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Dom, Maio

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Neste ano, comemora-se o centenário do gênero musical com maior prestígio em todo o território nacional: o samba. É consenso entre os historiadores de que este ritmo genuinamente brasileiro nasceu com os escravos e se firmou no início do século 20, no Rio de Janeiro, então capital federal, para onde migraram milhares de negros após a Abolição.

Para o pesquisador de cultura popular Roque de Souza, a criação do samba passa pela necessidade que os negros brasileiros sentiram de “que era a hora de se soltar, de mostrar sua alegria”. “Mesmo perseguidos pela polícia e atingidos em cheio pelo preconceito de uma elite voltada para a Europa, os ex-escravos criaram sua própria cultura, que é a força motriz de nossa cultura popular, para resistir à opressão. Após a Abolição, o que era feito pelo Senhor de escravos passou para as mãos do braço armado do Estado”, complementa.

A casa mais famosa, onde se reuniam grandes nomes no nosso cancioneiro popular, foi a casa de Tia Ciata. Por lá apareciam para mostrar seus trabalhos Através da história brasileira, a criação e a popularização do samba se confundem com a própria história de nosso povo. Por lá apareciam para mostrar seus trabalhos nomes como Alfredo da Rocha Vianna Filho (Pixinguinha), Ernesto Joaquim Maria dos Santos (Donga), João da Baiana, João Barbosa da Silva (Sinhô) e Heitor dos Prazeres, entre outros bambas da música popular brasileira.

Pelo Telefone (Donga e Mauro de Almeida) 

Foi na casa dela que nasceu o primeiro samba registrado, sob a autoria de Donga e Mauro de Almeida, na Biblioteca Nacional, em 6 de novembro de 1916. Na mesma ocasião, registrou-se o próprio termo “samba”. Em disco, o samba só apareceria no ano seguinte, na gravação de “Pelo Telefone”, pelo cantor Baiano.

A vida do negro, musicada

O samba nasceu entre meados do século 19 e início do século 20. Entoado pelos negros em rodas de samba e casas de tias, o gênero foi perseguido e ainda hoje é preterido por setores elitistas da sociedade. “Os escravos não podiam ter instrumentos para realizar seus batuques, então começaram a utilizar os pés e as mãos – enfim, o corpo todo – para cantar suas dores e alegrias. Cantando e dançando, assim nasceu o samba de roda na Bahia, ainda no século 19”, diz Souza.

Ele explica que a arte adquiriu um caráter descritivo da vivência desses pioneiros. Diversos compositores cantavam o sofrimento dos negros libertos e marginalizados no processo de Abolição no início do século 20. “Até ‘Pelo Telefone’ falava da intimidade entre a polícia e os cassinos ilegais no país”, conta.

“Como tudo o que está relacionado à população negra e à nossa cultura, o samba foi muito perseguido e discriminado ao longo de sua história”, explica a cantora e compositora Leci Brandão. “O mesmo aconteceu com o candomblé, com a capoeira e com todas as manifestações de origem negra em nosso país. Apesar de ter havido mudanças, a discriminação contra o nosso povo continua e com a nossa cultura também”.

Cabide Molambo (João da Baiana) 

De acordo com Leci, “o samba, para ser aceito, teve que passar por um longo processo. Muitas vezes se moldou para cair no gosto das grandes gravadoras e do grande público. Mas o samba das comunidades, por exemplo, está fora da mídia”. Ela ressalta ainda que, “no Brasil, onde a mulher negra é o segmento mais discriminado da população, quando uma mulher negra resolve ser cantora ela enfrenta muitos desafios a mais. Nós vivemos em uma sociedade dominada não só pelo racismo, mas pelo machismo também, no samba não é diferente”.

Carnaval dá samba

A popularidade do gênero ganhou as ruas em 1928, com um casamento inédito e duradouro: a união com o carnaval de rua, que tornaria o samba ainda mais popular. Nasceu ali a primeira escola de samba do país, a Deixa Falar, criada pelo grande sambista Ismael Silva. As escolas de samba foram ganhando terreno e os desfiles carnavalescos transformados em verdadeiras “óperas” a céu aberto. Os desfiles monumentais se destacam com a entrada em cena do carnavalesco Joãosinho Trinta, nos anos 1970, com grandiosos carros alegóricos E a introdução de celebridades nos desfiles.

“Virou uma verdadeira indústria, que atrai milhões de turistas todos os anos”, diz Souza. “Mas isso deveria ser pensado o ano inteiro, com as escolas fazendo investimentos em formação, fortalecendo a cultura, com cursos sobre como fazer um enredo, por exemplo”, reforça. “É muito importante para o país criar cultura através da música, e o carnaval pode servir bem para essa importante missão”.

