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Ter, Jun

neoliberalismo

  • As manifestações lideradas pelos chamados coletes amarelos na França suscitaram desconfianças e polêmicas, com muitos observadores (à esquerda, ao centro e à direita) caracterizando o movimento como de extrema direita, mais uma expressão da guerra híbrida ou coisa do gênero, em função dos atos de vandalismo e violência que o acompanharam.

    Não faltaram análises comparando-o (e equiparando-o) às jornadas de junho de 2013 no Brasil, que no final das contas foram capturadas pela extrema direita e serviram como bucha de canhão do golpe travestido de impeachment que veio a dar no deplorável governo Temer.

    É compreensível a perplexidade e a polêmica, uma vez que vivemos tempos bicudos e obscuros, mas esses pontos de vistas parecem agora precipitados e não estão em sintonia com as conquistas obtidas pelos manifestantes, como o aumento de 100 euros mensais (cerca de 445 reais ao câmbio atual) no Salário Mínimo, cancelamento do aumento e congelamento dos preços dos combustíveis e redução de impostos pagos pelo povo. Isto não interessa à extrema direita, que como sugere a agenda do governo Bolsonaro ou de Trump está a serviço do capital no momento em que este decretou guerra contra o Direito do Trabalho e a seguridade social. Não foi muito diferente com Hitler e Mussolini no passado, só por ignorância ou má fé se pode imaginar que o nazi-fascismo teve alguma coisa a ver com a esquerda.

    O Portal CTB reproduz abaixo, para maior reflexão, um ponto de vista diferente e original, de uma historiadora portuguesa, sobre o tema.

    A França, isto é uma revolução?

    raquel varela historiadora

    Por Raquel Varela

    Vou contar-vos as coisas magnificas que aconteceram em França nestes dias. Extraordinárias. Polícias que retiraram capacetes e cantaram com os manifestantes a Marselhesa; bombeiros que numa homenagem em frente à prefeitura viraram as costas aos políticos vestidos com cores da França e abandonaram a homenagem; manifestantes de extrema-direita expulsos das manifestações por coletes amarelos; portagens ocupadas pelos manifestantes que impedem que se cobre passagem; há sindicatos da polícia que aderiram já à manifestação de amanhã, e sindicatos ferroviários que decidiram não cobrar bilhete aos manifestante que se dirigem amanhã a Paris. Greves e assembleias gerias de estudantes. As centrais sindicais do status quo pedem recuo nos protestos, mas representam no total menos de 7% dos trabalhadores franceses. A França vive uma revolta – não sei se é uma revolução, mas não é um movimento social como outros. É, na minha opinião, a primeira batalha perdida pelo neoliberalismo, depois da sua grande vitória, marcada pela derrota dos mineiros nos anos 80 por Margaret Thatcher. Um novo processo histórico nasceu este mês na França. Tudo pode acontecer – a história acelera agora a uma velocidade que nos parece estonteante. Em 3 dias Macron recuou 2 vezes, não é certo que o seu mandato sobreviva. O movimento já está na Bélgica.

    Vi com encolher de ombros a facilidade com que tantos aqui acreditaram que era a extrema-direita a dirigir aquele que já é o maior movimento europeu contra o neoliberalismo.

    Continua a espantar-me a facilidade com que acreditamos no senso comum, a credulidade, a ausência de sentido critico. Mas alguém imagina que a extrema-direita tem de perto ou longe alguma organização para dirigir milhões de pessoas nas ruas há 3 semanas? Não, as pessoas acreditam porque querem acreditar. Desta vez não é necessário um aguçado sentido critico, bastava ler o Le Monde, o El País e ver a Euronews para perceber o susto na cara de Le Pen nos últimos dias, o pânico na face de Macron e a situação de crise no poder do Estado. E, sobretudo, o esforço que Macron fez para que Le Pen apareça como responsável e líder de um movimento. Ora, a esquerda aderiu ao Movimento formalmente, e há vários relatos da extrema-direita expulsa das manifestações. Também há de centrais sindicais amarelas – o que a meu ver é errado. O fascismo não pode ter espaço algum, porque é inimigo das liberdades, o reformismo, por pior que seja, deve ter liberdade de manifestação. A cólera do Movimento dirige-se contra as prefeituras, centenas foram atacadas e uma totalmente queimada. A crise dos partidos tradicionais é total, a separação entre representantes e representados de massas. Macron lembrou-se finalmente que foi eleito com menos de 25% dos votos dos franceses. Quantas vezes temos insistido que força eleitoral não é representação social, António Costa e Geringonça?

    A França está a viver uma situação inédita desde o Maio de 68. São trabalhadores, professores e cientistas, reformados e no activo, ferroviários e estudantes, sectores médios proletarizados em massa. O centro da luta é a chamada Diagonal do Vazio, uma área geográfica de pequenas e médias cidades que vai do nordeste ao sudoeste do país. Nevers foi o epicentro. Nestas cidades os manifestantes – todos senhores e senhoras, como poderão ver pelas reportagens, envergando o seu colete amarelo – explicam que têm que usar o carro, idosos, para ir às compras a 10 km de distância porque o grande comércio destruiu as mercearias – conta o El País; o saque das pequenas lojas é mínimo, a maioria das lojas destruídas são as de alta costura e os grandes armazéns – diz o Le Monde. A revolta começou contra os impostos, estão “fartos” de em nome da “economia dita verde” pagarem para serem cada vez mais excluídos, do acesso à cidade também; uma senhora conta que chega ao fim do mês com 70 euros; outro que “não tolera viver num país onde o PM veste um fato de 45 mil euros, 3 salários anuais de um operário”; um engenheiro não sabe se “metade dos manifestantes concorda com a outra metade” mas não vai “sair da rua” até que as coisas mudem. A pressão fiscal em França já é mais de 45%. Querem emprego e não o rendimento mínimo. Não são contra a imigração mas defendem que a solução está nos países de origem e que as políticas dos países ricos têm que mudar radicalmente.

    Não gosto de violência. Nem de vandalismo ou destruição. Nunca mostrei simpatia pelos jovens desempregados ou sub empregados da periferia que vêm para a rua partir carros em França e Inglaterra. Ao contrário da direita, acho que eles não nasceram vândalos, acho que são animalizados pela exclusão social que a direita promove. Ao contrário de uma parte da esquerda organizada não acho que eles sejam uma esperança, nem uma forma de resistência – só vejo no vandalismo desespero e desistência. Sei também que a violência é mínima, a maioria, larga maioria, dos bairros pobres tem gente que com um esforço incrível vive do trabalho mais mal pago, e não desiste de viver. São os milhares de jovens que trabalham no comércio, construção civil, a vida deles não é partir, mas trabalhar por quase nada. Tenho muitas dúvidas sobre se os “partidores” pertencem à classe trabalhadora – sei que são filhos dela, não sei se não estão mais próximo do lumpen-proletariado. Misturar estes fenómenos, recorrentes na Europa, e minoritários, com o Movimento dos Coletes Amarelos é confundir uma tosta mista com um banquete em Versalhes.

    Macron está a caminho de sair mal entrou não porque houve pancadaria no Arco do Triunfo, mas porque os coletes amarelos pararam a circulação de mercadorias há 3 semanas questionando a autoridade do Estado, que não os conseguiu impedir. E viram costas às autoridades políticas locais. O Movimento conta com o apoio oficial de 60% dos franceses.

    Sabem que mais? Estou tão feliz estes dias. Ando há anos ouvir falar da “aristocracia” operária europeia e da esperança na periferia do mundo, qualquer movimento camponês com 200 pessoas pessoas na Ásia é mais aplaudido pela esquerda do que uma greve de médicos na Alemanha, logo apelidados de “privilegiados”. Foi por isso que escrevi um livro de História da Europa, que lembrasse o passado de resistência na Europa, a importância dos sectores médios, a centralidade da produção de valor nos países centrais, a tradição de consciência de classe na Europa – superior a qualquer parte do mundo – os trabalhadores na Europa, sem os quais não haverá solução civilizada no mundo. Passámos de um eurocentrismo para ujm periferocentrismo absurdo. Agora…sorte, sorte, sorte mesmo, porque tal precisão temporal não pode ser atribuída à previsão cientifica, é que o meu livro Um Povo na Revolução foi publicado em França justamente este mês. Eles não fazem ideia, os coletes amarelos, como esse pedaço de coincidência irrelevante para a história da humanidade me divertiu. Vou ceder no meu gosto por roupa bonita e vestir o tal do colete amarelo amanhã.

    Não sei se é uma revolução. Pode ser. Ou não. Se não for, será adiada mas não evitada. Se estão com medo do mundo do trabalho, não imaginam que a ele devemos tudo o que de mais civilizado possuímos. Não olhem para o Arco do Triunfo em chamas, essas imagens de caos, mas para o triunfo da defesa organizada da cidade humanizada, do emprego com direitos, de um mundo justo, sem impérios e brutalidade social. Os coletes amarelos são isso, quanto mais apoio tiverem de pessoas que acreditam na vida civilizada mais serão ainda parte da solução.

    O original encontra-se em https://raquelcardeiravarela.wordpress.com/2018/12/07/a-franca-isto-e-uma-revolucao/

  •                 Por José Carlos de Assis*

                    É inacreditável que, em  plena depressão econômica, o governo Paulo Guedes tenha como meta da reforma da Previdência uma economia de 1 trilhão de reais. Se isso acontecesse, seriam retirados do consumo esse 1 trilhão, precipitando o país numa depressão ainda maior do que aquela em que já estamos. É que  esse dinheiro sairia do consumo e iria diretamente para a especulação financeira a fim de irrigar os fundos de capitalização a serem criados. Um crime contra o povo, contra os trabalhadores, contra a economia nacional.

                    Proposta desse tipo só pode sair da cabeça de um insano que acha importante destruir a economia a fim de limpar o caminho para o neoliberalismo radical, que presume a retirada completa do Estado de todas as funções básicas da economia, inclusive as estratégicas. Ideias desse tipo nunca prosperaram no mundo, inclusive no berço do neoliberalismo que foi a Inglaterra de Thatcher, que manteve estatal, por exemplo, o sistema de saúde. No Chile os ataques neoliberais foram mais longe, porém o país estava sob uma ditadura sanguinária.

                    O grupo de Guedes quer privatizar tudo, e, na verdade, já  está privatizando o Estado numa velocidade espantosa. Até ícones da economia nacional, como o sistema Petrobrás e o sistema Eletrobrás, já estão sob ataque feroz dos neoliberais que Jair Bolsonaro encastelou no Governo. Supunha-se, quando o Ministério foi montado, que se poderia esperar dos generais que foram para o Governo que formassem uma corrente nacionalista para defender a economia nacional. Engano.  São tão entreguistas quanto os civis.

                    Mas a História se move dialeticamente. Toda ação política ou social extremada provoca uma reação. A reação da sociedade diante do radicalismo extremo  de Guedes/Bolsonaro começa a se organizar por setores inesperados. No caso da Previdência, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, Conic; a Coordenadoria Ecumênica do Serviço, CESE, e Cáritas, organizações de base religiosa mas com uma profunda vivência social estão convocando uma sucessão de Vigílias contra a destruição da Previdência, a partir do dia 14.

                    No dia seguinte, 15, será a vez de um verdadeiro levante do setor da Educação, justificadamente enfurecido com o ataque neoliberal às universidades. Isso pode ser considerado preparatório de mobilizações mais amplas, como a greve geral convocada pelas centrais sindicais para 14 de junho, já contando com o apoio do Conic e demais organizações mencionadas. Nesse último caso, o que se pretende é uma Vigília permanente até a votação da  reforma da Previdência de Guedes, como seu infame regime de capitalização.

                    Não se espera que grandes mobilizações de rua vão surgir de uma hora para outra. As grandes mobilizações que levaram à democratização nos anos 80 começaram em recinto fechado. De repente acontece algo que acende a pólvora. Por exemplo, os caminhoneiros estão nada satisfeitos com a política neoliberal de preços da Petrobrás. Uma configuração importante está se formando, inclusive o engajamento de forças religiosas significativas, similar ao que aconteceu nas greves de 1988. Por sua credibilidade e imparcialidade partidária, elas podem ser um significativo ponto de encontro do inconformismo, junto com os trabalhadores e o povo em geral.

