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Por Mino Carta, na Carta Capital

Lula ainda é o eixo do sistema político brasileiro. No País dividido medra o confronto entre quem quer o ex-presidente preso e quem invoca a sua liberdade. Eis a questão capital a partir de um golpe desfechado para impedir a participação do ex-metalúrgico da eleição que venceria. O objetivo foi alcançado graças a uma conspiração instintiva, creio eu, entre os poderes da República, com o apoio irrestrito da mídia nativa e do nosso exército de ocupação, e o suporte decisivo da Lava Jato e das estripulias dos inquisidores curitibanos, lacaios de Washington. E o Brasil há mais de três anos vive uma fraude.

CartaCapital, que acompanhou a tragédia passo a passo, encontra hoje a confirmação de tudo quanto publicou nas revelações do The Intercept, as últimas, inclusive, sobre as formas de tortura excogitadas por Sérgio Moro: presos os delatores e submetidos a interrogatórios asfixiantes, só conseguiam ver aceita a delação se dissessem ao torturador o que queria ouvir.

Ou melhor: o que o torturador precisava ouvir para alcançar a prova buscada, falsa, mas eficaz, com todas as mazelas de um desvairado tribunal do Santo Ofício. Sim, o Brasil de hoje tem a cara que merece, os traços escancarados da parvoíce e da ignorância, e nesta moldura não desfiguram muitos pretensos intelectuais, orgânicos ou não. Não somos, definitivamente, um país democrático e civilizado, e como tal CartaCapital o encara.

Quem deseja Lula preso sine die? Desde o Departamento de Estado a Bolsonaro, desde Sérgio Moro ao general Heleno, desde o famigerado mercado até os barões midiáticos. Os manifestantes de recém-encenada fé bolsonarista, dos devotos das redes sociais, os robotizados cidadãos a caminhar na treva. Há os que querem Lula solto, creio mesmo em número maior do que se possa imaginar, tolhidos, contudo, pelo temor atávico. Não me cairia o queixo, porém, se percebesse dentro do PT quem prefere o seu fundador preso.

A cadeia para um grande líder popular em um país capaz de digerir os efeitos da Revolução Francesa causaria grande tensão, manifestações imponentes, choques nas ruas, sangue na calçada. Aqui opta-se por uma insana tranquilidade, doloroso, deprimente faz de conta. Há quem se disponha a investigar as intenções de Bolsonaro e sua turma a destruírem com o empenho de Caliban os eventuais resquícios do Estado de Direito?

Um gaiato escreve na Folha de S.Paulo de quarta 3 que nada disso põe em xeque a imparcialidade do juiz alvejado por meras calúnias, divertida contribuição à cômica hipocrisia de tantos, sem exclusão, está claro, do torquemadazinho alçado, como prêmio, ao posto de ministro da Justiça. Justiça? O que causa o maior espanto é a indiferença brasileira diante do engodo. Ocorre, como sabemos, ou deveríamos saber, que a maioria dos brasileiros ainda trafega pelo Limbo, tomada pela resignação inculcada pela casa-grande, e, portanto, incapaz de exercer o espírito crítico, enquanto a minoria cultiva com naturalidade o ódio racial e de classe. Como é do conhecimento até do mundo mineral.

Neste espaço tenho me empenhado em apontar a indiferença dos brasileiros que desconhecem o seu próprio país, ao lhe atribuir qualidades inexistentes e tendências idem, mais alguma contemporaneidade do mundo. Poucos, pouquíssimos, percebem a acabrunhante unicidade do fenômeno brasileiro, vincada por uma forma de medievalidade a resistir impávida no país da casa-grande e da senzala, implacavelmente de pé.

É um festival de equívocos e sandices para erguer um monstro sem cabeça em seu lugar. Um regime de força, prepotência, arrogância, para impor circunstâncias nunca dantes navegadas de totalitarismo demente. E promover a liquidação do Brasil e sua inserção no quintal de Tio Sam. A reportagem de capa desta edição [da revista Carta Capital] fornece o mapa da demolição em andamento e dos seus alvos.

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