Opinião
Ferramentas
Tipografia

Impeachment é golpe. Estamos combinados? Golpe. Mensagem simples, direta, objetiva. Curiosamente, não foi assumida pelo governo Dilma. Ele prefere falar na linguagem diplomática do “terceiro turno”.

“São Paulo não é o Brasil”, é a frase que ouvimos agora de alguns petistas, para justificar o imobilismo. Talvez ele se justifique: Lula foi levando, empurrando com a barriga e o partido completará (?) 16 anos no Planalto. Uma enormidade.

Todas as previsões anteriores, de que o PT estava a caminho do fim - e houve muitas - naufragaram.

Mas, e sempre tem um porém, o Brasil pode ser São Paulo amanhã. Que o digam meus amigos de Itapajé, no Ceará, que ouvem no interior daquele estado ecos da mensagem que predomina em São Paulo. Os mais novos ouvem nas redes sociais, os mais velhos na Jovem Pan – com Sheherazade, Marco Antonio Villa e Reinaldo Azevedo, via satélite — ou na Globo. Na periferia de São Paulo, como atesta o DJ Cortecertu, as ideias direitistas já avançaram enormemente. Ascensão social despolitizada dá nisso: como diria Paulo Henrique Amorim, a continuar assim teremos nosso próprio Berlusconi! Quem aposta no Joaquim Barbosa?

A direita dispõe hoje de um elenco de comentaristas e suas ideias simplórias, dos meios para disseminá-las e de uma multidão de militantes digitais que trabalham de graça para fazê-las chegar a todos os rincões do Brasil. Seria muito simples desmontar tais ideias simplórias se houvesse debate. Mas, não há. A esquerda não dispõe dos meios para travar o debate, além do grilo falante representado pela blogosfera. Nem o PT, nem o governo Dilma, demonstram disposição para travá-lo.

Mas, por que travá-lo agora? Se é preciso uma justificativa, porque a conjuntura mudou. No passado, a baba raivosa da direita caia em ouvidos moucos. A população confrontava o discurso majoritário nos meios de comunicação com sua própria realidade, de bem estar e ascensão social. A mensagem entrava por um lado e saia por outro.

Agora, não. É a combinação de petrolão + arrocho + aumento das passagens de ônibus com aquela mensagem - exagerada, por certo - de que o Brasil está se acabando. Isso sem considerar barbeiragens como a do Fies, que Eduardo Guimarães e Conceição Oliveira abordaram na blogosfera e nas redes sociais.

Talvez o governo Dilma e o PT descubram que a situação é emergencial a partir de segunda-feira, dia 16, se em São Paulo a direita reunir os 200 mil manifestantes que pretende reunir. Mídia para eles não falta. Pelo Facebook o leitor Horatio Nelson brinca com uma reportagem de Veja sobre as manifestações do dia 15:

Não esqueça seu abadá no dia 15 !!!

– Conforme a #veja patrocinador, quando chegar na Paulista, escolha um destes 4 blocos carnavalescos: Vem para a Rua, Movimento Brasil Livre, Revoltados Online e Intervencionistas Independentes;

– Não esqueça de levar energéticos, óculos de sol e protetor solar porque ninguém é de ferro;

– Ultimo aviso, estará lotado de blaquis-bloquis & nóias. Não dá para saber quem é quem… então cuidado com as carteiras, bolsas e celulares; eles não vão perder a oportunidade de um ganho “extra” com tanta gente “esclarecida” à disposição… Emoticon tongue;
– Se possível, leve o seu segurança…

Fato: a mídia é co-promotora do evento.

Podem tem certeza: vocês não verão esse tipo de “serviço” da Veja quando se trata das manifestações previstas para o dia 13, patrocinadas pelas centrais sindicais, em defesa da democracia e da Petrobras. Estas vão “atrapalhar” o trânsito.

Além da mídia, o PSDB é co-patrocinador das manifestações, com o mão do gato.

Também através do Facebook, Marcelo Nelson nos envia a foto e o link do blog do Esmael que denuncia que um tucano teria dado 50 reais por cabeça para a distribuição de panfletos (abaixo) em Curitiba:

Por outro lado, nosso amigo Corisco Vermelho, que atua no Whatsapp, informa:

Circulam áudios no Whatsapp com uma mulher do povo dizendo que o confisco da poupança acontece no dia 17 e outro, de um PM, dizendo que está aquartelado por causa de um golpe. Pedem para que as pessoas saquem dinheiro de suas contas e estoquem comida.

“Ucrânia e Venezuela foi assim”, acrescenta o Corisco.

Eu mesmo recebi, via Whatsapp, a mensagem de um certo ex-soldado Carvalhal, hoje sargento Ferreira, dizendo que é preciso estocar comida.

“Tá para estourar uma guerra no país. Vai ter intervenção federal. Tem paises que são de esquerda, a favor do comunismo que está sendo implantado aqui no país. Assim que tiver uma intervenção federal de direita vai ter uma intervenção federal de esquerda. Já tem informe de tropas inimigas dentro do território nosso, em algumas células e realmente vai ter um conflito aí, é inevitável”, diz trecho da mensagem.

Muitos de nós simplesmente rimos de uma mensagem esdrúxula como esta. Mas, e os analfabetos políticos?

Não por acaso, estas mensagens se espalham feito rastilho de pólvora.

É a boa e velha guerra psicológica. Atemorizar a população para que ela não reaja.

Se o governo Dilma ainda não aprendeu, deveria se lembrar de boatos anteriores, como aquele referente ao Bolsa Família e o mais recente, sobre o confisco da poupança.

Por outro lado, seria o máximo da ingenuidade política os dirigentes do PT e a própria Dilma acreditarem que o PSDB recuou da ideia do impeachment. Bobagem. Os tucanos sabem que sua participação oficial enfraqueceria o movimento “do povo”, como descreveu Álvaro Dias em recente entrevista ao Jornal Nacional.

Quando o Álvaro Dias é ouvido pelo JN é como nos tempos de Antonio Carlos Magalhães: dá o tom do que será a posição oficial da aliança Globo/PSDB.

As manifestações de domingo serão oficialmente descritas como “do povo”. As mensagens extremistas vão sumir da cobertura na Globo. Ninguém vai explicar o que querem os Revoltados Online. Os protestos serão devidamente enquadrados como manifestações populares pacíficas contra tudo o que está aí.

O PSDB, repito, pretende tirar a castanha com a mão do gato. Protestos de rua a gente sabe como começam, mas nunca como terminam. Fiquem tranquilos, que os tucanos e a Globo saberão conduzí-los em direção a uma crise institucional que resulte na renúncia ou no impeachment de Dilma.

Não é nossa previsão que isso vá acontecer agora, segunda-feira. Dia 15 é o pontapé inicial de um longo processo de sangramento.

O objeto do sangramento deveria, em tese, ficar esperto. Mas, “São Paulo não é o Brasil”, não é mesmo?

A inapetência para o debate político fica evidente na postura malemolente da assessoria de Dilma, inclusive nas redes sociais.

Luiz Carlos Azenha é jornalista e blogueiro.

 Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.