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Seg, Dez

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Alguns esclarecimentos, vindos daqui, de quem trabalhou e supervisionou aproximadamente 20 médicos cubanos desde 2015, no Vale do Javari (alto Solimões), no Alto Rio Negro e em Roraima… Atendendo aldeias indígenas (Marubo, Mati, Kanamari, Baré, Baniwa, Tucano, Hupda, Ingaricó, Wapixana, Yanomami, Macuxi… só pra citar algumas etnias) que antes não contavam com médico:

1. Nenhum médico foi obrigado a vir. Todos estavam muito contentes em servir, numa missão internacionalista, levando saúde aos povos. Inclusive, os médicos do qual fui professor em Cuba (módulos de preparação antes de virem ao Brasil, sobre SUS, epidemiologia brasileira, enfim…), constantemente me procuravam no Facebook querendo saber se eu sabia quando que o governo brasileiro iria chamar a próxima leva de médicos. Ficavam realmente ansiosos para vir. Viam como uma grande oportunidade profissional e financeira.

2. 3 mil reais por mês no contexto cubano é muito dinheiro (1 kg de arroz em Cuba custa o equivalente a 0,08 reais, sim, 8 centavos). Além disso recebiam auxílio moradia e alimentação dos municípios, os distritos indígenas…

3. O restante do dinheiro pago pelo governo brasileiro ia para Cuba, investido na formação de mais médicos que são enviados para missões no mundo todo (é o país que mais exporta médicos no mundo – alguns países exportam armas, outro nióbio, outros médicos…). Esse dinheiro é investido em saúde e educação de qualidade, grátis. Lembrando que a maioria dos países que recebem médicos cubanos, recebem sem custo. Quem paga é o governo cubano. Esse foi o caso no Haiti, no Congo, no Nepal, Angola e Paquistão…

4. Esses médicos ficavam 3 anos trabalhando nas aldeias. Vínculo e longitudinalidade recordes. Eu que sou um médico que curte estar no mato, dormindo em rede, sem wi-fi, não fiquei mais que um ano como médico de área indígena. Quis voltar a Floripa, pelos meus hábitos e maneiras.

5. Esses dias agora nas aldeias indígenas na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, vi médicos cubanos chorando pelo fim do programa. Vi equipes de saúde emocionadas por nunca antes terem trabalhado com um médico tão compromissado e humilde. Vi médicos chorando de tristeza pelo povo que atendiam.

Eu vi e vivi isso. Estava em área indígena com um médico cubano, quase fronteira com Guiana quando recebemos a notícia do rompimento de Cuba. Lamentamos, choramos juntos. Eu estava sentado e cabisbaixo. Quando o médico cubano, Miguel, toca meu ombro, sorri, e diz: “ei, doutor, vamos lá colega, não desanima, tem uma paciente gestante esperando, há trabalho agora. Levanta.”

Então: vontade de mandar tomar no monossílabo quem diz que eram escravos. Quem vem com cinismo classista e corporatista, falar do alto da distância e da indiferença, da ignorância das realidades dos rincões desse país, desse povo e das nações indígenas.

Henrique Schlossmacher Passos -Atualmente é médico supervisor do Grupo Especial de Supervisão do Programa Mais Médicos em Roraima. Atua como médico generalista e realiza consultas domiciliares em Florianópolis. Tem experiência no campo da Saúde Indígena. Foi supervisor do Programa Mais Médicos Para o Brasil no Distrito Sanitário Especial Indigena (Dsei) do Vale do Javari e do Alto Rio Negro. Também foi médico assistente de área indígena nos Dsei Alto Rio Negro/AM – onde trabalhou com formação de agentes indígenas de saúde junto à Fiocruz, e no Dsei Interior Sul/SC. É especialista em Acupuntura médica pelo CESAC-PR. (Informações na Plataforma Lattes).

Foto de Araquém Alcântara, que, em 2015, percorreu 20 estados e 38 municípios para registrar a atuação dos médicos cubanos. Médico chegando a uma aldeia Jutaí em Borba (AM)

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