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Ter, Jun

machismo

  • Quando se pensa que não poderia piorar, aparece um Alexandre Frota da vida levando “sugestões” ao Ministério da Educação (MEC). Parece piada, mas não é. A falta de educação do desgoverno Temer se consubstancia.

    Isso mostra a verdadeira face desse desgoverno que se apossou do lugar da presidenta legítima Dilma Rousseff.

    Revela também a face mais cruel do arraigado machismo brasileiro. Explica a reportagem de uma revista de desinformação com o título “bela, recatada e do lar”, ou seja, a mulher deve estar sempre pronta para servir, sem abrir a boca para reclamar.

    O ator pornô Alexandre Frota representa a face mais cruel desse machismo rude, para o qual qualquer manifestação de delicadeza se liga apenas e tão somente ao feminino, quer dizer que cultura é coisa de mulheres e homossexuais.

    Mostra ainda porque a proposta de debater as questões de gênero nas escolas assusta tanto os setores conservadores dessa elite carcomida e obsoleta. Para quem solidariedade humana é coisa de "esquerdopata".

    As educadoras e os educadores brasileiros discutiram durante anos em inúmeras conferências as maneiras de dialogar com a sociedade, as formas de se construir a igualdade de direitos entre as brasileiras e brasileiros, ensinando o respeito à dignidade humana.

    Aí golpeiam a democracia e juntamente toda a possibilidade de convivência com o diferente, com o respeito e com a justiça. Em poucos dias de desgoverno mostram ao que vieram em todos os setores.

    Começaram extinguindo ministérios com a desculpa de promover economia, mesmo sabendo que não economizam nada com esses cortes.

    Principalmente porque os cortes promovidos, como sempre os conservadores fazem, se concentram nos ministérios sociais, nos setores mais sensíveis à população mais carente.

    E para o MEC foi nomeado um ministro afinado com o setor privado da educação. Já começou falando em acabar com a educação pública para o ensino médio e para o superior. Porque para eles, o Estado deve somente prover a educação pública básica.

    Iniciou sua gestão cortando recursos do Programas Universidade Para Todos (ProUni), do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), do Financiamento Estudantil (Fies), entre tudo o que significa possibilidade de acesso à educação aos mais pobres.

    Agora, receber um conhecido defensor da “supremacia” masculina e ainda se orgulhar disso, permitindo ser fotografado ao lado de tão ignóbil companhia, mostra uma afronta à civilização e à possibilidade de progresso civilizacional no país.

    É esse tipo de educação que os pais querem para seus filhos e filhas? Onde a mulher é figurada como mera coadjuvante de “varões” dispostos a usar a vara para prevalecer sobre todos e todas que os contestem?

    É o prazer do “macho” conquistado a qualquer custo, independente da vontade alheia. Só conta o falo e o regozijar-se de predominar custe o que custar. Nem Freud consegue explicar.

    Receber Alexandre Frota no Ministério da Educação com pompa denuncia o caráter transfigurado de um desgoverno ilegal e imoral. 

    A educação da infância e da juventude não pode estar submetida à ignorância e à completa falta de respeito às pessoas.

    Entre as prioridades da sociedade, a educação precisa de gente séria, antenada com a contemporaneidade e com os avanços da humanidade. E isso o desgoverno Temer não tem. Assim, cresce ainda mais o grito de Fora Temer.

    Alexandre Frota em qualquer órgão governamental nem em piada. No MEC é o fim. Representa a cultura do estupro na educação de crianças e jovens. Estupro, inclusive, à inteligência.

    Marcos Aurélio Ruy é jornalista do Portal CTB.

    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

  • O assassinato da juíza do trabalho Claudia Zerati pelo marido, o delegado Cristian Sant’Ana Lanfredi, que se matou em seguida, reacende a discussão sobre a violência contra as mulheres no Brasil.

    Lanfredi estava afastado do trabalho por motivo de saúde e pelas informações da filha do casal, de apenas 6 anos, ele e Zerati haviam brigado porque o delegado recusou-se a tomar um remédio de seu tratamento.

    A tragédia ocorreu  em um condomínio de um bairro de classe média alta, na capital paulista, no domingo (20). As informações dão conta de que após a briga, Manfredi levou a menina para o apartamento dos padrinhos, no mesmo prédio. Ao voltar para casa matou a companheira e se matou.

    A Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) e a Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 2ª Região (Amatra 2) divulgaram nota conjunta denunciando o feminicídio.

    Repudiam “os gritantes números de feminicídio que ainda grassam no Brasil”, diz trecho da nota. Isso porque somente em “em 2016, contabilizávamos 4,8 assassinatos a cada 100 mil mulheres, ocupando o 5º lugar no ranking mundial de países, quanto ao feminicídio”.

    Para Ivânia Pereira, secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), casos como esse “evidenciam a necessidade de políticas públicas de proteção para as mulheres”.

    Ela afirma ainda que “o número de violência de gênero no país é tão assustador que há necessidade de reforçar as leis existentes para a punição dos agressores”.

    Ela se refere à Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015), e a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), que, segundo Pereira, “devem ser amplamente divulgadas para toda a sociedade, juntamente com a aplicação de medidas protetivas para coibir a violência”.

    Já a secretária de Formação e Cultura da CTB, Celina Arêas, defende a criação de um amplo trabalho de educação, mobilizando a sociedade.

    "Cada vez nota-se mais que é fundamental debater as questões de gênero na escola e conjuntamente criando uma grande mobilização nacional em defesa da vida das mulheres”, diz.

    De acordo com Arêas, “é impossível conviver com números tão exorbitantes de violência. Todos os dias ficamos sabendo de casos de espancamentos, estupros e mortes, pelo simples fato de serem mulheres. Precisamos dar um basta”.

    Pereira reforça a proposta ao defender a mobilização e unidade do movimento feminista para “denunciar essa situação de guerra em que vivemos e construir modos de defesa de nossas vidas. Nenhuma a menos é a nossa palavra de ordem”.

    A socióloga Lourdes Bandeira, que é pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), afirma que a situação vivida no Brasil equivale “a um estado de guerra civil permanente”.

    O Mapa da Violência 2015 (Cebela/Flacso) revela que de 1980 a 2013, 106.093 brasileiras foram vítimas de assassinato. Somente em 2013, foram 4.762 assassinatos, ou seja, 13 mulheres mortas por dia.

    Arêas reafirma a necessidade de mobilização das mulheres “de todas as classes sociais para combater o machismo e a cultura do estupro, tentando fazer com que os meios de comunicação participem desse projeto e não contribuam para a proliferação da violência”.

    Portal CTB - Marcos Aurélio Ruy

  • A Câmara dos Deputados da Alemanha aprovou uma lei nesta quinta-feira (7) que amplia o conceito de estupro. A partir de agora, quando uma mulher disser não, qualquer ato sexual forçado será considerado crime.

    É a campanha Não Significa Não, que ganhou o país europeu depois das violências contra as mulheres ocorridas recentemente. Na Alemanha são registrados em média 8 mil estupros por ano, mas os especialistas dizem que menos de 10% das agredidas denunciam.

    “Muito importante essa lei, porque muda todo o conceito da cultura de estupro. Com isso, as mulheres podem sentir-se mais respeitadas como mulheres, como pessoas”, diz Ivânia Pereira, secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

    “Depois de três meses de uma discussão cheia de tensões, os deputados aprovaram por unanimidade (todos os 601 votos emitidos foram a favor) o endurecimento legal com o qual o Ministério da Justiça pretende garantir que nenhuma agressão sexual fique impune”, afirma Luis Doncel, do jornal espanhol El País.

    Para Ivânia, é um grande avanço. “Imagina hoje no Brasil, com as mulheres ficando cada vez mais vulneráveis, uma lei como essa seria fundamental para manter o respeito nas relações entre as pessoas". Aqui, garante ela, "a cultura do estupro nos impinge o conceito de que somos subalternas, tratadas como objetos, propriedades dos homens”.

    De acordo com Doncel, basta que a mulher "diga ‘não’ ou ‘pare’, ou que mostre alguma outra forma de descontentamento, como, por exemplo, chorar. Aquele que não respeitar esse posicionamento terá de enfrentar as consequências legais, com penas que podem chegar a até cinco anos de prisão”, na Alemanha.

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    Muito diferente do Brasil, onde o Congresso Nacional conta com projetos que retiram direitos e conquistas das mulheres. “Com esse governo golpista algumas propostas que trazem enorme retrocesso vêm ganhando muita força”, acentua Ivânia.

    De acordo com ela, é necessário um amplo debate sobre a cultura do estupro, inclusive levando o debate sobre as questões de gênero para dentro das escolas. “Acredito que educação sexual, que ensine os meninos a respeitar as meninas, é fundamental para construirmos uma sociedade regida pelo respeito à dignidade humana”, diz.

    Aqui, segundo Ivânia, inclusive o conceito do que seja estupro é minimizado. “A mentalidade atrasada dos brasileiros ainda não compreende a mulher como sujeita e dona do seu próprio nariz e ainda querem retroceder em nossos direitos”.

    “A maioria não entende como estupro”, diz ela, “quando o marido força a mulher a manter relação sexual, mesmo contra a vontade dela”. Ivânia conta que “o sujeito xinga a mulher de feia, reclama da comida, não tem um carinho o dia todo, mas quando chega a noite quer transar”.

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    “E não adianta a mulher dizer não. Na cabeça de grande parte dos homens, as mulheres têm obrigação de atender seus desejos”, complementa.

    Para ela, essa lei alemã representa um grande avanço civilizacional. “A partir dessa mudança de conceito, a relação sexual entre as pessoas deixa de ser por obrigação e passa a ser de carinho, de troca de afeto, o que é fundamental para a vida de todas e todos”.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • Foto: HuffPost Brasil

    O jornal O Estado de S. Paulo fez um levantamento, com base na Lei de Acesso de Informação, e descobriu que as denúncias de abuso sexual em ônibus, Metrô e trens em São Paulo cresceram 850% em 3 anos. Foram 23 em 2013 e passaram para 219 em 2016.

    Para a secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil em São Paulo (CTB-SP), Gicélia Bitencourt, isso significa que as mulheres estão mais dispostas a enfrentar esse tipo de violência.

    “As políticas públicas de empoderamento da mulher têm favorecido as denúncias. A Lei Maria da Penha e as intensas campanhas contra o assédio sexual também favorecem e encorajam as mulheres”, diz.

    Mas ela ressalta que apesar de existirem leis, campanhas e políticas públicas para combater esse tipo de conduta, “há necessidade de mais vigilância e punição aos agressores e, juntamente com isso, uma grande campanha de educação de homens e mulheres”.

    A questão do abuso sexual é recorrente no transporte coletivo em São Paulo. E de acordo com a reportagem do Estadão, ocorrem quatro denúncias por semana.

    “O problema é que muitas ainda não denunciam, porque passam por constrangimentos em delegacias e não se sentem respaldadas pelo poder público”, afirma Bitencourt.

    Ela lembra a acusação de  uma menina que denunciou um agressor no Metrô e o segurança lhe disse: “também com esse vestido”.Cita também um caso que presenciou quando uma mulher com uma blusa decotada gritou contra o abusador e mulheres do vagão a acusaram de estar provocando com aquela roupa.

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    Protesto em São Paulo no ano passado (Foto: Anne Barbosa/G1)

    “Essa mentalidade patriarcal tem que mudar”, diz a sindicalista, “a mulher tem o direito de vestir a roupa com a qual se sinta bem. O tipo de vestimenta não dá o direito de ninguém de tocá-la sem a sua permissão”.

    Aliás, o Metrô teve muitos casos de violência contra mulheres no ano passado. O que gerou inúmeros protestos. Para responder a isso empresa começou uma campanha para supostamente facilitar as denúncias.

    “A campanha não é de todo ruim”, afirma Bitencourt, mas “não basta ficar somente na campanha, precisar ter mais funcionários para coibir esse tipo de ocorrência. Com essa campanha, o Metrô parece querer se isentar, mas a segurança dos passageiros é de responsabilidade da empresa”.

    Ela atribui também à superlotação dos meios de transporte que não oferecem nenhuma segurança aos passageiros. “As empresas de ônibus e o governo do estado, responsável pelos trens e pelo Metrô têm a obrigação de criar mecanismos para dificultar o abuso sexual”, reforça.

    Além de todas essas atitudes dos empresários e dos governantes, Bitencourt destaca a necessidade de muitas campanhas educativas, porque “a nossa sociedade é machista e pune as mulheres quase sempre. Temos que entender que não somos culpadas de nada. O nosso corpo nos pertence e ninguém pode nos tirar esse direito”.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy. Foto: HuffPost Brasil

  • Chocada com a grande incidência de violência de gênero no país, a presidenta da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), Camila Lanes, de 20 anos, propõe que a questão seja discutida amplamente nas redes sociais.

