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Na segunda rodada de debates do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé para a Semana Nacional pela Democratização da Comunicação, o tema do encontro foi “A Imprensa e a Badalada Recuperação da Economia”.

Na mesa estavam Leda Paulani, professora da Faculdade de Economia e Administraçao da Universidade de São Paulo (USP) e ex-secretária Municipal de Planejamento da cidade de São Paulo, e Marcio Pochmann, professor da Universidade de Campinas (Unicamp), ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e presidente da Fundação Perseu Abramo. A mediação ficou por conta de Ana Flávia Marx, diretora do Barão.

Você pode assistir à íntegra do primeiro debate logo abaixo:

A discussão tentou desvendar como e por que a imprensa, ignorando números e indicadores, passou do terrorismo midiático sobre a economia durante o governo Dilma para um inabalável otimismo na era Temer.

Leda Paulani iniciou sua fala lembrando que a crise que se iniciou em 2014 foi seguramente a maior em termos de queda de PIB que o Brasil já teve. Os crescimentos recentes, entre 1% e 0,2%, não representam uma retomada real, mas consequências imediatas de fatores pontuais, como a safra recorde no setor agrícola, uma mudança metodológica nos cálculos estatísticos do setor do comércio ou a liberação de parte dos fundos do FGTS.

“É muito complicado você falar em recuperação quando você tem números desta ordem, por mais que a Folha escreva: ‘Economia dá sinais de recuperação’. Gente, se isso aí for sinal de recuperação, eu não sei como interpretar”, disse, refletindo sobre o otimismo excessivo da imprensa. “Se antes nós vivíamos um terrorismo financeiro nos noticiários, o que nós vemos agora é uma euforia infundada. Quando a gente olha a formação bruta de capital fixo, a capacidade produtiva caiu 6,5% em relação ao ano anterior. Outra coisa é o gasto do governo, que caiu 0,9%, e ainda assim nós temos alguns ‘analistas’ aí que estão falando que estão revisando o crescimento para 1% neste ano - é impossível!”, analisou.

A interpretação de Leda é de que o aumento do PIB não é sustentável para 2018. Mesmo levando em conta a facilidade de crescimento que segue uma depressão econômica, o crescimento não deve ultrapassar 0,5%.

“Há uma segunda característica essencial desse ‘euforia’, que é própria do pensamento neoliberal, que é a mistura da negação da realidade com uma espécie de alarmismo econômico que nunca desaparece. A imprensa dá essas notícias de recuperação ao mesmo tempo em que fala que ‘se isso não for feito, o país vai quebrar’, ‘se a Previdência não sofrer cortes, o Brasil vai falir’. É uma coisa que a gente vê desde 2002, quando a mídia começou a dizer que o país perderia a estabilidade monetária se o Lula vencesse, e vimos de novo em 2014, quando caíram os preços das commodities. Eu não entendo esse tipo de análise. Ou eles estão vendo algo que eu não vejo, ou já foram cooptados”, concluiu.

Leia também: Folha, Vermelho, Escrevinhador - o que pensam três jornalistas sobre a imprensa no golpe de 2016

Pochmann preferiu fazer uma interpretação histórica das dificuldades econômicas brasileiras, e não falou muito da atuação da imprensa. “Eu não acho que bater na imprensa responde muito, porque eles sempre foram isso aí. A imprensa no Brasil sempre foi alinhada com as oligarquias, sempre foi a voz do patrão, nunca se alinharam de fato com os interesses da população. Então é o tipo de coisa que a gente já tem que levar em conta quando começa a pensar em um plano econômico”, criticou. Ele salientou que tratar a imprensa como um espaço imparcial é um erro da própria esquerda. “A mídia, no Brasil e em toda a América Latina, é a voz do capital, e está tornando o debate sobre o tema da economia cada vez mais pobre. Ela não permite espaço para a chamada ‘heterodoxia econômica’ que defende o desenvolvimentismo”.

O professor acusou a política econômica de Michel Temer de comprometer as próximas duas décadas de crescimento no Brasil, além de reduzir o país a um paraíso financeiro no qual toda decisão empresarial será baseada no potencial de retorno de dividendos, e não de produtividade. “O que está sendo feito hoje será muito difícil de ser revertido. Nós vamos sair desta crise com uma indústria que corresponderá a menos de 10% do PIB - um patamar que o Brasil via desde 1910! Isso significa que seremos basicamente uma economia de serviços, dependente tanto do ponto de vista industrial quanto do ponto de vista tecnológico”, analisou.

Para ele, a recessão pela qual hoje atravessa o país foi estimulada artificialmente pela direita para que fosse possível realizar um realinhamento econômico, contrário ao desenvolvimentismo. “Eles aproveitaram alguns erros do governo Dilma, fizeram o terrorismo e jogaram contra as medidas que o governo tentou tomar. Uma característica da sociedade brasileira é que os governos dificilmente sobrevivem a uma depressão econômica, nem a ditadura conseguiu, e eles apostaram nisso. Quando tomaram o poder, repetiram o receituário que levou à recessão da década de 80: transferência da renda das famílias para o pagamento da dívida, queda no consumo e produção e incentivos ao capital especulativo”, comparou.

Vale lembrar que, depois da aplicação dessas medidas, o Brasil jamais conseguiu recuperar sua capacidade de investimento. Mesmo no governo Lula, a marca nunca ultrapassou 21%, um índice baixíssimo para um país em estágio de desenvolvimento.

À exposição dos dois se seguiu uma rodada de perguntas sobre economia que encerrou o encontro. O Barão de Itararé realizará ainda uma terceira palestra na sexta-feira (21), conforme o panfleto abaixo. Ela será transmitida em tempo real na página da instituição no Facebook. Você poderá acompanhar o evento também através do perfil da CTB.

barao ciclo debates

Por Renato Bazan - Portal CTB

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