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umberto1A China conquistou uma grande vitória diplomática na batalha não declarada contra os EUA pela liderança econômica da Ásia, e do mundo, ao reunir 57 países na fundação do novo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura e lograr incluir neste grupo países como Inglaterra, Alemanha, França e Itália, considerados fiéis aliados do império.

Sabe-se, e não era de se esperar outra coisa, que Washington fez ostensiva campanha contra o empreendimento chinês, alegando que vai esvaziar o Banco Mundial, o que pode realmente ocorrer e, por sinal, não será lamentável. Afinal, trata-se de uma instituição que se mostrou impotente e incompetente diante da crise, remanescente decadente dos acordos de Bretton Woods, como o FMI, e igualmente dominada pelos imperialistas americanos e europeus e a serviço desses, como demonstrou o economista Joseph Stiglitz.

Isolamento dos EUA

Apesar dos apelos e das pressões, os EUA acabaram isolados, na companhia do Japão e Canadá. Certamente os interesses financeiros falaram mais alto, o dinheiro é sempre mais atraente e convincente que as ideologias. Veja como o Financial Times descreveu e analisou o inusitado acontecimento, em matéria assinada pelos jornalistas Lionel Barber, David Piling e Jamil Anderlini:

“Até janeiro, nenhum país ocidental parecia disposto a participar de uma instituição que representa um desafio claro à ordem mundial estabelecida e dominada pelos EUA. Mas, desde então, a maioria dos aliados de Washington já declarou sua adesão ao banco”, fato que os jornalistas interpretam, corretamente, como um “exemplo notável de como o poder geopolítico está se deslocando para o Oriente”.

A surpresa maior ficou por conta da Inglaterra, até então tida como aliada número 1 do império. Logo ela, sempre tão fiel e subserviente, foi agora estimular outros governos ocidentais a provar o prazer da infidelidade. “A decisão britânica, no mês passado, de aderir ao AIIB (sigla em inglês do novo banco), apesar dos protestos de Washington, provocou uma corrida de outros aliados europeus e ocidentais que deixou os EUA parecendo imobilizados e isolados. Mesmo altos funcionários americanos descreveram o episódio como uma surpreendente vitória diplomática de Pequim” (http://www.valor.com.br/internacional/4009498/china-nao-quer-subverter-ordem-financeira-global-diz-o-premie-li).

Luta pela hegemonia

Parece que estamos presenciando um episódio singular da luta pela hegemonia geopolítica do globo, o que é um desdobramento natural das extraordinárias transformações econômicas em curso no mundo ao longo das últimas décadas como resultado de duas leis que caracterizam o movimento da histórica em nossa época: o desenvolvimento desigual das nações e o parasitismo econômico das potências capitalistas, que hoje contamina principalmente os EUA.

A China conquistou em 2014 o posto de maior economia do mundo. Tem um PIB maior do que o dos EUA sob o critério de paridade de poder de compra. Porém, a força e crescente influência da potência asiática no globo não estão associadas diretamente ao PIB. Derivam de sua exuberante liderança no comércio exterior e são ainda mais disseminadas pela proeminência, a cada dia maior, na exportação de capitais tanto sob a forma de investimentos diretos quanto indiretos. O próspero país asiático, dirigido pelo Partido Comunista, já não é apenas o banqueiro dos EUA, o maior credor da Casa Branca. Transformou-se, ao mesmo tempo, no grande banqueiro da América Latina, da África, da Ásia, do mundo.

Cautela chinesa

É preciso notar que no mesmo dia em que foi anunciada a adesão de 57 países (o Brasil inclusive) ao novo banco o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, recebeu o jornal inglês Financial Times para uma longa entrevista na qual assegurou que a “China não quer subverter a ordem financeira global” e sugeriu que o banco asiático de desenvolvimento foi criado para atuar em sintonia com o Banco de Desenvolvimento Asiático (dominado por EUA e Japão). Não constituiria, portanto, um “claro desafio à ordem mundial” como insinua o diário britânico na mesma matéria em que reproduz as opiniões do premiê.    

Não se deve cutucar a onça com vara curta, ensina o ditado. É bem característica e compreensível a cautela do dirigente chinês, que procurou suavizar a repercussão do fato e acalmar os ânimos do poderoso rival, que apesar da decadência econômica ainda preserva incontestável superioridade na esfera militar. “Durante toda a entrevista Li absteve-se de se vangloriar e insistiu repetidamente que a China não tem nenhuma intenção de criar uma nova ordem mundial”, comentaram os jornalistas.

Resignação ou guerra?

Os estrategistas estadunidenses consideram que o maior desafio do império, na atualidade, é precisamente conter a ascensão da China. Mas a cada dia que passa vai ficando mais evidente que isto não será possível pela via do desenvolvimento pacífico da economia. O comportamento das economias nacionais é determinado por leis objetivas, indiferentes a vontades individuais e mesmo às políticas governamentais (sujeitas a limites e restrições fiscais). Não fosse assim as crises do capitalismo seriam facilmente contornadas ou corrigidas.

O parasitismo que grassa nos EUA (e se traduz nas dívidas), contaminando toda sociedade e influenciando negativamente o ciclo de reprodução do capitalismo estadunidense, tornou o declínio econômico irreversível. Mesmo um conflito comercial de grande proporção (ameaça recorrente) pode ser mais prejudicial aos norte-americanos que aos chineses, dado a reciprocidade dos laços de dependência comercial e financeira que unem as duas potências.

Restam à burguesia estadunidense uma honrosa resignação e conciliação com a emergência de um novo mundo em que já não terá a hegemonia ou a opção de cair na tentação de uma solução militar. Os conflitos e tensões crescentes em todo o planeta, com destaque para a Ucrânia, o Oriente Médio e o Mar da China, sugerem que infelizmente a segunda hipótese não pode ser descartada. A luta pela paz mundial nunca foi tão necessária, mas tudo indica que humanidade não alcançará a Paz Perpétua imaginada por Kant ou afastará o risco de guerra entre as nações sem antes ajustar as contas com o sistema capitalista e imperialista.

Voltarei ao tema nos próximos artigos.

Umberto Martins é jornalista e assessor da CTB