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Grupos fundamentalistas de evangélicos saem por aí agora atirando pedras em pessoas. A primeira vítima foi uma menina de apenas 11 anos, que voltava juntamente com a avó e outras mulheres do ritual de Candomblé, a sua fé religiosa. No meio do caminho havia um grupo de evangélicos com a Bíblia numa das mãos e pasmem pedras na outra. Depois de ofenderem as mulheres vestidas de branco como manda o ritual de sua religião de matriz africana, dois rapazes desse grupo apedrejaram-nas, ferindo Kaillane Campos na cabeça. Aí muito corajosamente saíram correndo. Até o momento, a polícia não apresentou nenhuma pista dos apedrejadores. “Achei que ia morrer. Eu sei que vai ser difícil. Toda vez que fecho o olho eu vejo tudo de novo. Isso vai ser difícil de tirar da memória”, disse assustada a criança.

Em uma passagem bíblica, onde Jesus Cristo interpela o apedrejamento (forma de condenação de mulheres à morte em países islâmicos, em pleno século 21 isso ainda acontece) de Maria Madalena e ordena que atire a primeira pedra quem nunca pecou. Insuflados pela velha mídia que ataca diariamente a autoestima dos brasileiros, preconizando o complexo de vira-latas estampando e amplificando atos violentos, principalmente ser for cometido por jovens com menos de 18 anos, setores radicais de direita aterrorizam o país babando contra as políticas que visam diminuir a desigualdade social, a fome e corrigir injustiças históricas que a elite econômica quer perdurar para todo o sempre. Isso não é nada cristão.

Mas para quem pensa que as pedras pararam por aí. ”Ledo e Ivo engano” como diz Luiz Fernando Verissimo. A mídia burguesa apedreja todos os dias os direitos humanos, os movimentos sociais, o movimento sindical, a juventude negra, pobre, moradora da periferia, os homossexuais, as mulheres, os partidos de esquerda e todos os que interferem em seus interesses mesquinhos. E as pedras se espalham por repetitivos papagaios nas rádios, na tevê e na internet, principalmente nas redes sociais, onde corações exacerbados pregam o ódio, a discriminação e a violência contra todos os que pensam e agem diferente do que eles acreditam ser o certo. Nem Cristo acreditaria neles se vivesse nestes tempos nos quais predomina o individualismo e o egoísmo.

Para atingir seus objetivos de tornar o governo federal refém de suas artimanhas, a mídia não mede esforços e deliberadamente reforça a ideia de se dar bem a qualquer custo. Desse modo a violência campeia. A polícia mata jovens pobres e negros, não a pedradas, mas com tiros nas periferias das cidades, onde a juventude deveria ter espaço para expressar-se e viver em paz e segurança.

Grupos fundamentalistas evangélicos se unem no Congresso para apedrejar a sociedade com projetos em tramitação e colocados em votação pelo presidente da casa Eduardo Cunha, com o propósito de fazer o Brasil retroceder em suas políticas sociais e submeter o Estado ao que esse grupo crê ser o melhor, mas o melhor para eles somente. Os congressistas ao invés de estar legislando para forçar o governo a aumentar os investimentos em educação, em cultura, esportes e na criação de políticas que permitam à infância e à juventude um desenvolvimento pleno, estão mais preocupados em reprimir e criar mais ódio. Segundo consta na Bíblia, o próprio Cristo ofereceu a outra face para defender a paz e não violência.

Então fica a questão: Que interesses esse grupo de ditos cristãos, aliados a empresários da repressão e do latifúndio, defendem? Por que tanta insistência em encarcerar jovens que nem sequer tiveram a chance ainda de mostrar que podem e merecem muito mais do que cadeia. Que futuro se pode esperar de um país no qual os ditos cristãos apedrejam crianças de outras religiões. O que esses pais ditos cristãos fazem com seus filhos em seus lares?

Cabe à sociedade reagir e mostrar que não há espaço pare esse caminho em nosso país. Não queremos a guerra, a opressão, a prisão. E a menina Kaillane se transformou num símbolo de resistência à intolerância e ao desrespeito aos semelhantes. É essencial lutar pela sociedade do compartilhamento e não somente de postagens em redes sociais, mas de compartilharmos a vida, a igualdade, a justiça, a tolerância e respeito à dignidade humana. Caetano Veloso e Gilberto Gil expressaram recentemente estarem apavorados com essa onda de reacionarismo predominante na sociedade brasileira, que aprece regredir em vez de evoluir.

A reação a tudo isso começa a florescer, mas ainda é pouco para barrar a sanha dessa gente que deseja dominar o Estado para aprisionar a sociedade e assim prevalecer a vontade de poucos. Lógico a deles próprios e seus aliados de momento, a cada momento. Afinal como escreveu George Orwell no livro “A Revolução dos Bichos”: “todos os porcos são iguais, mas uns são mais iguais que outros”.

Está mais do que na hora de dar um basta na barbárie. Chega de tanta pedrada no bom senso e na inteligência das pessoas.

Marcos Aurélio Ruy é jornalista do Portal CTB.

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