                   * Jornalista, economista e professor

  • O desemprego continua em alta e o setor de serviços, que responde por 70% do PIB, caiu 0,7% em março pelo terceiro mês consecutivo. Ao lado disto, o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) do Banco Central (BC) registrou queda de 0,28% em março, em relação ao mês anterior, e de 0,68% no primeiro trimestre do ano. O IBC-Br é uma prévia do PIB, que é calculado pelo IBGE.

    O desempenho deplorável da economia nacional é o reverso da promessa do governo da extrema direita de que a posse de Bolsonaro, por ser o queridinho do “mercado” (leia-se grandes capitalista0s, sobretudo estrangeiros), iria despertar a fada da confiança do empresariado e promover um boom de novos investimentos. Não é o que se vê.

    A vida vai dando razão aos críticos da restauração neoliberal. O que está impedindo a recuperação é a política inaugurada pelo golpe de 2016, fundada no arrocho fiscal, Estado mínimo, privatização, desnacionalização e depreciação da força de trabalho. Bolsonaro adota a mesma receita, adicionando ingredientes mais radicais e procurando apressar sua aplicação. É um desastre anunciado, como agora reconhece até o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia.

    A recuperação da atividade econômica requer o aumento dos investimentos públicos, resgate do papel do Estado como promotor do desenvolvimento e a valorização da classe trabalhadora, essencial para o fortalecimento do mercado interno. O contrário do que vem sendo feito desde o golpe de 2016. A política econômica neoliberal é a grande causa da crise.

    Desemprego

    O desemprego cresceu em 14 das 27 unidades da federação no 1º trimestre, na comparação com o trimestre anterior, segundo dados divulgados nesta quinta-feira (16) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nos demais estados, houve estabilidade.

    A taxa de desemprego média no país nos 3 primeiros meses do ano subiu para 12,7%, conforme já divulgado anteriormente pelo órgão.

    Segundo o IBGE, as maiores taxas de desemprego foram observadas no Amapá (20,2%), Bahia (18,3%) e Acre (18,0%), e a menores, em Santa Catarina (7,2%), Rio Grande do Sul (8,0%) e Paraná e Rondônia (ambos com 8,9%). Em São Paulo e no Rio de Janeiro, as taxas ficaram em 13,5% e 15,3%, respectivamente.

    A taxa atual de desemprego é a maior desde o trimestre terminado em maio de 2018. São 13,4 milhões de desempregados no país, ante um universo de 12,1 milhões no último trimestre do ano passado.

    5,2 milhões de desempregados procuram trabalho há mais de 1 ano, aponta IBGE

    Na comparação com o 4º trimestre, as maiores variações foram registradas no Acre 4,9 pontos percentuais (p.p.), Goiás (2,5 p.p) e Mato Grosso do Sul (2,5 p.p).

    "O destaque no trimestre é SP e MG, que têm taxas bastante elevadas para estados fortes economicamente, com indústria forte e grande peso na economia do país. E que causam o chamado efeito farol. Ou seja, o que acontece lá, em termos de desocupação se reflete no restante do país. E agora, fica a expectativa de comportamento para o segundo trimestre", afirmou o coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo.

    O coordenador do IBGE destacou ainda que houve um aumento no país inteiro do trabalho por conta própria, que reuniu 23,8 milhões de brasileiros no 1º trimestre.

    "O trabalho por conta própria aumentou em 11 estados, em especial Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. O pequeno empregador, o vendedor de quentinhas que chama alguém para ajudar, é o que cresce. O que mais aumenta é o comércio, o transporte (motorista de aplicativo). Ou seja, a situação só está boa para grupamentos que são aderentes à informalidade", disse Azeredo.

    Já entre os 4,8 milhões de desalentados (pessoas que desistiram de procurar trabalho), 60% estão no Nordeste, com destaque para Bahia (768 mil pessoas) e Maranhão (561 mil).

    Em 12 estados e no DF, subutilização é a maior em 7 anos

    Veja a taxa de desemprego por unidade da federação:

    Amapá: 20,2%

    Bahia: 18,3%

    Acre: 18%

    Maranhão: 16,3%

    Pernambuco: 16,1%

    Alagoas: 16%

    Amazonas: 15,9%

    Sergipe: 15,5%

    Rio de Janeiro: 15,3%

    Roraima: 15%

    Distrito Federal: 14,1%

    Rio Grande do Norte: 13,8%

    São Paulo: 13,5%

    Piauí: 12,7%

    Tocantins: 12,3%

    Espírito Santo: 12,1%

    Pará: 11,5%

    Ceará: 11,4%

    Minas Gerais: 11,2%

    Paraíba: 11,1%

    Goiás: 10,7%

    Mato Grosso do Sul: 9,5%

    Mato Grosso: 9,1%

    Paraná: 8,9%

    Rondônia: 8,9%

    Rio Grande do Sul: 8%

    Santa Catarina: 7,2%

    Com agências

  • A mídia burguesa não se cansa de repetir o cantochão otimista de que a economia está a caminho da recuperação como resultado das políticas neoliberais que vêm sendo imposta ao país desde o golpe de Estado de 2016, liderado pelo senhor Michel Temer, um político que chegou a ser considerado chefe da mais perigosa quadrilha do Brasil. A receita de Bolsonaro não difere fundamentalmente daquela aplicada por seu antecessor, com o detalhe de que é ainda mais radical e impiedosa com o povo brasileiro.

    Em nome da retomada da confiança empresarial, do crescimento e do emprego, Temer instituiu um novo regime fiscal, congelando por 20 anos os gastos públicos primários, promoveu a reforma trabalhista e a terceirização irrestrita, retomou o projeto de privataria tucano, deflagrado por FHC e interrompido por Lula, e deu início ao processo de entrega do pré-sal ao capital estrangeiro.

    Da recessão à etagnação

    O resultado está hoje aí, à vista de todos. A reforma trabalhista não trouxe os empregos prometidos, mas ampliou sensivelmente a precarização do mercado de trabalho, subtraindo direitos trabalhistas e depreciando salários. O equilíbrio fiscal ainda não é mais que uma promessa, o déficit persist mas a política de austeridade reduziu ainda mais os investimentos públicos e é responsável por desastres como a destruição do Museu Nacional, o desmantelamento do SUS e a degradação da educação e dos serviços públicos em geral.

    A consequência mais dramática é revelada pelos indicadores do desempenho da economia nacional, que depois de dois anos da maior recessão da história (2015/2016) resvalou para o pântano da estagnação, condenando a nação brasileira provavelmente a mais uma ou duas décadas perdidas.

    Não seria necessário maior esforço intelectual para concluir que a origem do desastre está no neoliberalismo, mas o pensamento dominante, disseminado pela mídia burguesa, não pode admitir e não admite tal conclusão, ainda que ela nos pareça e de fato seja óbvia. Os interesses sempre falam mais alto do que a ciência e moldam as ideias e as ideologias. Isto explica a razão da insistência das classes dominantes no fracasso projeto neoliberal.

    27,5 milhões de subutilizados

    O mercado de trabalho brasileiro, cuja recuperação é prometida e prenunciada pela mídia após cada medida neoliberal adotada pelo governo, é o retrato falado do desalento. O índice de desemprego aberto voltou a subir no trimestre terminado em janeiro deste ano, atingindo 12%, o que equivale a 12,7 milhões de pessoas. É o maior desde agosto, segundo o IBGE. Já o número de trabalhadores por conta própria bateu recorde histórico, chegando 23,9 milhões.

    O mercado de trabalho tem sido desestruturado pelo crescente número de desalentados e de subutilizados. A taxa de subutilização da força de trabalho ficou em 24,3%. De acordo com o IBGE, 27,5 milhões de brasileiros estavam subutilizados no trimestre encerrado em janeiro – 209 mil a mais que no trimestre imediatamente anterior. Já na comparação anual, esse contingente cresceu 2,5% (mais 671 mil pessoas).

    O número de desalentados ou de trabalhadores que desistiram de procurar uma vaga (4,7 milhões) ficou estável em relação ao trimestre anterior, mas aumentou 6,7% na comparação anual (296 mil a mais). Já o contingente de pessoas subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas (6,8 milhões) caiu 2,4% em relação ao trimestre anterior, mas subiu 7,3% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior (466 mil a mais).

    Efeito sazonal

    A alta do desemprego neste início de 2019x, segundo técnicos do IBGE, deve ser parcialmente atribuída ao movimento sazonal de dispensa após as contratações de final de ano. Janeiro é um mês em que muitos trabalhadores temporários são dispensados e tradicionalmente há um aumento da taxa de desocupação.

    Na comparação com o trimestre anterior (agosto a outubro), a taxa de desemprego aumentou 0,3 ponto percentual, com um adicional de 318 mil pessoas na fila do desemprego. Segundo o gerente da pesquisa, Cimar Azeredo, trata-se de um movimento sazonal. "Tem a ver com o movimento natural do mês de janeiro, com a dispensa de trabalhadores, sobretudo temporários no comércio", disse.

    Desindustrialização

    A indústria foi o setor que mais dispensou trabalhadores na comparação com o trimestre encerrado em outubro (menos 345 mil), seguida por agricultura (menos 192 mil) e administração pública (menos 175 mil). É mais um indicador do processo já histórico de desindustrialização da economia brasileira.

    O número atual de ocupados (92,5 milhões) no trimestre encerrado em janeiro também é o menor desde agosto de 2018. Segundo o IBGE, a população ocupada no país caiu -0,4% (menos 354 mil pessoas) em relação ao trimestre encerrado em outubro.

    "Não é possível falar em recuperação do mercado de trabalho com esse quadro. Nós temos o mesmo quadro que em janeiro do ano passado se olharmos somente para o lado da desocupação. Mas se nos voltarmos para a ocupação apenas, vemos um incremento de 846 mil trabalhadores. Isso é bom, ter mais gente ocupada? Por um lado, sim, mas são todas vagas informais", avaliou Azeredo.

    Ocupação no Brasil por posição, segundo o IBGE

    Em número de pessoas (mil)

    Empregado com carteira setor privado: 32.916

    Empregado sem carteira setor privado: 11.307

    Conta própria: 23.901

    Empregado setor público: 11.499

    Trabalhador doméstico: 6.239

    Empregador: 4.514

    Trabalhador familiar auxiliar: 2.171

    Recorde de trabalhadores por conta própria

    O número de trabalhadores por conta própria e de empregadores tiveram recorde histórico neste trimestre encerrado em janeiro, reunindo, respectivamente, 23,9 milhões e 4,5 milhões de pessoas.

    Na comparação com o trimestre anterior, o número de trabalhadores por conta própria aumentou em 1,2% (291 mil a mais). Já na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, a alta foi de 3,1% (719 mil pessoas a mais).

    O número de empregadores se manteve estável em 3 meses, mas cresceu 3,3% na comparação com janeiro de 2018 (146 mil a mais).

    Os grupamentos de atividades que mais registraram aumento nestes dois tipos de posição foram os de comércio, outros serviços, alojamento e alimentação e, sobretudo, transportes. Segundo Azeredo, prevalece a tendência do aumento de pessoas trabalhando com o transporte alternativo de passageiros, por meio dos aplicativos de transporte, que representam uma porta mais fácil de ingresso informal no mercado de trabalho.

    Trabalho formal e sem carteira assinada

    O número de trabalhadores em carteira de trabalho assinada caiu 2,8% na comparação com o trimestre anterior (menos 321 mil pessoas). Na comparação anual, entretanto, subiu 2,9%, um adicional de 320 mil pessoas.

    O número de empregados com carteira de trabalho assinada, por sua vez, ficou estável na comparação com o trimestre anterior, mas em 1 ano recuou 1,1% (380 mil a menos).

    "A carteira de trabalho continua estável, mas em momento algum a gente percebe geração de postos de trabalho com carteira", avaliou Azeredo.

    Os números de emprego formal em janeiro pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) serão divulgados nesta quinta-feira pelo governo federal.

