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Ter, Jun

Jornal GGN

  • Manifestação em São Paulo contra a cultura do estupro. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

    Em 2015, antes de ser afastada da Presidência da República por um golpe, a primeira e única mulher a presidir o Brasil, Dilma Rousseff, sancionou a Lei 13.086, de 2015, determinando o 24 de fevereiro como o Dia da Conquista do Voto Feminino no Brasil, porque nessa data em 1932, as mulheres conquistavam o direito de votarem e serem votadas.

    “Essa é uma data fundamental para o movimento feminista brasileiro, mesmo que nessa época as pessoas analfabetas ainda não tinham o direito ao voto - maioria absoluta da população brasileira -, mas removeu uma das questões fundamentais para a conquista da emancipação feminina”, diz Celina Arêas, secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB). As pessoas analfabetas só conquistaram o direito ao voto com a Constituição de 1988.

    “O dia 24 de fevereiro foi um marco na história da mulher brasileira. No código eleitoral Provisório (Decreto 21076), de 24 de fevereiro de 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, o voto feminino no Brasil foi assegurado, após intensa campanha nacional pelo direito das mulheres ao voto”, afirma Tamára Baranov, no Jornal GGN.

    Assista o vídeo: A Luta Pelo Voto Femino 

    Baranov explica também que essa conquista foi fruto de muita luta. “Iniciada antes mesmo da Proclamação da República, foi ainda aprovado parcialmente por permitir somente às mulheres casadas, com autorização dos maridos, e às viúvas e solteiras que tivessem renda própria, o exercício de um direito básico para o pleno exercício da cidadania. Em 1934, as restrições ao voto feminino foram eliminadas do Código Eleitoral, embora a obrigatoriedade do voto fosse um dever masculino. Em 1946, a obrigatoriedade do voto foi estendida às mulheres”.

    Já Arêas vê a importância de se comemorar essa data histórica como uma das formas de resistir ao avanço de idéias retrógradas sobre os direitos das mulheres. “Estamos vivendo um momento de resistência”, diz ela.

    “Vínhamos avançando em nossas conquistas nos governos Lula e Dilma e com o golpe de Estado de agosto 2016, os retrocessos têm sido grandes”, complementa. Ela se refere às investidas contra os direitos das mulheres, começando pela retirada do status de ministério da Secretaria de Políticas para as Mulheres, assim como da igualdade racial, dos direitos humanos e da cidadania.

    voto feminino foto tribunal superior eleitoral

    Foto: Tribunal Superior Eleitoral

    Para Gicélia Bitencourt, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB-SP, “compete ao movimento feminista construir a unidade para enfrentar com mais força a ideologia patriarcal que pretende tirar as mulheres dos espaços públicos, impedindo-as de conquistarem mais espaços em cargos de direção seja na política, no mercado de trabalho e até mesmo nos movimentos sociais”.

    Mas garante Arêas, “o movimento sindical precisa entender a necessidade de empoderar as questões de gênero e a luta por igualdade de direitos em todos os setores da vida”. Para ela, “neste ano, é fundamental trabalharmos para eleger muito mais mulheres ao Congresso Nacional e com isso impedirmos os avanços conservadores retirando nossos direitos”.

    mais mulheres no poder

    Já Kátia Branco, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB-RJ, reafirma a importância da data para “mostrar às novas gerações que todas as nossas conquistas se dão com muito sacrifício, dificuldades e perseverança”. Concluindo que “só a luta pode garantir uma vida sem medo para as mulheres”.

    Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB

  • Um grupo formado por doutores e professores de Direito decidiu organizar um livro que reunirá artigos sobre a sentença de Sergio Moro no caso triplex. Na semana passada, o juiz de Curitiba condenou Lula a 9 anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro envolvendo o apartamento que está em nome da OAS.

