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Seg, Abr

Guerra híbrida

  • Dez mentiras sobre a Venezuela que pela repetição se tornam verdade

    A guerra híbrida que vive a Venezuela tem a desinformação e manipulação midiática como uma de suas principais armas de combate. Lemos e escutamos mentiras de analistas que nunca estiveram na Venezuela e as repetem tantas vezes que se convertem em realidade para a opinião pública. 

    Por Katu Arkonada*

    1 – A Venezuela tem dois presidentes

    Nada mais distante da realidade. A Constituição venezuelana estabelece em seu artigo 233 como “falta absoluta do presidente” sua morte, renúncia, destituição decretada pelo Tribunal Supremo de Justiça, ou a incapacidade física ou mental decretada por uma junta médica. Juan Guaidó não tem nenhum argumento constitucional para autoproclamar-se presidente, pois não há falta absoluta do presidente, que fez o juramento tal e como estabelece a Constituição em seu artículo 231: em 10 de janeiro e diante do Tribunal Supremo de Justiça. 

    2 – Guaidó tem apoio da comunidade internacional 

    Para além da hipocrisia de chamar “comunidade internacional” alguns países do Ocidente, em 10 de janeiro a posse de Nicolás Maduro contou com a representação diplomática de mais de 80 países, desde a Rússia à China, passando pelo Vaticano, a Liga Árabe e a União Africana. Esses países seguem mantendo relações diplomáticas com o governo de Maduro. Guaidó tem o reconhecimento dos mesmos países que em 10 de janeiro não reconheceram Maduro: Estados Unidos e o Grupo de Lima (exceto o México). Fora isso, só se somaram Georgia (devido à disputa territorial com a Rússia), Austrália e Israel. 

    3 – Guaidó é diferente da oposição violenta

    Guaidó é deputado pela Vontade Popular, partido político que não reconheceu as eleições presidenciais de 2013 e cujo líder, Leopoldo López, está condenado por ser o autor intelectual do episódio “La Salida” que impulsionou as guarimbas [manifestações violentas] de 2014, que tiveram um saldo de 43 mortos e centenas de feridos. 

    4 – A Assembleia Nacional é o único órgão legítimo 

    O artigo 348 da Constituição venezuelana autoriza o presidente a convocar uma Assembleia Constituinte, e o artigo 349 define que os poderes constituídos (Assembleia Nacional) não poderão, de forma alguma, impedir as decisões da Assembleia Constituinte. A decisão de convocar a Constituinte foi um ato de astúcia do chavismo para rifar o bloqueio da Assembleia Nacional e, gostem ou não, foi realizado com estrito apego à Constituição.

    5 – Maduro foi reeleito de maneira fraudulenta, em eleições sem oposição 

    As eleições de 20 de maio de 2018 foram convocadas pelo mesmo CNE (Conselho Nacional Eleitoral) que permitiu a eleição de Guaidó como deputado. Houve três candidatos de oposição que juntos conquistaram 33% dos votos e foram seguidas as normas estabelecidas na mesa de diálogos realizada na República Dominicana entre o governo venezuelano e a oposição, com mediação do ex-presidente espanhol José Luís Rodríguez Zapatero. 

    6 – Na Venezuela não há democracia

    Desde 1998 foram realizadas cinco eleições presidenciais, quatro eleições parlamentares, seis eleições regionais, quatro eleições municipais, quatro referendos constitucionais, e uma consulta nacional [plebiscito]. Ou seja: 23 eleições em 20 anos. Todas com o mesmo sistema eleitoral, considerado um dos mais seguros do mundo pelo ex-presidente estadunidense Jimmy Carter. 

    7 – Na Venezuela há uma crise humanitária

    Não há dúvidas de que na Venezuela há agora uma crise econômica impulsionada por ordens executivas de Barack Obama e Donald Trump ao declarar o país como perigo para a segurança nacional dos Estados Unidos, com sanções que têm impedido a compra de alimentos e medicamentos.

    Essa crise tem provocado uma migração econômica que alguns tentam maquiar como “asilo político”, fato desmentido pelos dados: entre janeiro e agosto de 2018 a Comissão Mexicana de Ajuda ao Refugiado recebeu 3.500 solicitações de asilo de venezuelanos e 6.523 solicitações de refúgio de cidadãos hondurenhos, por exemplo, quase o dobro. 

    8 – Na Venezuela os direitos humanos são violados 

    Analisemos as cifras das guarimbas de 2017: 131 pessoas mortas, 13 das quais por disparos das forças de segurança (fato que levou 40 oficiais a serem presos e processados); 9 membros das diferentes polícias e Guarda Nacional Bolivariana foram assassinados e cinco pessoas foram queimadas vivas ou linchadas pela oposição. As demais mortes se deram enquanto pessoas manipulavam explosivos de forma irregular ou tentavam saltar das barricadas da oposição. 

    9 – Na Venezuela não há liberdade de expressão 

    As imagens destes dias de Guaidó dando declarações rodeado de microfones de meios de comunicação nacionais e internacionais desmentem tal afirmação. 

    10 – A comunidade internacional está preocupada com o Estado da democracia na Venezuela

    A comunidade internacional representada pelos Estados Unidos e o Grupo de Lima não está preocupada com os presos torturados em Guantánamo; não se preocupa com os defensores dos direitos humanos assassinados diariamente na Colômbia, não há preocupações com as caravanas de imigrantes que fogem da doutrina do shock neoliberal em Honduras e tampouco se importa com as relações do filho de Jair Bolsonaro com as milícias que assassinaram Marielle Franco. 

    Não, ninguém do Grupo de Lima e seu aliado Estados Unidos julga grave as violações dos direitos humanos nestes países todos. O que se esconde por trás desta preocupação com a Venezuela não se chama democracia. Se chama petróleo, ouro e coltan. 

     *Katu Arkonada é cientista político, autor de livros relacionados à política latino-americana e membro da Rede de Intelectuais na Defesa da Humanidade. Este artigo foi publicado originalmente no jornal mexicano La Jornada.

    Fonte: La Vanguarda I Tradução: Mariana Serafini, publicado em português pelo portal Vermelho

  • O duelo entre EUA e China no centro da geopolítica mundial

    A decadência dos EUA e a ascensão da China são os fenômenos econômicos e geopolíticos mais relevantes do nosso tempo. Eles dão o tom dos conflitos internacionais e explicam a estratégia agressiva dos EUA para preservar e se possível ampliar a sua hegemonia.

    Entre os meios usados pelo império para manter o domínio global destacam-se a chamada guerra híbrida e as revoluções coloridas, que transformaram a realidade do Oriente Médio e levaram a mudanças de regime no leste europeu favoráveis a Washington e contrários aos interesses da Rússia. Esta, sob o governo Putin, transformou-se na mais forte e poderosa aliada da China na batalha por uma nova ordem internacional esboçada em iniciativas como a formação do Brics, a criação do Banco Asiático de Investimentos e Infraestrutura e de uma nova “Rota da Seda”.