    Umberto Martins, com informações do G1 e outras agências

  • Neste início de século, o dogmatismo ameaça derrotar também nossa frágil democracia liberal

    No início da década, a Grécia se viu obrigada a fazer um extraordinário ajuste fiscal. Tendo sido beneficiada pela condição de membro da União Europeia, o que lhe permitiu financiar sua dívida a juros baixos, a Grécia tinha sido fiscalmente irresponsável. Com a crise financeira de 2008, a realidade bateu à porta. Os mercados, sempre dispostos a absorver mais dívida quando a maré está alta, com o refluxo, secaram. O aumento do prêmio de risco cobrado pelos bancos tornou a dívida, além de muito alta, também muito onerosa.

    Yanis Varoufakis, à época um professor visitante na Universidade do Texas-Austin, foi o primeiro a afirmar o que qualquer pessoa com uma noção básica de aritmética poderia constatar: a dívida grega era impagável. A Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI, a Troica, preocupados com o impacto sobre o sistema bancário, decidiram entender que não, que a Grécia deveria fazer um drástico ajuste fiscal e refinanciar a dívida. O ajuste foi feito. O déficit, de mais de 10% do PIB em 2010, foi revertido. Em 2017 a Grécia, a Alemanha, a Dinamarca e a Suécia, eram os únicos países da União Europeia com superávit fiscal.

    O resultado pode ser avaliado por alguns números. O desemprego, que já era alto antes do início do ajuste, quase de 10%, três anos depois chegou a 28% da força de trabalho e a mais de 60% entre os jovens. No ano passado o desemprego ainda estava perto de 20% e o PIB tinha caído mais de 30% em relação a 2010. A dívida, que era equivalente a 150% do PIB em 2010, depois de quase uma década de ajuste, chegou a 180% do PIB. Mas os números, por mais impressionantes que sejam, não podem exprimir a dimensão da verdadeira tragédia que se abateu sobre a Grécia. O país foi destroçado.

    Em 2015, depois de três anos de ajuste fiscal, a população exprimiu sua rejeição ao estrangulamento econômico a que o país estava sendo submetido. Um novo partido de esquerda, o Syriza e seu jovem lider, Alex Tsipras, venceram as eleições. Varoufakis foi convocado para ser o ministro da fazenda e renegociar a dívida. Condicionou a sua aceitação a ser eleito para o congresso. Sem jamais ter exercido qualquer cargo público, em menos de três meses de campanha, foi eleito o deputado mais votado da história. Ministro, enfrentou a tecnocracia europeia e o FMI, procurando demonstrar a inviabilidade do ajuste como exigido pela Troica. Convocou um referendo para avalizar a sua proposta alternativa. Saiu vitorioso das urnas, mas foi derrotado pela tecnocracia. O governo cedeu à Troica e Varoufakis voltou à academia e ao ativismo político. O seu livro, Adults in the Room, publicado em 2017, que resenhei para a revista Quatro Cinco Um, é uma fascinante incursão pelos bastidores das forças políticas do mundo contemporâneo.

    A tragédia grega deste século XXI traz à cena todos os elementos do impasse da democracia contemporânea. Desde o início do século passado, sobretudo a partir do fim da Segunda Guerra, o mundo parecia ter encontrado a fórmula do progresso e da paz social. A democracia representativa liberal e a separação dos poderes davam a impressão de compatibilizar a vontade da maioria com a defesa dos direitos individuais e o respeito às minorias. Através de políticas compensatórias, o Estado, administrado por uma tecnocracia ilustrada, garantiria as condições mínimas de vida para os mais desfavorecidos. Nos países mais atrasados, o Estado exerceria ainda o papel de coordenador do desenvolvimento econômico.

    Neste início de século, o equilíbrio entre os três elementos que compõem as democracias representativas – a vontade popular, o respeito aos direitos individuais e o governo tecnocrático – se rompeu. O populismo, tanto de direita como de esquerda, que hoje se alastra pelo mundo, deve ser entendido como uma reação à tomada de consciência de que a tecnocracia e as instituições liberais para a defesa dos direitos individuais se tornaram dominantes e abafaram a vontade popular. Tantos as razões desta tomada de consciência, como as implicações para o futuro da democracia têm sido objeto de inúmeros estudos e livros publicados nos últimos anos.

    O populismo chega ao poder pelo voto, explorando a percepção de um déficit democrático, que foi acentuada pela internet e pelas mídias sociais. Primeiro, questiona as instituições liberais, depois desmantela a tecnocracia, para em seguida instaurar o autoritarismo. Não importa se a partir da esquerda, como na Venezuela, ou da direita, como na Turquia, na Polônia e nos EUA. Tanto a sua ascensão, quanto a sua capacidade de manter acesa a chama do ressentimento, dependem da frustração das expectativas. Por isso, o mau desempenho da economia, a recessão e o desemprego, são o combustível de que depende para solapar a democracia. Quando a economia se desorganiza mais rápido e profundamente, maior é a probabilidade do populismo descambar para o autoritarismo aberto. Confrontado com a perda de apoio, o populismo sobe o tom contra a política representativa, as minorias e as instituições liberais. A desorganização da economia, a recessão e o desemprego, se tornam um terreno fértil para a sua campanha de ressentimento.

    No Brasil, depois de alguns meses do novo governo, a economia não dá sinais de que irá se recuperar. Continua estagnada, com a renda abaixo do que era há cinco anos e o desemprego acima de 12% da força de trabalho. O programa dos tecnocratas que estão no comando da economia parece estar condicionado à aprovação da reforma Previdência, uma reforma há décadas mais do que necessária, mas na qual não faz sentido depositar todas as esperanças. Transformada num cavalo de batalha com o congresso, insistentemente bombardeada como imprescindível pela mídia, a reforma da Previdência, ainda que aprovada sem grande diluição, como os resultados não são imediatos, não será suficiente para resolver o problema fiscal dos próximos anos. Também não será capaz de despertar a fada das boas expectativas. Como demonstra de forma dramática a experiência recente da Grécia, a busca do equilíbrio fiscal no curto prazo, quando há desemprego e capacidade ociosa, não apenas agrava o quadro recessivo, como termina por aumentar o peso da dívida em relação ao PIB.

    A Grécia não tinha escolha: ou se submetia ao programa de austeridade fiscal ou seria obrigada a sair da zona do euro, com custos possivelmente ainda mais altos. No Brasil, a obsessão pelo equilíbrio fiscal no curto prazo é uma auto-imposição tecnocrática suicida. O liberalismo econômico do governo parece estar subordinado ao seu dogmatismo fiscal. Como liberalismo e dogmatismo são incompatíveis, o liberalismo sairá inevitavelmente derrotado. No século passado, o dogmatismo monetário derrotou o liberalismo econômico de Eugênio Gudin. Neste início de século, o dogmatismo ameaça derrotar também nossa frágil democracia liberal.

    *André Lara Resende é economista, filho do escritor Otto Lara Resende, foi diretor do BC, presidente do BNDES e participou da equipe que elaborou o Plano Real.

  • Acabou o Carnaval, fim da ilusão. Agora é a vida nua e crua, sem fantasia. Sai o Rei Momo e reassume o monarca capitão. Da alegria à dor. Apesar da completa desarticulação política e dos escândalos que o cerca, o governo Bolsonaro parte firme para tentar a aprovação de dois projetos bem antipopulares e, acima de tudo, anti-pobre. Afinal, foi eleito para isso.

    Um é a reforma da Previdência, que na prática acaba com o direito de o trabalhador se aposentar. Põe fim à aposentadoria por tempo de contribuição, impõe pelo menos 40 anos de recolhimento para receber o benefício integralmente, estabelece idade mínima de 62 anos para a mulher e 65 anos para os homens, além de inventar a tal da capitalização, que transfere todo o dinheiro do sistema previdenciário para os bancos.

    A reforma da Previdência inclui ainda outros danos às camadas mais carentes da população, que tanto precisam do apoio do Estado. Desvincula do salário mínimo o reajuste dos benefícios, propõe o fim das férias, do 13º salário e do FGTS. Um desastre para o trabalhador.

    O outro projeto é o famigerado pacote anticrime, idealizado pela mente maligna do ex-juiz e agora ministro da Justiça, Sérgio Moro. Sob o argumento de combate à criminalidade, ele quer conceder à polícia licença oficial, legal, para sair matando os classificados como “indesejáveis”.

    Um projeto inconstitucional, estúpido, genocida, que põe a população negra, pobre, moradora da periferia e das favelas na mira do aparato bélico dos órgãos de repressão do Estado. Uma insanidade sem precedente.

    Isso sem falar em outros absurdos como licença de mineração em terras indígenas e quilombolas, escola sem partido, desmonte da educação e da saúde públicas, achatamento do salário mínimo e por aí vai. Como em Salvador, dizem, “o ano só termina quando é Carnaval”, então está na hora de encarar a realidade e assumir a resistência.

    Fonte: bancariosbahia.org.br

  • O PIB brasileiro caiu 0,2% nos três primeiros meses de 2019, em relação ao último trimestre do ano anterior, na série com ajuste sazonal. Não por acaso, o período coincide com o primeiro trimestre do governo Jair Bolsonaro, que assumiu em 1º de janeiro. Trata-se do primeiro resultado negativo nessa comparação desde o quarto trimestre de 2016, de acordo com as informações do IBGE.

    É um passo a mais no caminho de uma nova recessão. O contrário do que o líder da extrema direita prometeu ao ser empossado, quando falou em resgate da confiança do empresariado e consumidores, aumento dos investimentos estrangeiros e retomada do crescimento econômico. No governo, porém, não tomou uma só medida, emergencial que seja, para amenizar a tragédia do desemprego em massa e superar a estagnação da produção.

    Em sentido contrário, anunciou cortes de verbas para a Educação, Saúde, ciência, cultura e infraestrutura. Também encaminhou ao Congresso Nacional uma proposta de reforma da Previdência cujo objetivo é a privatização do sistema de aposentadorias para favorecer os interesses de banqueiros e rentistas, acelerou a entrega de patrimônio público aos grandes capitalistas, especialmente estrangeiros, baixou uma Medida Provisória com o objetivo de estrangular financeiramente os sindicatos, jurou lealdade a Donald Trump e vomitou ameaças contra a democracia.

    Falsa ladainha

    O ministro da Economia, que fez a vida como rentista especulando no mercado financeiro, também não tem resposta para os dilemas da economia real, que além de semearem desemprego e miséria reduzem o peso do Brasil na economia mundial e retardam o desenvolvimento nacional. Limitou-se a repetir, em entrevista à imprensa nesta quinta-feira (30), o bordão oficial de que a aprovação da reforma da Previdência vai ajustar tudo, é o remédio milagroso para a crise. "A economia está parada, à espera das reformas", decretou.

    Guedes e os apologistas da reforma neoliberal, em geral, rezam uma falsa ladainha, que de resto é requentada. Note-se que já foi entoada nos debates sobre a reforma trabalhista (que iria gerar milhões de novos postos de trabalho, ampliando os investimentos privados em capital variável) e o congelamento dos gastos públicos por 20 anos, que despertaria a fada da confiança, suposta madrinha dos investimentos privados. Não é o que se vê.

    São ideias que, como diria Cazuza, não correspondem aos fatos. Na realidade, a proposta de reforma da Previdência encaminhada pelo governo ao Congresso contempla apenas os interesses de banqueiros, rentistas e empresários. Os interesses do povo não foram levados em conta, nem seus representantes consultados. O pronunciamento da classe trabalhadora sobre o tema ecoará com força na greve geral convocada pelas centrais sindicais e os movimentos sociais para 14 de junho.

    Destaca-se nas estatísticas sobre o PIB divulgadas nesta quinta (30) o comportamento lastimável do setor industrial, que recuou 1,1% em relação ao primeiro trimestre de 2018, acentuando o processo histórico de desindustrialização da economia brasileira. Igualmente preocupante foi o desempenho da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF): declínio de 1,7% em relação ao trimestre anterior, que já havia registrado queda de 2,4%.

    O FBCP compreende os investimentos produtivos, que constituem a força motriz do crescimento das atividades. Seu declínio, que tem tudo a ver com o novo regime fiscal e os cortes dos gastos públicos, é um mau sinal para o futuro da economia, que parece condenada à mediocridade pela política de restauração neoliberal imposta pelo golpe de 2016, coroado com a eleição de Jair Bolsonaro.