    Ao GGN, Carol Proner, professora de Direitos Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro e uma das organizadoras do projeto, disse que a ideia é uma "reação imediata de juristas, professores de direito, advogados diante da longa sentença proferida pelo Juiz Sérgio Moro" contra o ex-presidente Lula, que é uma "sentença histórica" dado o nível de abusos cometidos durante o processo.

    Segundo Carol, a proposta é fazer uma "compilação de pareceres enxutos sobre aspectos da sentença, textos curtos que escolhem a ênfase nos fragmentos da decisão, destacando aquilo que pode ser considerado revelador de um juízo em desacordo com o justo processo e as garantias elementares em qualquer ordem jurídica democrática."

    "Para além de um registro histórico", disse a especialista, "o livro tem o propósito de esclarecer aqueles que não entendem as frequentes acusações de parcialidade atribuídas ao juiz de Curitiba, não raro chamado de 'juiz acusador'."

    Ainda de acordo com Carol, o projeto já teve o êxito de conseguir, em menos de 24 horas, a adesão de "60 nomes fortes do direito brasileiro e, passado mais um dia, o número duplicou, já superamos os 120 autores e o número não para de crescer". Ela destacou que entre os autores constam "pessoas que não se alinham politicamente com o PT ou que provavelmente não apoiariam um projeto liderado pelo ex-presidente Lula, mas que sentem a obrigação de dizer o que pensam sobre um juízo histórico no qual, como a mídia não cansa de repetir, está em jogo a disputa eleitoral de 2018."

    São cinco os organizadores do livro: Juarez Tavares, Carol Proner, Gisele Cittadino, João Ricardo Dornelles, Gisele Ricobom, todos doutores, professores de direito na UERJ, UFRJ, PUC-Rio e UNILA, "preocupados com a repercussão que uma sentença como essa possa ter no futuro do direito e da justiça no Brasil", adiantou Carol.

    A coletânea será uma espécie de mosaico revelador do que alguns chamam o “indevido processo legal, uma forma de julgar que parece correr em paralelo ou que suplanta o que está estabelecido em lei e respaldado pela Constituição."

    Cada autor, que deverá responder diretamente por sua própria opinião, também deverá superar o desafio de "criticar setores do poder judiciário como parte de uma engrenagem que desmonta o Brasil institucionalmente, economicamente, politicamente", algo que Carol classificou como "desconfortável".

    "É algo extremamente constrangedor e que só se justifica pelo reconhecimento do abuso reiterado e implacável nas audiências e nos episódios lamentáveis a que assistimos, da condução coercitiva às escutas ilegais, a relação com a mídia e a seletividade de informações, provas, testemunhas, tudo isso tendo como alvo um ex-presidente e que é o favorito nas eleições de 2018, sendo inafastável essa condição de personalidade pública", disse.

    Um dos principais eixos do projeto será destinado a desconstruir a sentença dada por Moro sem provas documentais robustas.

    "O processo foi conduzido sem provas e a sentença é extremamente frágil. Destaco uma frase representativa de Afrânio Silva Jardim em artigo no Livro: 'Lula foi condenado por receber o que não recebeu e por lavagem de dinheiro que não lhe foi dado... Vale dizer, não teve o seu patrimônio acrescido sequer de um centavo!!! Não recebeu nenhum benefício patrimonial e por isso não tinha mesmo o que 'lavar'...”

    Outro destaque da obra será o esforço de Moro em rebater as acusações de que promoveu uma guerra jurídica contra Lula. O juiz de Curitiba dedicou pelo menos 25% da sentença com 238 páginas a rebater a defesa nesse aspecto.

    "A impressão que fica é de alguém que veste a carapuça. Sentindo-se culpado, passa todo o tempo se justificando preventivamente, ou seja, antes de prolatar a sentença", comentou Carol.

    A invisibilização das mais de 70 testemunhas de defesa que atestaram a inocência de Lula também será abordada em artigos. "Foram ignoradas na decisão, tendo destaque as testemunhas de acusação e os delatores, sem contar problemáticas questões da forma da delação, o empréstimo de provas de outros autos, a questão da competência, da prevenção, questões técnicas que fragilizam dramaticamente a decisão, deixando o juiz em situação embaraçosa, para dizer o mínimo."

