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Tratados como tabu, transtornos psicológicos como depressão e ansiedade atingem cada vez mais parcelas da população mundial, porém, na maioria das vezes, tais patologias ainda são subestimadas ou ignoradas pela sociedade.

Casos como o Jogo da Baleia Azul, onde relatos afirmam que adolescentes cumprem 50 metas até cometerem suicídio, ou a repercussão do seriado da Netflix 13 Reasons Why (13 Porquês) que aborda o suicídio de uma garota após sofrer bullying no colégio, geraram recentemente um debate sobre as altas taxas de jovens que possuem transtornos mentais, reforçado com os dados apresentados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de que o Brasil é o país mais deprimido e ansioso da América Latina.

Desde que a série 13 Reasons Why foi lançada no Brasil, houve um aumento de 455% nas mensagens de e-mails com pedidos de ajuda ao CVV (Centro de Valorização da Vida), e, no caso da Baleia Azul, policiais investigam a relação de óbitos de adolescentes com o desafio, como o caso da jovem Ana de Oliveira, de 15 anos, que pulou da Ponte Presidente Dutra, localizada entre Pernambuco e Bahia.

A psicóloga Samira Falcão acredita que adolescentes que se identificam com desafios do tipo Baleia Azul já apresentam algum desequilíbrio emocional. “É uma passagem de muita instabilidade, eles estão aprendendo a verbalizar seus sentimentos, começam a frequentar outros nichos sociais além do convívio escolar e da família, ou seja, entram em contato com novas sensações e pensamentos além da maturação do cérebro que é levada em consideração nessa fase”, explica.

Samira alerta que os transtornos mentais, em sua maioria, são tratados de forma romantizada ou são subestimados como uma “frescura”. “Eu observei muitas piadas com esse episódio da Baleia Azul, disseram que é falta de palmada dos pais, definitivamente questões como a depressão e ansiedade não são levadas a sério em nossa sociedade”, ressalta.

A psicóloga diz que o diálogo e a interação dos pais com os filhos são as palavras-chave para evitar uma situação extrema. “Perceber o choro constante, falta de sono e apetite, isolamento social, notas baixas, são comportamentos que podem ser depressivos, por isso a relevância da participação dos pais na vida desses filhos e a procura de uma ajuda especializada”, conclui Samira.

Construção cultural e social como agentes da bullying e transtornos mentais

A antropóloga Milena Mateuzi é membro da Justiça Restaurativa, que tem como objetivo buscar saídas não punitivas de conflitos sociais, baseada em valores e que estabelece o diálogo e responsabilização entre todos os envolvidos, a vítima, o ofensor e a comunidade. No Brasil, a Justiça Restaurativa penetrou com mais intensidade através do Judiciário.

Ao analisar as situações onde o jovem encontra maior vulnerabilidade, Milena cita o bullying. “Na maioria das vezes, as agressões ocorrem devido ao racismo, machismo, homofobia e desigualdade social, através das instituições familiares e escolares que, em sua grande maioria, se omitem das situações de violência, gerando um impacto na sanidade mental e sofrimento dessa vítima”, alerta.

“Então ocorre uma opressão gigante por parte dos colegas de classe, mas a escola também ratifica esse bullying quando atua no sentido de omissão ou reforçando esse comportamento, ou seja, existe uma reprodução dessa violência naturalizada nas relações sociais. Quando uma criança é chamada de macaca, você tem uma reprodução do racismo nessa escola, muitas vezes tratado por professores como piada, silêncio ou uma questão a ser resolvida entre os alunos, isso gera uma construção de muita dor e estigma”, relata Milena.

A antropóloga chama atenção sobre a naturalização da violência no cotidiano social. “A violência de gênero, por exemplo, está muito enraizada nas famílias e as vítimas acabam acreditando que são inferiores, inadequadas, aumentando o sentimento de culpa. A opressão é tão grande que o suicídio, no limite, acaba sendo uma saída possível para alguém que já carrega tanto sofrimento e culpa.”

Milena conclui dizendo que um dos pilares da Justiça Restaurativa é buscar um espaço de partilha entre as vítimas de conflitos. “É preciso acolher, compartilhar esse sofrimento, há um tempo as pessoas individualizam essas questões, hoje existe um compartilhamento maior dessas situações de violência, contribuindo para retirar dessa vítima a culpabilização”, finaliza.

Prevenção e acolhimento

Existem alguns canais gratuitos de atendimento a vítimas de depressão. O CVV - Centro de Valorização da Vida, atende 24 horas por dia no telefone 141. O Ministério da Saúde também abriu uma linha exclusiva de telefone, gratuitamente, para prevenção do suicídio, o 188.

Em uma sociedade que prega a felicidade constante, lucro exacerbado, padrões estéticos como regras obrigatórias de sociabilidade, as taxas de suicídio seguem altas, mas os canais de diálogo para o enfrentamento desses transtornos aumentam e denunciam que a saúde mental deve ser tratada com respeito e seriedade.

Fonte: Portal Vermelho, por Laís Gouveia

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