    Umberto Martins

  • Por Carlos Drummond, Carta Capital

    O governo trata a economia a pontapés, mas deputados reagem

    Decorridos três meses de mandato presidencial a economia continua acorrentada ao passado recente de recessão e austeridade, há muitas dúvidas sobre a capacidade de as medidas anunciadas encaminharem a retomada do crescimento e sobram evidências do poder destrutivo do atual governo tanto no que se refere à relação com os principais parceiros comerciais do País quanto no encaminhamento político interno das próprias propostas, concluem vários economistas.

    A condução a pontapés dos assuntos econômicos resultou na terça-feira, 26, em aprovação relâmpago na Câmara da execução de emendas coletivas (o chamado orçamento impositivo) que reduz a margem para cortes de gastos e no fechamento de posição de líderes de 13 partidos contra os aspectos do projeto governamental de reforma da Previdência que alteram a Constituição e afetam o Benefício de Prestação Continuada voltado para idosos de baixa renda e a aposentadoria rural. A ausência do ministro da Economia Paulo Guedes à reunião da Comissão de Constituição e Justiça para debater a reforma gerou protesto veemente dos parlamentares. Na véspera Guedes acenara com o não pagamento dos salários aos funcionários públicos se a reforma da Previdência do governo não for aprovada.

    A situação é tenebrosa, sugere o artigo intitulado “Brasil precisaria crescer 5,7% em 2019 e 2020 para a década 2011-2020 não ser a pior dos últimos 120 anos”, publicado por Marcel Balassiano no blog do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas. “Por enquanto, a média de crescimento do PIB brasileiro de 2011 a 2018 foi de 0,6%. Se considerarmos a mediana das expectativas de mercado da pesquisa Focus do Banco Central para os anos de 2019 e 2020 (2,0% e 2,78%, respectivamente), a média da década será de 0,9%, quase a metade de crescimento da ‘década perdida’. Para a década atual não será pior de todas em termos de crescimento econômico se conseguir ser ‘melhor’ (ou ‘menos pior’) do que a década de 1980, o PIB brasileiro teria que crescer, em termos reais, 5,7% tanto em 2019 quanto em 2020, o que parece bastante improvável. Podemos, portanto, concluir que os anos 2011 a 2020 terão sido mais ‘perdidos’ do que a chamada ‘década perdida’ dos anos 1980”, dispara Balassiano. De 1901 a 1910 o PIB cresceu em média 4,2% ao ano, mostra o acompanhamento da FGV, patamar nunca mais atingido desde a década de 1980.

    Enquanto presidente e filhos intensificam os tuítes, o essencial continua às moscas. “Apesar da combinação favorável de inflação e juros básicos em patamares baixos, não há sinais de retomada do investimento agregado, condição necessária à superação do quadro de estagnação da economia, geração de empregos e melhora nos indicadores fiscais a curto prazo”, analisa o economista Felipe de Holanda, professor da Universidade Federal de Pernambuco. O governo confirmou a falta de prioridade para o crescimento e a abertura de postos de trabalho ao decidir na quinta-feira 21 o bloqueio de gastos de 28,8 bilhões referentes a despesas discricionárias ou não obrigatórias, que incluem investimentos e, não fosse a Câmara engessar o orçamento conforme descrito acima, a concretização do corte pioraria ainda mais a situação. O programa de privatizações de Paulo Guedes, feito sem nenhuma contrapartida que beneficie o País, também não proporcionará empregos novos, pois as empresas vendidas apenas mudarão de dono.

    A criação de 173.139 vagas com carteira assinada em fevereiro, alardeada pela mídia e comemorada em tuítes de Bolsonaro como o melhor resultado neste mês nos últimos cinco anos, tem muito de sazonal e não indica tendência, advertem vários economistas. Uma evidência contundente da gravidade do problema do desemprego foi a enorme procura pelas vagas oferecidas por empresas de São Paulo, com fila de cerca de 15 mil pessoas na terça-feira 26 no Sindicato dos Comerciários, organizador de um mutirão na sua sede próxima ao Viaduto do Chá. Entre inúmeros indicadores da falta de perspectivas sobressai a queda de 2,5 pontos entre fevereiro e março do Índice de Confiança da Construção, um dos setores com maior capacidade de geração de empregos, no maior recuo desde junho de 2018, segundo a FGV. A reforma da Previdência proposta pelo governo, é importante acrescentar, aumenta a pauperização e contribui para manter estagnado o mercado consumidor e com isso desencorajar investimentos dos empresários.

    Na área externa a condução do governo é desanimadora e não tende a ampliar o emprego, alerta o economista Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC de São Paulo: “Uma maior abertura comercial amparada apenas em aspectos ideológicos, sem analisar particularidades dos setores, potenciais impactos e condições internacionais pode dificultar ainda mais a competitividade brasileira e, em consequência, acelerar significativamente o processo de desindustrialização que o País está sofrendo, aumentar o desemprego e afetar negativamente o processo de retomada atividade econômica”. Os aspectos ideológicos mencionados consistem nas reiteradas provocações e desaforos dirigidos por Bolsonaro e auxiliares contra a China e os países árabes e que já resultaram em suspensão de investimentos no Brasil e redução de importações, conforme amplamente divulgado pelos jornais.

    Sobram evidências do poder destrutivo do comando econômico, no País e no exterior

    Apesar dos superávits da balança comercial registrados nos últimos anos, chama atenção Lacerda, o saldo dos produtos manufaturados continua a apresentar significativos déficits. Após atingir um saldo negativo de 110 bilhões de dólares em 2014, entre 2015 e 2016 houve uma redução desse déficit para 44 bilhões, devido sobretudo à crise econômica e à desvalorização cambial, mas em 2018 esse saldo aumentou para 68 bilhões. “Esses resultados demonstram que a economia brasileira não é fechada e que o seu setor industrial segue com dificuldades competitivas para concorrer no mercado internacional e no doméstico. Diante dessa realidade, os anúncios de que o governo pretende aumentar o grau de abertura comercial devem ser analisados com cautela. A respeito de cada atividade econômica é imprescindível elaborar um diagnóstico adequado dos aspectos de competitividade e de capacidade produtiva e de potenciais impactos de alterações nas barreiras comerciais. Ressalte-se que as principais economias do mundo, com destaque para os EUA, têm adotado políticas protecionistas em diversos setores”, sublinha o economista.

    A situação grave da manufatura evidenciada no seu déficit crônico na balança comercial fica ainda mais clara diante da informação divulgada pela Confederação Nacional da Indústria de que o setor de transformação contribui hoje com apenas 11,3% do total do PIB, menor patamar desde 1947, enquanto a indústria como um todo – o que inclui extração de minérios, petróleo, gás natural e construção civil – representa 22%.

    As questões essenciais do financiamento e da atualização da indústria brasileira continuam fora da pauta de prioridades do governo. O mercado e a mídia comemoraram o avanço do financiamento através do mercado de capitais, que é importante, mas não tanto quanto estas objeções de representantes do setor manufatureiro: 1. A capacidade ociosa ainda é elevada. 2. O crescimento previsto de 5% da Formação Bruta de Capital Fixo neste ano ainda é pequeno diante da queda de 22% do PIB em 2014 para 16% em 2018, segundo dados aproximados (a FBCF mede o quanto as empresas aumentaram os seus bens de capital, a exemplo de máquinas, equipamentos e material de construção). 3. O mercado de capitais não suprirá a lacuna deixada pela compressão do BNDES, que devolverá 126 bilhões de reais ao Tesouro em vez de aplicá-los no crédito às empresas. Parece que não faltará, entretanto, crédito do banco público para as exportações da estadunidense Boeing, que acaba de adquirir a Embraer.

    Para sobreviver a indústria precisa participar da revolução produtiva mundial apoiada no desenvolvimento e na combinação de novas tecnologias envolvendo inteligência artificial, robótica avançada, big data, computação em nuvem, internet das coisas, nanotecnologia, biotecnologia, impressão 3D e materializadas em três grandes dimensões: digitalização, novos materiais e novos processos, alerta o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, mas a distância da manufatura local em relação à chamada indústria 4.0 é cada vez maior em face do avanço acelerado, desde 2010, de Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Japão, China e Coreia do Sul, entre outros países.

    Quanto piores as condições de crédito e de acesso à tecnologia mais tempo o setor patinará na baixa produtividade, indicador em que o Brasil só perde hoje para a Argentina, segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria, que incluiu Coreia do Sul, Canadá, Austrália, China, Espanha, Tailândia, Polônia, Chile, Turquia, Rússia, México, África do Sul, Indonésia, Colômbia, Índia e Peru.

    Um exemplo de resultados desastrosos da combinação de ideologização econômica com entreguismo é a insistência do governo em dolarizar os preços dos combustíveis enquanto privatiza as empresas de refino, transporte e comercialização da Petrobras, restringindo-a a atividades de exploração e produção. Essas etapas percorridas pelo petróleo desde a sua extração até a entrega de derivados nos postos de serviço, além de agregarem valor ao óleo bruto, possibilitam transferir de modo gradual as variações da cotação externa em dólar da commodity para os preços internos em reais dos derivados.

    Nos governos Lula e Dilma os preços dos derivados eram ajustados em ciclos longos, utilizando a estrutura vertical hoje em desmonte levando em conta as expectativas de variações futuras da taxa de câmbio, do preço do petróleo, dos preços dos derivados e do mercado interno brasileiro. Nesse período os acionistas tiveram os maiores lucros da história da Petrobras e o valor de mercado da empresa atingiu seus picos históricos. O governo atual insiste, entretanto, em esfacelar a companhia e dolarizar quase instantaneamente os preços internos, mas os caminhoneiros ameaçam uma carreata no próximo dia 30 para protestar contra os aumentos seguidos dos combustíveis, entre outros pontos.

  • Por Carlos Drummond, Carta Capital

    O governo trata a economia a pontapés, mas deputados reagem

    Decorridos três meses de mandato presidencial a economia continua acorrentada ao passado recente de recessão e austeridade, há muitas dúvidas sobre a capacidade de as medidas anunciadas encaminharem a retomada do crescimento e sobram evidências do poder destrutivo do atual governo tanto no que se refere à relação com os principais parceiros comerciais do País quanto no encaminhamento político interno das próprias propostas, concluem vários economistas.

    A condução a pontapés dos assuntos econômicos resultou na terça-feira, 26, em aprovação relâmpago na Câmara da execução de emendas coletivas (o chamado orçamento impositivo) que reduz a margem para cortes de gastos e no fechamento de posição de líderes de 13 partidos contra os aspectos do projeto governamental de reforma da Previdência que alteram a Constituição e afetam o Benefício de Prestação Continuada voltado para idosos de baixa renda e a aposentadoria rural. A ausência do ministro da Economia Paulo Guedes à reunião da Comissão de Constituição e Justiça para debater a reforma gerou protesto veemente dos parlamentares. Na véspera Guedes acenara com o não pagamento dos salários aos funcionários públicos se a reforma da Previdência do governo não for aprovada.

    A situação é tenebrosa, sugere o artigo intitulado “Brasil precisaria crescer 5,7% em 2019 e 2020 para a década 2011-2020 não ser a pior dos últimos 120 anos”, publicado por Marcel Balassiano no blog do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas. “Por enquanto, a média de crescimento do PIB brasileiro de 2011 a 2018 foi de 0,6%. Se considerarmos a mediana das expectativas de mercado da pesquisa Focus do Banco Central para os anos de 2019 e 2020 (2,0% e 2,78%, respectivamente), a média da década será de 0,9%, quase a metade de crescimento da ‘década perdida’. Para a década atual não será pior de todas em termos de crescimento econômico se conseguir ser ‘melhor’ (ou ‘menos pior’) do que a década de 1980, o PIB brasileiro teria que crescer, em termos reais, 5,7% tanto em 2019 quanto em 2020, o que parece bastante improvável. Podemos, portanto, concluir que os anos 2011 a 2020 terão sido mais ‘perdidos’ do que a chamada ‘década perdida’ dos anos 1980”, dispara Balassiano. De 1901 a 1910 o PIB cresceu em média 4,2% ao ano, mostra o acompanhamento da FGV, patamar nunca mais atingido desde a década de 1980.

