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Noam Chomsky no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé 

O linguista, escritor, filósofo e ativista político norte-americano, Noam Chomsky, se reuniu com blogueiros e jornalistas da mídia alternativa, em São Paulo, para falar sobre linguagem, meios de comunicação e poder – seu assunto por excelência. 

Em pouco mais de trinta minutos, ele discorreu sobre a manipulação exercida pelos meios de comunicação e analisou as diferenças entre as mídias nos EUA e Inglaterra e nos países da América Latina, destacando a atuação das corporações da imprensa como aliadas em movimentos de direita para desestabilizar regimes e derrubar governos, como ocorreu no Brasil.

“Esta é a norma. É assim nos governos de esquerda da América Latina. Mesmo em situações de guerra, como foi na Nicarágua, no Brasil e na Venezuela, os governos foram incrivelmente abertos aos ataques da mídia”.

Chomsky é um admirador de Lula e o considera um dos mais importantes líderes políticos de esquerda dos tempos atuais. Ele participou de seminário na Fundação Perseu Abramo no dia 14 e, nesta quinta (20) vai a Curitiba para visitar o ex-presidente na Superintendência da Política Federal, onde ele está preso desde 7 de abril.

Autor de livros que destrincham as relações entre poder e linguagem, como O controle da mídia, Consenso fabricado e Quem governa o mundo, o intelectual detona a fama de “imprensa livre” cultivada pelos norte-americanos e britânicos.

“A imprensa é controlada por homens ricos e bem educados, em Oxford e outros centros prestigiados, que defendem certas ideias e sabem que há outras que não devem ser divulgadas nem ditas. São tratadas apenas em grupos alternativos, como este aqui”, disse o professor, referindo-se à plateia de aproximadamente 100 pessoas que abarrotou a sede do Centro de Estudo da Mídia Alternativa Barão de Itararé em sua palestra na noite chuvosa da última segunda-feira (17).

“A imprensa é controlada por homens ricos e bem educados, em Oxford e outros centros prestigiados, que defendem certas ideias e sabem que há outras que não devem ser ditas e muito menos divulgadas" 

Para Chomsky, há muito tempo as corporações que comandam as redes de comunicação são controladas por outras ainda maiores e imprimem às notícias o viés que lhes convém e "tratam a informação como mercadorias que interessam à empresa, aos anunciantes e às agências de propaganda". Ou seja, é o que já testemunhamos por aqui: o que se lê nos grandes veículos é, quase sempre, resultado de um consórcio entre estes interesses.

La Prensa e sandinistas

Ao tratar da relação da imprensa com a esquerda latino americana, ele contou que nos anos 1980 passou uma semana em um retiro de jesuítas em Manágua (capital da Nicarágua), e neste período acompanhou as edições do jornal diário La Prensa, principal publicação do país, e sua forte campanha para derrubar o governo sandinista. “Se algo assim ocorresse nos EUA, os proprietários do jornal seriam, com sorte, presos”.

Indagado se os governos do PT erraram em não limitar os poderes da Rede Globo no Brasil, Chomsky afirma: “Esta é a norma. É assim nos governos de esquerda da América Latina. Mesmo em situações de guerra, como foi na Nicarágua e na Venezuela, governos de esquerda foram incrivelmente abertos aos ataques da mídia”.

O professor não entra no mérito sobre o que deveria ser feito, mas afirma que nos EUA, por exemplo, que se autoproclamam um exemplo de imprensa livre, esse tipo de conduta jornalística por parte de grandes conglomerados de mídia seria severamente reprimido. 

George Orwell

Para exemplificar e dar a dimensão histórica e social da manipulação do pensamento, Chomsky cita o autor inglês George Orwell e seu clássico Revolução dos bichos, de 1945, que satiriza o totalitarismo. 

Ele lembra que o prefácio do livro só foi conhecido três décadas após o lançamento da obra, porque, justamente, criticava o pensamento seletivo e classista das elites inglesas e suas prestigiadas instituições de ensino.

“Não é exatamente proibido dizer isso ou aquilo, mas dizê-lo é uma coisa que não se faz. Assim como na era vitoriana falar de roupas de baixo na presença de uma senhora era coisa que não se fazia,” diz um trecho do prefácio censurado.

"E indo um passo além de Orwell, percebe-se que isso hoje já foi internalizado pelas pessoas, como nos ensina [o filósofo marxista Antonio] Gramcsi com a sua teoria do senso comum hegemônico", diz o professor.

"Bernie Sanders não desagradaria Eisenhower"

Em resposta a um blogueiro que perguntou sobre a possibilidade de um governo socialista nos EUA, Chomsky afirmou que não se pode descartar esta possibilidade, mas que os líderes de esquerda contemporâneos nos EUA não são muito expressivos ou verdadeiramente comprometidos com um ideário socialista.

E ironizou o senador democrata Bernie Sanders, que polarizou com Hillary Clinton, se posicionando à esquerda, nas últimas eleições americanas.

“Bernie Sanders, a principal expressão da esquerda no país atualmente, possui um discurso tão ameno e afeito à social democracia que, provavelmente, não desagradaria (Dwight) Eisenhower”, afirmou Chomsky, se referindo ao ex-presidente republicano (1953-1961), que foi um notório belicista e anticomunista.

Portal CTB

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