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Qua, Dez

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Suponha que você crie fantasmas e em seguida contrate exorcistas para acabarem com eles. Esta é mais ou menos a situação de países que pagam agências de risco para os avaliarem. Trata-se de uma das coisas mais estúpidas que podem acontecer nas relações financeiras internacionais porque as agências de risco, desde que o FMI e o Banco Mundial perderam parte de seu poder de pressão política, não são propriamente avaliadoras de crédito, mas sim avaliadoras de políticas econômicas dos países.​

É uma intromissão direta desses agentes privados – principalmente Standard&Poors, Moody´s e Fitch – na vida interna dos países. Uma violação consentida de soberania. Pessoas de boa fé podem acreditar que se trata realmente de avaliação técnica de crédito mas o propósito profundo é alinhar os diferentes países, e em especial aqueles em desenvolvimento, ao famigerado Consenso de Washington e às políticas neoliberais no plano fiscal-monetário e em outras dimensões macroeconômicas, como s plena liberdade dos fluxos de capitais.

Se há dúvida sobre isso, basta examinar a cobertura que a Globo deu ontem à notícia de rebaixamento da nota da Standard&Poors para o Brasil. Foram três longas interseções intercaladas ao longo do noticiário. Nenhum outro assunto mereceu algo sequer parecido. E a pergunta que se faz é: Por quê essa cobertura exaustiva? A quê se deve isso se a televisão é um instrumento de comunicação de massa, e há poucas razões para acreditar que a esmagadora maioria dos telespectadores da Globo nem sabe o que é agência de risco?

Sabem a razão da extensa cobertura? A Globo está pouco se lixando para risco-país, mas se mostra interessadíssima na reforma da Previdência, de interesse reconhecido para o grande capital financeiro interno e mundial. Ela então cria um fantasma, o escândalo em torno do rebaixamento da nota, e em seguida apresenta o exorcista: A reforma previdenciária. Aí tudo encaixa, porque é também o discurso de Michel Temer e Henrique Meirelles. Sem reforma da Previdência, dizem eles, o rebaixamento da agência nos levará ao fim do mundo.

Para um governo mergulhado na mentira e na hipocrisia, e com sabidas relações com a canalha financeira externa, não seria difícil conseguir com a agência de risco dar uma marretada na nota para supostamente melhorar seu perfil de crédito. Se fizesse isso perderia a oportunidade exigir do Congresso a reforma da Previdência. No cardápio vai junto a queda de inflação - obviamente um fenômeno de demanda, devido ao alto desemprego e queda de salários -, que também se apresenta como motivo para a reforma previdenciária.

Um governo futuro, comprometido com a soberania nacional e a defesa dos interesses populares, saberá escapar da armadilha das agências de risco ocidentais. Bastaria consolidar suas relações com o sistema financeiro asiático, aprofundando as conexões com o Novo Banco de Desenvolvimento, ou Banco dos BRICS, e outros grandes bancos chineses. A China tem uma agência de classificação de risco, Dagong, bem ancorada em informações técnicas. Tenho certeza de que recomendaria crédito ao Brasil sem se meter na política econômica interna. 

José Carlos de Assis é economista, doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, professor de Economia Internacional na Universidade Estadual da Paraíba e autor de mais de 20 livros sobre economia política.

Artigo publicado no Jornal GGN


Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

 

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