    Os países da América Latina e Caribe também são palcos deste duelo, com os EUA em aliança com as forças conservadoras locais, principalmente as de extrema-direita, trabalhando para destruir as experiências de governos progressistas que, eleitos pelo povo, que derrotaram a Alca (em 20015) e deflagraram um processo de transição geopolítico na região hostil a Washington, que estimulou golpes de Estado em Honduras (2009), no Paraguai (2012) e Brasil (2016) para reverter o cenário político.

    Objetivos na Venezuela

    Neste momento, a Casa Branca não poupa esforços e conspira abertamente para derrubar o regime bolivariano liderado por Nicolás Maduro, que significativamente é apoiado por Moscou e Pequim. São dois os principais objetivos dos EUA na Venezuela: apoderar-se das maiores reservas de petróleo do mundo e conter a expansão da China na região que os imperialistas norte-americanos consideram como seu “quintal’. O resto é retórica sem substância real.

    A China é a nação mais rica e mais próspera do globo hoje. O histórico das estatísticas econômicas revela a superioridade do seu socialismo de mercado sobre o capitalismo neoliberal do Ocidente. O governo estadunidense, presidido pelo bilionário Donald Trump, iniciou uma temporada de guerra comercial contra o gigante asiático com o objetivo de interromper e reverter a sua ascensão. Até agora não teve êxito, mas estende sua estratégia agressiva não só para o campo comercial. Suas apostas provavelmente contemplam também a chamada guerra híbrida e lembram os eventos de 1989 na Praça da Paz Celestial, nos quais ficaram impressas as impressões digitais subversivas do poderoso império.

    Abaixo reproduzimos reportagem publicada recentemente no jornal “Valo Econômico”, assinada por Katsuji Nakazawa e intitulada “Exigências dos EUA abalam as bases do poder na China”, sobre o alarme que autoridades chinesas fizeram soar sobre a necessidade de prevenir contra a tentativa de fazer vingar no país uma “revolução colorida”. As frases entre parênteses foram observações críticas acrescentadas pela Redação do Portal CTB.

    Aniversário da revolução

    A polícia da China terá de impedir uma “revolução colorida” neste ano, o 70º aniversário da fundação da República Popular da China. A afirmação foi feita recentemente por uma importante autoridade da ordem pública, surpreendendo analistas da China no exterior.

    A advertência veio de Zhao Kezhi, conselheiro de Estado e ministro da Segurança Pública, uma autoridade com poderes de vice-premiê, encarregada de manter a ordem pública. É raro que autoridades chinesas se referirem publicamente à necessidade de evitar levantes populares num país em que o regime do Partido Comunista é tido como perfeito.

    Mas, no discurso feito na reunião nacional anual do ministério, em 17 de janeiro, Zhao disse que a polícia precisa “enfatizar a prevenção e oposição a ‘revoluções coloridas’, e lutar com firmeza para proteger a segurança política da China”. A transcrição do discurso se encontra no site do ministério.

    Defender o sistema socialista

    “Temos de defender com firmeza a liderança do Partido Comunista Chinês e o sistema socialista de nossa nação”, afirmou ele, acrescentando que a polícia precisa ainda “reagir contra todos os tipos de infiltração e atividades subversivas de forças estrangeiras hostis”.

    O termo revoluções coloridas é uma referência aos movimentos de democratização que varreram a extinta União Soviética, o Leste Europeu e o Oriente Médio nas últimas décadas, derrubando regimes autoritários duradouros (na verdade, trata-se de governos aliados à Rússia, substituídos por aliados de Washington; na Ucrânia foi instalado um governo golpista de feição neofascista apoiado pelos EUA e a Otan).

    Muitos movimentos receberam o nome de cores de flores. A Revolução Laranja de 2004-2005 na Ucrânia é um exemplo, assim como a Revolução Jasmim de 2010-2011 na Tunísia, que desencadeou a Primavera Árabe.

    A China também registrou clamores parecidos em 2011, mas mensagens disseminadas na internet foram rapidamente sufocadas, com as autoridades entrando em modo de gerenciamento de crise.

    Números invejáveis

    A economia da China cresceu 6,6% em 2018 e foi novamente estimulada no começo deste mês por um aumento de 8,5% no consumo no feriado do Ano Novo chinês. Embora os dois números sejam invejáveis pelos padrões globais, eles não dão aos líderes chineses conforto suficiente.

    Olhando em retrospecto, a economia chinesa vem crescendo desde a introdução, em 1978, da política de “reforma e abertura”. Apesar dos altos e baixos, a população chinesa não interrompeu sua marcha em busca de mais prosperidade. Seu sentimento de satisfação com a política econômica tem sido a pedra fundamental da legitimidade do partido para governar.

    É difícil prever o que acontecerá numa sociedade acostumada a crescer 10% ao ano se, de repente, o bolo crescer pouco. Mas essa incerteza provavelmente é o que levou o presidente Xi Jinping a alertar para o risco de um “cisne negro” em um pronunciamento recente. A expressão refere-se a eventos inesperados de grandes proporções.

    Estratégia de Big Data

    Por décadas a China alertou contra a teoria da Evolução Pacífica, uma crença de que o Ocidente, principalmente os Estados Unidos, estariam tentando transformar gradualmente o sistema socialista da China via meios pacíficos.

    O Ocidente, diz a tese, faria isso espalhando ideias políticas e estilos de vida ocidentais e incitando o descontentamento, encorajando grupos a se mobilizar e a enfrentar o Partido Comunista.

    A ansiedade é um reflexo do trauma sofrido pela China ao assistir o colapso da União Soviética, em 1991. A cautela da China com a teoria da Evolução Pacífica posteriormente se transformou em vigilância contra a ameaça mais iminente das revoluções coloridas.

    No discurso de janeiro, o chefe de polícia, Zhao Kezhi, falou sobre como evitar uma revolução colorida. A polícia vai empregar uma “estratégia de Big Data”, disse ele, e usar tecnologia digital de ponta.

    Na China, já aconteceu de um criminoso procurado pela Justiça ser presos num grande show de música. Câmeras de vigilância instaladas nas arenas e outros espaços públicos permitem o uso de sistemas de reconhecimento facial. O mesmo sistema monitora hóspedes que chegam a hotéis.

    Supremacia tecnológica

    Essa estratégia de Big Data é viabilizada por empresas de tecnologia como a Hikvision Digital Technology e Hytera Communications. Sediada em Hangzhou, a Hikvision é a maior fabricante de câmeras de vigilância do mundo, enquanto a Hytera, sediada em Shenzhen, é uma grande fabricante de equipamentos de rádio e sistemas de rádio para a polícia.

    Essas empresas estão agora no centro da disputa entre os EUA e a China que, à primeira vistas parece envolver questões econômicas e comerciais, mas no fundo é uma luta pela supremacia tecnológica.

    Os EUA começaram a impor sanções a essas companhias com a aprovação da Lei de Autorização de Defesa Nacional, no terceiro trimestre de 2018. A partir de agosto de 2020, empresas que estiverem usando em seus escritórios produtos fabricados por cinco companhias chinesas de tecnologia, incluindo a Hikvision e a Hytera, serão proibidas de fazer negócios com órgãos do governo dos EUA.