    Ao ver as postagens da YouTuber Marina Joyce, que mora em Londres, cheia de hematomas, denunciando as agressões do namorado, como um pedido de socorro, Lanes escreveu o artigo “Vamos falar de machismo nas redes? Ok. Vamos lá”, onde enumera uma série de violências contra mulheres e meninas.

    “Muito importante essa iniciativa da líder secundarista para levar à internet esse debate, já que muitos homens usam das redes para se vingar, quando levam um fora das namoradas, noivas ou esposas”, diz Ivânia Pereira, secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

    Além de concordar com essa proposta, Pereira levanta também a necessidade de divulgação do Marco Civil da Internet “para a sociedade saber qual o limite das redes sociais, para acabar com o sentimento de impunidade”.

    Lanes enumera uma série de casos de estupros e mortes em que as vítimas passam a ser culpabilizadas nas redes. Os “juízes online” atacam diz ela, “quando uma mulher é vítima de abusos sexuais, psicológicos e morais" (leia artigo completo aqui).

    Para a dirigente cetebista, “as vítimas de qualquer tipo de agressão deveriam ter amplo espaço na internet para denunciar o agressor”. Isso aliado “às políticas públicas de acolhimento das mulheres e às leis de punição aos algozes”.

    Ela acredita ainda na necessidade de maior divulgação dessas políticas públicas, leis e de como as vítimas devem encaminhar as denúncias e como devem proceder para encaminhar as suas necessidades de atendimento.

    Várias campanhas têm sido desenvolvidas pelas redes sociais com objetivo de denunciar o machismo, a misoginia e a violência contra as mulhes como Eu Não Mereço Ser Estuprada, Meu Primeiro Assédio, Eu Empregada Doméstica, Moça Você é Machista e Meu Amigo Secreto, entre muitas outras iniciativas no Facebook, no Twitter e em outras redes.

    Mas, Pereira, faz uma ressalva. “A internet é um instrumento muito importante, se bem utilizada”, porém, “essa ferramenta tem sido muito usada para oprimir e disseminar a discriminação o ódio e a violência e isso tem quer ser coibido”.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • Estudos divulgados recentemente apresentam um panorama da violência a que as mulheres são submetidas no mundo. E o Brasil, infelizmente, se destaca entre os países mais violentos. Por isso, “a união do movimento feminista é crucial para mudarmos essas abomináveis estatísticas”, diz Celina Arêas, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB.

    O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mostra que as mulheres trabalham mais, estudam mais e ganham menos que os homens. Além disso, confirma a dupla jornada. Em 2016, elas trabalhavam 73% a mais nos afazeres domésticos.

    De acordo com Barbara Cobo, coordenadora do IBGE, 28,2% das mulheres trabalham em período parcial de até 30 horas semanas, enquanto entre os homens o índice é de 14,1%. Mas “mesmo com trabalhos em tempo parcial, a mulher ainda trabalha mais. Combinando-se as horas de trabalhos remunerados com as de cuidados e afazeres, a mulher trabalha, em média, 54,4 horas por semana, contra 51,4 dos homens”.

    “Uma das principais bandeiras do movimento feminista trata exatamente da divisão do trabalho doméstico, porque com esse acúmulo, as mulheres têm menos tempo para si próprias, adoecendo mais e muitas vezes perdendo o emprego”, afirma Ivânia Pereira, vice-presidenta da CTB.

    Já o instituto Ipsos divulgou nesta quarta-feira (7), um levantamento que fez em 27 países e constatou que, no mundo, 32% das mulheres temem o assédio sexual. Preocupação seguida pela violência sexual (28%) e violência física (21%).

    Já no Brasil, a situação é ainda mais preocupante. No quinto país mais violento contra as mulheres, 47% delas temem a violência sexual, o assédio sexual é temido por 38% e a violência física por 28% das brasileiras.

    “O movimento sindical, os movimentos sociais e as feministas devem atentar para esses dados”, reforça Arêas. “É mais do que essencial estarmos juntas para acabar com essa violência machista e misógina”.

    As mulheres enfrentam essa violência cotidiana desde a idade mais tenra. A Organização Mundial da Saúde divulgou dados recentemente mostrando que uma em cada cinco meninas e um em cada treze meninos sofre abuso sexual no mundo. No Brasil, sabe-se que a maioria dos casos ocorre dentro de casa, onde as crianças deveriam sentir-se mais protegidas.

    “Tudo é resultado da cultura do estupro”, acentua Pereira. Para ela, “a onda conservadora quer que a mulher seja apenas bela, recatada e do lar, sempre disposta aos caprichos dos homens”.

    E isso não é tudo. O IBGE comprova também que apesar de trabalharem mais e estudarem mais, as mulheres ganham em média 23,5% a menos que os homens, exercendo a mesma função.

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    Além disso, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, mostra que as mulheres perderam 42,5 mil postos de trabalho em 2017, enquanto os homens ganharam 21,6 mil postos, num total de 20,8 mil vagas fechadas.

    A queda da presença feminina em cargos gerenciais comprova também que a crise afeta mais as mulheres. Em 2016, 37,8% exerciam essa função no mercado de trabalho, enquanto em 2015 o índice era de 39%, além de serem as primeiras a perder o emprego e as últimas a conseguirem recolocação.

    Para Cobo, “a mulher tem a escolarização necessária ao exercício da função, consegue enxergar até onde poderia ir na carreira, mas se depara com uma ‘barreira invisível’ que a impede de alcançar seu potencial máximo”.

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    Uma barreira nem tão invisível assim. “Todos esses estudos mostram que o machismo atrapalha o progresso econômico e inviabiliza o desenvolvimento civilizacional da nação. A hora é de resistir e avançar para acabar com a cultura patriarcal que nos oprime,  ocupando os espaços públicos e com mais mulheres com poder de decisão”, assinala a secretária da Mulher Trabalhadora da CTB.

    Marcos Aurélio Ruy - Portal CTB

  • Para a deputada estadual gaúcha Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), 35 anos, o movimento sindical não pode adiar o debate envolvendo questões de gênero. “Quem não perceber isso estará cada vez mais distante de suas bases. Não há como abstrair a dimensão de ser mulher na fábrica, no campo ou no escritório com as responsabilidades sociais que nossa cultura patriarcal ainda impõe às mulheres”, diz a parlamentar. Formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, D’Ávila ingressou no movimento estudantil em 1999 e foi vice-presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 2003. No ano seguinte, elegeu-se a vereadora mais jovem de Porto Alegre.

