22
Dom, Out

Fonte
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

Imaginem nas olimpíadas, em especial na corrida de obstáculos, onde são colocadas barreiras para dificultar a passagem de o corredor atingir a faixa de chegada. Utilizo desta figura de linguagem para pensar que na sociedade brasileira, como em toda sociedade capitalista, são colocadas barreiras para dificultar à classe trabalhadora a se constituir como classe.

Estas barreiras são deliberadamente colocadas para impedir que os trabalhadores e trabalhadoras tomem consciência de que são iguais aos outros trabalhadores e que possuem os mesmos interesses comuns aos seus pares, portanto estão vinculados à mesma classe social: a classe daqueles que são produtores de toda riqueza, ao passo que são, também, excluídos desta mesma riqueza. Ao mesmo tempo em que conformam a classe trabalhadora, estes se diferenciam da classe possuidora dos meios de produção, que tem interesses irreconciliáveis aos dos trabalhadores.

Está “corrida de obstáculo”, ou o embotamento desta consciência de pertencimento a uma determinada classe, vem embrulhada em diversas “mascaras e disfarces” com o intuito de não aparentar tal propósito, ou seja, age como se fosse algo natural. Estas “mascaras” são estabelecidas por diversos meios e métodos, os principais são os meios de comunicação, reforçados pela família e pela religião. Chega-se ao ponto de o trabalhador ou trabalhadora chamar seu patrão de colega, como se a ocupação do mesmo espaço durante a jornada de trabalho apagasse a divisão de classe existente entre estes. Não custa lembrar: o interesse imediato do trabalhador é vender sua força de trabalho para suprir suas necessidades básicas, a do patrão é auferir o máximo de lucro.

Em função deste bombardeio, já não raciocinamos com nossa própria cabeça. Pensamos conforme nos estabelece a Globo & Cia, que nos inculca valores referentes à moda, à gastronomia, ao lazer, à relações afetivas, ao nosso futuro, e à política. Como devemos agir ou nos comportar, o que devemos fazer ou deixar de fazer, de quem devemos gostar ou deixar de gostar. A grande imprensa dita, cotidianamente, nossas vidas.

Faço esta breve digressão sobre o mundo do trabalho em função de que na atualidade diversos interesses contrários ao nosso agrupamento povoam o cenário político e têm levado uma boa parcela de trabalhadores e trabalhadoras, muitos inconscientemente, a defender o projeto de classe patronal, que na atualidade é a banca internacional. E o pior, colocando-se contrário ao projeto democrático-popular, este com viés de classe.

A eleição de 2014, principalmente o 2º turno, foi uma demonstração clara dos contornos destes dois projetos: o consorcio oposicionista, representado por Aécio, com forte vinculação com o capital financeiro internacional, e o representado por Dilma, de caráter democrático-popular, comprometido com a manutenção do nível de emprego, dos programas sociais, da inclusão de amplas parcelas da população aos serviços públicos, principalmente a educação e a saúde.

Como o processo eleitoral foi expressão da luta de classe, a classe derrotada não aceitou o resultado das urnas, proclamado no dia 26 de outubro, e tem conduzido a vida pública do país como se esta data ainda não tivesse se encerrado, na tentativa de virar o jogo após o apito do juiz. Que estes senhores ajam assim não é de se estranhar, apesar de ser patologicamente doentio, fazer o quê? Mas, é surpreendente que boa parte da população embarque neste delírio golpista. Nestes quase quatro meses já se tentou de tudo: ofensas aos nordestinos; passeatas pró-golpe militar; pedido de rejeição das contas eleitorais de Dilma; eleição do “baixo clero” para presidir o Congresso Nacional; orquestração jurídica pedindo o impeachment; desgaste diário do governo no noticiário.

Porém, no que a burguesia – com seus órgãos oficiais, a imprensa golpista – tem concentrado toda sua força é no desgaste da Petrobras. A Estatal tem sido alvo de uma sanha demolidora que nenhuma empresa privada suportaria. O ataque é diário, horas a fio, em todos os meios de comunicação, a mais ou menos um ano. Para esta estratégia já se tentou de todos os argumentos: compra da refinaria de Pasadena (altamente lucrativa); o mais elevado preço da gasolina (quando tem 76 países com preços maiores, e o Brasil subiu o preço apenas 45% em 12 anos); baixa das ações na Bolsa de Valores (é próprio da dinâmica das BV o sobe-desce das ações); corrupção generalizada na empresa, que teria sido iniciada na gestão de Dilma.

Destaco este último ponto para melhor analisar. De antemão, defendo que quem praticou o ilícito deve ir para cadeia, logicamente comprovando o crime e com o direito a defesa. A corrupção é inerente ao capitalismo desde que foi estabelecido a livre-concorrência, como caminho mais curto de se atingir os objetivos da concorrência, e não é exclusivo do Brasil. As empresas, ao disputar obras ou licitações, tem como objetivo ganhar o contrato e oferecer seus serviços. Nem sempre esta disputa se dá pelo melhor preço ou por deter as melhores condições. Em alguns casos (e põe caso nisto), quando a empresa quer ganhar a concorrência, ela utiliza-se de expedientes ética e moralmente condenáveis. Seja na manipulação na coleta de preços, seja na indução dos concorrentes, ou na combinação do resultado, ou até mesmo na oferta de vantagens materiais para quem define o resultado, dentre tantos outros expedientes. No caso da Petrobras já está provado, pela própria operação “Golpe a Jato”, que há demonstração de corrupção desde 1997, no mínimo (fato que as redes de comunicação não repercutem).

Podemos afirmar, também, que a corrupção está presente entre as empresas privadas, dentro de suas estruturas hierárquicas. Acaso o setor de compras de uma determinada construtora, ao se deparar com a compra de uma grande quantidade de cimento ou de ferro para uma obra não se encontra sensível aos fatores determinantes do atalho concorrencial? Ou a gerência de um supermercado, ao definir suas compras também não sofre assédio das marcas concorrentes?

Por fim, creio que é necessário separar o que é corrupção para enriquecimento próprio e o que é destinado pelos partidos para financiamento eleitoral. Para ambos deve-se investigar, e condenar aqueles que cometerem ilícitos. Porém, a forma mais prática de acabar com o caixa-dois é estabelecer o financiamento público de campanha.

Então, eu me pergunto qual o sentido dos senhores que foram apeados do governo em 2002, em “sangrar” Dilma? Qual o interesse em destruir a Petrobras? O senador tucano José Serra já respondeu a segunda indagação: entregar o milionário petróleo do pré-sal para as companhias petrolíferas estrangeiras (será que ele vai receber mais algum “por-fora”?). Quanto ao “sangramento” de Dilma a estratégia é utilizar a máxima de Carlos Lacerda contra Getúlio Vargas: “Que ele não se candidate, mas se ele se candidatar que ele não ganhe, se ele ganhar que ele não tome posse, se ele tomar posse que ele não governe”.

Nesse momento os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil, devem estar alerta para o debate da conjuntura, usando o senso crítico para separar o que é real do que é mentira, criticando o que estiver errado e defendendo o que estiver correto, reconhecer quem são os verdadeiros inimigos da classe trabalhadora defendendo o projeto democrático e popular.

Eduardo Navarro é diretor Executivo da CTB e vice-presidente da Federação dos Bancários da Bahia e Sergipe.

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

Em protesto contra nova lei trabalhista, movimento sindical prepara ato nacional     10 de novembro