    Mobilizar o Big Data e acelerar a “China Digital” são pilares importantes do “Made in China 2025”, o programa chinês de desenvolvimento de setores “high-tech”. Washington já exigiu que a China abandone totalmente a iniciativa.

    O controle duro exercido pela China sofre a informação é bem representado pelo bloqueio a plataformas internacionais de redes sociais, como Google e Facebook. O temor é que o fluxo livre de informações possa ameaçar o sistema de governo do Partido Comunista (afinal, conforme mostraram informações vazadas pelo Wikileaks as grandes empresas de informática dos EUA estão associadas ao serviço de espionagem global montado pela CIA, NSA e Pentágono).

    Enquanto isso, o WeChat e outras redes sociais chinesas podem ser usadas livremente nos países ocidentais. O Ocidente teme que, por meio delas, informações possam ser coletadas em todo o mundo pela China. Memes da internet que criticam o Partido são deletados e, em alguns casos, as contas são suspensas abruptamente.

    Com uma confiança recém-adquirida em suas habilidades de tecnologia da informação, a China está trocando sua tradicional posição defensiva por uma mais ofensiva, tentando ampliar o alcance de sua rede de informações.

    A batalha pela supremacia dos dados é o que está por trás da decisão de excluir a gigante tecnológica chinesa Huawei Technologies do fornecimento de infraestrutura para as redes de comunicação 5G da próxima geração. Os EUA querem impedir que informações de todo o mundo, inclusive do próprio país, fluam para a China.

    Enquanto houver confronto, são mínimas as possibilidades de a China permitir buscas no Google e acesso ilimitado ao Facebook em seu território, sem censura.

    Guerra comercial

    Permitir isso afetaria a base da política de propaganda e de governança do partido. O mesmo vale para as negociações comerciais entre EUA e China, que entraram numa fase crítica antes do prazo final de 1º de março para que os dois países cheguem a um acordo.

    O representante comercial dos EUA, Robert Lighthizer, que liderou a delegação americana em Pequim, na semana passada, disse que “questões estruturais” são importantes, assim como mecanismos para fazer a China cumprir os acordos. Mas a China insiste que é impossível mudar a base de seu sistema econômico. As divisões entre os EUA e a China são grandes.

    O principal foco das negociações sino-americanas não está mais no desequilíbrio comercial bilateral. Está na “proteção da segurança política da China”, segundo disse o ministro da Segurança Pública, Zhao, em seu discurso.

    As exigências comerciais dos EUA se aproximam do centro do regime do partido. A insistência de Washington para que Pequim elimine os subsídios às estatais chinesas é um exemplo disso.

    O fortalecimento das empresas estatais é um dos pilares da “nova era” de Xi. O próprio presidente chinês faz vários apelos por estatais “mais fortes, melhores e maiores”. Se os EUA interferirem, as conquistas de Xi poderão ser invalidadas, e sua autoridade, minada (note-se que a política da China, neste e em outros aspectos, é uma antítese da receita neoliberal que o governo estadunidense pretendem impor a todo o mundo).

    Até mesmo companhias estatais ineficientes podem ter lucro e sobreviver na China, pois recebem tratamento favorável do governo, que permite seus oligopólios.

    Além do mais, mudanças de pessoal na cúpula das estatais são feitas com o mesmo mecanismo que o partido e o governo usam no rearranjo de suas lideranças. Executivos graduados de estatais são trocados regularmente segundo interesses do Comitê Central do partido. Eles não são executivos no sentido ocidental da palavra, e sim burocratas que desempenham um papel no Partido Comunista.

    Assim, Xi não pode negar a si próprio esse pilar da “nova era”. Como a liderança chinesa não pode abrir mão de seu controle sobre o Big Data, que ela usa para manter a rede de vigilância que, acredita, irá evitar uma revolução colorida.

    Antes das negociações comerciais da semana passada, o presidente americano, Donald Trump, não deixou claro se se reuniria com Xi, pressionando o líder chinês. O governo Trump ameaça aumentar as sobretaxas impostas a US$ 200 bilhões em produtos importados da China, de 10% para 25%, se não houver acordo até 1º de março. O tempo está acabando (na verdade já acabou sem que se chegasse a um acordo e um novo prazo final para o encerramento das negociações foi fixado: 27 de março, quando Trump tem um encontro marcado com Xi na Flórida).

  • Venezuela: a guerra híbrida desencadeada pelos EUA pode desaguar na intervenção direta

    Obscurecida por uma cortina de fumaça midiática que nos quer convencer de que se trata de um dilema entre democracia (concebida como um valor universal) e ditadura, os conflitos políticos que sacodem a Venezuela e envolvem todo o seu entorno adquirem cada vez mais os contornos de um embate geopolítico que opõem notoriamente os Estados Unidos à China e à Rússia.

    O objetivo à margem da retórica é o controle das maiores reservas de petróleo do mundo e preservação da hegemonia mundial. A Europa, embora aparentemente em cima do muro e desfiando contradições e remorsos, tende a respaldar as aventuras da Casa Branca.

    O governo de Nicolás Maduro conta com o apoio da China (que investiu cerca de US$ 70 bilhões na Venezuela) e da Rússia, que defendem o consagrado direito internacional das nações à autodeterminação, que por definição exclui e condena a possibilidade de intervenção estrangeira em pelejas domésticas, princípio também proclamado pela Celac e pelos governos progressistas da América Latina e Caribe.

    Onda conservadora

    Mas a onda conservadora que invadiu o continente ao longo dos últimos anos, distribuindo golpes de Estado e fortalecendo políticos conservadores, alterou as percepções e a correlação de forças políticas, revertendo o processo de integração regional que desaguou na Celac e desenhou um novo arranjo geopolítico hostil ao hegemonismo de Washington, que parece ter recuperado o comando da situação.

    Não se pode dizer por quanto tempo o quadro atual prevalecerá, mesmo porque ele não está em sintonia com as transformações econômicas, objetivas e silenciosas, ocorridas nas últimas décadas, traduzidas na ascensão da China, que se transformou na maior economia do planeta, e na progressiva decadência do poderio econômico relativo dos EUA.

    A sensação de declínio, ampliada com Donald Trump e sua guerra comercial, deixou os imperialistas americanos ainda mais arrogantes e belicosos. A forma com que se conduzem diante da crise na Venezuela, apoiando abertamente um golpe de Estado, é emblemática. Os EUA deflagraram o que alguns críticos do imperialismo caracterizaram como guerra híbrida, uma espécie de guerra por procuração, terceirizada, promovida por lacaios.

    Porém, frente à resistência do governo Maduro, que conta com o precioso apoio das Forças Armadas, da Corte Suprema e da população mais pobre, o impasse se agravou e crescem os indícios de que a guerra híbrida tende a evoluir para uma intervenção militar direta.    

    Intervenção militar

    Segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, María Zajárova, o governo dos Estados Unidos está "preparando o cenário" para uma intervenção militar no país e a narrativa de "intervenção humanitária" (para defesa da democracia) não passa de uma "operação de encobrimento". A decisão de intervir militarmente já foi tomada, de acordo com informações da porta-voz ao RT, canal estatal russo de televisão.