    A obra deverá ser lançada no dia 11 de agosto de 2017, dia dos cursos jurídicos, na Faculdade Nacional de Direito, UFRJ, Rio de Janeiro, afirmou Carol.

    Fonte: Jornal GGN

  • A galera toda estará presente na noite de autógrafos do escritor pernambucano Urariano Mota, nesta sexta-feira (15), às 19h, na Livraria Saraiva, no Shopping Pátio Paulista (rua 13 de maio, 1.947, piso Paraíso), em São Paulo.

    A editora LiteraRua com a Saraiva traz o escritor para lançar o seu mais novo romance “A mais longa duração da juventude”. O tema promete repercussão. Já confirmaram presença ao lançamento a presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) Marianna Dias, o presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes), Emerson Santos e Nayara Souza, presidenta da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP), entre outras fundamentais lideranças da juventude. A ex-presidenta da UNE, Carina Vitral também garantiu presença. Agora só falta você confirmar.

    Autor de “Soledad no Recife” (2009) e “O filho renegado de Deus” (2013), “Urariano sabe como poucos mesclar memória e ficção. E de tal maneira as confunde na textura da escrita que, nela, o real vira imaginado, e o imaginado assume as formas do real. E o tempo funde as duas pontas do relato, entre o passado e o presente. Fundidos por uma reflexão fina, ligada – para dizer como se dizia há quase meio século – pela análise concreta de situações concretas”, escreve José Carlos Ruy no prefácio da obra.

    “Soledad no Recife” conta a tragédia de Soledad Barrett, mulher do cabo Anselmo – talvez o maior traidor da resistência à ditadura (1964-1985). Cabo Anselmo entregou para a polícia política a sua companheira grávida. Na narrativa de Mota sobra emoção e reflexão sobre a vida e a necessidade de se lutar pelo que se acredita.

    De acordo com os divulgadores, “A mais longa duração da juventude” apresenta “o espírito jovem e o sonho de um amanhã melhor está em cada palavra das mais de 300 páginas. Um convite aos jovens que hoje dão continuidade às lutas em defesa dos seus sonhos e de um país inclusive e que olhe por seu povo”.

    Além de escritor Urariano Mota é colunista do Portal Vermelho, do Brasil 247 e do Diário de Pernambuco. Também colabora como o Jornal GGN, do jornalista Luís Nassif. O lançamento deste livro vai com certeza esquentar ainda mais a noite calorenta desta sexta. Não perca!

    Leia mais

    O escritor pernambucano Urariano Mota lança romance sobre a juventude em São Paulo

    Serviço:

    Lançamento: “A mais longa duração da juventude”

    Onde: Livraria Saraiva, Shopping Pátio Paulista, Piso Paraíso, Rua 13 de Maio, 147

    Quando: Sexta-feira (15), às 19h

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy, com informações de agências

  • Nesta quinta-feira (14), a partir das 19 horas, haverá o pré-lançamento do livro A Mais Longa Duração da Juventude, de Urariano Mota, à Rua Rego Freitas, 192, centro de São Paulo.

    Urariano Mota é o escritor e jornalista que colabora com veículos da imprensa nacional e lusófona. Colunista do Portal Vermelho e do Brasil 247, colabora com o Jornal GGN e publica quinzenalmente no Diário de Pernambuco.

    Entre suas obras literárias, destacam-se “Soledad no Recife” (Editora Boitempo, 2009) e “O filho renegado de Deus” (Bertrand Brasil, 2013).

    Em “Soledad no Recife”, o escritor recria os últimos dias de Soledad Barrett, a mulher do cabo Anselmo, que o agente infiltrado entregou para a morte no Recife em 1973, em plena ditadura militar. É uma novela de referência sobre o terror de Estado no Brasil.

    Em “O filho renegado de Deus”, o autor percorre a formação da infância no Recife dos pobres, dos moradores de beco. Esse romance lhe deu o primeiro lugar do Prêmio Guavira 2014.

    Abordagem ambiciosa

    Agora, com “A mais longa duração da juventude” (LiteraRUA, 2017), o escritor faz uma intersecção precisa e emocionante do tempo literário e político: o amor, a militância e o sexo em uma memória histórica que vai de 1970 a 2017. Neste romance, a imortalidade é construída na rebeldia que resiste.

    “E porque somos agentes da duração, a nossa vida é a resistência ao fugaz. Nós só vivemos enquanto resistimos. Nós alcançamos a imortalidade, isto é, o que transcende a sobrevivência ao breve, porque a imortalidade não é a permanência de matusaléns decrépitos. Nós só a alcançamos pelo que foi mortal, mortal, e sempre mortal não morreu.” (A mais longa duração da juventude, Urariano Mota, LiteraRUA, SP, 2017)

    A luta dos adolescentes e jovens adultos por um mundo melhor e mais justo - e os traumas que podem ocorrer a partir dessa ousadia - são o pano de fundo abordado pelo jornalista neste livro.
    A obra é um retorno a memórias do pós-ditadura, mas, ao mesmo tempo, traz uma ponte para o futuro ao relacionar a militância de esquerda dos anos 1960 ao protesto dos estudantes brasileiros na atualidade. “Tenho que contar essa história, senão isso vai ficar perdido. Certas coisas não vão ser ditas se você não falar”, afirma Urariano ao Diario de Pernambuco.

    O autor dos romances Os corações futuristas, Soledad no Recife e O filho renegado de Deus, além de Dicionário amoroso do Recife, pontua que o romance, segundo ele, o mais ambicioso de sua trajetória, foi detonado a partir da morte de um amigo querido, o escritor, jornalista e militante comunista Marco Albertim. “A primeira coisa a destacar é a seguinte: eu não procurei escrever somente sobre a ditadura. Quando eu estava indo visitar pensões onde morei, vi uma passeata de adolescentes protestando com bandeiras por uma educação melhor. Foi quando me ocorreu o fato de que havia uma duração mais longa da juventude. Quem esteve na clandestinidade e foi ao limite da entrega da propria vida está nesses jovens das ocupações de escolas e universidades”.

    A partir desta sensação de eterno retorno, Urariano traz uma apropriação e reflexão muito pessoal sobre passagens vividas por quem ainda começava a vida na época da ditadura, assim como ele. “A trama do romance, escrito em primeira pessoa, começa a partir de um personagem que encontra o narrador, de posse de um LP de Ella Fitzgerald, em frente ao Cinema São Luiz. A militância desses jovens do pós-1964, assim como a vida sexual e afetiva deles, são abordadas no livro. Ao longo da obra, ele procura retomar essas vidas, vai de novo aos abrigos onde morou e percebe uma relação com os jovens de hoje”. Personagens presentes em outros títulos, como a paraguaia Soledad Barrett, voltam a ser citados com novos fatos de sua vida. A filha única dela, Ñasaindy Barrett, também entra no romance como personagem.

    A intensidade dessas experiências que borram e transbordam os limites entre ficção e memória são, segundo Urariano, motor para sua criação. O impacto da história de Soledad Barrett, por exemplo, morta enquanto estava grávida pelo próprio marido, o Cabo Anselmo, é um dos exemplos. “Achava necessário tirar um trauma de juventude. Quando se escreve um romance, ele é um fruto de sua experiência de vida. No momento da narração, descubro verdades desconhecidas para mim. O escritor irlandês Bernard Shaw dizia assim: ‘a melhor forma de mentir é contar a verdade’. Não percebemos o quanto a vida é curta, mas ela é uma coisa muito séria. Não podemos apenas brincar de viver”.

    A versão eletrônica pode ser adquirida na internet. Já a o livro físico estará disponível no lançamento.

