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Diante da atual conjuntura política mundial, a celebração alusiva aos 70 anos da vitória contra o nazifascismo reveste-se de grande importância política para todos os povos. Revisitar a história dessa conquista, as suas circunstâncias geopolíticas e seus principais protagonistas é mais uma oportunidade para se reafirmar os valores que devem orientar uma civilização próspera, justa e tolerante.

Ao mesmo tempo, esse exercício eleva as nossas convicções para que combatamos, sem tréguas, os resquícios e as novas ameaças reacionárias de nosso tempo. Consideramos, sem nenhum demérito de outras iniciativas, que somente o solo e o povo russo reúnem a legitimidade e a inspiração para realizar um evento como este e cumprir esses objetivos.

Os registros das histórias, sobretudo quando envolvem os interesses antagônicos de classes, são sempre marcados pelas concepções de quem adquiriu as condições de escrevi-las. A derrota da “ordem hitleriana” e o fim da maior carnificina da História – a segunda guerra mundial – ainda fazem parte de distorções promovidas pelos meios de comunicação imperialistas.

Estes ainda persistem com a frágil tentativa de superestimar a contribuição anglo-americana em detrimento do povo soviético. Não há como apagar os fatos. No dia 02 de maio de 1945, a bandeira soviética, com a foice e o martelo, foi hasteada no Reichstag, em Berlim, e poucos dias depois a Alemanha assinou sua rendição. Este ato heroico protagonizado por um soldado russo simbolizou a combatividade de um povo e demarcou a derrota de um dos piores regimes da História, patrocinador da barbárie humana.

A resistência em Moscou, Leningrado e, principalmente, em Stalingrado - batalha decisiva para a vitória final - não seria possível sem um destacado esforço patriótico e um regime planejado. A classe trabalhadora soviética teve um destacado protagonismo nessa conquista.

Ainda hoje os governos da Europa ocidental e dos Estados Unidos tentam ofuscar essa proeza histórica. Para isso superestimam um desembarque – tardio, diga-se – como se este fosse o ato determinante na vitória dos “aliados”.

Um mínimo exame histórico descredencia esse exagero. As circunstâncias históricas não se reproduzem mecanicamente, no entanto, algumas delas possuem interfaces. As similaridades entre suas gêneses e seus impasses são capazes de provocar seus ressurgimentos, mesmo que com características e condições de seu novo tempo histórico.

As crises capitalistas e seus desdobramentos foram os maiores catalisadores dos dois grandes conflitos bélicos mundiais.
Particularmente, na crise econômica de 1929, que foi marcada por profundas convulsões sociais, desesperança e crise política que criaram um ambiente fértil para a disseminação do reacionarismo e do obscurantismo político. Uma saída à direita produziu Adolf Hitler e a guerra foi o meio ao qual o capital, mais uma vez, recorreu para tentar superar suas próprias contradições.

Como resultante desse quadro emergiu uma nova configuração geopolítica, no entanto, esta não pôs fim aos impasses nem às grandes disputas imperialistas.

Atualmente o mundo se encontra envolto por uma luta entre
países e blocos de países, da qual resultará o desfecho da atual transição em curso no planeta. O imperialismo estadunidense eleva a agressividade para tentar conter sua trajetória de declínio relativo e manobra buscando relançar sua hegemonia.

O ordenamento imperialista – hegemonizado pelos EUA – ainda remanescente dos acordos firmados pelos países capitalistas em 1944 na cidade de Bretton Woods, no final da Segunda Guerra Mundial, está esgotado e revela-se incapaz de gerar estabilidade política e econômica no mundo. Pelo contrário, ele gera naturalmente uma crise de natureza global, que em convergência com a crise econômica mundial, dá curso a uma transição para uma nova configuração geopolítica. Um desfecho que não se efetivará sem grandes lutas, choques e contradições.

Do ponto de vista econômico, a crise do capitalismo em curso potencializa essas tensões. Após sete anos de seu transcurso - período marcado pelo entesouramento pelas empresas e bancos dos recursos dos Estados nacionais – a lógica financeira rentista segue no comando desses Estados. Neles aprofundam-se as medidas draconianas de ajuste fiscal que lançam o ônus da crise sobre os ombros dos povos e dos trabalhadores. Projeta-se que o Produto Interno Bruto (PIB) mundial deverá crescer, em 2015, apenas 3%. Um quadro que, segundo a OIT, elevará para 219 milhões o número de desempregados em 2019.

Do ponto de vista político, a despeito da luta e resistência dos povos, se fortalece em plano mundial as forças conservadoras e reacionárias. No cômputo geral, as forças avançadas seguem atuando sob defensiva estratégica.

Percebe-se, portanto, no que pese as diferenças históricas dos novos padrões de acumulação e dos novos agentes produtivos e políticos, que os impasses atuais do mundo têm ligações com outros anteriores, particularmente com os do período das grandes guerras mundiais.

As mazelas sociais e o rebaixamento de valores também são traços perigosos dos tempos atuais. Não por coincidência crescem na Europa os blocos de direita e de extrema direita. Em seu conjunto constata-se mais uma vez os
mesmos limites históricos do capitalismo.

A passagem dos 70 anos da vitória da grande guerra patriótica que ora saudamos, nos oportuniza percorrer sua trajetória, contextualizá-la e extrair dela todas as lições. As questões aqui realçadas procuram revelar as singularidades de cada época, mas ao tempo mostrar os inúmeros fatores que se entrelaçam até hoje. São os permanentes impasses que o
capitalismo por si só não consegue superar.

Essa releitura ganha importância, sobretudo na atual situação de correlação de forças desfavorável, na qual exige-se adequadas táticas que visem acumular forças. Não obstante, esse estágio não deve significar capitulação e ou conciliação, mas sim clareza de foco. Nessa perspectiva, devemos mirar energias contra o parasitismo financeiro e suas representações de dentro e fora dos Estados. Devemos interferir nos novos espaços que abram possibilidades para esse enfrentamento.

Para melhor dar efeito a esse caminho e reforçar a estratégia socialista, devemos também impulsionar a luta das idéias. Elevar as condições subjetivas de nossos povos e, sobretudo, a consciência libertária da classe trabalhadora é uma diretriz estratégica na luta contra quaisquer retrocessos. Assim como reforça a luta pela conquista de um projeto político que emancipe de fato a classe trabalhadora.

Os liames da história já nos provaram que o capitalismo é o epicentro das crises civilizacionais. E que, portanto, a luta pela sua superação é uma exigência que continua na ordem do dia. Dentro dessa estratégia, nos cabe arregimentar todos os segmentos sociais contrários à barbárie e à intolerância social e política. As trabalhadoras e os trabalhadores devem nuclear esse protagonismo político, pois são os mais interessados em impedir que se reproduzam como mais uma tragédia, as alternativas que o capitalismo já impôs a humanidade.

A luz dos acontecimentos de 70 anos atrás, combateremos sem trégua todos os resquícios do reacionarismo e edificaremos uma nova ordem geopolítica sob hegemonia socialista, solidária e tolerante.

Estimados camaradas,

Em nome da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) - entidade sindical filiada à Federação Sindical Mundial (FSM) - saúdo todas as entidades internacionais democráticas aqui presentes. Faço uma saudação especial ao Partido Comunista da Federação Russa, e ao seu presidente, o camarada Gennady Zyuganov, e agradeço o honroso convite para participar dessa histórica solenidade.

Venceremos!

Divanilton Pereira é Secretário de Relações Internacionais da CTB e Coordenador da FSM Cone Sul

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