    “Continuam chegando sinais de Washington sobre a possibilidade de usar a força para derrubar as autoridades legítimas através de uma intervenção militar direta”, disse a representante do governo da Rússia, aliado do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

    A crise no país sul-americano se acentuou depois que o deputado oposicionista Juan Guaidó, com o apoio dos Estados Unidos, se autoproclamou presidente República. Ele foi reconhecido por uma série de países aliados aos EUA e pela União Europeia. Países como China, Turquia e Rússia, no entanto, seguem reconhecendo a legitimidade de Maduro.

    Para a porta-voz do governo da Rússia, a presença de militares norte-americanos na área de fronteira da Venezuela, que ocupam essas regiões sob a justificativa da “ajuda humanitária”, não passa de uma “operação de encobrimento” que tem, por objetivo, a intervenção militar direta.

    Operação de encobrimento

    “Nesta situação, você chega a uma conclusão óbvia: de que Washington já tomou a decisão de intervir militarmente na Venezuela. Todo o resto é operação de encobrimento”, disparou.

    As declarações de Zajárova vêm quatro dias após o próprio presidente dos EUA, Donald Trump, admitir que tem a intervenção militar como uma “opção” para resolver a crise na Venezuela.

    “Gostaria de lembrar que tais declarações de autoridades norte-americanas são uma violação direta do artigo da Carta da ONU, que obriga todos os membros da organização a não ameaçarem ou fazerem o uso da força em suas relações internacionais”, disse a porta-voz.

    Cúmulo do cinismo

    Na mesma declaração desta quinta-feira (7), a porta-voz do governo russo chamou de “cúmulo do cinismo” a postura dos Estados Unidos ao criticar o governo de Nicolás Maduro ao mesmo tempo em que impõe sanções econômicas que agravam a crise no país.

    “Eles dizem que os venezuelanos vivem mal com este governo. Bem, não imponham sanções! Deixe o estado vivo para que se desenvolva e resolva seus próprios problemas, não os agrave”, pontuou. A hipocrisia já foi considerada por um atento observador como um patrimônio nacional dos EUA, embora seja um patrimônio exclusivo das suas classes dominantes. É, com efeito, uma arte na qual são inigualáveis.

    Umberto Martins, jornalista, editor do Portal CTB e autor do livro "O golpe do capital contra o trabalho". 

  • Venezuela: como o laboratório de mudança de regime dos EUA criou o líder da empreitada golpista

    Por Max Blumenthal [*] e Dan Cohen [**]

    Antes do fatídico dia 22 de Janeiro, menos de um em cada cinco venezuelanos tinha ouvido falar de Juan Guaidó. Há apenas alguns meses, este homem com 35 anos era um personagem obscuro de um grupo de extrema-direita politicamente marginal e associado a tenebrosos atos de violência nas ruas. Mesmo no seu próprio partido, Guaidó não passara de uma figura de nível médio na Assembleia Nacional dominada pela oposição e que agora age como um órgão que despreza a Constituição da Venezuela.

    Porém, após um único telefonema do vice-presidente dos Estados Unidos da América, Mike Pence, Guaidó proclamou-se presidente da Venezuela. Ungido em Washington como dirigente máximo do seu país, um personagem político anteriormente desconhecido foi colocado nos palcos internacionais como chefe de uma nação que possui as maiores reservas petrolíferas do mundo.

    Ecoando o consenso existente em Washington, o New York Times saudou Guaidó como "um rival credível" para Maduro, com "um estilo refrescante e uma visão capaz de levar o país em frente". O Conselho Editorial da Blooomberg aplaudiu-o por procurar a "restauração da democracia" e o Wall Street Journal declarou-o "um novo líder democrático". Enquanto isso, o Canadá, numerosos países europeus, o Parlamento Europeu, Israel e o bloco de países latino-americanos de direita conhecido como Grupo de Lima reconheceram Guaidó como dirigente legítimo da Venezuela.

    Mais de uma década de preparação

    Guaidó parece ter-se materializado do nada. Ele é, no entanto, o produto de mais de uma década de preparação a cargo das fábricas de mudanças de regimes geridas pelo governo dos Estados Unidos.

    Juntamente com um grupo de ativistas estudantis de direita, Juan Guaidó foi treinado para minar o governo de orientação socialista da Venezuela, desestabilizar o poder e, um dia, tomar o poder. Embora tenha sido uma figura menor na política venezuelana, passou anos mostrando-se nos salões de poder em Washington.

    "Juan Guaidó é um personagem criado para esta circunstância", afirmou Marco Teruggi, um sociólogo argentino e cronista da política da venezuelana, à publicação The Grayzone. "É o produto de uma lógica de laboratório: Guaidó é como uma mistura de vários elementos que dão forma a um personagem que, com toda a honestidade, oscila entre o ridículo e o preocupante".

    Diego Sequera, jornalista e editor venezuelano da publicação de investigação Misión Verdad, concordou: "Guaidó é mais popular fora do que dentro da Venezuela, especialmente nos círculos de elite da Ivy League [1] e Washington", disse. "É uma figura conhecida nesses meios, previsivelmente de direita e leal às opiniões e tendências que aí se manifestam".

    Embora Juan Guaidó seja vendido como o rosto da "restauração democrática", passou a sua carreira interna dentro da facção mais violenta da oposição mais radical da Venezuela, colocando-se na vanguarda das campanhas de desestabilização, uma após outra. O seu partido tornou-se amplamente desacreditado na Venezuela e é parcialmente responsável por fragmentar uma oposição enfraquecida.

    "Esses dirigentes radicais não têm mais que 20% nas sondagens de opinião", escreveu Luís Vicente León, principal investigador nessa área. Segundo León, o partido de Guaidó continua isolado, porque a maioria da população "não quer guerra, o que pretende é uma solução".

    Não é democracia, é colapso

    É precisamente por isso, porém, que Guaidó foi escolhido por Washington: não se espera que instaure a democracia na Venezuela mas provoque o colapso de um país que, nas últimas duas décadas, tem sido um baluarte da resistência à hegemonia dos Estados Unidos. A sua ascensão significa o culminar de um projecto de duas décadas para destruir uma forte experiência socialista.

    Desde a eleição de Hugo Chávez, em 1998, os Estados Unidos lutaram para restabelecer o controlo sobre a Venezuela e as suas vastas reservas de petróleo. Os programas socialistas de Chávez podem ter redistribuído a riqueza do país e ajudado a tirar milhões da pobreza, mas tornaram-no um alvo a abater. 

    Em 2002, a oposição de direita conseguiu derrubar Chávez com apoio e reconhecimento dos Estados Unidos, mas só até que oficiais patriotas contrário ao golpe intervissem restabelecendo a sua presidência, após uma mobilização popular de massas. Durante as administrações norte-americanas de George W. Bush e Barack Obama, Chávez sobreviveu a vários planos para o assassinarem, antes de sucumbir de câncer em 2013. O seu sucessor, Nicolás Maduro, sobreviveu a três tentativas de assassínio.