    Em 2006, ela foi eleita deputada federal e ganhou da mídia o título de “musa do Congresso”, em muitas reportagens que celebravam a beleza da parlamentar. “Isso me fortaleceu, fez com que eu trabalhasse ainda mais para desconstruir esses estereótipos”. D’Ávila se destaca na luta pela defesa dos direitos humanos e como ativista pela igualdade de gênero. Ela concedeu, por email, uma entrevista à revista Mulher de Classe:

    Mulher de Classe: Muito difícil ser parlamentar num país predominantemente machista?

    Manuela D’Ávila: Sim, é muito difícil. Sempre foi. E parece que crescem cada vez mais as dificuldades com essa onda conservadora.

    MC: Você despontou no movimento estudantil, como vê as ocupações de escolas e as lideranças femininas nessas lutas?

    MD: Essas ocupações, sobretudo as ocupações das escolas, têm ensinado a geração mais velha como é possível reinventar o movimento estudantil. É incrível que a maior parte delas é dirigida por jovens meninas, que enfrentam dificuldades muito grandes, inclusive nos seus núcleos familiares, que reproduzem o machismo na ocupação das escolas. Uma reinvenção de práticas do movimento estudantil.

    MC: Apesar das políticas públicas de acolhimento das mulheres e de combate à violência, o Brasil é um dos países que mais estupra e assassina mulheres, como vê isso?

    MD: Isso reflete muito da cultura do estupro na sociedade brasileira, da cultura de culpabilização das vítimas, de não falar sobre o assunto, de fazer reproduzir silêncios que na verdade são cúmplices da violência. O Brasil é um país machista, e dentro do machismo existe a idéia da posse da mulher, e da posse da mulher para a violência física e sexual são alguns passos.

    MC: O golpe que derrubou a presidenta Dilma acirrou a violência?

    MD: O golpe fragilizou todas as nossas instituições e, evidentemente, a violência aumentou com isso. A quem a gente deve algum grau de obediência se as instituições não são respeitadas?

    Eu acredito que o golpe acirrou a violência contra a mulher. E mesmo antes disso, o processo de construção do golpe, que foi um processo absolutamente ceticista e misógino, também fez com que essa violência crescesse.

    MC: Qual o papel da mídia?

    MD: A maior parte da mídia é cúmplice dessa construção do discurso machista relacionado com a presidenta Dilma. Basta lembrar das capas das grandes revistas. Na realidade, em um país que tem uma mídia com um comportamento misógino contra a presidenta da República, o que podemos esperar do tratamento dado à mulher comum que trabalha em casa, que auxilia nos serviços da sociedade?

    MC: Você postou em suas redes sociais uma foto amamentando sua filha. Foi atacada e sua resposta viralizou na internet. Como vê uma sociedade em que o ato de amamentar é agredido?

    MD: Tudo aquilo que é considerado público é retirado das mulheres. Às mulheres cabem os atos privados, e amamentar deve ser mantido no ambiente privado, porque na mentalidade machista é assim.

    MC: O que as mulheres precisam fazer para mudar essa cultura machista?

    MD: Elas precisam ocupar o ambiente público. Acho que esse é o principal debate que devemos fazer. Seja o espaço de Poder ou sejam os espaços das cidades.

    MC: Mais mulheres na política pode transformar essa realidade?

    MD: A curto prazo, eu só acredito nas cotas. E que elas sejam pra valer. Com cotas do financiamento público para candidaturas de mulheres, porque as pessoas dizem que mulheres não votam em mulheres. As votações de mulheres para a Presidência da República comprovam que isso não é verdade. As mulheres votam sim em mulheres.

    MC: Poucas têm sido eleitas. Por quê?

    MD: O problema é que elas precisam conhecer essas candidaturas, portanto, é preciso que as mulheres apareçam na televisão e que tenham os mesmos instrumentos que os homens.

    MC: Quando foi eleita pela primeira vez, a mídia te apresentou como a “musa do ongresso”. Como lidou com isso?

    MD: Naquela ocasião, em 2006, uma década atrás, quando eu assumi, foi tudo muito difícil, chegar em Brasília tão jovem como eu cheguei, com 24 para 25 anos, sem ter nenhum parente político, sem ser filha, sem ser neta, sem ter nenhum padrinho político, sem ser casada com um político, eu era a única deputada com menos de 30 anos sem ter um sobrenome importante, e aí eles ainda colocam esse rótulo. Isso me fortaleceu, fez com que eu trabalhasse ainda mais para desconstruir esses estereótipos.

    MC: Como mãe de uma menina, o que espera do futuro na questão de gênero?

    MD: Ser mãe de outra mulher é algo bastante desafiador, porque a gente vê e passa o tempo inteiro em um estado de vigilância com relação à perpetuação desses padrões, dos padrões estéticos, dos padrões de felicidade, dos padrões de divisão de brinquedos que refletem a divisão social dos trabalhos.

    MC: Ser mãe de menina aumenta a responsabilidade para ajudar a romper as barreiras da opressão machista?

    MD: A gente deve ser vigilante com a gente mesmo, mas também com os outros, desde as divisões das cores, das divisões de brinquedos, até a ideia de que menina não brinca com carrinho, e depois ela não pode dirigir, porque ela nunca brincou com aquilo, aquilo não é familiar. Então, é algo que exige muito cuidado porque o movimento da sociedade é muito forte para colocar a mulher no lugar que acreditam que seja o lugar da mulher.

    MC: Acredita que o movimento sindical e os partidos políticos agem para combater o patriarcado?

    MD: Eu acho que o movimento sindical e os movimentos sociais em geral, cada vez mais percebem a relevância da pauta de gênero para a conquista dos trabalhadores, porque não há como abstrair a dimensão de ser mulher na fábrica, no campo, no escritório, com a desigualdade que isso impõe, seja pela não contratação na idade ideal, pela demissão pós maternidade ou pelas responsabilidades sociais que nossa cultura patriarcal ainda impõe às mulheres. Então quem tem que levar na creche, quem tem que levar no posto de saúde é a mulher, isso faz com que ela falte mais dias ao trabalho.

    Tudo isso junto é uma pauta urgente do movimento sindical, e aqueles que não a pautarem estarão cada vez mais distantes das suas bases.