É hoje (samba enredo da escola de samba União da Ilha do Governador) 

Música e identidade

Com a Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, veio a necessidade de criação de uma identidade nacional. Num tempo em que não havia televisão e muito menos internet, o veículo de maior penetração era o rádio. “A força desse novo veículo e a popularidade do samba fizeram com que Getúlio utilizasse ambos de forma muito eficaz”, diz Souza.

Nas décadas de 1930 e 1940, surgiram grandes nomes do samba, que transformaram o gênero e o espalharam pelo Brasil com os variados sotaques nacionais. Pixinguinha, que vinha do chorinho, flertou com o samba. Junto com ele, vieram Ataulfo Alves, Heitor dos Prazeres, Ismael Silva, Wilson Batista, Sinhô, entre muitos outros.

Getúlio liberou a capoeira e a prática de religiões de origem africana e, com isso, foi criando um ambiente propício à solidificação de nossa formação nacional. Nesse tempo, o Brasil ainda era eminentemente rural, mas iniciava um processo de urbanização inevitável com o processo de industrialização que engatinhava.

Os temas urbanos começavam a cair no samba, principalmente nas lindas composições de Noel Rosa. “Ele era um estudante de medicina branco que subiu o morro e bebeu na matriz da fonte dos negros. Tornou-se, apesar de ter vivido apenas 26 anos, um dos maiores nomes do nosso cancioneiro popular”, conta Souza.

Ele explica também que Ary Barroso foi nome fundamental na chamada Era do Rádio, comandando programas radiofônicos e compondo canções ufanistas como “Aquarela do Brasil”. Ela viria a se tornar praticamente um hino. Além de Ary, ganhavam destaque João de Barro (Braguinha), Agenor de Oliveira (Cartola), Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Elizeth Cardoso, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Beth Carvalho, Clara Nunes e muitos outros.

Aquarela do Brasil (Ary Barroso) 

O lugar merecido

Em 1963, a crescente penetração do samba na cultura nacional levou o governo do então presidente João Goulart a estabelecer o Dia Nacional do Samba, instituído em 2 de dezembro justamente para homenagear Ary Barroso.
Como o Brasil é um verdadeiro continente, o gênero ganhou projeção sob sotaques diferentes. Compositores como Dorival Caymmi, Batatinha e Riachão se destacaram na Bahia; Lupicínio Rodrigues, no Rio Grande do Sul; Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini e Geraldo Filme em São Paulo. O ritmo ganhou penetração popular e notoriedade, mas não conquistou as páginas da mídia comercial e muito menos dos setores da elite, que ainda o vê como expressão cultural inferior justamente por sua origem popular e a sua matriz africana.

Nomes como Martinho da Vila, sua filha Mart’nália, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, João Nogueira, Silas de Oliveira e Wilson Moreira lentamente integraram os imortais do gênero. Souza realça a figura de Paulo da Portela, compositor carioca, como um dos nomes mais emblemáticos do samba, pela capacidade de “sistematização do ritmo”. Citou também o Zicartola, bar de Cartola e sua companheira Zica, como importante ponto de encontro de grandes músicos.

Com o desenvolvimento da arte, foram surgindo os sotaques regionais nas batidas do ritmo em cada unidade da federação nacional. A arte influenciou também o principal movimento de renovação da música popular brasileira, a bossa nova. “Vinicius de Moraes, Tom Jobim e outros também subiram o morro para beber na fonte da cultura popular e criar um ritmo novo genial, com uma nova maneira de tocar e cantar com João Gilberto”, contou o estudioso. “A bossa nova, influenciada pelo jazz e pelo samba, projetou o Brasil lá fora e passou a influenciar o jazz, com o novo som feito por Tom Jobim”.

Na década de 60, vieram os festivais e surgiram Candeia, Sérgio Ricardo, Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Gonzaguinha, muito influenciados pela bossa nova e pelo samba de raiz. Por causa desses novos músicos, surgiu o gênero MPB. “Não sabiam como classificar a música deles”. Mas “uma coisa é certa”, disse, “todos foram influenciados pelo samba”.

Vai Passar (Chico Buarque e Francis Hime) 

A origem da palavra samba A palavra “samba” é de origem africana. Seu primeiro registro no Brasil remonta ao ano de 1838, na revista “O Carapuceiro”, de Pernambuco. No entanto, ainda não existe um consenso entre os historiadores sobre suas possíveis origens. Segundo o pesquisador Nei Lopes, seria da etnia quioco, na qual samba significa brincar, divertir-se como cabrito. Há quem diga que vem do quimbundo “semba”, com o significado de “umbigo” ou oração”. Para os povos bantos, a música era um elemento religioso e a umbigada se referia a danças sagradas, uma espécie de ritual de fertilidade e conexão com as forças do universo.

Portal CTB - Marcos Aurélio Ruy - (Texto publicado originalmente na revista Rebele-se número 2)

 

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