    A administração Trump elevou imediatamente a Venezuela até ao topo da lista de alvos da mudança de regime a conseguir por Washington, qualificando o país como o principal da "troika da tirania". No ano passado, a equipe de segurança a serviço de Trump tentou recrutar militares para montar uma junta ditatorial, mas o esforço falhou.

    De acordo com o governo venezuelano, os Estados Unidos também estiveram envolvidos numa conspiração com o nome de código "Operação Constituição" para capturar Maduro no palácio presidencial de Miraflores; e numa outra ação, designada Operação Armagedão, para o assassinar em Julho de 2017, durante uma parada militar. Pouco mais de um ano depois, chefes da oposição exilados tentaram matar Maduro com bombas instaladas num drone numa parada militar em Caracas.

    Experiência no "açougue dos Balcãs"

    Mais de uma década antes destes acontecimentos, um grupo de estudantes da oposição de direita foi selecionado e preparado ao pormenor por uma academia de treino de mudanças de regime, financiada pelos Estados Unidos para derrubar o governo da Venezuela e restaurar a ordem neoliberal. Tratou-se de um processo de treino inserido no quadro de "exportação da revolução" e que semeou várias "revoluções coloridas".

    Em 5 de Outubro de 2005, com a popularidade de Hugo Chávez no auge e o seu governo concretizando programas socialistas, cinco dirigentes estudantis venezuelanos chegaram a Belgrado, Sérvia, onde começaram a ser treinados para uma insurreição.

    Os estudantes viajaram por cortesia do Centro de Acção e Estratégias Não-Violentas Aplicadas ou Canvas na sigla anglo-saxónica. Esta organização é financiada em grande parte pelo National Endowment for Democracy (NED), uma instância da CIA que funciona como o principal braço do governo dos Estados Unidos para promover mudanças de regime; cofinanciam-na também o Instituto Internacional Republicano e o Instituto Nacional Democrata para Assuntos Internacionais, organizações dos dois partidos-Estado norte-americanos. De acordo com e-mails internos dados a conhecer pela Stratfor, uma empresa de inteligência conhecida como "a sombra da CIA", o Canvas "também pode ter recebido financiamento e treino da CIA durante a luta anti-Milosevic em 1999/2000".

    A rede dos EUA para promover 'revoluções coloridas

    O Canvas é um ramo do Otpor, um grupo insurrecional sérvio fundado por Srdja Popovic em 1998 na Universidade de Belgrado. Otpor significa "resistência" em servo-croata e ganhou fama internacional – e promoção ao nível de Hollywood – ao mobilizar os movimentos que conduziram à queda de Slobodan Milosevic.

    Esta célula de especialistas em mudanças de regime opera de acordo com as teorias do falecido Gene Sharp [2] , o chamado "Clausewitz da luta não-violenta". Sharp trabalhou com um ex-analista dos serviços de espionagem militares norte-americanos, o coronel Robert Helvey, para conceber um projecto estratégico que transforma os protestos numa forma de guerra híbrida, projecto esse para aplicar nos Estados que não se acomodam ao domínio unipolar de Washington.

    O Otpor foi apoiado pelo National Endowment for Democracy, a Usaid e o Instituto Albert Einstein de Gene Sharp. Sinisa Jikman, um dos principais "formadores" do Otpor, revelou uma vez que o grupo chegou a receber financiamento direto da CIA.

    De acordo com um dos e-mails que um funcionário da Stratfor deu a conhecer, depois de contribuírem para derrubar Milosevic "os jovens que geriam o Otpor cresceram, passaram a vestir fato e gravata e projetaram o Canvas… Ou, por outras palavras, um grupo de 'exportação da revolução' que lançou as sementes para várias revoluções coloridas. Ainda recebem financiamento dos Estados Unidos e, basicamente, percorrem o mundo tentando derrubar “ditadores e governos autocráticos” (aqueles dos quais os Estados Unidos não gostam)".

    A Stratfor revelou que o Canvas "voltou a sua atenção para a Venezuela" em 2005, depois de treinar movimentos de oposição que lideraram operações de mudanças de regime favoráveis à OTAN em toda a Europa Oriental.

    A Stratfor estudou o programa de treino do Canvas e descreveu a sua agenda insurrecional numa linguagem surpreendentemente contundente:

    "O êxito não está de forma alguma garantido e os movimentos estudantis são apenas o começo do que poderá ser um esforço de anos para desencadear uma revolução na Venezuela; mas os formadores são pessoas que adquiriram experiência no 'Açougueiro dos Balcãs'. Têm aptidões fora do comum. Quando virem cinco estudantes em cinco universidades venezuelanas realizando manifestações simultâneas é sinal de que o treino acabou e o trabalho real começou".

    Passagem ao "trabalho real"

    O "trabalho real" começou dois anos depois, em 2007, quando Guaidó se licenciou na Universidade Católica Andrés Bello de Caracas. Mudou-se para Washington e inscreveu-se no Programa de Governança e Gestão Política da Universidade George Washington, sob tutela do venezuelano Luís Enrique  Berrizbeitia, um dos principais economistas neoliberais da América Latina. Berrizbeitia é ex-diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e passou mais de uma década trabalhando no setor energético venezuelano sob o regime oligárquico que foi derrubado por Chávez.

    Nesse ano, Guaidó contribuiu para promover comícios contra o governo depois de este não ter renovado a licença da Radio Caracas Televisión (RCTV). Esta estação privada desempenhou um papel de liderança no golpe de 2002 contra Hugo Chávez. A RCTV mobilizou manifestações anti-governamentais, falsificou informações atribuindo a apoiantes do governo a responsabilidade por atos de violência praticados por membros da oposição e proibiu reportagens favoráveis ao chefe do Executivo durante o golpe. O papel da RCTV e de outras estações pertencentes a oligarcas na condução da frustrada tentativa de golpe foi revelado no aclamado documentário “The Revolution Will Not Be Televised” (“A revolução não será televisionada” https://www.google.com/search?q=a+revolu%C3%A7%C3%A3o+n%C3%A3o+ser%C3%A1+televisionada&rlz=1C1AKJH_enBR815BR815&oq=a+revolu%C3%A7%C3%A3o+n%C3%A3o+ser&aqs=chrome.1.69i57j0l5.5498j0j7&sourceid=chrome&ie=UTF-8).

    No mesmo ano, os estudantes reclamaram os louros por terem contribuído para derrotar o referendo constitucional sobre o programa do governo de Chávez para "Um socialismo do séc. XXI", mediante o qual se previa "estabelecer o quadro legal para a reorganização política e social do país, dando poder direto às comunidades organizadas como um pré-requisito para o desenvolvimento de um novo sistema económico".

    "Geração 2007"

    Dos protestos em torno da RCTV e do referendo nasceu um grupo especializado de ativistas para a mudança do regime apoiado pelos Estados Unidos. Chamou-se "Geração 2007".

    Os formadores do Canvas e os meios de divulgação da Stratfor identificaram o aliado de Guaidó – um organizador de arruaças chamado Yon Goicoechea – como um "fator-chave" para derrotar o referendo constitucional. No ano seguinte, Goicoechea foi recompensado pelos seus esforços com o Prémio Milton Friedman do Cato Institute for Advancing Liberty no valor de 500 mil dólares, que ele investiu na construção da sua própria rede política “Primero Justicia”.