    MC: O que fazer para acabar com a ideologia patriarcal?

    MD: Acho que nós temos que começar tudo junto ao mesmo tempo, desde legislações mais punitivas, até um amplo debate sobre gênero nas nossas escolas e vigilância com conteúdo televisivo e midiático. São muitas as ações necessárias para que a gente tenha um país com uma outra cultura com relação às mulheres.

    Portal CTB - Marcos Aurélio Ruy. Foto: Reprodução do Facebook de Manuela D'Ávila

    Entrevista publicada originalmente na revista Mulher de Classe número 6, de abril de 2017.

  • Que o governo golpista era também machista, nós não tínhamos dúvida. Mas não há como não se surpreender com o nível de discurso feito pelo presidente golpista Michel Temer no Dia Internacional da Mulher. Alçado ao poder por um golpe machista e misógino, Temer demonstra o que todas nós já sabíamos com seu discurso: que esse governo é inimigo das mulheres!

    Quem ouviu o discurso pode ter achado que estava ouvindo uma fala do começo do século passado, mas na verdade era o atual Presidente (golpista) do Brasil colocando a mulher como única responsável pela gestão da casa e pelo futuro dos filhos. Nas palavras do machista, “se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher.”

    O golpista reduziu nossa participação na economia à condução do lar e afirmou que detectamos as flutuações do mercado através do orçamento doméstico. Ele também deixou claro que, em sua visão machista, podemos trabalhar desde que mantenhamos sob nossa responsabilidade os afazeres domésticos. E ainda teve o disparate de falar que ocupamos muitos cargos de chefia e recebemos as mesmas condições de empregabilidade dos homens.

    O discurso de Michel Temer é uma afronta à realidade das mulheres e à luta das feministas classistas. É um deboche com um país que figura entre os campeões de violência de gênero, que tem um abismo em questões de trabalho entre homens e mulheres e que tem em sua pauta política grandes ataques à nós, com as reformas da previdência e trabalhista.

    Não esperávamos menos de quem articulou um golpe misógino contra uma presidenta honesta, mas não acreditávamos que ele seria capaz de vir em pleno 8 de março expor seu machismo para que todo o mundo sabia que temos um Presidente Golpista com mentalidade do século XVIII ocupando o Palácio do Planalto.

    A resposta à Michel Temer veio nas ruas. Ontem, milhares de mulheres tomaram as ruas em todos os cantos desse país gritando “Fora Temer”, levantando nossas pautas e mostrando que estamos unidas para construir uma nova realidade para as mulheres brasileiras. Novas respostas ainda estão por vir, pois seguirmos organizadas para resistir a essas reformas e derrotar esse governo machista e ilegítimo.

    Fora Temer! Não às Reformas da Previdência e Trabalhista! Todo repúdio ao discurso machista do Presidente Golpista!

    Kátia Branco é secretária da Mulher Trabalhadora da CTB/RJ


    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

  • Viraliza na internet uma situação constrangedora ocorrida em uma prova oral para admissão de candidatos ao Ministério Público do Rio de Janeiro. Nela, o promotor Alexandre Couto Joppert elabora um caso hipotético de estupro e cai na armadilha do inconsciente. Inclusive a prova foi gravada e tem um áudio divulgado na internet. 

    Joppert expõe o caso: "um segura, outro aponta arma, outro guarnece a porta da casa, outro mantém a conjunção - ficou com a melhor parte, dependendo da vítima - mantém a conjunção carnal, e o outro fica com o carro ligado para assegurar a fuga."

    A repercussão foi imediata. “É lamentável que uma coisa dessa aconteça em um órgão do Judiciário, que existe para nos defender”, reclama Ivânia Pereira, secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

    À BBC  Brasil, Joppert disse que "essa frase, talvez ouvida fora do contexto, pode dar uma ideia errada. Eu quis dizer 'a melhor parte' não na minha ótica, obviamente. A melhor parte na ótica da mente doentia do criminoso. Em todo o estupro, o objetivo principal do criminoso, naquela patologia psíquica que ele tem, é alcançar a satisfação da sua lascívia. Como no estelionato a melhor parte a é obtenção da vantagem indevida".

    A secretária da Mulher Trabalhadora da CTB-SP, Gicélia Bitencourt argumenta que “quanto mais ele tenta se explicar, mais se complica. Está muito claro que a cultura do estupro não escolhe classe social e precisa de um combate mais efetivo com um amplo trabalho de educação de toda a sociedade”.

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    Enquanto Ivânia ressalta a complexidade do tema. “Todas essas expressões e violências dos últimos dias estão intrinsicamente ligadas ao regime de exceção que estamos vivendo”, diz. “O que esperar de um governo composto por homens, brancos, ricos e defensores desse nível de posicionamento?”

    Para ela, os projetos do governo golpista e os em tramitação no Congresso Nacional que retiram direitos da classe trabalhadora e, essencialmente das mulheres “incitam essas posturas, a violência,a misoginia e empobrece a vida de todos e todas, porque nos joga na barbárie”.

    Gicélia afirma que “a visão de que o afastamento da presidenta Dilma, deixou as mulheres sem proteção parece ter reacendido uma vontade de vingança contra as conquistas que tivemos e contra os espaços que conquistamos”.

    “Aflora também um sentimento de impunidade com o recente corte de mais de R$ 12 milhões da já enfraquecida Secretaria de Políticas para as Mulheres”, afirma Ivânia. Além disso, diz ela, “a mídia reforça a cultura do estupro quando mostra a mulher como objeto”.

    Ouça o áudio abaixo:

    De acordo com a reportagem da BBC Brasil, o Ministério Público do Rio instaurou procedimento para apurar a conduta de Joppert e que ele foi afastado cautelarmente da banca examinadora até que tudo se resolva.

    Mesmo com os pedidos de desculpas feitos por Joppert, a antropóloga Jacqueline Muniz, professora da faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, acredita que ele “incitou mais uma vez a prática de estupro, portanto é chocante que isso venha de segmentos do Ministério Público que representam a sociedade. É como se a atitude dele fosse duplamente violenta: ela por si mesmo reitera a lógica da cultura do estupro, e a outra pela posição que a pessoa ocupa, certamente fere decoro e ética de sua função".

    Ivânia acentua que a questão colocada pelo promotor “da forma como foi feita se iguala à fala do deputado Bolsonaro (Jair) quando disse à deputada Maria do Rosário que não a estupraria por ela ser feia. É a mesma ideia absurda de que a mulher é propriedade dos homens”.