    Enquanto presidente e filhos intensificam os tuítes, o essencial continua às moscas. “Apesar da combinação favorável de inflação e juros básicos em patamares baixos, não há sinais de retomada do investimento agregado, condição necessária à superação do quadro de estagnação da economia, geração de empregos e melhora nos indicadores fiscais a curto prazo”, analisa o economista Felipe de Holanda, professor da Universidade Federal de Pernambuco. O governo confirmou a falta de prioridade para o crescimento e a abertura de postos de trabalho ao decidir na quinta-feira 21 o bloqueio de gastos de 28,8 bilhões referentes a despesas discricionárias ou não obrigatórias, que incluem investimentos e, não fosse a Câmara engessar o orçamento conforme descrito acima, a concretização do corte pioraria ainda mais a situação. O programa de privatizações de Paulo Guedes, feito sem nenhuma contrapartida que beneficie o País, também não proporcionará empregos novos, pois as empresas vendidas apenas mudarão de dono.

    A criação de 173.139 vagas com carteira assinada em fevereiro, alardeada pela mídia e comemorada em tuítes de Bolsonaro como o melhor resultado neste mês nos últimos cinco anos, tem muito de sazonal e não indica tendência, advertem vários economistas. Uma evidência contundente da gravidade do problema do desemprego foi a enorme procura pelas vagas oferecidas por empresas de São Paulo, com fila de cerca de 15 mil pessoas na terça-feira 26 no Sindicato dos Comerciários, organizador de um mutirão na sua sede próxima ao Viaduto do Chá. Entre inúmeros indicadores da falta de perspectivas sobressai a queda de 2,5 pontos entre fevereiro e março do Índice de Confiança da Construção, um dos setores com maior capacidade de geração de empregos, no maior recuo desde junho de 2018, segundo a FGV. A reforma da Previdência proposta pelo governo, é importante acrescentar, aumenta a pauperização e contribui para manter estagnado o mercado consumidor e com isso desencorajar investimentos dos empresários.

    Na área externa a condução do governo é desanimadora e não tende a ampliar o emprego, alerta o economista Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC de São Paulo: “Uma maior abertura comercial amparada apenas em aspectos ideológicos, sem analisar particularidades dos setores, potenciais impactos e condições internacionais pode dificultar ainda mais a competitividade brasileira e, em consequência, acelerar significativamente o processo de desindustrialização que o País está sofrendo, aumentar o desemprego e afetar negativamente o processo de retomada atividade econômica”. Os aspectos ideológicos mencionados consistem nas reiteradas provocações e desaforos dirigidos por Bolsonaro e auxiliares contra a China e os países árabes e que já resultaram em suspensão de investimentos no Brasil e redução de importações, conforme amplamente divulgado pelos jornais.

    Sobram evidências do poder destrutivo do comando econômico, no País e no exterior

    Apesar dos superávits da balança comercial registrados nos últimos anos, chama atenção Lacerda, o saldo dos produtos manufaturados continua a apresentar significativos déficits. Após atingir um saldo negativo de 110 bilhões de dólares em 2014, entre 2015 e 2016 houve uma redução desse déficit para 44 bilhões, devido sobretudo à crise econômica e à desvalorização cambial, mas em 2018 esse saldo aumentou para 68 bilhões. “Esses resultados demonstram que a economia brasileira não é fechada e que o seu setor industrial segue com dificuldades competitivas para concorrer no mercado internacional e no doméstico. Diante dessa realidade, os anúncios de que o governo pretende aumentar o grau de abertura comercial devem ser analisados com cautela. A respeito de cada atividade econômica é imprescindível elaborar um diagnóstico adequado dos aspectos de competitividade e de capacidade produtiva e de potenciais impactos de alterações nas barreiras comerciais. Ressalte-se que as principais economias do mundo, com destaque para os EUA, têm adotado políticas protecionistas em diversos setores”, sublinha o economista.

    A situação grave da manufatura evidenciada no seu déficit crônico na balança comercial fica ainda mais clara diante da informação divulgada pela Confederação Nacional da Indústria de que o setor de transformação contribui hoje com apenas 11,3% do total do PIB, menor patamar desde 1947, enquanto a indústria como um todo – o que inclui extração de minérios, petróleo, gás natural e construção civil – representa 22%.

    As questões essenciais do financiamento e da atualização da indústria brasileira continuam fora da pauta de prioridades do governo. O mercado e a mídia comemoraram o avanço do financiamento através do mercado de capitais, que é importante, mas não tanto quanto estas objeções de representantes do setor manufatureiro: 1. A capacidade ociosa ainda é elevada. 2. O crescimento previsto de 5% da Formação Bruta de Capital Fixo neste ano ainda é pequeno diante da queda de 22% do PIB em 2014 para 16% em 2018, segundo dados aproximados (a FBCF mede o quanto as empresas aumentaram os seus bens de capital, a exemplo de máquinas, equipamentos e material de construção). 3. O mercado de capitais não suprirá a lacuna deixada pela compressão do BNDES, que devolverá 126 bilhões de reais ao Tesouro em vez de aplicá-los no crédito às empresas. Parece que não faltará, entretanto, crédito do banco público para as exportações da estadunidense Boeing, que acaba de adquirir a Embraer.

    Para sobreviver a indústria precisa participar da revolução produtiva mundial apoiada no desenvolvimento e na combinação de novas tecnologias envolvendo inteligência artificial, robótica avançada, big data, computação em nuvem, internet das coisas, nanotecnologia, biotecnologia, impressão 3D e materializadas em três grandes dimensões: digitalização, novos materiais e novos processos, alerta o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, mas a distância da manufatura local em relação à chamada indústria 4.0 é cada vez maior em face do avanço acelerado, desde 2010, de Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Japão, China e Coreia do Sul, entre outros países.

    Quanto piores as condições de crédito e de acesso à tecnologia mais tempo o setor patinará na baixa produtividade, indicador em que o Brasil só perde hoje para a Argentina, segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria, que incluiu Coreia do Sul, Canadá, Austrália, China, Espanha, Tailândia, Polônia, Chile, Turquia, Rússia, México, África do Sul, Indonésia, Colômbia, Índia e Peru.

    Um exemplo de resultados desastrosos da combinação de ideologização econômica com entreguismo é a insistência do governo em dolarizar os preços dos combustíveis enquanto privatiza as empresas de refino, transporte e comercialização da Petrobras, restringindo-a a atividades de exploração e produção. Essas etapas percorridas pelo petróleo desde a sua extração até a entrega de derivados nos postos de serviço, além de agregarem valor ao óleo bruto, possibilitam transferir de modo gradual as variações da cotação externa em dólar da commodity para os preços internos em reais dos derivados.

    Nos governos Lula e Dilma os preços dos derivados eram ajustados em ciclos longos, utilizando a estrutura vertical hoje em desmonte levando em conta as expectativas de variações futuras da taxa de câmbio, do preço do petróleo, dos preços dos derivados e do mercado interno brasileiro. Nesse período os acionistas tiveram os maiores lucros da história da Petrobras e o valor de mercado da empresa atingiu seus picos históricos. O governo atual insiste, entretanto, em esfacelar a companhia e dolarizar quase instantaneamente os preços internos, mas os caminhoneiros ameaçam uma carreata no próximo dia 30 para protestar contra os aumentos seguidos dos combustíveis, entre outros pontos.

  • Por Amelia Gonzalez, G1

    O Brasil ocupa uma das primeiras posições no ranking dos países mais desiguais do mundo, e isto não é novidade. O que surge como notícia nova neste tema é que oito em cada dez brasileiros, hoje, já acreditam que não é possível se falar em progresso sem reduzir as desigualdades.

    E mais: a maioria, ou seja, 84% das pessoas ouvidas pela segunda pesquisa de opinião lançada hoje pela Oxfam Brasil em conjunto com o Instituto Datafolha, concordam que é obrigação do estado diminuir a diferença entre ricos e pobres, o que demonstra uma baixa adesão a um projeto de Estado Mínimo para o Brasil, segundo os pesquisadores. Ao mesmo tempo, porém, acompanhando um estado de transição e de profundas transformações por que passam o mundo e o país, a maioria dos brasileiros ainda não compreende o real tamanho das desigualdades brasileiras. E depositam no combate à corrupção, no investimento público em saúde e em educação a esperança para reduzir as desigualdades.

    O resultado da pesquisa, feita entre os dias 12 e 18 de fevereiro deste ano em 130 municípios, ouvindo 2.086 pessoas, mostra também um descompasso entre a percepção dos cidadãos e cidadãs brasileiras e a agenda política do país, “que não tem demonstrado interesse entre a disparidade de renda entre o topo e a base da pirâmide”, acredita Oded Grajew, presidente do Conselho Deliberativo da Oxfam. Para ilustrar a fala de Grajew, vale a pena visitar o último estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que mostra que o 1% mais rico do Brasil concentra entre 22% e 23% do total da renda do país, nível bem acima da média internacional.

    Neste sentido, aparentemente o debate sobre a regulamentação do Imposto sobre Grandes Fortunas tem chegado à população em geral, e 77% dos entrevistados decidiram se posicionar a favor do aumento dos impostos de pessoas muito ricas para financiar políticas sociais. Enquanto 94% afirmam que o imposto pago pelos cidadãos deve beneficiar os mais pobres.

    Não há um critério muito bem definido sobre pobreza entre os cidadãos brasileiros. À pergunta sobre se o entrevistado se considera rico, 85% responderam que não, se colocando na metade mais pobre do país. Mas dois em cada três que responderam à pesquisa acham que a linha da pobreza começa quando a pessoa tem disponíveis R$ 701 mensais, sendo que 53% acham que ela está entre R$ 701 e R$ 1.000 – este último próximo ao valor do salário mínimo atual.

    Sessenta e cinco por cento dos respondentes acreditam que, para fazer parte do maior decil de renda, são necessários mais de R$ 5 mil mensais; e 49% acham que o mínimo seria de R$ 20 mil, quase cinco vezes mais do que a realidade. Segundo o estudo, o maior decil de renda no Brasil apresenta uma grande desigualdade interna, indo de R$4.290,00 a milhões de reais.

    E quanto à classe social? Sessenta e cinco por cento dos brasileiros se localizam nas categorias “classe média baixa” ou “pobre”, enquanto 43% daqueles com renda individual superior a cinco salários mínimos também acreditam estar nestes grupos. O estudo, que ganhou o título “Nós e as desigualdades”, mostra ainda que há um otimismo em 70% dos entrevistados de que vão conseguir ascender à classe mais rica, enquanto 57% não acreditam nisto. Já quando a pergunta é se “uma pessoa de família pobre que trabalha muito tem a mesma chance de ter uma vida bem-sucedida que uma pessoa nascida rica e que também trabalha muito”, 58% duvidam e 41% concordam.

    Para ampliar o pensamento a este respeito, busquei o livro de Jessé Souza, “Batalhadores Brasileiros” (Ed. UFMG), em que o sociólogo defende a tese de que não se deve vincular classe à renda, o que ele julga ser uma “mentira social”, que encobre “fatores e precondições sociais, emocionais, morais e culturais que constituem a renda diferencial, confundindo, ao fim e ao cabo, causa e efeito”.

    “Esconder os fatores não econômicos da desigualdade é, de fato, tornar invisível as duas questões que permitem efetivamente compreender o fenômeno da desigualdade social: a sua gênese e a sua reprodução no tempo”, escreve Jessé.

    O sociólogo se refere à “transferência de valores imateriais”, como o estilo de vida, a naturalidade para se comportar em reuniões sociais, algum capital cultural, enfim, um conjunto de coisas que “apenas” o dinheiro não confere a quem o possui. E que vai garantir o privilégio vida afora.

    Voltando à pesquisa, os entrevistados respondem: um em cada quatro brasileiros entendem que subiram de classe social desde 2014. E as explicações para tal mobilidade estão nas oportunidades de trabalho (para 52%), na melhoria das condições financeiras da família (para 32%), nas oportunidades de estudo (para 27%) e no local de moradia (para 22%).

    Uma notícia interessante que a pesquisa traz é que os brasileiros não só estão mais antenados com relação à desigualdade social, como também aumentou, de dois anos (quando foi feita a última pesquisa) para cá, a percepção de que há racismo e machismo no Brasil a influenciar negativamente a renda e a complicar a vida de cada um. E sim, a cor da pele define amplamente as chances de contratação por empresas (para 72%) e de abordagem policial (para 81%) , bem como afeta o tratamento pela Justiça (para 71%) . E para 81%, a pobreza pesa mais para os negros.

