Sidebar

24
Qua, Abr

O bêbado e a equilibrista

  • Artistas mostram que será difícil calar a voz da resistência ao golpe; assista

    O rapper paulista Emicida fez um discurso emocionante em seu show deste sábado (7), em Brasília. Ele lembrou do tempo em que trabalhava numa pequena empresa e sofria racismo. Lembrou ainda que na iminência de Luiz Inácio Lula da Silva vencer a eleição, em 2002, o seu patrão fez piada dizendo que a esposa de Lula, dona Marisa Letícia, teria muito trabalho para limpar as janelas do Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República, na capital federal.

    Veja Emicida 

    “Desde aquele dia até o final da minha vida, nunca estarei do lado de alguém que ri de quem limpa janelas”, disse Emicida. De acordo com ele, a elite não suporta ver os mais pobres melhorarem de vida. E concluiu que “vai ser difícil nos calar”.

    Elza Soares também denunciou a prisão injusta de Lula em seu show em Buenos Aires – capital da Argentina – no sábado (7). “O meu país enfrenta um triste momento político e social”, afirmou a cantora carioca.

    “Querem matar nossos sonhos, querem prender nossas liberdades. Não irão conseguir. Lutarei por ela, lutarei por ele, lutarei por nós. Viva a democracia”, complementou.

    Elza Soares emociona 

    Já a paulista Ana Cañas cantou no acampamento em solidariedade ao ex-presidente em frente à sede da Polícia Federal, em Curitiba, capital do Paraná, e dedicou a Lula a canção hino da anistia de 1979, “O Bêbado e a Equilibrista”, de Aldir Blanc e João Bosco. “Lula Livre”, gritou ao final. E o público respondeu: “Eu Sou Lula”.

    Ana Cañas no acampamento em Curitiba  

    No mesmo sábado em que Lula se apresentou à PF, na saída do show de Maria Bethânia e Zeca Pagodinho, em Recife, capital de Pernambuco, o público saiu cantando “Olê, olê, olá Lula, Lula”.

    Pessoas cantam por Lula em Recife 

    Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB. Foto: José de Holanda

  • João Bosco ataca ação da PF na UFMG e não admite utilização de sua música

    O cantor e compositor João Bosco disse que não autoriza a utilização de sua música “O bêbado e a equilibrista”, em parceria com Aldir Blanc, na operação “Esperança equilibrista” da Polícia Federal que levou coercitivamente o reitor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e outros professores da universidade.

    Leia mais

    Condução coercitiva de reitores da UFMG causa revolta no país inteiro

    João Bosco tem mais de 40 anos de carreira com canções antológicas como “O rancho da goiabada”, “De frente pro crime”, “Kid cavaquinho”, “Dois pra lá, dois pra cá”, “Papel machê”, “O mestre sala dos mares”, “O ronco da cuíca”, entre muitas outras sempre em favor da liberdade, da democracia e da justiça.

    “O bêbado e a equilibrista” tornou-se o hino da anistia, que em 1979, permitiu a volta dos exilados políticos ao país. Começava a ruir a ditadura (1964-1985).

    Ouça "O bêbado e a equilibrista", de Aldir Blanc e João Bosco 

    “A operação da PF me toca de modo mais direto, pois foi batizada de “Esperança equilibrista”, em alusão à canção que Aldir Blanc e eu fizemos em honra a todos os que lutaram contra a ditadura brasileira. Essa canção foi e permanece sendo, na memória coletiva do país, um hino à liberdade e à luta pela retomada do processo democrático. Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental”, diz trecho da Nota do músico mineiro.

    Leia texto na íntegra abaixo:

    Recebi com indignação a notícia de que a Polícia Federal conduziu coercitivamente o reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, Jaime Ramirez, entre outros professores dessa universidade. A ação faz parte da investigação da construção do Memorial da Anistia.

    Como vem se tornando regra no Brasil, além da coerção desnecessária (ao que consta, não houve pedido prévio, cuja desobediência justificasse a medida), consta ainda que os acusados e seus advogados foram impedidos de ter acesso ao próprio processo, e alguns deles nem sequer sabiam se eram levados como testemunha ou suspeitos. O conjunto dessas medidas fere os princípios elementares do devido processo legal. É uma violência à cidadania.

    Isso seria motivo suficiente para minha indignação. Mas a operação da PF me toca de modo mais direto, pois foi batizada de “Esperança equilibrista”, em alusão à canção que Aldir Blanc e eu fizemos em honra a todos os que lutaram contra a ditadura brasileira. Essa canção foi e permanece sendo, na memória coletiva do país, um hino à liberdade e à luta pela retomada do processo democrático. Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental.

    Resta ainda um ponto. Há indícios que me levam a ver nessas medidas violentas um ato de ataque à universidade pública. Isso, num momento em que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, estado onde moro, definha por conta de crimes cometidos por gestores públicos, e o ensino superior gratuito sofre ataques de grandes instituições (alinhadas a uma visão mais plutocrata do que democrática). Fica aqui portanto também a minha defesa veemente da universidade pública, espaço fundamental para a promoção de igualdades na sociedade brasileira. É essa a esperança equilibrista que tem que continuar.

    João Bosco - 07/12/2017