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A parceria entre China e Rússia ganhou novo impulso na última semana, com o encontro dos presidentes Xi Jinping e Vladimir Putin em Moscou na véspera da comemoração do Dia da Vitória, 9 de maio, no 70º aniversário da vitória da União Soviética contra a Alemanha nazista. Os dois mandatários fecharam um acordo de US$ 25 bilhões em empréstimos chineses a empresas russas e diversos outros compromissos mútuos, inclusive um pacto pelo “reforço da aliança global” entre as duas nações.

O presidente chinês enalteceu a “forte amizade” entre Pequim e Moscou, nascida, conforme afirmou, “nos combates da 2ª Guerra Mundial”, nos quais os dois povos guerrearam contra o eixo nazifascista - os soviéticos lutaram contra os alemães enquanto os chineses enfrentaram o imperialismo japonês. Putin afirmou que a China “é a principal aliada estratégica da Rússia”. Os dois líderes alertaram para o risco emergente do neofascismo no mundo.

Merece também registro a realização da “Cooperação Marítima 2015”, exercício militar conjunto das duas potências nucleares no Mediterrâneo. Uma coluna de tropas chinesas participou da parada do Dia da Vitória, em mais um sinal da “forte amizade” mencionada por Jinping. Registre-se que os dois países, componentes do Brics, também fecharam recentemente um ousado acordo energético que em 30 anos pode mobilizar US$ 400 bilhões.

Contraponto

O fortalecimento da parceria entre Rússia e China ocorre no momento em que se acirram os conflitos diplomáticos entre os EUA e o governo Putin, alvo de sanções econômicas e uma dura campanha de isolamento e desestabilização, que o império promove em aliança com as potências capitalistas da Europa manobrando a perigosa situação da Ucrânia (onde patrocinaram um golpe e a ascensão de neofascistas ao poder) e procurando expandir o domínio da Otan na região.

O governo Obama pretende sufocar Putin com as sanções e forçar a Rússia ao recuo e à humilhação na Ucrânia. Pressionados pela Casa Branca, os líderes do chamado Ocidente (EUA, União Europeia e Japão) boicotaram a comemoração, que não obstante reuniu 30 líderes estrangeiros e o secretário geral da ONU, Ban Ki-moon. Foi um acontecimento emblemático das transformações que estão em curso no mundo e das contradições a elas subjacentes.

A China não só não aderiu às crescentes hostilidades do império contra Putin como faz gestos e toma atitudes concretas para evitar o isolamento político e a asfixia financeira da Rússia pelas potências capitalistas. É o caso dos empréstimos de US$ 25 bilhões anunciados dia 8, que certamente vão aliviar a situação do país, cuja economia está em crise devido à queda do preço do petróleo e às sanções ocidentais. Alguns analistas apostavam que Pequim não ia se juntar a Moscou, afrontando Washington, e nem estaria preparada para socorrer financeiramente a Rússia, mas os fatos apontam o contrário.

O contraste entre os dois movimentos é notório e reflete uma disputa bem mais abrangente do que aparenta em torno da liderança mundial, peleja que se dá nos marcos de uma crise da hegemonia ou da sangrenta e controvertida Pax Americana. Embora os protagonistas principais sejam os Estados Unidos e a China, eles não são os únicos atores relevantes deste drama histórico.

O fortalecimento da aliança entre Rússia e China, duas potências militares com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, tem o potencial de alterar substancialmente a correlação de forças internacional e criar um sonoro contraponto ao exercício, sempre unilateral, da hegemonia dos EUA. Constitui também mais uma evidência de que a ordem mundial remanescente dos acordos de Breton Woods está esgotada e o mundo vive, por consequência, uma transição para um novo tempo que abre caminho através das contradições e da luta, num processo que não será tranquilo ou pacífico e cujo desfecho não está desenhado.

Convergência de interesses

Embora o palco desses acontecimentos possa parecer distante do Brasil, assim como da Venezuela e outros países latino-americanos, a verdade é que eles estão estreitamente interligados à luta de classes que se desenvolve em nossas sociedades e que, como em todo o mundo, está em franco acirramento.

Há uma fina sintonia entre o empenho da China e do Brics por uma nova ordem internacional e as iniciativas de governos, nações e povos latino-americanos e caribenhos pela integração política e econômica e pelo desenvolvimento soberano, traduzidos na rejeição da Alca e criação da Celac, caminho que nos conduz a um novo arranjo geopolítico regional que se contrapõe objetivamente aos desígnios do império estadunidense.

As convergências de interesses no plano da economia política superam e ofuscam as divergências no intercâmbio comercial entre as indústrias brasileiras e chinesas, embora estas não sejam irrelevantes. A China, que hoje é a maior economia do mundo, se transformou na principal parceira comercial do Brasil (desde 2009) e da América Latina.

Acumulou também um forte “cacife financeiro” para respaldar sua influência econômica, conforme notou o jornal Valor em editorial. Ao longo dos últimos anos o Estado chinês emprestou mais de US$ 50 bilhões à Venezuela, investiu um valor superior a US$ 20 bilhões na Argentina, países rebeldes ao FMI e submetidos ao forte boicote do sistema financeiro ocidental, e oferta projetos de infraestrutura no valor de US$ 59 bilhões ao Brasil.

Os investimentos chineses no exterior têm mais sentido político, estratégico, do que os realizados pelas potências ocidentais na medida em que estão sujeitos predominantemente ao controle direto do Estado e não das multinacionais, ou seja, do capital privado, cujo objetivo maior é sempre em primeiro plano o lucro. Ou seja, tais investimentos não se submetem necessariamente à lógica estreita do capital e percorrem um caminho diferente do trilhado pelos EUA e Europa. A Petrobras obteve em abril um empréstimo de US$ 3,5 bilhões do Banco de Desenvolvimento da China no momento em que o sistema financeiro ocidental negava crédito e procurava sufocar a estatal.

O estabelecimento de uma ordem internacional efetivamente democrática e multilateral, defendido pelos dirigentes do Partido Comunista Chinês, coincide com o anseio e a luta dos povos, nações e governos progressistas pela integração soberana e por um novo arranjo geopolítico regional.

Os interesses dos EUA em Nossa América estão alinhados aos das forças mais obscuras e reacionárias, ao que podemos caracterizar de um modo geral como interesses de classe das burguesias locais. Já os objetivos atuais da China, em que pesem as contradições que rondam a corrente comercial e as relações de troca, convergem objetivamente com os interesses da classe trabalhadora e dos governos progressistas na região e em particular com a luta por um Brasil socialmente justo, democrático e soberano, que colidem com os propósitos da burguesia imperialista estadunidense e seus lacaios por aqui, recrutados no seio da burguesia nacional.

O Brics tem tudo a ver com a Celac, a Unasul, a Alba e o Mercosul. E absolutamente nada a ver com a Alca. A ascensão da China à condição de grande potência financeira pode ser uma válvula de escape para os países economicamente dependentes que estão hoje submetidos ao tacão de ferro do sistema financeiro do dito Ocidente, às chantagens e imposições de rentistas e fundos abutres norte-americanos e europeus. O reforço da aliança econômica, política e militar entre China e Rússia é uma notícia alvissareira para a humanidade e oxalá que promova “um escudo poderoso da paz e da segurança mundial”, conforme disse Fidel Castro, capaz de conter os ímpetos belicosos do império e afastar o fantasma da guerra, que voltou a assombrar e pode abortar a história humana.

Umberto Martins é jornalista e assessor político da CTB 

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