    De acordo com ela, “inclusive a Justiça começa a tomar como verdade o não direito, a não cidadania e o não respeito aos direitos mais elementares da pessoa humana”.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • No primeiro Dia Internacional da Mulher – 8 de março – depois do golpe à democracia brasileira com a deposição da presidenta Dilma Rousseff, as brasileiras prometem sair às ruas para pôr fim à violência de gênero e os retrocessos do governo Temer.

    As mulheres prometem cruzar os braços, pelo mundo afora, contra a cultura do estupro e todas as formas de discriminação de gênero. O slogan usado já diz tudo: “Se nossas vidas não importam, produzam sem nós”.

    De acordo com Ivânia Pereira, secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), “já passa da hora de dar um basta. Todas juntas podemos derrotar o machismo que nos oprime e construir um mundo onde predomine a justiça e a igualdade”.

    A CTB defende a equidade para avançar à igualdade nas questões de gênero. Entre as principais bandeiras que tremulam na campanha feminista deste ano está o combate às reformas da previdência e trabalhista (saiba mais aqui).

    Assista depoimento da atriz Sonia Braga aos Jornalistas Livres: 

    As mulheres são as primeiras a serem demitidas e as últimas a se recolocarem no mercado de trabalho. Além disso, “trabalhamos horas a mais que os homens todas as semanas, temos que dar conta de casa e dos filhos, geralmente sem apoio de ninguém”, reforça Kátia Branco, secretária da Mulher da CTB-RJ.

    A situação das mulheres negras é ainda mais degradante, informa Mônica Custódio, secretária de Igualdade Racial da CTB. “Trabalhamos em situação mais precarizada, em serviços de menores salários e ainda moramos mais longe, em situação de vulnerabilidade total”.

    Tristemente, o Brasil é um dos países mais violentos com as mulheres. “A cultura do estupro mata milhares todos os anos, grande parte constituída de meninas, com menos de 14 anos e dentro de casa, por pessoas conhecidas ou da família”, diz Lenir Fanton, secretária da Saúde da CTB-RS.

    Confira explicação da deputada estadual gaúcha Manuela D'Ávila sobre a reforma da previdência: 

    “É muito importante que a CTB e as demais centrais sindicais definam como prioridade a bandeira da igualdade de gênero para que as mulheres, que constituem 52% da população do país possam viver em paz, em segurança e possa realizar-se plenamente como ser humano”, defende Érika Piteres, secretária da Mulher da CTB-ES.

    Por isso, “levaremos para as manifestações em todo o país, além da denúncia da perversidade das reformas do Temer, a necessidade de termos mais mulheres na política para asvançarmos nas conquistas dos últimos anos. Políticas públicas abandonadas pelo governo golpista”, sintetiza Pereira.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy

  • Os Jogos Olímpicos Rio 2016 trazem a atenção de bilhões de pessoas para o Brasil. Com isso, a mídia internacional vem denunciando a ditadura em consolidação no país, através de um processo de impeachment fajuto (leia aqui).

    Mas outras mazelas da sociedade brasileira também entram em cena. Ao ganhar a medalha de ouro na categoria até 57 quilos, Rafaela Silva (negra e pobre) trouxe à tona as ofensas racistas que sofreu nos jogos de Londres 2012, quando perdeu a possibilidade de medalha.

    Agora, a postagem de um internauta em uma rede social, consegue cometer dois crimes de uma só vez. E a sua argumentação para justificar o que escreveu só faz piorar ainda mais. O membro do Conselho Federal de Administração Marcos Clay escreveu: "Eu odeio preto, mas essa goleira do Brasil tinha chance".

    A goleira em questão é Bárbara Micheline do Monte Barbosa, da seleção brasileira de futebol feminino. “É muita cara de pau. A pessoa escrever isso e depois dizer que foi brincadeira”, afirma Mônica Custódio, secretária de Promoção da Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

    Ao G1, da Globo, Clay, disse que "foi uma brincadeira de mau gosto... Uma brincadeira que infelizmente algumas pessoas se ofenderam, mas não era minha intenção. Tanto é que minha esposa é negra, todo mundo sabe disso. Quem me conhece sabe que eu não sou racista, tenho vários amigos que são negros, não tenho problema com isso".

    monica custodio 2014Para Custódio, esse tipo de argumentação é muito comum. Porém, “escrever ‘eu odeio preto’, significa o que? Brincadeira? Que tipo de brincadeira é essa? E aí a emenda fica pior do que o soneto, quando diz que a Bárbara ‘tinha chance’. Chance de que? Quem disse que ele tem alguma chance com ela?”

    Isso mostra, afirma a sindicalista da CTB, que em "pleno século 21", além de “racista esse rapaz é um tremendo de um machista” e reforça a proposta da ativista Nana Queiroz que lançou o “Guia Prático e Didático da Diferença entre Paquera e Assédio”, durante o carnaval, para ensinar os homens como paquerar, sem agredir (leia aqui).

    “Essa é mais uma postagem racista na internet e é necessário ir fundo na questão e, dentro da lei, punir todos as postagens racistas e discriminatórias para acabar com esse tipo de atitude”, reforça Custódio.

    Ela lembra ainda que a prática de racismo é crime inafiançável e imprescritível, mas que “dificilmente alguém é punido, porque a própria Justiça age com racismo, infelizmente”.

    Clay tenta se defender. "Uma pessoa pegou meu post e republicou dando uma conotação de racismo. Deve ter alguma coisa contra mim. Já fiz uma retratação dizendo que era uma brincadeira. O povo de hoje está muito melindrado, ninguém pode mais falar nada nas redes sociais que vira polêmica”.

    “Parece que as pessoas perderam completamente o bom senso, principalmente após o afastamento da presidenta Dilma e querem expressar toda a sua animalidade nas redes sociais”, afirma Custódio.

    Para ela, “somente organizados e unidos, os afrodescendentes brasileiros conseguirão combater com mais tenacidade a chaga do racismo”. Ela convoca todos à luta porque “combater o racismo é defender o processo civilizatório brasileiro e o desenvolvimento da humanidade”.

    Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB

  • Em comemoração aos 10 anos de vigência da Lei Maria da Penha (completados neste domingo, dia 7), o Portal CTB fez uma entrevista por e-mail com a secretária da Mulher Trabalhadora da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Ivânia Pereira.