    Ainda segundo a pesquisa, 64% dos brasileiros afirmam que as mulheres ganham menos só pelo fato de serem mulheres.

    “Só avançaremos no combate às desigualdades se os temas do racismo, da discriminação de gênero e do respeito à diversidade, da discriminação pelo endereço de moradia, do assassinato de jovens de periferia, tiverem a mesma urgência que os temas econômicos e fiscais”, afirma Katia Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil.

    Por fim, dois em cada três brasileiros apontam “fé religiosa”, “estudar” e “ter acesso à saúde” como as três prioridades para uma vida melhor.

    A Oxfam Brasil elenca algumas sugestões que podem ser usadas por quem está à frente da criação de políticas públicas a fim de diminuir a desigualdade no país. Uma delas se refere à Reforma da Previdência que, segundo os integrantes da Organização, deve garantir “que se torne um mecanismo para enfrentar as desigualdades e não para reforçá-las”.

    A pauta está aberta ao debate.

     

  • Tá osso viver no Brasil. A política de austeridade imposta pelo neoliberalismo tem feito o cidadão rebolar para pagar todos os boletos que chegam em casa. Não raro o trabalhador tem de escolher o que quitar. Quando não consegue sair do vermelho, é obrigado fazer cortes.

    O cenário ruim deixa o brasileiro mais estressado e angustiado. Sem oferta do mercado de trabalho realmente fica difícil pagar até as contas básicas, como energia e água. O pior é que não há perspectivas de melhoras. O desemprego bate níveis recordes. O país tem 13,1 milhões de pessoas sem trabalho, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

    Sem opção e tendo de sobreviver, milhões terminam na informalidade ou vivem fazendo bicos para conseguir um trocado. O problema é que nem sempre o dinheiro é o suficiente. Neste caso, só fazendo mágica para pagar todas as contas do mês.

    Não é a toa que o percentual de endividados não para de crescer. A taxa de famílias com dívidas chegou a 62,4% em março deste ano. Este é o maior patamar desde 2015, aponta a CNC (Confederação Nacional do Comércio).

    O cenário pessimista deveria preocupar o governo. Mas, não. Enquanto as pessoas se viram nos trinta, o Executivo segue sem apresentar uma proposta capaz de fazer o Brasil retomar o crescimento. Pelo contrário.

    Os projetos são para aumentar a informalidade, vender as empresas estatais, fundamentais para o desenvolvimento, cortar verbas da educação e saúde, dificultar os concursos públicos, por fim a política de valorização do salário mínimo e acabar com o direito à aposentadoria, com a reforma da Previdência. Nada capaz de amenizar o sofrimento do povo.

    Com informações de bancáriosbahia.org.br

  • A produção industrial brasileira registrou em março uma queda de 1,3%, na comparação com fevereiro, revertendo e anulando o crescimento de 0,6% observado no mês anterior, segundo divulgou nesta sexta-feira (3) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com mais esse resultado negativo, o setor passou a acumular queda de 2,2% no ano.

    É simplesmente o pior resultado mensal desde setembro do ano passado, quando houve queda de 2,1% na produção do setor. Na comparação com março do ano passado, a indústria caiu 6,1%, recuo anual mais intenso desde maio de 2018 (-6,3%).

    Queda generalizada

    Houve recuo na produção de três das quatro grandes categorias econômicas e 16 dos 26 ramos pesquisados pelo IBGE. Caiu a produção de bens intermediários (-1,5%), bens de consumo duráveis (-1,3%) e bens de consumo semi e não-duráveis (-1,1%) - o primeiro segmento teve o terceiro mês seguido de queda, acumulando perda de 2,7%. 

    Nem mesmo a alta de 0,4% na produção de bens de capital em março ante fevereiro é motivo de comemoração, segundo o gerente do IBGE André Macedo. "É tão somente uma acomodação", afirmou Macedo. 

    O pesquisador destacou que no acumulado de dezembro de 2018 a janeiro deste ano a produção de bens de capital encolheu 10,7%. No acumulado de fevereiro e março, houve alta de 5,1%, insuficiente para recuperar as perdas.

    Para Macedo, o quadro da produção industrial é de queda generalizada. "Há um claro predomínio de atividades e categorias econômicas em queda", afirmou o pesquisador do IBGE.

    Segundo o órgão, entre as atividades industriais, a principal influência negativa foi em produtos alimentícios, (-4,9%), que eliminou parte da expansão de 13,8%, acumulada no período novembro de 2018 a fevereiro de 2019. A produção de veículos automotores, reboques e carrocerias caiu 3,2%.

    Expectativas frustradas

    O resultado veio pior que o esperado pelo mercado. As expectativas em pesquisa da Reuters eram de quedas de 0,7% na comparação mensal e de 4,6% na base anual. No acumulado em 12 meses, o setor declinou 0,1%. Foi o primeiro resultado negativo desde agosto de 2017 (quando também caiu 0,1%), o que confirma a leitura de perda de ritmo e maior fraqueza da economia brasileira.

    Após esboçar uma recuperação no começo do ano passado, o setor voltou a entrar em uma trajetória descendente em julho de 2018 e, desde então, vem mostrando perda de dinamismo. Com o resultado de março, o patamar de produção da indústria brasileira fica 17,6% abaixo de seu ponto mais alto, alcançado em maio de 2011.

    "É como se a gente estivesse em janeiro de 2009”, resumiu o gerente da pesquisa, André Macedo, destacando que apesar do elevado nível de ociosidade indústria (o setor utiliza apenas 76,5% da capacidade instalada, o que significa que quase 50% das máquinas e equipamentos estão parados), a demanda também não tem crescido.

    "Dado que a gente observa todos esses indicadores no campo negativo, podemos dizer que estamos longe de pensar em qualquer trajetória de recuperação, que dirá de uma recuperação consistente”, avaliou.

    Queda de 0,7% no 1º trimestre

    Na análise trimestral, a produção industrial registrou queda de 0,7%, na comparação com o 4º trimestre de 2018. Já na comparação com os 3 primeiros meses do ano passado, o recuo foi de 2,2%.

    “Este é o resultado negativo mais intenso desde o 4º trimestre de 2016, quando havia recuado 3,1% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior”, destacou o gerente da pesquisa. “Desde o 4º de 2017, quando a indústria crescia 5%, o setor vem numa trajetória de redução de ritmo”, acrescentou.

    Questionado sobre as razões para a piora da produção industrial no país, o gerente da pesquisa apontou para a conjuntura econômica do país, com o mercado de trabalho afetando o consumo das famílias, o que influencia nas decisões de investimento por parte dos empresários. “Há outros fatores que também impactam nessa produção, como a redução de exportações importantes”, acrescentou, o que está associado à crise da Argentina.

    Bolsonaro agrava crise

    Disseram que a eleição de Jair Bolsonaro, descrito como “o queridinho do mercado”, iria estancar a crise ao despertar a fada madrinha dos investimentos privados. Mas os fatos sugerem que vem ocorrendo o contrário.

    Além de aumentar a insegurança e as incertezas as iniciativas do governo vão no sentido de aprofundar a crise também porque estão subtraindo investimentos públicos em áreas vitais, estimulando o arrocho dos salários e a precarização das relações entre capital e trabalho, aumentando o desemprego e reduzindo ainda mais a demanda interna.

    A alta ociosidade indica que o principal problema da economia é a insuficiência da demanda provocada pelo desemprego em massa, redução de salários e direitos e cortes dos investimentos públicos. Se a demanda crescesse, o que no caso pressupõe aumento da renda e do consumo popular, a recuperação da produção industrial seria possível mesmo sem novos investimentos em máquinas e equipamentos, através da utilização da capacidade ociosa e a contratação de novos trabalhadores e trabalhadoras.

    A política de restauração neoliberal vai em outra direção e tem responsabilidade ímpar pelo agravamento da crise, a estagnação da produção e o avanço do processo de desindustrialização da economia brasileira.

    Os neoliberais que infestam o Palácio do Planalto não dão o braço a torcer e prometem que após a aprovação da reforma da Previdência a recuperação virá com força. Mas já ouvimos esta mesma ladainha em relação à reforma trabalhista e ao congelamento dos gastos públicos. Contempla interesses poderosos, mas não é confiável. Tirar dinheiro, emprego e direitos da classe trabalhadora tem sido e é o caminho mais curto para agravar a crise.

  • A queda de braço entre servidores públicos e o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, parece ainda longe de um desfecho. Os trabalhadores realizaram uma grande manifestação seguida de assembleia na quinta-feira (7) em que decidiram, por unanimidade, dar continuidade à greve unificada deflagrada no dia 4 de fevereiro. Uma nova assembleia foi convocada para 13 de fevereiro, às 14 horas, diante da Prefeitura, no Viaduto do Chá.

         A pauta de reivindicações dos servidores é composta por cinco eixos:

         1 - Revogação da Lei nº 17.020/2018, que cria o Regime de Previdência Complementar, a Sampaprev e aumenta a contribuição previdenciária dos servidores de 11% para 14%;

         2 - Valorização dos servidores públicos;

         3 - Valorização do serviço público;

         4 - Revisão geral salarial de 10% para os servidores ativos, aposentados e pensionistas, pondo fim à política de reajuste adotada pela Prefeitura nos últimos anos de conceder ao funcionalismo reajuste de 0,01%;

         5 - Nenhum confisco.

    A luta do funcionalismo em torno da reforma da Previdência municipal começou em 2015, contra o Projeto de Lei nº 558, que criava a Sampaprev. Em agosto de 2016, como resultado dos protestos dos trabalhadores, o PL foi retirado da Câmara. Foi representado ao Legislativo como o PL nº 621/2016, que também não prosperou. Os servidores impediram a aprovação deste projeto no governo Doria realizado uma manifestação que reuniu cerca de 100 mil pessoas contra o que foi chamado de confisco de salários.

    Os líderes da greve unificada das diferentes categorias que compõem o funcionalismo reafirmaram que a luta continua, agora pela revogação da Lei nº 17.020 (Sampaprev) e em defesa dos serviços públicos, dos servidores e seus direitos.

    O Comando Unificado do Conjunto dos Servidores realizará atos em várias regiões da cidade, com panfletagem e orientação à população sobre a importância da greve do funcionalismo e da participação de todos contra a reforma da Previdência municipal, que retira direitos dos trabalhadores.

  • Na última quinta-feira, 11, a direção da Petrobras anunciou um aumento de 5,74% do preço do óleo diesel nas refinarias, o que levantou um murmurinho nervoso entre os caminhoneiros e parece ter despertado o fantasma de uma nova greve da categoria, que em maio do ano paralisou a economia nacional e esquentou o inferno astral do golpista Michel Temer.

    Foi o suficiente para acionar o sinal de alarme no Palácio do Planalto, comandado hoje por um político medíocre, oriundo do baixo clero e com a popularidade em baixa. Jair Bolsonaro deu uma contraordem e a estatal voltou atrás no mesmo dia, informando em comunicado que "em consonância com sua estratégia para os reajustes dos preços do diesel divulgada em 25/3/2019, revisitou sua posição de hedge e avaliou ao longo do dia, com o fechamento do mercado, que há margem para espaçar mais alguns dias o reajuste no diesel".

    A desculpa esfarrapada não agradou o mercado e a intervenção do presidente foi apontada como causa da queda de 8,54% no valor das ações ordinárias e 7,75% nas ações preferenciais da empresa negociadas no Ibovespa nesta sexta-feira, 12, o que significa perdas de R$ 32,5 bilhões. Bolsonaro não escondeu que está preocupado com os caminhoneiros, que em maio do ano passado paralisaram o país num protesto contra a alta do diesel.

    A política de preços da Petrobras é uma expressão do fundamentalismo neoliberal que passou a orientar a política econômica brasileira desde o golpe e agora ainda mais sob Bolsonaro, cujo ministro da Economia, Paulo Guedes, é um autêntico e fiel representante do sistema financeiro no governo.

