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Ter, Jun

Mourão

  • Por André Barrocal, na revista CartaCapital:

    Na sexta-feira, 3, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Rosa, participou de um evento em São Paulo e comentou: “Não tememos o ódio que tenta nos calar. Os protocolos das milícias das redes sociais não assustam os que resistiram aos porões da ditadura”.

    São milícias digitais bolsonaristas, vide os tiros virtuais no Congresso e no Supremo Tribunal Federal (STF), destinados a facilitar a vida do presidente Jair Bolsonaro. E não se importam de disparar contra o próprio Palácio do Planalto.

    Sua nova vítima é o chefe da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz. O general aposentado foi alvo de pauladas no Twitter no domingo 5 e nome de uma das hashtags campeãs, #forasantoscruz. Irritado, foi reclamar com o presidente no Palácio da Alvorada durante o dia.

    Santos Cruz foi humilhado pelos radicais apoiadores do presidente. Foi chamado de “merda” pelo guru bolsonarista, Olavo de Carvalho. O vice-presidente, Hamilton Mourão, tinha sido tachado de “idiota” pelo “filósofo”. Até quando os militares do governo terão paciência e aceitarão a situação?

    Comandante do Exército até janeiro, hoje assessor especial do órgão de inteligência do governo, o GSI, o general Eduardo Villas Boas reagiu ao ataque do “filósofo” a Santos Cruz. Escreveu no Twitter que Carvalho demonstra “total falta de princípios básicos de educação, de respeito e de um mínimo de humildade e modéstia”. Que “acentua as divergências nacionais”. E que sofre de “vazio existencial”.

    Villas Boas apanhou de volta, outro general do governo a tomar bordoada do “filósofo”. “A quem me chama de desocupado não posso nem responder que desocupado é o cu dele, já que não para de cagar o dia inteiro”, disse Carvalho no Twitter, a arena por excelência do bolsonarismo, onde os robôs deitam e rolam.

    Alvo das milícias digitais, Santos Cruz coleciona embates com o bolsonarismo, Carvalho (chamara-o não faz muito de “desequilibrado” após umas pauladas) e o chefe da Comunicação Social do Planalto, Fabio Wajngarten. Este é, em tese, seu subordinado, mas tem relação íntima e direta com o clã Bolsonaro e estimula a ação ideológica clã. Para desespero do general.

    “O fanatismo atrapalha”, disse o general em entrevista ao Globo de 22 de abril, em que apontou que o governo Bolsonaro “tem os fanáticos que acham que podem influir de maneira radical, e aí atrapalha o todo”. E não se pense que o general é progressista é farda verde-oliva. “A ideologia de esquerda foi um câncer no Brasil da maneira como foi feita”, disse na mesma entrevista.

    Robôs

    As milícias digitais bolsonaristas funcionam mais ou menos assim: há pessoas encarregadas de produzir conteúdo, gente conhecida como Olavo de Carvalho e os filhos de Bolsonaro, Carlos à frente. E robôs encarregados de disseminar o conteúdo maciçamente, a fim de influenciar a opinião pública. Esse é o modelo que tem sido investigado em um inquérito do STF.

    O pretexto das milícias para alvejar Santos Cruz no domingo 5 foi a defesa recente feita por ele de alguma regulação da mídia. “Tem de ser feito. Mas tem de usar com muito cuidado, para evitar distorções, e que vire arma nas mãos dos grupos radicais, sejam eles de uma ponta ou de outra. Tem de ser disciplinado, até a legislação tem de ser aprimorada, e as pessoas de bom senso têm de atuar mais para chamar as pessoas à consciência de que a gente precisa dialogar mais, e não brigar.”

    O general parecia se referir justamente às milícias e aos efeitos delas sobre a vida pública. Nada a ver com regulação da mídia defendida pelo PT, que se propõe a democratizar a disseminação de conteúdo. Os bolsonaristas virtuais, porém, juntaram tudo num mesmo saco e atacaram.

    “Controlar a internet, Santos Cruz? Controlar a sua boca, seu merda”, escreveu Olavo no Twitter. Recorde-se: quando Bolsonaro foi aos Estados Unidos, em março, Olavo chamou Mourão de “um cara idiota” e logo em seguida foi saudado pelo presidente com um de seus “grandes inspiradores”.

    Os irmãos Carlos e Eduardo Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sergio Moro, foram para o pau também contra Santos Cruz. Até o presidente meteu a colher. “Em meu governo a chama da democracia será mantida sem qualquer regulamentação da mídia, aí incluída as sociais. Quem achar o contrário recomendo um estágio na Coreia do Norte ou Cuba”, escreveu no Twitter.