    Friedman, claro, foi o patrono dos neoliberais Chicago Boys importados no Chile pelo ditador Augusto Pinochet para aplicar o programa económico do regime. O Cato Institute é o think tank libertário baseado em Washington e fundado pelos irmãos Koch, os dois principais doadores do Partido Republicano e que se tornaram agressivos defensores da direita em toda a América Latina.

    WikiLeaks divulgou um e-mail de 2007 enviado para o Departamento de Estado, o Conselho de Segurança Nacional e o Departamento da Defesa pelo embaixador norte-americano na Venezuela, William Brownfield, em que elogia a "Geração 2007" por "ter derrotado o presidente venezuelano, acostumado a estabelecer a agenda política". Entre os "líderes emergentes", Brownfield identificou Freddy Guevara e Yon Goicoechea, este último "um dos mais articulados defensores das liberdades civis dos estudantes".

    Das nádegas nuas ao Vontade Popular

    Cheios de dinheiro doado pelos oligarcas libertários, os grupos radicais venezuelanos levaram para as ruas as suas táticas aprendidas com o Otpor.

    Em 2009, os jovens ativistas da Geração 2007 montaram a sua manifestação mais provocatória baixando as calças em público e recorrendo às ultrajantes táticas de guerrilha delineadas por Gene Sharp nos seus manuais para mudanças de regime. Os manifestantes mobilizaram-se contra a prisão de um aliado de um outro grupo juvenil, o JAVU. Este grupo de extrema-direita "reuniu fundos de uma variedade de fontes do governo dos Estados Unidos, o que lhe permitiu ganhar uma rápida notoriedade como linha dura dos movimentos de oposição", segundo o livro "Construindo a Comuna" do académico George Ciccarello-Maher.

    Embora o vídeo do protesto não esteja disponível, muitos são os venezuelanos que testemunham a presença de Guaidó como um dos principais participantes. Não é possível confirmar estas declarações, as quais, no entanto, são plausíveis: os manifestantes com as nádegas a descoberto eram membros do núcleo duro da Geração 2007, a que Guaidó pertencia, e envergavam t-shirts com a sua marca registada "Resistência!".

    Em 2009, Juan Guaidó expôs-se ao público de outra maneira, fundando um partido político para canalizar a dinâmica anti-Chávez que a sua Geração 2007 tinha desencadeado. Chamado Vontade Popular, o grupo é dirigido por Leopoldo López, um ativista de direita educado em Princeton, fortemente envolvido em programas do New Endowment for Democracy e eleito como presidente da Câmara de um município de Caracas que era um dos mais ricos do país. Lopez é uma figura da aristocracia política venezuelana, descendente direto do primeiro presidente do país. É também primo direito de Thor Halvorssen, fundador da Fundação dos Direitos Humanos, com sede nos Estados Unidos e que funciona como centro de marketing para ativistas apoiados pelos Estados Unidos em países que são alvos de Washington para mudanças de regime.

    Embora os interesses de Leopoldo Lopez estivessem perfeitamente alinhados com os de Washington, as comunicações diplomáticas norte-americanas divulgadas por WikiLeaks salientavam as suas tendências fanáticas que acabariam por levá-lo a uma marginalização em relação às tendências populares. Um email tornado público qualifica-o como "uma figura de divisão dentro da oposição (…) frequentemente descrita como arrogante, vingativa e faminta de poder". Outros destacavam a sua obsessão pelos "confrontos de rua" e as suas "opiniões inflexíveis" como fontes de tensão com outros dirigentes da oposição que davam prioridade à unidade e à participação nas instituições democráticas do país.

    Esplorando a seca contra o povo

    Em 2010, o Vontade Popular e os seus apoiantes estrangeiros mobilizaram-se para tirar proveito da maior seca que atingiu a Venezuela em décadas. Profunda escassez de energia elétrica atingiu o país devido à falta de água nas barragens. A recessão econômica global e o declínio dos preços do petróleo agravaram a crise, provocando um alastramento do descontentamento popular.

    Stratfor e Canvas  – conselheiros essenciais de Guaidó e dos quadros anti-governamentais – elaboraram um plano de elevado cinismo para apunhalarem o coração da Revolução Bolivariana. O esquema dependia de um colapso de 70% do sistema elétrico do país, em abril de 2010.

    "Este poderia ser o divisor de águas, pois há pouco que Chávez possa fazer para proteger os pobres do fracasso deste sistema", lê-se num memorando interno da Stratfor. Tais condições provavelmente "teriam o impacto de galvanizar a agitação pública de uma forma que nenhum grupo de oposição poderia esperar alcançar. Naquele momento, um grupo de oposição que melhor soubesse tirar partido da situação e virá-la contra Chávez ficaria mais perto dos seus objetivos", salienta ainda o memorando.

    Por essa altura, a oposição venezuelana recebia as generosas verbas de 40 a 50 milhões de dólares por ano de organizações governamentais dos Estados Unidos, tanto a Usaid como a NED, de acordo com um think tank espanhol, o Instituto Fride. Além disso, extraía vantagens das suas próprias contas bancárias, existentes sobretudo no exterior do país.

    Embora o cenário descrito pela Stratfor não se tenha concretizado, os ativistas do partido Vontade Popular e os seus aliados puseram então de lado quaisquer pretensões de não-violência e aderiram ao plano mais radical para desestabilizar o país.

    Nova "formação", agora no México

    Em novembro de 2010, segundo e-mails obtidos pelos serviços de segurança venezuelanos e apresentados pelo ex-ministro da Justiça Miguel Rodriguez Torres, Guaidó, Goicoechea e vários outros ativistas estudantis participaram num treino de cinco dias no hotel Fiesta Mexicana na Cidade do México. As sessões foram conduzidas pelo Otpor, a instituição para mudanças de regime baseada em Belgrado e apoiada pelo governo dos Estados Unidos. A iniciativa teve a bênção de Otto Reich, um exilado cubano e fanático anti-castrista que trabalhava no Departamento de Estado norte-americano da administração de George W. Bush, e do ex-presidente colombiano de extrema-direita Álvaro Uribe.

    No hotel Fiesta Mexicana, segundo os emails, Guaidó e os seus colegas ativistas traçaram um plano para derrubar o presidente Hugo Chávez gerando o caos violento e permanente nas ruas.

    Três figuras de proa do setor do petróleo – Gustavo Torrer, Elígio Cedeño e Pedro Burelli – terão coberto as despesas no hotel mexicano, no valor de US$ 52 mil . Torrer é um autodenominado "ativista dos direitos humanos" e um "intelectual", cujo irmão mais novo, Reynaldo Torrer Arroyo, é o representante na Venezuela da empresa privada de petróleo e gás mexicana Petroquímica do Golfo, que tem um contrato com o Estado venezuelano.

    Cedeño, por sua vez, é um empresário venezuelano trânsfuga que pediu asilo nos Estados Unidos; e Pedro Burelli é um ex-executivo do JP Morgan e ex-director da empresa estatal petrolífera da Venezuela (PDVSA), que abandonou em 1998 quando Hugo Chávez assumiu o poder. É membro do Comité Consultivo do Programa de Liderança na América Latina da Universidade norte-americana de Georgetown.

