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Os 7.746.261 jovens, dentre os quais 4.458.265 (57,5%) do sexo feminino, inscritos para realizar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano tiveram que refletir sobre "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira", tema da redação do exame. 

A proposta do Enem trouxe à baila velhos rancores dos setores conservadores da sociedade que atacaram de modo virulento o tema da redação, assim como outras questões de ciências humanas com destaque para o debate acerca da igualdade.

“Essa prova do Enem me deixou perplexa e emocionada. Não que a prova em si vá mudar algo a curto prazo. Mas com certeza, demonstra que nosso projeto não está acabado apesar de todas as investidas desta direita fascista”, diz Isis Tavares, presidenta da CTB-AM.

A presidenta da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), Bárbara Melo, acredita que “o grande diferencial das provas do Enem em relação a outros vestibulares é exatamente que ele trata muito da atualidade”. Ela acredita que essa proposta é positiva.

A mesma coisa pensa Isis, que também é Secretária de Relações de Gênero da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação.

Para ela, “atualmente sofremos os efeitos de não termos feito a formação necessária em todas as áreas da sociedade ao longo das mudanças e avanços na área social. Nas entidades da sociedade civil organizada, nas universidades com reflexo no ensino básico e nos diversos cursos profissionais”.

Ela afirma ainda que no currículo dos anos 1990 tinha implícito um modo de integrar os alunos ao processo de globalização. “A estética da sensibilidade revela intenções políticas de conformação e adequação da sociedade brasileira ao mundo globalizado, sem apresentar uma preocupação em uma formação estética que constitua sujeitos capazes de reagir de modo crítico e alternativo aos imperativos da Indústria Cultural e da cultura de consumo”.

Já o professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB) Remi Castioni acredita que a educação deveria estar antenada com a atualidade e é uma pena que “os temas atuais não fazem parte do cotidiano dos nossos estudantes, principalmente do ensino médio, porque essa seria uma maneira eficiente de levar a juventude a refletir sobre as nossas mazelas”.

Enquanto Bárbara defende a inclusão da questão de gênero no currículo das escolas. Ela pensa que a inclusão das questões de gênero no currículo escolar pode mudar muita coisa no país e acabar com preconceitos. “Certamente a inclusão dessa questão de gênero no currículo ajudaria a vida das mulheres e também dos LGBTs”, diz.

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Congresso do retrocesso

Em apoio à prova do Enem, o filósofo e ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro defende que “existe um setor muito conservador no Congresso, que tem protestado contra uma série de medidas liberais do ponto de vista da conduta pessoal”.

Dessa forma acentua Janine, “a liberdade e a igualdade estão em xeque - há vários projetos no Congresso contra esses valores, sobretudo os que querem eliminar tipos de família que já existem”. Por isso, é muito importante mostrar “que temos problema de desigualdade, de violência, que a igualdade não está assegurada para mulheres, negros e outros grupos”, afirma.

Tese complementada por Madalena Guasco Peixoto, coordenadora-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee). Para  a professora Madalena, “as forças conservadoras estão lutando inclusive propondo projeto de lei que criminaliza a ação dos professores em sala de aula proibindo o debate sobre qualquer tema político, além da questão de gênero que eles são contra a introdução do tema na escola”.

Opressão nas escolas

Já Bárbara reclama que as meninas sentem a opressão na escola. Opressão que “vai desde os colegas até os professores”, fala. “Opressão contra a forma que estamos vestidas, por não estarmos enquadradas em determinados padrões de beleza”.

Ela explica que a escola não trata o tema da desigualdade de gênero. “Então esses preconceitos e essas discriminações, contra as meninas em especial, acontecem dentro das escolas e precisamos combater isso”.

Porque as escolas deveriam debater como “a sociedade procura condicionar as mulheres a um determinado comportamento, mas que elas são livres para serem da forma que quiserem, da forma que sejam mais felizes”, defende Bárbara. “A sociedade não pode combater a individualidade das pessoas, mas infelizmente é isso que ela faz”.

“Do ponto de vista da formação, é extremamente importante que a escola proporcione reflexões para os jovens. No caso, refletir sobre o uso da força física para se sobrepor ou até eliminar alguém. Refletir sobre a convivência entre nós seres humanos e o que nos leva a partir para a violência para solucionar questões que deveriam ser resolvidas na base do diálogo, da compreensão e do amor”, afirma Castioni.

A reação de setores masi conservadores da direita brasileira por si só já revela a necessidade de um amplo debate sobre o papel da educação numa sociedade de classes e o que leva a tanta violência contra o outro. A presidenta da UBES critica os setores que atacaram o Enem popr conter questões atuais em sua prova porque “se refletir a realidade é uma questão da esquerda como estão dizendo. Acaba revelando que a direita brasileira tem verdadeiro ódio às mulheres que ousam defender direitos iguais, assim como atacam todos os que ousam levar a vida com acreditam ser o melhor para si".

O debate se amplia

Para Castioni, que também é secretário-geral da Associação dos Docentes da UnB, “a grande discussão na educação é o modelo de ensino que queremos. Porque o enfoque atual é extremamente disciplinar na organização dos conteúdos e isso precisa mudar”.

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E ele explica que “está mais do que provado de que as respostas aos temas candentes da sociedade estão fora dos conteúdos disciplinares”. Segundo Castioni, atualmente tentam mais condicionar a juventude, mas “é muito importante desafiar os jovens a refletir sobre a vida e os acontecimentos atuais”.

Bárbara acredita que “a educação precisa ter ligação com o dia-a-dia das pessoas”. Já Carina Vitral, presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) ataca a “reação incompatível de setores conservadores à importância do tema proposto”.

De acordo com Carina, “a violência contra a mulher deveria ser combatida por toda a sociedade. Se esses setores se colocam contra esse tema é porque são a favor da violência contra a mulher, o que por si só é assustador”.

“A construção de uma pátria educadora se faz a partir da discussão de questões que mudam mentalidades e com isso, provocam mudanças culturais e rompem paradigmas”, diz Eleonora Menicucci, secretária especial de Políticas para as Mulheres do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, em texto publicado pela secretaria em apoio ao tema (leia a íntegra do texto).

“É fundamental que a escola e todos os ambientes educativos coloquem no centro a conscientização contra qualquer tipo de desigualdade e de discriminação”, defende Madalena.

Gabarito disponível

Os gabaritos das provas objetivas do Enem já estão disponíveis na internet, divulgados nesta quarta-feira (28). As provas digitalizadas estarão disponíveis na sexta-feira (30).

Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB