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Seg, Maio

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Com exclusividade, a cineasta Tata Amaral falou ao Portal CTB sobre a sua carreira e o momento político do país. Pela primeira vez, ela abre o jogo sobre o seu próximo filme “Sequestro Relâmpago”, ainda em execução.

A cineasta paulistana tornou-se uma das mais importantes da cinematografia nacional. “Cinéfila desde os 14 anos, eu comecei a estudar cinema como ouvinte no curso da Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de São Paulo, pois não havia passado no vestibular”, diz ela ao explicar como escolheu essa carreira.

Naquela época, diz ela, “era como se eu dissesse que queria ser marciana, bem diferente de hoje”. Seu primeiro longa foi “Um Céu de Estrelas", que estreou em 1995 e foi premiado nos festivais de Brasília, Boston (EUA), Trieste (Itália), Créteil (França) e Havana (Cuba). Também dirigiu “Hoje” (2011), “Antônia” (2006), “Através da Janela” (2000). Todos muito premiados.

Em 2006, criou a produtora Tangerina Entretenimento, em sociedade com sua filha Caru Alves de Souza. Para Amaral, “os produtores, criadores, artistas e técnicos devem lutar para que a cultura seja sempre diversa, inclusiva e que reflita a riqueza de um país tão pluricultural e de dimensões continentais como é o Brasil”.

O seu filme mais recente, “Trago Comigo”, reflete sobre a relação da geração que enfrentou a ditadura (1964-1985) e a juventude atual que não consegue entender como aquilo pôde ocorrer.

Leia a íntegra da entrevista abaixo:

Como ingressou na carreira do cinema? Enfrentou dificuldades por ser mulher?

Quando me perguntei sobre qual profissão seguir, respondi como uma pergunta: o que mais gosto na vida? A resposta seguinte foi: cinema. Era cinéfila desde os 14 anos. Comecei a estudar cinema como ouvinte no curso da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, pois não havia passado no vestibular. Na época, todo mundo me perguntava: mas o que vai fazer para sobreviver? Minha resposta era sempre a mesma: quero viver de cinema. A opção não tinha registro. Ninguém era profissional de cinema. Era como se eu dissesse que queria ser marciana, bem diferente de hoje. Cinema é uma profissão almejada.

O seu filme mais recente “Trago Comigo” reflete sobre o país não ter resolvido a questão do desrespeito aos direitos humanos pela ditadura e sobre a dificuldade em superar os traumas dos torturados. Por que acha importante refletir sobre esse assunto na atual conjuntura?

Acho importante refletir e agir. Pelo fato de nunca havermos punidos aqueles que cometeram crimes de lesa humanidade, ao contrário, os premiamos com aposentadorias etc., sinalizamos para nossa sociedade que permitimos que estes crimes sejam praticados por aqui.

De fato, o Brasil é um dos países que mais violam direitos. A Polícia Militar, por exemplo, mata mais pessoas por ano do que muitas guerras.

Ano passado, conversando com uma cineasta francesa, ela me permitiu um insight: é como se os processos de Nuremberg nunca tivessem existido. Estes processos julgaram os nazistas após a Segunda Guerra Mundial. Os nazistas foram acusados por crimes de lesa humanidade. Estes julgamentos, além de identificar e punir os criminosos nazistas, sinalizaram para a sociedade mundial, especialmente a alemã e europeia, de que aqueles crimes não mais seriam admitidos. Os criminosos foram presos e perderam seus direitos civis.

A tortura é um crime de lesa humanidade e a pena para estes crimes é imprescritível. O Brasil é signatário de todos os acordos internacionais que definem estes crimes. No entanto, aqui, não se pune, ao contrário, se permite os crimes de lesa humanidade.

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Em evento com Dilma na Casa de Portugal, em São Paulo, você falou sobre a necessidade de mais mulheres e mais negros fazendo cinema. O que precisa mudar para isso acontecer?

Precisamos assegurar, através de cotas e demais políticas de inclusão, que nossa cinematografia reflita a sociedade brasileira que é composta, em sua maioria, por mulheres e negras/negros.

Como vê a gestão do atual ministro da Cultura e a resistência dos agentes da cultura?

Vejo que os produtores, criadores, artistas e técnicos devem lutar para que a cultura seja sempre diversa, inclusiva e que reflita a riqueza de um país tão pluricultural e de dimensões continentais como é o Brasil. O governo democraticamente eleito estava em busca de proporcionar esta diversidade.

Com a consolidação do golpe, ficará muito mais difícil fazer cinema no Brasil?

Espero que não. Em todo caso, um golpe não dura para sempre.

Já tem um próximo filme em mente?

Já estou trabalhando no meu próximo filme. Chama-se “Sequestro Relâmpago”. É a história de uma garota de 21 anos, que é vítima de um sequestro relâmpago, cometido por dois jovens, que unem suas forças para praticar uma série de sequestros.

Nina é a primeira de suas vítimas daquele dia. Estão nervosos, Nina também. O primeiro caixa eletrônico está quebrado. Os sequestradores não conseguem chegar a tempo no próximo.

A tensão aumenta porque os caixas permanecem sem funcionar até às 6 horas da manhã do dia seguinte. Os garotos, irritados, discutem o que fazer com Nina. As opções não são boas, mas não são anunciadas. Silêncio e tensão.

Refém dentro de seu próprio automóvel, Nina precisará a todo o momento negociar sua situação com Matheus e Japa.

Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB

Assista "Trago Comigo":  

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