    A intervenção do presidente contradiz tal política, mas foi feita com o objetivo de acalmar o ânimo dos caminhoneiros e impedir uma nova jornada de protesto que pode ser mais fatal para o governo do que o desconforto gerado no meio empresarial. Soa meio bizarro o fato de Bolsonaro tentar negar o fato afirmando que não interviu na Petrobras e que nada entende de economia, que entregou às mãos do ultraliberal Paulo Guedes.

     

  • A Argentina se debruça à beira do abismo. Com o peso em queda livre, as Bolsas no vermelho e um risco-país que chegou a transbordar os mil pontos, a jornada da quinta-feira (25) demonstrou que a crise de confiança se agrava. A crescente incerteza política, com o presidente Mauricio Macri caindo nas pesquisas e com a ex-presidenta Cristina Kirchner cada vez mais bem situada, soma-se à incerteza econômica: pesam grandes dúvidas sobre a capacidade governamental de controlar a inflação.

    O Banco Central teve que elevar para 70% os juros das LELIQs (letras de liquidez) a fim de proteger a moeda local, que despenca semana após semana. Os mercados financeiros haviam aberto com cifras muito alarmantes. O dólar era negociado a mais de 47 pesos, as ações de bancos e empresas de energia caíam mais de 10 pontos em Wall Street, e o risco-país (o ágio que os investidores cobram para emprestar dinheiro) superava os mil pontos, ou seja, 10%. Para se ter uma ideia da desconfiança internacional em relação à Argentina, convém salientar que nenhum outro país da região, exceto a Venezuela, paga um risco-país superior a 250 pontos.

    As coisas se acalmaram um pouco no final da jornada. O dólar ficou em 46,30 pesos (45 no mercado varejista), e o risco-país em 950 pontos. Mas todos os sinais eram claros. Reina a impressão de que Macri está perdendo o controle da situação e que seu “pacto entre cavalheiros” com várias empresas para congelar os preços de 60 produtos de primeira necessidade era uma atadura pequena demais para conter a hemorragia inflacionária. Estima-se que em abril os preços voltarão a aumentar mais de 4% e que os combustíveis, atrelados ao dólar, subirão de forma iminente por causa da desvalorização do peso.

    Macri foi à Casa Rosada, e seu chefe de gabinete, Marcos Peña, se reuniu com vários ministros. Não houve declarações. O ambiente era “pesado”, segundo uma testemunha presencial, e os rostos refletiam a tensão do momento. Um porta-voz de Peña admitiu as dificuldades, mas salientou que as eleições de outubro e novembro ainda estão distantes.

    A chamada “Opção V” irrompeu no debate político. Consistiria em Macri abrir mão de disputar a reeleição, lançando em seu lugar a candidatura de María Eugenia Vidal, a atual governadora de Buenos Aires. O PRO (Proposta Republicana), partido de Macri, se apressou em reafirmar que o atual presidente será candidato, e os porta-vozes de Vidal insistiram em que a governadora, de 45 anos, não tinha intenção de aspirar à Casa Rosada. Mas os rumores não cederam. O fato de Vidal apresentar um plano de contenção de preços limitado à província que governa — e que, diferentemente do que fez Macri na passada semana com seu “pacto entre cavalheiros”, o tenha lançado pessoalmente, sem delegar isso a um grupo de ministros — contribuiu para reforçar sua visibilidade.

    A Casa Rosada diz que o motivo das turbulências econômicas e políticas tem nome e sobrenomes: Cristina Kirchner. A ex-presidenta continua sem dizer uma palavra sobre se será ou não candidata. Restam poucas dúvidas, entretanto. Kirchner já age em modo eleitoral, e as pesquisas, agora, a dão como vencedora diante de Macri. Os mercados financeiros e a metade do país que não simpatiza com o peronismo estão alarmados com a possibilidade de um retorno da ex-presidenta. Dá-se como certo que, se voltar à chefia do Estado, renegaria o acordo com o Fundo Monetário Internacional (que entre junho e setembro passados emprestou 57 bilhões de dólares) e suspenderia o pagamento da dívida.

    O peso da dívida

    Mas a possibilidade de um default argentino existe, com Kirchner ou sem ela. Cada vez mais economistas expressam sua opinião de que os 34 bilhões de dólares a serem devolvidos no ano que vem representam uma carga excessiva para uma economia que continua em recessão, e que o aumento da dívida em termos reais (pela desvalorização do peso) exigiria cortes orçamentários quase insuportáveis. A dívida pública argentina supera 90% do PIB, e quase toda ela está expressa em dólares.

    Na quarta-feira, Macri voltou a culpar Kirchner. “O mundo duvida, porque acha que os argentinos querem voltar atrás; isso mete medo no mundo, então aumenta o risco-país, e são tomadas posições defensivas. Mas estão equivocados, as dúvidas são infundadas: os argentinos não vão voltar atrás, entendemos que não existe mágica e que o messianismo nos leva a destruir a sociedade”, disse. O presidente salientou que o FMI concedeu à Argentina o maior empréstimo de sua história porque tinha fé nas políticas liberais que seu governo desenvolvia. “Temos que manter a calma”, disse, eludindo o fato de que foi sua política neoliberal, ditada pelas forças do mercado, que condenou o país ao abismo.

    Na verdade, quem parece mais tranquila é Kirchner. Em 9 de maio ela apresentará na Feira do Livro uma autobiografia intitulada Sinceramente, cuja enorme tiragem inicial (60.000 exemplares) já está esgotada antes de chegar às lojas. A publicação do livro, às vésperas da corrida eleitoral, foi interpretada como sinal inequívoco de que Kirchner tomou a decisão de lançar sua candidatura. Seus inimigos argumentam que a ex-presidenta precisa recuperar o poder para se blindar das numerosas ações judiciais por corrupção; seus seguidores têm saudades da relativa prosperidade dos anos de Néstor e Cristina Kirchner, e clamam por seu retorno. Ela, por enquanto, se cala. Limita-se a difundir mensagens sobre a necessidade de “recuperar a ordem” frente ao “caos” de Mauricio Macri. A expectativa pela apresentação de seu livro, e pelo que possa dizer durante esse ato, é enorme.

    Cristina Kirchner desfruta de uma vantagem paradoxal. Quanto mais provável se torna sua volta ao poder, mais alarmados ficam os mercados financeiros, e mais os indicadores econômicos pioram. O que por sua vez complica a situação de Macri. Em geral, a sociedade argentina está cada vez mais decepcionada com a gestão dele, e isso se reflete em todas as pesquisas. O homem que prometeu resolver de uma vez por todas os males endêmicos da economia (inflação e desvalorização, pobreza, corrupção) enfrenta no final de seu mandato uma crise devastadora, em grande medida por causa dos seus próprios erros.

    Lawfare

    A ascensão de Cristina Kirchner nas pesquisas coincide com novos problemas judiciais para ela. O juiz Claudio Bonadio, encarregado do chamado "processo dos cadernos", ampliou nesta quarta-feira (24) a denúncia contra a ex-presidenta e pediu pela sexta vez sua prisão preventiva por suposta corrupção. Kirchner é acusada de liderar uma associação ilícita montada no ministério de Infraestrutura, responsável pelas obras públicas, a fim de arrecadar dinheiro ilegal de empresas beneficiadas nos contratos. A prisão "se tornará efetiva quando o Senado da Nação aprovar a perda do seu foro privilegiado, ou, quando o foro privilegiado cessar", escreveu o juiz Bonadio em sua resolução.

    O magistrado considerou "inverossímil" a alegação da hoje senadora de que desconhecia as manobras de seus subordinados. A decisão contra a ex-presidenta soma novas acusações ao processo graças às delações de testemunhas que, na qualidade de arrependidas, contaram ao juiz que parte do dinheiro arrecadado ia parar no apartamento que Cristina Kirchner e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, falecido em 2010, mantinham em bairro rico de Buenos Aires.

    Trata-se de uma manobra conhecida como lawfare, que consiste na utilização da Justiça para a consecução de objetivos políticos, a mesma que foi usada no Brasil para condenar, prender injustamente e tirar Lula da corrida presidencial de 2018, o que abriu caminho à vitória de Bolsonaro.

    Fonte: El País

  • “O que vem por aí é coisa feia, muito feia. Aí não vai ter Exército, não vai ter nada, porque ninguém vai ter combustível", afirmou o presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros, José da Fonseca Lopes

    Os sucessivos aumentos nos preços dos combustíveis acirrou os ânimos dos caminhoneiros. Em audiência na Comissão de Viação e Transportes nesta quarta-feira (8), o presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam), José da Fonseca Lopes, confirmou que a categoria entrará em greve, caso Jair Bolsonaro não interfira na Petrobras e reveja a política de reajuste do diesel.

    “O que vem por aí é coisa feia, muito feia. Se o governo não se atentar para isso, nós vamos ter um problema muito sério. Aí não vai ter Exército, não vai ter nada, porque ninguém vai ter combustível. Como é que vai fazer? Se acontecer, é para desestabilizar o País. Eu não vou participar disso e não quero isso, mas já estou dando o alerta, como dei da outra vez”, declarou Lopes.

    Recentemente, a Petrobras decidiu pela revisão do preço do diesel a cada 15 dias, uma periodicidade considerada curta pelos caminhoneiros autônomos, ainda que até então os valores vinham sendo reajustados em intervalos menores, às vezes diariamente. Um dos pedidos é para que essa revisão ocorra pelo menos a cada três meses, por exemplo, para que motoristas não sejam surpreendidos no meio de uma viagem com o aumento no valor do combustível.

    “Não temos condição de negociar preço a cada semana, a cada dia. É mais fácil suportar preços internacionais do que a volatilidade que, esta sim, acaba matando”, afirmou o presidente da Confederação Nacional do Transportes (CNT), Vander Francisco Costa.

    O preço médio do diesel nas refinarias hoje é de aproximadamente R$ 2,3 por litro. Em menos de dois anos, o combustível acumulou aumento de quase 70%.

    Fonte: Fórum

  • N

    Por José Carlos de Assis*

                    Não há nada mais desesperador para um chefe de família, do ponto de vista pessoal e emocional, do que um longo período de desemprego involuntário. Sua dignidade, sua auto-estima, seu amor à vida desaparecem. Essa situação é comum a todos os trabalhadores desempregados ou subempregados, exceto os que têm alguma riqueza acumulada e possam consumi-la como renda ou crédito. Pior do que o desemprego só a morte. E para alguns, a morte, de si ou de outrem, o roubo, o assassinato acabam se apresentando como solução.

                    Vivemos essa trágica realidade. E me espanta que as classes dominantes brasileiras, as elites cultas e o governo praticamente ignoram 27 milhões de desempregados e subempregados no país, população igual à de muitos países médios. É um acinte. Um assassinato premeditado de grande parte da sociedade. Se houvesse um mínimo de consciência cívica, os jornais e a mídia estariam martelando diariamente essa situação, convocando uma cruzada política para combater o desemprego.

                    É que a solução está necessariamente na política. É uma ingenuidade perversa achar que a culpa pelo desemprego é o desempregado mal preparado para o mercado de trabalho, ou preguiçoso, ou que não tem iniciativa. A sociedade tem limites para atividades econômicas individuais. Onde um ambulante vende amendoim não cabem cem que vendem amendoins. A iniciativa, sim, a iniciativa de que tratam os neoliberais: como se pode ter iniciativa a partir do nada, que é a condição inicial de muitos desempregados?

                    Por trás dessa perversidade há uma ignorância histórica. A democracia não suporta alto desemprego por muito tempo. Fundada na defesa da propriedade privada, o que se chamaria mais tarde democracia burguesa enfrentou sucessivas rebeliões de trabalhadores ao longo do século XIX e início do século XX justamente porque ela própria não se havia dado conta de uma contradição: vocês estão fundados na defesa da propriedade privada; e quanto aos que não tem propriedade, que são a imensa maioria?

                    A solução para isso foram as políticas de pleno emprego no norte da Europa, nos Estados Unidos do New Deal e, sim, na Alemanha de Jalmar Schacht nos anos 30. Posteriormente, nas três décadas de ouro do capitalismo no pós-guerra, afastada a estupidez liberal, situações de virtual pleno emprego seriam promovidas em toda a Europa Ocidental. Isso, em grande parte, fez prevalecer no imaginário político o pleno emprego com liberdade em confronto com o pleno emprego sem liberdade dos países socialistas do Leste.

