OAB de Sobral Pinto e de tantos atos históricos em defesa da democracia deveria se posicionar nesse momento?

    5. Ou a impressão de que existiu uma aligeirada decisão política de sua direção nesse caso, deveria continuar a contaminar esse respeitado histórico de bons serviços prestados à nação e à Democracia?

    Fonte: Brasil 247