    Burelli insistiu que os emails pormenorizando a sua participação foram fabricados e contratou até um detetive particular para alegadamente o comprovar. O investigador declarou que os registos do Google revelaram que os e-mails em causa nunca foram transmitidos.

    Ainda hoje, porém, Burelli não esconde o seu desejo de ver o atual presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, deposto – e até arrastado pelas ruas e sodomizado com uma baioneta, como aconteceu com o dirigente líbio Muammar Khadaffi, vítima de terroristas apoiados pela OTAN.

    As sangrentas "guarimbas"

    A trama do Fiesta Mexicana evoluiu para outro plano de desestabilização revelado numa série de documentos divulgados pelo governo venezuelano. Em Maio de 2014, meios governamentais mostraram provas de uma trama para assassinar Nicolás Maduro encabeçada por Maria Corina Machado, de Miami. Uma dirigente de linha dura, com tendências para a retórica extremista, que tem funcionado como um elo internacional da oposição e foi recebida em 2005 pelo presidente norte-americano George W. Bush.

    "Acho que é hora de reunir esforços; faça os telefonemas necessários e obtenha financiamento para liquidar Maduro, porque o resto irá desmoronar-se", escreveu Corina Machado num email dirigido ao ex-diplomata venezuelano Diego Arria, em 2014.

    Num outro mail, Machado afirmou que a opção violenta teve a bênção do embaixador dos Estados Unidos na Colômbia, Kevin Whitaker. "Eu já me decidi, a luta continuará até que este regime seja derrubado e entregamo-nos aos nossos amigos no mundo. Se fui a San Cristobal e me expus com a presença na OEA, então nada temo. Kevin Whitaker já reconfirmou o seu apoio e definiu os novos passos. Temos um talão de cheques mais forte do que o do regime para quebrar o anel de segurança internacional".

    Naquele mês de fevereiro, manifestantes estudantis que agiam como tropa de choque da oligarquia exilada ergueram violentas barricadas em todo o país, transformando bairros controlados pela oposição em fortalezas violentas conhecidas como "guarimbas". Enquanto os media internacionais retratavam a revolta como um protesto espontâneo contra o governo de mão de ferro de Maduro, havia provas de que o Vontade Popular orquestrava o espectáculo.

    "Nenhum dos manifestantes usava t-shirts das universidades, mas sim do Vontade Popular e do Primero Justicia", declarou agora um dos participantes nas guarimbas. "Podem ter sido grupos de estudantes, mas os conselhos estudantis eram manipulados pelos partidos de oposição e são responsáveis por eles".

    Interrogado sobre quem eram os líderes do movimento, o mesmo participante nas guarimbas disse: "bem, para ser completamente honesto, eles agora são legisladores".

    A mão de Guaidó

    Quarenta e três pessoas foram mortas durante as guarimbas de 2014. Três anos depois irromperam de novo, provocando destruições massivas nas infraestruturas públicas, o assassínio de apoiantes do governo e a morte de 126 pessoas, muitas das quais chavistas. Em vários casos, partidários do governo foram queimados vivos por gangues armados.

    Guaidó esteve diretamente envolvido nas guarimbas de 2014. Na verdade, twittou um vídeo em que se exibia envergando um capacete e máscara de gás, cercado por figuras embuçadas e armadas que tinham encerrado uma estrada onde decorria um confronto violento com a polícia. Referindo-se à sua participação na Geração 2007, proclamou: "Lembro-me que em 2007 gritávamos 'Estudantes!' Agora gritamos: 'Resistência! Resistência!'"

    Guaidó apagou o twitt, manifestando aparente preocupação com a sua imagem como defensor da democracia.

    Em 12 de Fevereiro de 2014, no auge das guarimbas de então, Guaidó juntou-se a Lopez no palco de um comício do Vontade Popular e Primero Justicia. Numa longa diatribe contra o governo, Lopez instou a multidão a marchar até às instalações da procuradora-geral, Luísa Ortega Diaz. Logo depois, essas instalações foram atacadas por gangues armados que tentaram queimar a procuradora depois de a arrojarem no solo. A vítima denunciou o que qualificou como "violência planejada e premeditada".

    Durante uma entrevista na TV, em 2016, Guaidó desvalorizou as mortes resultantes de "guayas" – prática de guarimba que consiste em estender um cabo de aço atravessando de um lado ao outro de uma estrada para ferir ou matar motociclistas – como "um mito". Estes comentários tentaram branquear uma armadilha mortal que assassinou civis desarmados como Santiago Pedroza e decapitou Elvis Durán, entre outros.

    Esta indiferença e insensibilidade perante a vida humana viria a caracterizar a Vontade Popular aos olhos de grande parte do público, incluindo muitos opositores de Maduro.

    Guaidó não prestou contas à Justiça

    À medida que a violência e a polarização política aumentavam em todo o país, o governo começou a agir contra os dirigentes do Vontade Popular que contribuíram para a situação.

    Freddy Guevara, vice-presidente da Assembleia Nacional e segundo no comando do Vontade Popular, foi o principal líder dos distúrbios de 2017 nas ruas. Foi julgado por esse facto; refugiou-se na Embaixada do Chile, onde permanece.

    Lester Toledo, membro da Assembleia do Estado de Zulia eleito pelo Vontade Popular, foi procurado pela Justiça em setembro de 2016 sob a acusação de financiar o terrorismo e planejar assassínios, em colaboração com o ex-presidente colombiano, Álvaro Uribe. Toledo fugiu da Venezuela, fez viagens e palestras organizadas por Human Rights Watch, a Casa da Liberdade, apoiada pelo governo norte-americano, o Congresso dos Deputados da Espanha e o Parlamento Europeu.

    Carlos Graffe, outro membro da Geração 2007 treinado pelo Otpor e também membro do Vontade Popular, foi preso em Julho de 2017. Segundo a polícia, estava em seu poder um saco de pregos, explosivos C4 e um detonador. Foi libertado em 27 de dezembro de 2017.

    Leopoldo Lopez, líder de longa data do Vontade Popular, está sob prisão domiciliar, acusado de ter um papel fundamental na morte de 13 pessoas durante as guarimbas de 2014. A Anistia Internacional definiu Lopez como "prisioneiro de consciência" e declarou "insuficiente" a sua transferência para o regime de detenção na residência. Enquanto isto, familiares das vítimas das guarimbas apresentaram uma queixa com mais acusações contra Lopez.

    Yon Goicoechea, o ícone de propaganda dos irmãos Koch e fundador do Primero Justicia, com apoio dos Estados Unidos, foi preso em 2016 pelas forças de segurança, que alegaram ter encontrado um quilo de explosivos no seu veículo. Num artigo no New York Times, Goicoechea protestou contra as acusações como "uma invenção" e afirmou que tinha sido preso simplesmente devido ao seu "sonho de uma sociedade democrática, livre do comunismo". Foi libertado em novembro de 2017.