                    Estamos neste momento diante da mais extravagante estupidez política de nossa história. Não é de estranhar que esteja sendo conduzida por um economista de mercado. Num momento em que cerca de um terço da sociedade está desempregada ou subempregada, o que o governo Guedes proclama é a prioridade absoluta, não da promoção do emprego, mas da chamada reforma da Previdência. Esta, em seus circuitos ocultos, nada mais é que a promoção de um regime de capitalização para enriquecer ainda mais a banqueirada e expor os jovens trabalhadores (os que existirem)  ao achaque institucionalizado dos  fundos abertos.

                    Não há déficit da Previdência. O que há é a transferência por Guedes de R$ 602 bilhões de recursos fiscais, inclusive das receitas da Seguridade Social previstas na Constituição, para a fornalha da especulação financeira. Considerando que isso, em si mesmo, é fortemente contracionista – retirada de recursos da economia real para a especulação -, temos mais uma razão para a queda do PIB este ano. Na Europa, diz-se dos gastos previdenciários obrigatórios que são “estabilizadores automáticos” da economia. Evitam ou reduzem o efeito da recessão porque garantem a demanda. Aqui, Guedes quer fazer da Previdência fonte de especulação.

                    Não há nenhuma mágica para garantir uma política de pleno emprego. É a mesma política para assegurar o crescimento do PIB a taxas razoáveis depois de uma depressão. Mas o governo Guedes não está preocupado com o crescimento da economia. Está preocupado com o que ele e seu grupo querem ganhar pessoalmente com fundos previdenciários, em que é especialista. Entretanto, um crescimento razoável do PIB, estimulado pela ampliação dos gastos públicos reais, resolveria o problema de todos os gastos públicos deficitários atuais. Lembre-se que, para defender o emprego, Obama fez déficits sucessivos de US$ 7,5 trilhões acumulados entre 2009 e 2014!

                    Temos um PIB de R$ 6,4 trilhões, e uma carga fiscal da ordem de R$ 2,2 trilhões. Se tivéssemos tido um crescimento do PIB de 2% ao ano, induzindo crescimento semelhante da carga fiscal, teríamos um adicional de R$ 700 bilhões de receita tributária caso a economia voltasse ao patamar de 2014 (crescimento de 0,5%). Tudo isso sem aumento de alíquota de imposto. Basta simplesmente que se faça uma política de pleno emprego, ou de recuperação econômica, a partir da expansão dos gastos públicos, desviando dinheiro da especulação financeira improdutiva no over para investimentos e gastos reais com gente e com obras.

                    Ou isso, ou a reprise concentrada da era das revoluções de Hobsbawn em escala brasileira. É que se você não considera a necessidade de eliminar o desemprego generalizado como uma questão de solidariedade humana, pelo menos considere o desempregado como uma ameaça pessoal e coletiva.

                    *Economista, jornalista, escritor e professor

  • Relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgado quarta-feira (13) revela que cerca de 61% da força de trabalho mundial estão no mercado informal, o que em números absolutos significa 2 bilhões de pessoas. Entre os que atuam por conta própria, 85% estão nesta condição e entre os assalariados (que constituem a maioria do mercado de trabalho), 40%.

    Os dados são relativos a 2018 e, além de problemas estruturais no mercado de trabalho dos países mais pobres, refletem a crescente precariedade que o sistema capitalista vem impondo à classe trabalhadora em todo o mundo. É preciso notar que a precariedade avança de forma perversa com o ingresso de novas tecnologias e o progresso da produtividade do trabalho associado às políticas neoliberais contra conquistas e direitos da classe trabalhadora, incluindo a seguridade social.

    Posição das pessoas no mercado de trabalho mundial (em %)

    Empregadores: 3

    Assalariados: 52

    Por conta própria: 34

    Trabalho familiar: 11

    Fonte: OIT

    "Significativamente, os trabalhadores informais são muito mais propensos a viver em condições de pobreza do que os trabalhadores formais", constata a OIT. "É importante notar, porém, que a formalidade não é garantia de escapar da pobreza e que os trabalhadores informais não se limitam a ser pobres", complementa a organização.

    Com efeito, no Brasil muitos assalariados com carteira assinada ganham o salário mímino, ainda muito aquém de um valor capaz de garantir uma sobrevivência digna e à margem da pobreza. Conforme sugere a estimativa do Dieese, o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas, previsto na Constituição, deveria ser de R$ 3.928,73 em dezembro do ano passado, quando o salário mínimo vigente valia R$ 954,00.

    A pesquisa da Organização Mundial do Trabalho retrata o mercado de trabalho global, mas a situação no Brasil não é diferente. Sob muitos aspectos é ainda mais grave. Em 2018, a soma de pessoas trabalhando por conta própria ou no mercado informal em nosso país fechou uma vez mais acima da quantidade de empregados com carteira assinada, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE).

    Ao final do ano passado, o Brasil tinha 33 milhões de pessoas trabalhando com carteira assinada (sem considerar empregados domésticos). Outras 11,5 milhões estavam atuando sem carteira, e outras 23,8 milhões por conta própria. E o que é pior: cerca de 27 milhões estavam na condição de desempregados e subocupados, sendo mais de 12 milhões caracterizados pelo IBGE como desempregados diretos acrescidos de 4 milhões de desalentados.

    Embora esquecido e obscurecido pela mídia hegemônica o fato é que a crise no mercado de trabalho brasileiro tem muito a ver com as políticas neoliberais do governo Temer, que assumiu em 2016 após um golpe de Estado, promoveu um novo regime fiscal recessivo e uma reforma trabalhista que, apimentada pela liberação geral da terceirização, contribuiu para acentuar a precarização do mercado de trabalho e a redução de salários e direitos.

    O governo Bolsonaro está radicalizando esta orientação, ampliando a ofensiva contra a classe trabalhadora com o fim do Ministério do Trabalho, o anúncio da carteira de trabalho verde e amarelo (sem nenhum direito e baseada no acordo individual entre patrão e empregado), a reforma da Previdência e nova rodada de privatizações. Se não houver uma reação à altura as condições de trabalho retrocederão aos primórdios do capitalismo, quando inexistiam leis trabalhistas e a jornada diária média de trabalho chegava a 16 horas (o que é realidade hoje para muitos motoristas de aplicativos e outros profissionais). 

    Mais pessoas inativas

    A pesquisa da OIT aponta que a proporção de pessoas que fazem parte da força de trabalho vem caindo nos últimos 25 anos, embora contraditoriamente a taxa do desemprego venha aumentando. Este aparente paradoxo encontra sua explicação no avanço da automação, que substitui o ser humano pela máquina, na redução das taxas de crescimento das economias, que deprime a demanda por mão de obra e na ampliação do exército de desalentados, que desistiram de procurar emprego.

    Atualmente, o número de pessoas com idade de trabalhar no mundo é de 5,7 bilhões. Entre elas, 3,3 bilhões estão empregadas, enquanto os desempregados somam 172 milhões. Outros 2 bilhões, aproximadamente, estão fora da força de trabalho.

    Divisão da força de trabalho no mundo (em bilhões de pessoas)

    Empregados: 3,3

    Fora da força de trabalho: 2

    Força de trabalho potencial: 0,14

    Desempregados: 0,172

    Fonte: OIT

    Umberto Martins, com informações das agências

     

     

  • Em contrapartida aos crescentes sinais de que a economia brasileira caminha novamente para o brejo da recessão, entre eles o recuo do PIB no primeiro trimestre (-0,2%) e das vendas do comércio em abril (-0,6%), o pessimismo avança em todas as áreas. Nesta segunda-feira (17), analistas das instituições financeiras baixaram novamente a expectativa de crescimento da produção para 0,96%.

    A nova previsão consta do boletim “Focus”, resultado de um levantamento feito junto a 100 instituições financeiras que registra a 16ª queda consecutiva neste ano. Pela primeira vez o índice ficou abaixo de 1%, refletindo a frustração do mercado com a realidade adversa da economia, em particular com os elevados índices de desemprego, que constituem o indicador mais fiel e dramático da crise.

    Governo inepto

    Parece notório que a dupla Bolsonaro/Guedes, preocupada em insultar a esquerda e agradar banqueiros e grandes capitalistas estrangeiros, não tem resposta para os graves problemas da economia nacional. A política neoliberal, imposta goela abaixo dos brasileiros, fundada no que os críticos batizaram de austericídio fiscal (ou seja, um rigor fiscal suicida), é a razão principal da crise.

    Até mesmo o liberal Rodrigo Maia (DEM/RJ) já se insurgiu contra tal orientação, reconhecendo que não será possível abrir caminho à recuperação econômica sem mexer no regime fiscal imposto pelo golpe de 2016, que congelou as despesas públicas do chamado Orçamento Primário (que exclui o pagamento de juros) por 20 anos, o que fez a taxa de investimentos da economia (Formação Bruta de Capital Fixo, no idioma do IBGE) despencar.

    A expectativa de que a confiança de empresários e consumidores iria subir fortemente com a posse de Jair Bolsonaro, o queridinho do mercado financeiro, não se confirmou. As trapalhadas do governo da extrema direita, que transformou o Palácio do Planalto numa espécie de usina de crises (conforme insinuou o presidente da Câmara), também não contribuem para melhorar o clima.

    Os fatos sugerem que a solução para a crise pressupõe mudanças radicais na política de restauração neoliberal imposta ao país após o golpe de 2016, radicalizada por Bolsonaro e Paulo Guedes, que aprofundou a recessão, precarizou ainda mais o mercado de trabalho e condena dezenas de milhões de brasileiros e brasileiras ao desemprego, à informalidade e ao desalento.

    Umberto Martins

  • Africanos tentam fugir para a Europa e são escravizados (Foto: AFP)

    A BBC (emissora estatal britânica) publica em seu site nesta quarta-feira (12), uma reportagem na qual denuncia um “mercado de escravos” de africanos que tentam chegar à Europa, passando pela Líbia, no norte do continente.

    De acordo com a reportagem, a Organização Internacional para as Migrações (OIM), da Organização das Nações Unidas (ONU), os refugiados são detidos por contrabandistas ou milícias e são “levadas para praças ou estacionamentos para serem vendidas”.

    Mônica Custódio, secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), afirma que está acontecendo uma reedição da Conferência de Berlim (realizada entre 15 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885 para organizar a ocupação da África pelas potências coloniais).

    “Em pleno século 21, o avanço do imperialismo sobre a África para se apropriar das riquezas do solo”, diz. “Esse avanço se dá na América Latina e em outras partes, deixando o mundo à beira da 3ª Guerra Mundial”.

    monica custodio fernanda ruy

    Para Mônica Custódio a escravidão avança com agenda neoliberal (Foto: Fernanda Ruy)

    “Centenas de jovens africanos subsaarianos foram encontrados nos chamados mercados de escravos, segundo o relatório da OIM”, afirma a matéria da BBC. “Mulheres também foram compradas por clientes da Líbia e levadas para casas onde foram forçadas a ser escravas sexuais”.

    A onda neoliberal avança sobre os povos que têm menos proteção, diz. Para ela, essa invasão imperialista “tira o pertencimento, a vida e aos que sobrevivem tira a dignidade. Retorna à condição desumana de séculos atrás, onde seres humanos foram escravizados”.

    Ela ressalta a Década Internacional de Afrodescendentes (saiba mais aqui), instaurada pela ONU, em 2015, para valorizar “os povos de origem africana e as suas contribuições para a construção de várias nações”.

    “Em nosso país, as reformas do governo golpista de Temer”, diz Custódio, “aumenta a percepção da falta de valor que temos para o Estado”. Com isso, aumenta o número de moradores de rua, de pedintes e de famílias desempregadas.

    Ouça Zumbi, de Jorge Ben Jor 

    “Deixa as mesas da classe trabalhadora vazias e as panelas esvaziadas. Coloca na mesma canoa furada, brancos pobres, negros, mulheres, jovens, população LGBT e indígenas. Tira a juventude da escola e a joga no desemprego e na possibilidade de aliciamento pelo tráfico”.

    Tudo isso, para ela, para criar um amplo mercado de trabalho com mão-de-obra sem remuneração. “Querem reduzir a maioridade penal para encher os presídios, privatizá-los e explorar os presos com o trabalho escravo”, denuncia.

    Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy