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No terceiro e último encontro da semana no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão e o jornalista Paulo Moreira Leite debateram sobre os efeitos da midiática Operação Lava-Jato no cenário político brasileiro. A conversa faz parte dos eventos da Semana Nacional pela Democratização da Comunicação.

Você pode assistir ao debate na íntegra logo abaixo, mediado pela coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, Renata Mielli:

Eugênio Aragão era o ministro da Justiça de Dilma Rousseff quando a Lava Jato tornou-se o monstro midiático que mergulhou o país no caos. Em sua fala, uma coisa é clara: o procurador aposentado não tem grande admiração pelos “meninos da Lava Jato”.

Eu costumo dizer que a Operação Lava Jato foi, acima de tudo, uma grande vitória corporativa do Ministério Público. Desde o caso de Fernando Collor, surgiu esse impulso de heroísmo individual. Houve um processo de fulanização da Justiça, a imprensa deu capas falando dos meninos que ajudavam o procurador-geral como ‘Os Intocáveis’. Eu não tenho dúvidas de que muitos seguiram carreira do Ministério Público porque estavam impressionados”, explicou.

Aragão criticou o excesso de benesses da carreira de procurador no Brasil, e acusou o sistema atual de favorecer dinastias. “Vocês imaginem o que é um menino que acabou de começar a carreira do Direito poder ganhar R$ 29 mil, olhar para o seu governador do Estado de olho a olho, poder esfregar a carteira na cara de qualquer autoridade… Isso realmente deixa qualquer um fora da casinha. Esses meninos estudam muito, porque têm o papai para bancar os anos que precisam para isso, e têm o objetivo de ir da periferia para o centro. São muito consumistas, muito acostumados com o conforto, e estão em busca da auto-afirmação. A Lava-Jato é isso: um grande projeto de auto-afirmação”, continuou.

A avaliação do ex-ministro é de que a Lava Jato poderia ter contribuído para a moralização do ambiente de negócios no Brasil, mas se perdeu na “forma atabalhoada” como foi executada pelo Ministério Público. “Eles atribuíram para o Direito Penal um papel muito mais amplo do que ele pode exercer, de limpar a sociedade, e isso leva a todo tipo de comportamento autoritário”, avaliou. “Essa garotada não tem noção de economia, nem noção de política, nem noção de empresa. Se a gente pegar a Volkswagen, lá na Alemanha… ora, é uma empresa que não prima pelos métodos mais honestos. Agora, não me parece que veio nenhum promotor alemão aplicar multas exterminadoras de sua saúde econômica. Ninguém está interessado em acabar com a Volks, ela é um símbolo da Alemanha”.

Paulo Moreira Leite, por outro lado, preferiu abordar a questão pelo aspecto da disputa midiática em torno da Lava Jato. Ele foi o autor do livro “A Outra História da Lava-Jato”, que expõe as violações cometidas pela equipe de Sergio Moro.

Nós erramos feio ao não criar uma mídia progressista forte, capaz de competir com a grande mídia de igual para igual. A Lava Jato foi o começo de um projeto de um Estado de Exceção do Brasil, e ela é inseparável da mídia. Ela representa uma grande fantasia, uma grande ideologia, que coloca a corrupção como o grande mal do Brasil. Isso já havia sido feito na década de 50, quando a mídia tentou usar a mesma estratégia contra Getúlio Vargas”, relembrou, delineando a estratégia midiática daquela época. Leite enxerga nessa abordagem uma mentalidade que desqualifica o povo e suas decisões, no mesmo tom usado pelo General Mourão em seu recente discurso, no qual insinuou a possibilidade de um golpe militar.

“Há um agravamento do pensamento unitário na mídia. Se há 30 anos você via uma certa diversidade no discurso da imprensa, hoje você tem uma casta que cria uma ideologia única, que justifica um projeto de desvalorização nacional, de entrega. Eles agem como se, no resto do mundo, o capitalismo fosse uma coisa pura, como se não acontecessem os mesmos processos de tráfico de influência e lobby que nós vemos por aqui”, acusou. É nesse contexto que o Sergio Moro e a Lava Jato são alçados ao posto de herói.

“Os governos Lula e Dilma fizeram uma opção de buscar avanços sociais com o mínimo de conflito possível, e isso deu certo por um tempo, mas é muito complicado você tentar fazer isso no espaço da mídia, porque mídia é poder. Nós achamos que poderíamos ser clientes dessas empresas, e mesmo com a forte moderação daquele governo, ele ainda era visto como inimigo. Nós vivemos achando que a mídia vai dar a outra face, e eles nunca fizeram isso”, concluiu.

Apesar do tom crítico, Leite vê possibilidade de reação no fato de que não há um vencedor no cenário político atual. A desmoralização da Lava Jato abre a possibilidade de uma nova atitude com relação à abordagem do público no Brasil - uma que seja menos policialesca, e mais propositiva. “A eleição será determinante. Dependendo de como for, o país vai andar de um jeito ou de outro. Ela nos obriga a estreitar laços com nosso público, a reassumir o caráter de ‘imprensa alternativa’”.

Por Renato Bazan - Portal CTB

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