    É mais um cala-boca público de Bolsonaro em Santos Cruz. No fim de abril, o presidente mandou cancelar a veiculação de uma campanha publicitária do Banco do Brasil que mostrava negros e mulheres. Dias antes, a Secom, por ordem de Wajngarten, havia enviado um e-mail aos ministérios e estatais com uma ordem: toda publicidade teria de ser submetida ao Planalto previamente.

    Santos Cruz divulgou um comunicado público sobre a ordem, um dia após Bolsonaro proibir a campanha do Banco do Brasil. “A Secretaria de Comunicação, ao emitir o e-mail, não observou a Lei das Estatais, pois não cabe à administração direta intervir no conteúdo da publicidade estritamente mercadológica das empresas estatais.”

    Um dia depois, Bolsonaro foi questionado por jornalistas sobre a contra-ordem de Santos Cruz e deixou claro que só aceita auxiliar que pense igual. Ou seja, que valia a ordem de Wajngarten. “Por exemplo, meus ministros. Eu tinha uma linha, armamento. Eu não sou armamentista? Então ministro meu ou é armamentista ou fica em silêncio. É a regra do jogo”, disse o ex-capitão.

    Não foi o primeiro choque entre Santos Cruz e Wajngarten. O general vetou uma primeira versão de uma campanha publicitária preparada por Wajngarten para convencer a população a engolir a reforma das Previdência. Estava na verdade aborrecido porque a campanha não tinha passado por ele, general.

    Quando o general deu seu aval, Carlos Bolsonaro comentou no Twitter: “Depois de quase cinco meses! Isso é uma piada”. Ele referia-se ao tempo de governo, não de gestão Wajngarten, no cargo apenas desde o início de abril.

    As milícias digitais serão um bom tema para discussão em um seminário internacional que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) promoverá dias 16 e 17, com apoio da União Europeia, intitulado “Fake News e eleições”.

  • Pressionado pelo chamado agronegócio e enquadrado pelos militares, Jair Bolsonaro não cumpriu a promessa de transferir a embaixada brasileira em Israel para a cidade de Jerusalém, feita durante a campanha presidencial. Parece ter sido mais um produto da sua próspera fábrica de fake news. Ainda assim sua visita ao país sionista, hoje dirigido por um desacreditado líder de extrema direita (Benjamin Netanyahu), tende a provocar sensíveis prejuízos à economia nacional.

    O líder da extrema direita tropical, que tem por guru um astrólogo alucinado que se acha filósofo, resolveu instalar um escritório comercial em Jerusalém, o que foi descrito pelo general Mourão, seu vice, como “um passo intermediário”. Na realidade, é bem menos do que prometeu a Netanyahu, mas o gesto despertou a indignação dos palestinos, cujo território foi ocupado ilegalmente pelos judeus, e contribuiu para azedar um pouco mais as relações entre o Brasil e a comunidade árabe.

    Em nota divulgada domingo (31), a Autoridade Palestina condenou “nos termos mais fortes” a decisão, que considera  "uma violação flagrante da legitimidade e das resoluções internacionais, uma agressão direta ao nosso povo e a seus direitos e uma resposta afirmativa para a pressão israelense-americana que mira reforçar a ocupação e a construção de assentamentos na área ocupada em Jerusalém".

    Israel é um Estado notoriamente opressor que vive à margem do Direito Internacional, em conflito com o Conselho de Segurança da ONU, mas cujas ações criminosas são respaldadas pelo poder militar dos Estados Unidos. O governo atual está completamente isolado em sua pretensão de transferir a capital de Tel Aviv para Jerusalém, que conta apenas com o apoio de Donald Trump e de autoridades australianas.

    A ONU considera Jerusalém Oriental como território palestino ocupado ilegalmente, tendo declarado em 1980 que se trata de uma violação do Direito Internacional. O status final da cidade deve ser negociado entre as partes, de acordo com a organização, que por meio da resolução 478 recomendou a todos os países com representação em Jerusalém que se retirassem de lá.

    A política de Bolsonaro para Israel, apoiada por alguns grupos evangélicos, está em sintonia com a estratégia de Washington para o Oriente Médio e evidentemente visa agradar o bilionário Donald Trump, ídolo e patrão do capitão. Em contrapartida, contraria as tradições do Itamaraty, é nociva aos interesses nacionais e prejudicial particularmente para nosso comércio exterior, conforme alertou o economista Márcio Pochmann.    

    O intercâmbio do Brasil com os árabes é muito mais relevante do que com Israel. Somente em janeiro deste ano as exportações brasileiras para os países árabes somaram US$ 1,2 bilhão, o que significa 6,4% do valor total das nossas vendas ao exterior. Já as importações custaram US$ 597 milhões, o que resulta num superávit comercial de US$ 621 milhões em apenas um mês.

    As exportações para Israel são uma fração disto. Alcançaram apenas US$ 57,33 milhões no mesmo mês, ou seja, cerca de 22 vezes menos. O valor das importações foi de US$ 184,55 milhões, o que significa um saldo negativo de US$ 127,22 milhões. São números eloquentes.

    Se a política externa brasileira fosse guiada pelos interesses nacionais, combinados com princípios democráticos e civilizatórios consagrados no Direito Internacional, como de resto ocorreu na época de Lula e Dilma, o caminho seria outro. Ao contrário do que costuma alardear, o presidente da extrema direita se orienta pela mais tosca das ideologias, um ódio cego ao comunismo e absoluta submissão ao imperialismo liderado pelos EUA. O Brasil não tem nada a ganhar, mas terá muito a perder se continuar neste rumo.

    Umberto Martins

     

  • Segundo “O antagonista”, site direitoso comandado pelo jornalista Diogo Mainardi, o general Mourão, vice-presidente da República, foi efusivamente aplaudido em seis ocasiões durante um discurso de 29 minutos que pronunciou na Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) para uma plateia de 700 empresários, que a nossa mídia de referência costuma classificar de “pesos pesados do PIB brasileiro”.

    A façanha aconteceu terça-feira (26) na sede da federação empresarial, que desempenhou destacado papel no golpe de Estado de 2016, que foi essencialmente um golpe do capital contra o trabalho. Paulo Skaf, presidente da entidade, foi candidato derrotado a governador de São Paulo e, segundo a PF, teria embolsado pelo menos R$ 5,1 milhões ilegalmente através de Caixa 2 de campanha.

    Pregação reacionária

    Mourão provocou frisson nos ricos capitalistas ao criticar a política de valorização do salário mínimo, enaltecer a reforma trabalhista do golpista Temer, prometer novas rodadas de redução de direitos e defender o neoliberalismo, que em sua tosca concepção “nada mais é do que a defesa intransigente do direito à propriedade privada”.

    Durante a campanha eleitoral ele já tinha prometido acabar com o 13º Salário, conquista suada da classe trabalhadora que na opinião de Mourão é mais um ônus para o patronato que deve ser abolido. O ideal nas relações entre capital e trabalho para o vice de Bolsonaro é retroceder às condições existentes no início do século 20, quando inexistia Direito do Trabalho no Brasil, a jornada diária era de 16 horas e trabalhava-se de domingo a domingo sem descanso semanal remunerado.

    Isto nada tem a ver com o desenvolvimento nacional, é sob este aspecto um contrassenso. A política de valorização do trabalho, e em especial do salário mínimo, marca do governo Lula, foi por muitos apontada com razão como uma causa do crescimento econômico porque evidentemente fortaleceu o mercado interno ampliando a demanda e o consumo popular. Além disto, é uma modesta retribuição pelo esforço de quem realmente produz a riqueza nacional, assim como a aposentadoria e outros direitos. Em contraposição, o nehttps://web.whatsapp.com/1e0c518d-e7eb-4442-8a89-262f3d108b57">oliberalismo é apenas fonte de miséria, desemprego e estagnação econômica.

    De todo modo, a pregação reacionária soou como música nos ouvidos que compunham a requintada plateia, que voltou a cobrar empenho pela reforma da Previdência. O general anda todo saliente por esses dias nebulosos em que a crise institucional, agravada pela escandalosa incompetência da equipe que tomou conta do Palácio do Planalto, alimenta as apostas no fim prematuro do atual governo. Mourão quer ser a alternativa, não do povo mas das classes dominantes.

    Ainda há quem acredite que vão encontrar nos chefes militares um porto seguro, de serenidade, racionalidade e estabilidade ou ordem e progresso, como sugere nossa bandeira. Lembrem-se de 1964, quando se aliaram aos EUA, aos latifundiários e à burguesia no golpe militar que instalou no Brasil um regime de terror, tortura e assassinatos. Escreveram uma página sombria da nossa história, que só foi virada pela vontade e força do povo brasileiro manifesta na memorável campanha das Diretas Já.      

    Umberto Martins