    David Smolansky, igualmente membro da Geração 2007, treinada pela Otpor, tornou-se o mais jovem presidente de município da Venezuela quando foi eleito em 2013, no subúrbio de El Hatillo. Foi destituído e condenado a 15 meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal por incitar à violência nas guarimbas.

    Fugiu da prisão, rapou a barba e com óculos escuros entrou no Brasil disfarçado de padre, com uma Bíblia na mão e um rosário ao pescoço. Vive em Washington, onde foi pessoalmente escolhido pelo secretário da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luís Almagro, para dirigir o grupo de trabalho sobre a crise migratória e dos refugiados da Venezuela.

    Em 26 de Julho, Smolansky realizou o que qualificou como "uma reunião cordial" com Elliot Abrams , o criminoso do escândalo Irão-Contras agora escolhido por Trump como enviado especial norte-americano para a Venezuela. Abrams é conhecido por supervisionar a política clandestina dos Estados Unidos para armar esquadrões da morte durante os anos 1980 na Nicarágua, em El Salvador e na Guatemala.

    O papel que agora lhe foi atribuído no golpe venezuelano faz temer o lançamento de outra guerra por procuração banhada em sangue.

    Quatro dias antes, Corina Machado proferira outra ameaça violenta contra Maduro declarando que "se quer salvar a vida tem de perceber que o seu tempo acabou".

    O colapso do Vontade Popular devido à violência da campanha de desestabilização, alienou grandes setores de público apoiante e feriu parcialmente a sua liderança.

    Presidências sem eleições

    Guaidó continuara como uma figura relativamente menor, tendo passado a maior parte dos nove anos de carreira na Assembleia Nacional como membro suplente. Oriundo de um dos Estados menos populosos da Venezuela, Guaidó ficou em segundo lugar na sua lista das eleições parlamentares de 2015, conquistando apenas 26% para assegurar o seu lugar na Assembleia Nacional. Na verdade, até agora, talvez as suas nádegas fossem mais identificáveis do que o seu rosto.

    Guaidó é conhecido como presidente da Assembleia Nacional, dominada pela oposição, mas nunca foi eleito para o cargo. Os quatro partidos da oposição que compõem a Mesa de Unidade Democrática na Assembleia decidiram estabelecer uma presidência rotativa. A vez do Vontade Popular era a seguinte, mas o seu presidente, Leopoldo Lopez, está em prisão domiciliar; o segundo na chefia, Freddy Guevara, está refugiado na Embaixada do Chile; o seguinte na ordem eleitoral seria Juan Andrés Mejía mas, por razões que não são claras, Juan Guaidó foi o selecionado.

    "Há uma hipótese que pode explicar a ascensão de Guaidó", admite Diego Sequera, analista venezuelano. "Mejía é de classe alta, estudou numa das universidades privadas mais caras da Venezuela e é difícil popularizá-lo, ao contrário de Guaidó", diz. "Por um lado, Guaidó tem características mestiças comuns, como a maioria dos venezuelanos, e parece mais um homem do povo. Além disso, Mejía não foi exposto na midia, não poderia ser construído a partir do nada.

    Em dezembro de 2018, Guaidó passou clandestinamente a fronteira e foi a Washington, à Colômbia e ao Brasil coordenar o plano de manifestações em massa durante a posse do novo mandato de Maduro. Na noite anterior à cerimónia de posse de Maduro, o vice-presidente norte-americano, Mike Pence, e a ministra dos Negócios Estrangeiros do Canadá, Chrystia Freeland, telefonaram a Guaidó para lhe manifestarem o seu apoio.

    Uma semana depois, o senador Marco Rubio, o senador Rick Scott e o congressista Mario Diaz-Balart – todos oriundos da base de exilados cubanos de direita – juntaram-se ao presidente Trump e ao vice-presidente Pence na Casa Branca. A pedido deles, Trump concordou que se Guaidó se proclamasse presidente ele apoiaria.

    O secretário de Estado, Michael Pompeo, encontrou-se pessoalmente com Guaidó em 10 de Janeiro, segundo o Wall Street Journal. No entanto, Pompeo não conseguiu pronunciar o nome de Juan Guaidó quando o mencionou numa conferência de imprensa em 25 de Janeiro, referindo-se a ele como "Juan Guido".

    No dia 11 de janeiro, a página da Wikipedia de Guaidó tinha sido editada 37 vezes, o que revela um esforço para moldar uma figura até então mal conhecida e que agora se tornara um quadro nas diligências de Washington para mudar o governo da Venezuela. No final, a supervisão editorial da sua página foi remetida ao Conselho de Elite de "enciclopedistas" da Wikipedia, que o definiu como "presidente contestado da Venezuela".

    Guaidó pode ter sido uma figura obscura, mas a sua combinação de radicalismo e oportunismo satisfez as exigências de Washington. "Esta peça interna estava em falta", disse um membro da administração Trump a propósito de Guaidó. "Ele era a peça de que necessitávamos para que a nossa estratégia fosse coerente e completa".

    "Pela primeira vez", disse William Brownfield, o embaixador norte-americano na Venezuela, "temos um líder da oposição que está claramente a dar sinal às Forças Armadas e à polícia de que pretende mantê-las ao seu lado".

    Venha a "intervenção humanitária"

    No entanto, o partido da Vontade Popular de Guaidó criou as suas tropas de choque das guarimbas, que provocaram a morte a polícias e cidadãos comuns. O próprio Guaidó vangloriou-se da sua participação em violentas arruaças. Agora, para conquistar os corações e as mentes dos militares e da polícia, Guaidó teve de apagar essa história banhada em sangue.

    Em 21 de janeiro, um dia antes do golpe, a esposa de Guaidó divulgou um discurso em vídeo no qual apelou aos militares para se levantarem contra Maduro. A sua performance foi tosca e desinspirada, ecoando as perspectivas políticas limitadas do marido.

    Numa conferência de imprensa perante os seus apoiantes, quatro dias depois, Guaidó anunciou a sua solução para a crise: a realização de "uma intervenção humanitária".

    Enquanto aguarda assistência direta, Guaidó continua a ser o que sempre foi – um projeto de estimação das cínicas forças externas. "Não interessa se cai e se queima com todas estas desventuras", declarou Sequera sobre a figura do golpe. "Para os americanos, ele é descartável".

    (1) Tem uma conotação essencialmente desportiva mas, em geral, significa o conjunto das oito universidades de elite do Nordeste dos Estados Unidos: Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Princeton, Pensilvânia e Yale

    (2) Professor de Ciências Políticas da Universidade de Massachusetts defensor da "desobediência política" e da "não violência" cujas teses têm sido aproveitadas para desestabilizar regimes que o establishment norte-americano pretende derrubar. As instituições por ele fundadas são financiadas por organismos da CIA, como a NED, sobretudo quando se trata organizar operações do tipo da que ocorre na Venezuela.

    [*] Jornalista premiado, autor de vários livros, entre eles o best-seller Gomorra Republicano, e documentários, designadamente Killing Gaza. Fundador, em 2015, de The Grayzone Project .

    [**} Jornalista e cineasta; autor de documentários e podcasts com ampla distribuição, designadamente sobre o conflito israelo-palestino.