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Ter, Mai

Paraíso do Tuiuti

  • O mundo assistiu à Paraíso do Tuiuti denunciar a ditadura brasileira no Sambódromo do Rio

    Desmentindo todas as pessoas que criticam a folia do Carnaval como “alienante”, a escola de samba Paraíso do Tuiuti fez um desfile apoteótico no Sambódromo do Rio de Janeiro na madrugada desta segunda-feira (12), com tema politizado e atual.

    Com o enredo “Meu Deus, meu Deus! Está extinta a escravidão?”, de Cláudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Jurandir e Aníbal, a escola mostrou na avenida a reforma trabalhista com as carteiras profissionais e o que chamou de escravidão nos tempos atuais, após o golpe de Estado de 2016, contra a classe trabalhadora e os interesses nacionais.

    Assista o desfile completo: 

     

    O enredo da Tuiuti constrangeu os comentaristas da Globo, criticada sutilmente como manipuladora, como mostra o crítico do UOL, Maurício Stycer: “Do camarote da Globo, onde narrava o desfile, Fátima Bernardes, Alex Escobar e Milton Cunha reagiram com comedimento ao surpreendente protesto, como se estivessem constrangidos. ‘As desigualdades vem vindo até os dias de hoje, dias de hoje’, disse Fátima. ‘Muitas confecções usam trabalho escravo’, observou. ‘Os manifestoches’, leu ela, ao ver passar a ala com os patos, sem dizer mais nada. ‘Manipulados’, acrescentou Milton”.

    E o samba enredo desceu a avenida levantando o público: “Irmão de olho claro ou da Guiné/Qual será o valor? Pobre artigo de mercado/Senhor eu não tenho a sua fé, e nem tenho a sua cor/Tenho sangue avermelhado/O mesmo que escorre da ferida/Mostra que a vida se lamenta por nós dois/Mas falta em seu peito um coração/Ao me dar escravidão e um prato de feijão com arroz”.

    Aprenda o samba enredo: 

    Desta vez o mundo viu e a Globo não teve como esconder. A escola empolgou o público e se tornou o segundo assunto mais comentado no Twitter no mundo e ficou no Trending Topics no Brasil. Pode não ganhar o desfile, mas mostrou ao mundo o desmonte dos direitos trabalhistas e do Estado brasileiro pelo governo golpista. Já na segunda-feira (19) tem grande manifestação contra a reforma da previdência.

    tuiuti desfile 2018 rio

    Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB

  • Por que o discurso de uma bolsista de Direito da PUC-SP viralizou na internet? Confira!

    O dia 15 de fevereiro entrou para história de Michele Maria Batista Alves e de todos os bolsistas no país. O discurso dela, representando os bolsistas, na colação de grau do curso de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) viralizou na internet por contar a sua trajetória num curso altamente elitista.

    A baiana de 23 anos, filha de trabalhadora doméstica, calou fundo na alma de milhões de brasileiros ao falar da “resistência da periferia, dos pretos, dos estudantes de escola pública”.

    A oradora dos prounistas chamou tanto a atenção que a revista Nova Escola, da Fundação Victor Civita, resolveu entrevistá-la (leia a reportagem na íntegra aqui). Ela resumiu a sua história de estudante de escola pública, do enfrentamento aos preconceitos e da conscientização de se identificar como pobre. Falou de resistência, de um povo acostumado a resistir.

    “Além de mostrar com clareza as dificuldades dos mais pobres nas universidades e de denunciar o preconceito, o discurso dela se destaca porque deixa claro a importância dos programas dos governos Lula e Dilma para criar possibilidades iguais no futuro “, afirma Vânia Marques Pinto, secretária de Políticas Sociais da CTB.

    A vida como ela é

    “Filha de mãe solteira, criada com a ajuda do avô, Michele veio para São Paulo aos 12 anos, para tratar de uma depressão. Sua família se estabeleceu numa casa alugada em Itapevi, cidade da Grande São Paulo onde mora até hoje, e de onde leva duas horas para ir e voltar ao centro da capital. A intenção inicial era regressar à Bahia, mas dois anos depois a descoberta de um tumor no pescoço adiou indefinidamente os planos”, escreve o repórter Rodrigo Ratier.