    Leia um trecho da obra em primeira mão:

    I wonder why. Eu não sei por quê, não entendo qualquer motivo ou razão, inclusive a mais absurda, eu não sei por que acabo de comprar um disco de Ella Fitzgerald, o long-play Ella, de 1969. Eu não tenho nem mesmo um toca-discos para ouvi-la. Mas que felicidade dá nos lábios, feito um menino com um chocolate que não poderá comer, mas ainda assim feliz pelo cheiro e textura do chocolate. É inexplicável que eu esteja feliz quando encontro Luiz do Carmo em frente ao Cine São Luiz, que ao me ver exibindo a capa de Ella, pergunta:

    - Você tem vitrola para ouvir o disco?

    - Eu não tenho, mas quando tiver uma, já tenho Ella Fitzgerald.

    Na hora, estamos com 19 anos, não temos ainda a maturidade da expressão verbal para o sentimento, apenas possuímos uma timidez que atrapalha até o pensamento em silêncio. O que não disse ali é isto: quero ter Ella comigo, acariciar a sua capa (que pobreza, meu Deus, dói até a lembrança neste instante). Quero antegozar a sua voz, a doçura que apenas ouvi por segundos e me derrubou num encanto, lá na Aky Discos. Quero prelibar a sua canção, encontrando-a junto a meu peito. Por quê, I wonder why? Porque, uma simplificação diria, quando o detalhe material do toca-discos chegar, eu já estarei com o disco ideal para o suporte da mercadoria. Ou num paradoxo, se o toca-discos é inacessível, eu tenho o disco de Ella, que não posso ouvir. Mas imaginá-lo, posso. Então acaricio feliz o potencial do que virá, ou viria, ou nunca, que importa, tenho Ella com a mesma certeza do apostador que vai à loja de roupas antes de comprar um bilhete na loteria.

    Leia a apresentação do romance:

    Um sonho que a repressão não destrói

    Por José Carlos Ruy

    Um dia desses, conversando com minha filha, uma moça de 21 anos que estuda Letras, ela me falava, contrariada, de tantas moças e rapazes (e movimentos e artistas “jovens”) que parecem envelhecidos pela recusa a correr riscos, e pela vontade de ter todas as garantias e segurança que a sociedade oferece. São jovens na idade, mas não no coração, dizia ela.

    Esta lembrança me ocorre no momento em que escrevo a “apresentação” a este livro extraordinário a que Urariano Mota deu um título preciso: A mais longa duração da juventude. Um relato ficcional amplamente ancorado na memória dos jovens que, por volta de 1970, resistiam à ditadura no Recife, como tantos outros Brasil afora. E traziam inscrito em sua bandeira, com letras de um vermelho flamejante: “revolução e sexo”. Nesta ordem, adverte Urariano.

    Rapazes e moças que, por volta de seus vinte anos, viviam às voltas com as agruras da luta política e revolucionária, e os ardores do sexo que despertava. Agruras e ardores narrados com a precisão de acontecimentos “de ontem”, que continuam presentes, quase meio século depois, com a mesma e intensa realidade do brilho das estrelas de que conhecemos somente a luz que cruzou milhares de anos-luz, estrelas que talvez nem existam mais no momento em que sua imagem nos alcança.

    A luz dessas estrelas é semelhante ao sonho que, hoje, meio século mais tarde, aqueles jovens ainda sonham mesmo que seus corpos já não tenham a força dos vinte anos. Mas o viço e o vigor do sonho permanecem. E fazem mais longa a duração da juventude.

    Urariano Mota sabe do que trata. Autor de tantos livros, entre os quais se destacam Soledad no Recife (2009) e O filho renegado de Deus (2013), tecidos com o relato do vivido e do trágico (sobretudo Soledad no Recife) junto com o imaginado (como em O filho renegado de Deus) Urariano sabe como poucos mesclar memória e ficção. E de tal maneira as confunde na textura da escrita que, nela, o real vira imaginado, e o imaginado assume as formas do real. E o tempo funde as duas pontas do relato, entre o passado e o presente. Fundidos por uma reflexão fina, ligada – para dizer como se dizia há quase meio século – pela análise concreta de situações concretas.

    Não é filosofia, quer Urariano. Mas é reflexão fina, humanamente fina e que tem o dom de trazer à vida, com seus matizes, os debates com que aqueles jovens de esquerda, revolucionários, desenhavam seu futuro, o futuro de todos, do país e da humanidade.

    Sonho que levou o garoto de 1969 a comprar um disco de Ella Fitzgerald onde poderia ouvir I wonder why, se tivesse vitrola (palavra antiga para toca-discos, também antiquada no tempo dos igualmente em superação cd players). Não importa que não tivesse! Teria, um dia, e ouviria a cantora cuja voz amava. Sonho semelhante ao que tantos anos depois, quando já não existia a ameaça da repressão ditatorial, queria uma bandeira do Partido Comunista do Brasil para envolver o caixão do amigo morto.

    Sonho de abnegação, igualdade, de liberdade, de justiça para todos, de desapego perante os bens materiais e construção de um mundo novo, socialista.

    Sonho embargado pela memória cruel da sordidez da delação do infame Cabo Anselmo, que levou Soledad e tantos outros à morte na tortura ou pelas balas da repressão da ditadura.
    Nesta permanência da juventude não há, como há em Goethe, nenhum pacto com o demônio, como aquele pelo qual o poeta buscou a garantia da juventude permanente.

    Não. Há o sonho fincado na herança Marx, Engels, Lênin, Mao Tse Tung, Ho Chi Minh, Che Guevara e tantos outros. Povoado por Turguêniev, Dostoievski, Tolstoi, Proust, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e também tantos outros.
    “Eu não sou um velho. Aliás, nós não somos velhos”, diz um diálogo neste livro maravilhoso. “Eu sei. O tesão de mudar o mundo continua”.

    É o resumo escrito, lembrado, do sonho. Sonho que os jovens de meio século atrás ainda sonham. Como Vargas, Zacarelli, Luíz do Carmo, Nelinha, Alberto, Soledad, a turma toda.

    Este é um livro que une, com a arte da memória, 1970 e 2016 – se fosse possível fixar parâmetros tão fixos... É um livro que olha o passado não pelo retrovisor que encara o acontecido faz tanto tempo. É um livro que faz do passado os faróis que iluminam o caminho do futuro. E reduz a distância no tempo revivendo, tanto tempo depois, a mesma luta que uniu, e une, tanta gente.
    Um sonho contra o qual a barbárie e a estupidez dos cabos anselmos da repressão da ditadura foi impotente. E não o destruiu. E que é a senha para a mais longa duração da juventude.

    Fonte: Fundação Maurício Grabois

  • Eu estudo sociedades, pessoas, tempos que existiram ou ainda existem pelo globo todo. Estudo formações sociais, poemas, pinturas, músicas, algumas com 10.000 anos de existência.

    Artistas, soldados, reis, camponeses, assassinos, políticos, generais, pregadores... enfim... todo o tipo humano.

    E até agora, vejam só, eu não sei o que é "dar certo". Não sei se é viver como Nikola Tesla, inventor que morreu na pobreza tendo estudado a vida inteira. Não sei se é estudar e ser genial como Alan Turing, sendo morto pela sociedade que ajudou a salvar por causa de sua sexualidade. Não sei.

    Não sei se é não se formar e ainda assim se tornar bilionário como Bill Gates. Não sei se é vendendo hamburger como Richard e Maurice Mcdonald. Não sei mesmo.

    Não sei se é passando para a posteridade com "Lira dos meus vinte anos" e morrendo antes dos 25 ou, como Victor Hugo, que foi escrever "Os miseráveis" com 60 anos.

    Não sei se é ficando cego aos 13 anos e virando um pintor de sucesso como John Bramblitt ou regendo a 9a sinfonia surdo no final da vida para receber (sem poder ouvir) os aplausos de todo o teatro. Realmente não sei.

    Não sei se é sendo um pacifista e passando a vida lutando pelos direitos dos negros, até ser assassinado, como Martin Luther King. Ou se é morrendo com vinte anos numa praia do norte da França, ao desembarcar de um navio para lutar contra o nazismo, sem que ninguém ficasse sabendo do seu nome, das suas dores, dos seus sonhos.

    Aliás, não sabendo tantas coisas mesmo terminando um doutorado eu acho que também não dei certo.

    E não dando certo, eu jamais diria a alguém o que é "dar certo". Nem deixaria alguém pensar que pode dizer quem não deu.

    Tudo o que sei é que temos um tempo de existência e devemos responder se demos ou não certo a uma só pessoa, aquela que encaramos no espelho. E só ela pode nos julgar.

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    Fernando Horta é jornalista e colunista do Jornal GGN.

    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

  • Por Thais Reis Oliveira, na Carta Capital 

    Iniciativa ocorre em meio a um racha na Procuradoria-Geral da República

    Depois da censura pública de Raquel Dodge ao acordo que daria à força-tarefa da Lava Jato o poder de gerir um caixa bilionário, a Corregedoria da Procuradoria-Geral da República abriu um processo para investigar a atuação dos envolvidos no caso.

    Segundo a colunista Monica Bergamo, da Folha de S. Paulo, o processo deve atingir Deltan Dallagnol, o estrelado coordenador da operação no Ministério Público. Sob sua batuta, a turma de Curitiba negociou diretamente com a Petrobras o destino de 2,5 bilhões de reais recuperados graças a um acordo com a justiça americana.

    Conforme o trato, metade dessa verba iria financiar uma fundação privada, administrada pelos próprios procuradores e cuja missão seria reforçar “a luta da sociedade brasileira contra a corrupção”. Mas o projeto afundou em meio a críticas dentro e fora do meio jurídico. Ao menos por enquanto.

    Na terça-feira 12, Raquel Dodge pediu ao Supremo que anulasse o acordo. A chefe do Ministério Público Federal entendeu que os procuradores da Lava Jato violaram a Constituição. Dodge evocou, no pedido, a separação de poderes, a preservação das funções essenciais à Justiça, a independência do MP e os princípios da legalidade, da moralidade e da impessoalidade.

    No mesmo dia, o MPF já havia pedido a suspensão da fundação, parte mais criticada do acordo, mas mantinham o dinheiro sob a conta judicial gerida pelos paranaenses.

    Os procuradores pareciam certos de que o dinheiro ficaria sob a guarda do MP de Curitiba. Um documento divulgado em primeira mão por Luis Nassif, do Jornal GGN, mostra que, dias antes do depósito da Petrobras cair na conta, Deltan Dallagnol negociou diretamente com a Caixa as melhores alternativas de investimentos.

    Racha no MPF

    O pedido de Raquel Dodge desagradou alguns setores do MP. A Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) divulgou uma nota de repúdio à decisão. Para os signatários, Dodge se excedeu ao pedir a degola total do acordo. Argumentam ainda que “não é normal” que uma matéria da primeira instância do MP seja levada ao Supremo pela procuradora-geral da República.

    Maior revés da operação até aqui, a ofensiva da procuradora-geral ocorre em meio a uma disputa pelo comando da PGR. O mandato Dodge vence em setembro e não há garantias de que Jair Bolsonaro vá reconduzi-la ao cargo. O nome de Dallagnol agrada Sergio Moro e apoiadores dentro do MPF. Mas há grandes barreiras para os planos do golden boy (campeão) da Lava Jato.

    No início deste mês, o Conselho Superior do MPF reafirmou que o cargo de procurador-geral da República só pode ser ocupado por subprocuradores-gerais. Sob essa condição, Deltan não poderia concorrer, já que ainda atua na primeira instância da entidade, dois degraus abaixo da Subprocuradoria.