    A sindicalista sergipana, primeira mulher eleita para dirigir o Sindicato dos Bancários de Sergipe, disse que a Lei 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha (saiba mais aqui), “criou mecanismos tanto para punir quanto para conter a violência doméstica e familiar”, além de estabelecer “medidas de proteção”.

    Ela falou também sobre a Lei 13.104/2015 - Lei do Feminicídio - com essa lei o assassinato de mulheres pela condição de ser mulher virou crime hediondo.

    Ela ressaltou o papel que a escola pode ter num país como o Brasil. “Imaginemos se isso (questão de gênero) fizesse parte dos currículos das escolas. Certamente construiríamos um novo país”.

    Leia a íntegra da entrevista abaixo:

    Em 10 anos de vigência da Lei Maria da Penha, o que mudou no enfrentamento da violência contra a mulher?

    Ivânia Pereira: Há exatos 10 anos, a violência contra a mulher deixou de ser naturalizada e passou a ser crime. Isso é grandioso. Ou seja, apesar das barreiras para a completa implementação da Lei Maria da Penha, temos muito que comemorar. Essa legislação é um marco divisor na luta histórica contra a violência doméstica, física e psicológica, contra as mulheres. A lei criou mecanismos tanto para punir quanto para conter a violência doméstica e familiar. Estabeleceu medidas de proteção.

    Outro fenômeno pós Lei Maria da Penha é a conscientização por parte da sociedade contra a violência às mulheres e a ampliação das denúncias. A criação da lei representa hoje um certo consenso na sociedade brasileira para o enfrentamento da violência contra a mulher. Além disso, ressaltamos o fato de que a legislação foi alvo de intensa campanha de divulgação, tanto dos meios de comunicação como das instituições governamentais e não governamentais. Segundo pesquisa do Instituto Patrícia Galvão, 98% da população conhece a Lei Maria da Penha, sendo, portanto, a lei mais conhecida do país.

    Nesse contexto, a Lei do Feminicídio pode ser vista como um complemento da Maria da Penha?

    IP: Com a Lei do Feminicídio, o assassinato de mulheres passou a ser crime hediondo. A pena foi aumentada de 20 para 30 anos para quem for condenado por feminicídio.

    Apesar de alguns setores considerarem uma lei anticonstitucional, por punir com mais rigor o assassinos do sexo masculino, essa legislação representa avanços no combate à violência contra a mulher. Ele evidencia que existem tipos de violência aos quais as mulheres são submetidas pelo simples fato de serem mulheres. Ou seja, reconhece que existe violência de gênero no Brasil e que esse é um problema a ser combatido pelo Estado.

    Segundo o Mapa da Violência 2012: Homicídios de Mulheres no Brasil, divulgado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-americanos (Cebela) e pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), aponta que, somente no ano de 2011, mais de 70 mil mulheres vítimas de violência foram atendidas pelo SUS – 71,8% dos casos ocorridos em ambiente doméstico. De acordo com o estudo, duas em cada três pessoas atendidas no SUS em razão de violência doméstica ou sexual são mulheres e, em 51,6% dos atendimentos, foi registrada reincidência no exercício da violência contra a mulher.

    O estudo comprova com números os efeitos positivos da lei. A taxa de homicídios de mulheres dentro de casa era de 1,1 para cada 100 mil habitantes, em 2006, e de 1,2 para cada 100 mil habitantes, em 2011. Já as mortes violentas de homens dentro de casa passaram de 4,5 por 100 mil habitantes, em 2006, para 4,8, em 2011. Nesse caso, estão incluídos vários fatores, além de violência doméstica.

    ivania bela recatada do lar

    Mesmo com todos as políticas públicas de atendimento às vítimas, das leis punitivas e de várias campanhas de orientação e de formas de denunciar mais facilmente os agressores, a violência de gênero continua marcante em nossa sociedade. O que mais precisa ser feito?

    IP: O país ainda precisa avançar muito na melhoria da rede de proteção à mulher vítima de violência. Existe deficiência em centros de referência, casas abrigos para as mulheres em situação de violência e risco de morte, assim como programas de reinserção no mercado de trabalho, uma vez que boa parte dessas mulheres desenvolvem relações de dependência econômica com seus agressores.

    Mesmo quando ela consegue chegar à Justiça, a solução do problema recai sobre ela mesma. Isso ainda precisa melhorar muito.

    A ideologia do patriarcado resiste às mudanças dos tempos e tenta impedir maior participação das mulheres na vida do país, o que fazer?

    IP: Para enfrentar o problema da violência contra a mulher é essencial que os homens também conversem com outros homens na acepção de ser contra os valores machistas e ideias de posse sobre as mulheres. Um dos elementos que ajuda a reproduzir a cultura da violência contra a mulher, se dá nas conversas em uma mesa de bar e defendem o machismo e o sentimento de posse.

    Como são conceitos forjados histórica e culturalmente, para mudar não se exige um trabalho mais abrangente?

    IP: O direito de escolha da mulher não dá ao homem o direito de matá-la, agredi-la, humilhá-la. Esta é na verdade a grande úlcera da sociedade. É o que chamamos de machismo.

    Por mais que se tenha políticas de Estado absolutamente fortes, convincentes e que estruturem o enfrentamento da violência com punição aos agressores; ainda que existam campanhas fortes, prevalece bastante a cultura de que 'a mulher é minha propriedade' e 'em briga de marido e mulher não se mete a colher'. É preciso mostrar que a mulher não é propriedade de ninguém, a mulher tem direito a escolhas, direito de querer acabar uma relação ou não iniciar uma relação.

    Ainda se mata, se espanca e se estupra muito no Brasil, o que a educação pode fazer para melhorar essa situação?

    IP: Para definir vida saudável, Sarlet (2001) utiliza-se dos parâmetros fornecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), quando se refere a um completo bem-estar físico, mental e social, parâmetro este que, pelo seu reconhecimento amplo no âmbito da comunidade internacional, poderia igualmente servir como diretriz mínima a ser assegurada pelos estados.

    Neste sentido a violência é definida pela OMS como uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação.

    Imaginemos se isto fizesse parte dos currículos das escolas. Certamente construiríamos um novo país.

    As mulheres ainda ganham menos do que os homens, são as primeiras a ser demitidas e as últimas a ser contratadas, como o movimento sindical reage a isso e como as mulheres são tratadas no movimento sindical?

    IP: A luta da mulher por espaços nos sindicatos é a sua própria batalha por afirmação na sociedade. Relegadas no passado ao papel de “dona de casa”, seu ingresso no mercado de trabalho é recente – considerando o tempo histórico – daí as dificuldades, aos poucos vão sendo superadas, de assumirem tarefas de mais responsabilidade e comando. Entretanto este não um papel apenas das mulheres.

    Por sua entrada tardia no plano da política e no mercado de trabalho, a participação da mulher em cargos máximos nos sindicatos, movimentos sociais e estudantis, e partidos políticos ainda é reduzida, situa-se ao redor de 20%. Mais recentemente, foi introduzida na legislação eleitoral a política de quotas que reserva no mínimo 30% dos cargos eletivos às mulheres. Essa medida, festejada por alguns e criticada por outros, que a consideram discriminatória, vem sendo assumida por alguns sindicatos e centrais sindicais.

    Propor políticas de gênero exige, portanto, estabelecer o sentido das mudanças que se pretende operar e, também, o alcance de seu caráter emancipatório (SOUZA, 1994), pois, para que as desigualdades de gênero sejam combatidas no contexto das desigualdades sociais, é necessária a concretização da justiça de gênero (SILVEIRA, 2004). Isto deixa claro que o princípio da igualdade de salário, independentemente de raça ou cor, sexo, idade ou estado civil, assegurado pelo artigo 461 da CLT e pelo § XXX do artigo 7º da Constituição Federal, no Brasil está sendo desrespeitado e a justiça não se faz.

    Ivania mais mulheres na politica

    Com o afastamento – sem crime de responsabilidade – da presidenta Dilma e a presença do governo golpista a situação pode piorar?

    IP: Não temos dúvida. Esse governo interino e golpista é formado por brancos, ricos e machistas. E não apenas para as mulheres. Para o conjunto da classe trabalhadora, a elite que está dirigindo o nosso país traz desesperanças: reforma da Previdência, o desmonte do SUS (Sistema Único de Saúde), a transformação da Secretaria das Mulheres em mera Diretoria ligada ao Ministério da Justiça. Dessas medidas, tememos profundamente que a própria Lei Maria da Penha reduza sua força com o PLC (Projeto de Lei da Câmara) 07/16 (veja aqui). Nesse esse projeto, está previsto, por exemplo, que as delegacias de polícia possam legislar sobre medidas preventivas, tirando o Judiciário à função de intimar o agressor. Ou seja, para longa jornada de luta e de avanços das mulheres isso implicará em retrocessos. As mulheres e a sociedade como um todo terá de reagir. O Brasil precisa garantir a implementação integral da Lei Maria da Penha. Assim como, precisamos insistir que não abriremos mão dos avanços obtidos como os programas intersetoriais de enfrentamento e de prevenção à violência doméstica.

    Portal CTB - Marcos Aurélio Ruy

  • O governo Temer nasceu tecnicamente morto.

    Ele não anda – se arrasta.

    O ministério da “Salvação Nacional” é o retrato acabado disso.

    Marília Gabriela se saiu bem do convite ao recusá-lo. Marta Suplicy se saiu terrivelmente mal ao formulá-lo. Marília Gabriela se saiu bem do convite ao recusá-lo. Marta Suplicy se saiu terrivelmente mal ao formulá-lo. Temer dissera que ia montar um ministério de “notáveis”.

    Ora, ora, ora.

    Que notável quer sujar sua imagem num governo como este golpista, liderado por um zé mané traidor e nascido de um gangster como Eduardo Cunha?

    Que notável quer ser chamado de golpista nos aeroportos do país, como tem se visto com frequência?

    Que notável quer pertencer a um governo do PMDB, o que existe de mais putrefato na política nacional?

    Deu no que tinha que dar. Em vez dos notáveis, implicados na Lava Jato.

    Para coroar tudo, nenhuma mulher, algo que não acontecia desde o general Geisel, na ditadura militar.

    E então aparecem as tentativas de consertar esse erro. Acaba de vir a público o fracasso da missão confiada a Marta Suplicy de levar uma mulher para Brasília.

    O site Glamurama, de Joyce Pascovitch, informou neste final de semana que Marta tentou convencer Marília Gabriela a ir para a Secretaria Nacional da Cultura.

    A resposta foi não.

    Marília Gabriela teria que responder a um certo Mendonça Filho, aquele que foi recebido sob gritos de golpista pelos funcionários do Ministério da Cultura.

    Mendonça Filho é conhecido por ter criticado ferozmente um dos maiores acertos do PT na educação, o Prouni. É um programa que levou jovens excluídos às universidades em número inédito neste paraíso da desigualdade.

    Imaginar que Marília Gabriela entraria numa fria dessas é o triunfo da obtusidade delirante.

    Ela tem uma imagem a preservar.

    Não chega a surpreender que Marta Suplicy tivesse aceitado a encomenda fracassada. Marta vive num universo paralelo desde que a inveja a transformou num monstro moral e numa golpista descarada.

    Marta saiu do PT, movida pelo ódio, e foi dar nos braços do PMDB de Cunha dizendo bravatas hipócritas anticorrupção.

    Traiu, com seu voto pelo golpe, os milhões de eleitores que a fizeram senadora. Nenhum deles a pôs no Senado para fazer o que fez.

    Marília Gabriela se saiu bem do convite ao recusá-lo. Marta Suplicy se saiu terrivelmente mal ao formulá-lo.

    E o governo Temer teve mais uma demonstração de que acabou antes de começar.

    Num vídeo que está viralizando neste momento, o jornalista Jorge Pontual, correspondente da Globo em Nova York, admite num programa da GloboNews que a imprensa internacional se ergueu contra Temer e as circunstâncias obscuras do golpe, para não dizer sinistras.

    O mundo vai vendo o que os brasileiros informados sabiam faz tempo. Nada daquilo – Lava Jato, Moro, campanha da Globo e da Veja – foi contra a corrupção. Foi contra Lula, Dilma e o PT.

    O objetivo, longe de ser o de acabar com a corrupção, é poder continuar com ela sem consequências, como sempre ocorreu.

    No mesmo ministério sem mulheres acotovelam-se sete investigados da Lava Jato.

    Seria incrível que, nestas circunstâncias, Marília Gabriela topasse se juntar a um governo infame, ilegítimo e marcado para morrer num mar de vergonha nacional e mundial.

    Paulo Nogueira é jornalista, fundador e diretor editorial do site Diário do Centro do Mundo.

    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.