    Assista o discurso emocionante de Michele Alves 

    Ela só conseguiu entrar para o curso de Direito da PUC-SP que custa mais de R$ 3.000 mensais através do Programa Universidade Para Todos (ProUni) criado em 2004, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Programa que corre risco de extinção com Michel Temer.

    “O discurso da estudante denuncia uma conjuntura onde solidariedade, generosidade e respeito soam como palavaras obsoletas, uma realidade onde predomina o ódio, a indiferença e a vontade de se dar bem a qualquer custo", reforça Vânia. “Exatamente o que vemos nas ruas e nas redes, o ódio de classe, o racismo, o machismo e o egoísmo".

    Por isso, diz a sindicalista baiana, "esses jovens não veem a história e aformaçaõ do país, desconhecem o que a migração, principalmente de nordestinos, fez por São Paulo, ajudando a transformá-lo no estado mais rico da nação".

    Fora Temer sempre

    Michele fala de resistência. “Resistimos às piadas sobre pobres, às críticas sobre as esmolas que o governo nos dá. À falta de inglês fluente, de roupa social e linguajar rebuscado. Resistimos aos desabafos dos colegas sobre suas empregadas domésticas e seus porteiros. Mal sabiam que esses profissionais eram, na verdade, nossos pais”.

    Ao terminar foi aplaudida de pé. Soltou um básico “Fora Temer” e foi sentar-se. “O discurso dela fez pelos estudantes bolsistas o que o desfile da Paraíso do Tuiuti fez no resgate da dignidade de um povo acostumado à resistência há séculos”, ressalta Vânia.

    Já Michele afirma à Nova Escola que “é uma vitória saber que minha reflexão está chegando a lugares que antes não debatiam esse assunto. Quem sabe cause algum impacto na vida dos bolsistas que virão depois de mim”.

    Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB

  • Sintonia com sentimento popular explica sucesso da Tuiuti

    "Parece que nunca houve na história da Sapucaí uma escola pequena que entrasse em um ano e, no ano seguinte, fosse vice-campeã com um décimo de diferença", afirmou o músico Moacyr Luz, compositor da escola de samba carioca Paraíso do Tuiuti. A agremiação do bairro de São Cristóvão, região central do Rio de Janeiro, ficou atrás apenas da campeã Beija Flor no desfile do grupo especial do carnaval deste ano.

    A Tuiuti ganhou notoriedade e o apoio popular ao trazer para a avenida a temática da escravidão pós abolição, como persiste esse grande problema na história brasileira. Entre os destaques, duras críticas ao governo de Michel Temer (MDB), e a suas propostas de ataques a direitos, especialmente a reforma trabalhista que, entre outros retrocessos, dificulta o acesso à Justiça da parcela mais frágil da sociedade.

    "Sou um amador na questão política, meu sentimento é extremamente popular. Tenho uma pessoa que passa roupa na minha casa. Não consigo cobrar nada dela porque é injusto demais. Mora a quilômetros de distância e o transporte é péssimo. Como posso cobrar dela se o país não dá condições mínimas", afirmou Moacyr, em entrevista à Rádio Brasil Atual nesta sexta-feira (16).

    A Tuiuti veio de um sério problema no ano anterior. Antes do desfile, um incêndio nas alegorias dos componentes deixou uma pessoa morta. O músico ressalta a volta por cima da escola. "A responsabilidade era muito grande porque a escola veio de um problema no carro alegórico no ano passado. As chances eram muito poucas. Sentei com Claudio Russo (outro interprete do tema), pensamos na história e bate com o que temos observado das pessoas do Brasil", disse.

    O samba-enredo foi o grande destaque da Tuiuti, aliado à bela execução. Com o tema "Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão", a apresentação chocou o público ao escancarar a realidade. Comissão de frente representada por escravos torturados, fantasias de "manifestoches", em referência àqueles que saíram às ruas em defesa do impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), o que iniciou o governo neoliberal de Temer, patos de borracha com cifrões nos olhos, representando o apoio da Fiesp ao impeachment e o presidente vestido de vampiro com uma fantasia intitulada "Vampiro Neoliberalista".

    A repercussão junto ao público foi imensa. Internautas clamaram que a escola "lavou a alma" dos brasileiros. A hashtag #TuiutiCampeãDoPovo ficou dias entre as mais comentadas do país.

    Moacyr Luz é músico e compositor da escola de samba Paraíso do Tuiuti.

    Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.