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Sáb, Jan

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O ativista argentino dos direitos humanos Adolfo Pérez Esquivel (1931), ganhador do Nobel da Paz em 1980, em entrevista do jornal espanhol El País tece críticas às políticas do governo de Maurício Macri e questiona a data escolhida para a visita de Barack Obama, por coincidir com o aniversário do golpe de Estado dado em seu país em 1976.

O ativista argentino é comprometido com a não violência e com a teologia da libertação (filosofia ligada à igreja católica, que defende aproximação com os mais pobres) mandou um recado a Obama antes de sua visita à Argentina.

"É importante que saiba que, no dia 24 de março, nenhum presidente ou personalidade pode representar o povo argentino, que em toda sua diversidade sempre representa a si mesmo através de suas palavras de ordem e mobilização pacífica em todas as ruas e praças do país e o senhor não pode ignorar que seu país tem muitas dívidas pendentes com o nosso e muitos outros", escreveu ao presidente norte-americano.

"Agora se utilizam os golpes suaves, através dos poderes econômicos e do sistema judiciário. Isso foi feito contra Fernando Lugo, no Paraguai; em Honduras, contra Manuel Zelaya; e no Brasil, agora, estão contra Dilma e Lula. São desprestigiados para que as pessoas não acreditem neles e não votem neles. É a política utilizada nos dias de hoje. Quando chegam a um consenso, derrubam Governos sem a necessidade das Forças Armadas#, afirma Esquivel.

Leia a íntegra da entrevista:

Qual foi o objetivo da carta a Obama?

O objetivo era alertá-lo para não vir a Buenos Aires no dia 24 de março, devido aos antecedentes do Governo dos EUA com a América Latina, porque esse país tem participação em nossos golpes de Estado. A decisão de ir a Bariloche [no dia 24 pela tarde] é uma resposta muito clara à carta. Obama teve o cuidado de não interferir em um momento da memória e evitar distúrbios que poderiam prejudicar sua visita, porque as pessoas não acreditam ser conveniente uma visita à ESMA. Seria bom para sua visita o reconhecimento público do intervencionismo dos Estados Unidos. Há muitíssima informação, como as bases militares norte-americanas em muitos países da América Latina.

O que vai acontecer com o governo de Macri e o processo de Memória iniciado na Argentina?

Macri não pode ignorar o que é a vontade do povo, porque teria dificuldades. Eu me preocupo com a governabilidade da Argentina, porque há coisas que não podemos ver bem, por exemplo, baixar os impostos das empresas de mineração e produtores rurais, porque isso não está de acordo com o pedido de crédito para o pagamento aos abutres. Há outras maneiras de resolver os problemas econômicos do país.

Considera que houve melhora do diálogo na Argentina?

Não. Embora seja lógico que, em qualquer caso, teremos de abrir uma instância de diálogo. Fizemos isso na província e agora temos de repeti-lo na nação. Fico irritado que Macri apenas se refira aos direitos humanos quando fala da Venezuela, mas não diga nada sobre o que acontece aqui. Não se pode falsificar nem manipular os direitos humanos.

Percebe alguma mudança do novo governo na política sobre o assunto?

Tivemos uma reunião com o secretário de Direitos Humanos, Claudio Avruj. Eles dizem que vão continuar acompanhando a questão dos julgamentos. Pedimos que o banco genético [para identificar crianças desaparecidas] não fique reduzido à época da ditadura, e sim que se estenda a todos aqueles que dele necessitem, e que os espaços de memória também sejam preservados.

Como analisa o protocolo de segurança que permite reprimir manifestações?

O protocolo de segurança deve ser revisto. Não podem reprimir menores com balas de borracha, como foi o caso da ‘murga’ [reunião de grupos teatrais que fazem críticas sociais, na vila 1-11-14]. Não pode ser que, em vez de buscar uma solução através do diálogo, existam atitudes repressivas, porque este é um retrocesso que também viola o direito das pessoas de protestar.

E as declarações do ministro da Cultura de Buenos Aires, Darío Lopérfido, questionando que existam 30 mil desaparecidos?

Os 30 mil desaparecidos são uma estimativa. Lopérfido quer fazer disto uma questão de quantidade e não fala de um fato gravíssimo. Se houvesse apenas um desaparecido teríamos de trabalhar da mesma maneira, porque entre os mortos, os desaparecidos e pessoas no exílio existe muito dano causado a um povo. O que Lopérfido diz se desqualifica por si próprio.

Como vê esses 40 anos na luta pelos direitos humanos na Argentina?

Foi difícil e é difícil até hoje, pois muitos tentam se apropriar dos direitos humanos com interesses políticos. Embora o kirchnerismo tenha falado muito sobre o tema em épocas da ditadura, nunca falou de direitos humanos hoje. A pobreza, a megamineração, os agrotóxicos. Sobre isso nunca falou absolutamente nada e situações muito conflitantes foram provocadas com os povos indígenas. Os governos privilegiam o capital financeiro sobre a vida das pessoas, e é aí onde temos de denunciar. Fala-se apenas do que aconteceu com as pessoas, mas há cumplicidade de grandes empresas com o golpe e alguns setores da Igreja Católica. Sozinhos, os militares não dão um golpe de Estado. Isso é o que estão tentando abrir, porque a única maneira é preservar a memória coletiva do povo.

Existe um abuso do poder policial na Argentina?

Sim. E trabalhamos para mudar isso. É necessário reformular a formação da polícia judiciária e monitorar o papel da polícia. Não pode ser que o país tenha 6.835 casos de tortura entre 2014 e 2015, em 50 penitenciárias. A polícia continua com os mesmos mecanismos da ditadura, e as forças de prevenção foram transformadas em forças de repressão. Querem resolver tudo por meio da tortura, e isso é triste.

Como os golpes de Estado na América Latina se traduziram na modernidade?

Agora se utilizam os golpes suaves, através dos poderes econômicos e do sistema judiciário. Isso foi feito contra Fernando Lugo, no Paraguai; em Honduras, contra Manuel Zelaya; e no Brasil, agora, estão contra Dilma e Lula. São desprestigiados para que as pessoas não acreditem neles e não votem neles. É a política utilizada nos dias de hoje. Quando chegam a um consenso, derrubam Governos sem a necessidade das Forças Armadas.

Obama e o senhor têm um prêmio Nobel. Sente-se parecido ao presidente dos Estados Unidos?

Disse a Obama que me surpreendi por lhe terem dado o prêmio Nobel, mas, agora que o tem, que tente ser coerente e trabalhe pela paz.

Fonte: El País Brasil

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