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“Cresce o consumo e as mortes por consumo de heroína nos EUA” (Wall Street Journal, 05/02/2014). “Vício em heroína cresce nos EUA, segundo os Centros de Controle de Doenças” (EFE/UOL, 07/07/2015).

Depois do sul-coreano Ha Chang, [1] do ex-economista chefe do BIS (Banco de Compensações Internacionais), [2] do editor de economia do Financial Times M. Wolf, [3] agora foi a vez do jogador de Wall Street e conhecido como “doutor catástrofe” N. Roubini.

Crises devastadoras

Wolf, por exemplo, discorre que a próxima crise poderá ser inclusive bem pior que a iniciada em 2007, o que sintetiza em três argumentos Segundo pensa: 1) os níveis de endividamento estão substancialmente maiores do que eram em 2007; 2) estaria limitada a capacidade dos governos responderem aumentando drasticamente seus déficits fiscais dado o crescimento do volume do referido endividamento; 3) há “uma probabilidade razoável de as taxas de juros ainda continuarem muito baixas: antes da crise, as taxas de juros dos bancos centrais dos países desenvolvidos eram de 5% ou 6% - se as taxas antes da próxima crise forem de 2%, 3% ou mesmo 4%, “não terão muito o que cortar”. “Por todas essas razões, é perfeitamente possível imaginar que a próxima crise será pior”, afirma enfaticamente Wolf. [4]

Em entrevista recente para o Le Monde, [5] Roubini afirmou entre outras coisas que: a) o endividamento tem se generalizado por causa da paralisia da economia; b) os estados acumularam dívidas trilionárias por causa dos trilhões que têm sido repassados, nos últimos seis anos, para resgatar os monopólios; c) a Alemanha gastou £102 bilhões somente para resgatar os Hypo Banke (bancos vulneráveis, expostos), e o governo norte-americano gastou (2007-2010), nos resgates, mais de US$ 16 trilhões de acordo com um estudo do Congresso; d) a “economia real”, principalmente a indústria, se encontra em recessão em escala mundial e as duas principais economias industrias (Alemanha e o Japão) já enfrentam a recessão; e) o colapso capitalista na Alemanha colocará em xeque o coração de um dos principais centros do capitalismo europeu, mesmo sobre os Estados Unidos, o Japão e a Inglaterra; f) a especulação imobiliária - um dos poucos setores que ainda apresenta um certo crescimento -, mas, simultaneamente, tem sido a disparada dos preços dos imóveis e a existência de inúmeros imóveis vazios e crescente dificuldade para vendê-los; g) a especulação com commodities, para onde migraram enormes volumes de capitais principalmente a partir de 2007, se esgotou, com a queda acentuada dos preços, sendo que o grosso dos capitais especulativos busca o refúgio do estado capitalista: as dívidas públicas.

Autofagia e a grande mentira da “recuperação”

Nesse ambiente necrosado, impossível vasculhar nada mais emblemática da autofagia neoliberal que a venda da Bíblia da especulação financeira, o citado Financial Times, ao oligopólio japonês Nikkei. Porta-voz do saque dos países periféricos, apoiador descarado de golpes seja em Honduras, no Paraguai ou na Ucrânia, o F.T. não escapou à “lei imanente do capitalismo”, a concorrência, como genialmente descobrira Marx n”O Capital. Na mesma direção, Lênin, em “O imperialismo, etapa superior do capitalismo” assinalava contra o ex-marxista Kautsky que, na época da hegemonia do capital financeiro e dos monopólios, longe de estável o capitalismo acelerava a instabilidade e a concorrência entre os trustes.

Assim, farsante até às últimas consequências, o liberalismo do diário ex-londrino - propagandista da mentira americana de vivermos uma época sem crises ou da “Grande Moderação” - foi despedaçado pelo próprio veneno!

Analogamente, contando a fábula de uma “perspectiva confortadora em Washington”, ideólogos do imperialismo usam mesmo é da retórica e da enganação “num momento em que a hegemonia dos EUA cai visivelmente aos pedaços, em meio à mudança tectônica no nível do poder global”, afirma Alfred W. McCoy, professor JRW Smail de História na University of Wisconsin-Madison [6].

De acordo com McCoy, os movimentos de Washington não passam “de ideia velha”, “mesmo que venham em escala antes inimaginável”; diferentemente, “a ascensão da China ao posto de maior economia do mundo, absolutamente inconcebível há um século, representa coisa nova”. Onde a Nova Rota da Seda, por exemplo, “ameaça virar de cabeça para baixo a geopolítica marítima que modelara o poder no mundo durante 400 anos”.

Ora, conforme alentado e recente estudo do economista russo Ivan Tselichtchev [7], Xangai já é o maior centro industrial do mundo – faz tempo! Uma enorme batalha pelo mercado chinês está apenas começando e o Ocidente (EUA, Reino Unido, França, Alemanha, Itália) precisa agir rápido para não ficar de fora dessa guerra. A crise atual (“2008-2009”, periodiza ele) demonstrou o “fracasso” do modelo capitalista anglo-saxão; e os efeitos colaterais dessa crise “ainda assustarão o mundo ocidental por muito tempo”.

Assim, a China não é somente uma “fábrica mundial”, mas se transformou num gigantesco laboratório de pesquisas, inclusive em energia “verde”, setor em que já lidera. Em relação às perspectivas da competição no desenvolvimento com o assim denominado Ocidente: a) a China mantém sua moeda desvalorizada; b) as empresas chinesas contam com forte apoio do Estado e investimentos de fundos do governo nessas companhias; c) já é bastante extensa a lista de aquisições chinesas de empresas ocidentais, enquanto o controle acionário de importantes empresas chinesas por companhias ocidentais vem se revelando “efetivamente impossível”; d) o acesso de empresas e investidores ocidentais a segmentos do mercado chinês ou a negócios no país associam-se à transferência de tecnologia; e) políticas e o direito chineses continuam a facilitar o acesso ao “roubo” de tecnologias ocidentais.

À guisa de conclusão - uma nota fúnebre

Na matéria do WSJ citada na epígrafe, lê-se que, exatamente nos anos que seguiram à grande crise originária naquele país, o número de usuários de heroína nos EUA saltou quase 80% entre 2007 e 2012, para estimados 669.000 (Administração de Serviços de Saúde Mental e Abuso de Substâncias, a Samhsa, uma repartição do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA). E o número anual de mortes por overdose atribuídas à heroína chegou a 3.094 em 2010 (ano mais recente para o qual há dados disponíveis), um aumento de 55% em relação a 2000 (Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA).

Lamento profundamente concluir que a única coisa que “cresceu” – a tal “recuperação econômica” – nos EUA imperialista, anos após a aterradora crise capitalista foram os cadáveres por consumo de heroína.

NOTAS

[1] “Isso não é uma recuperação, é uma bolha, e ela vai estourar”, sustentou Ha-Joon Chang, para quem bolhas de proporções históricas estavam se desenvolvendo nos Estados Unidos e no Reino Unido, os dois mercados de ações mais importantes do mundo. Em: Guardian/Carta Maior, 24/02/2014.

[2] Ex-economista-chefe do BIS alerta para efeitos colaterais de política monetária expansionista. Para White, “há bolhas de ativos em todos os lugares”. Em: Valor Econômico, 19-20-21/07/2014 entrevista a Sérgio Lamucci.

[3] Sinuoso e encarregado sempre de encontrar caminhos duma ilusória “reforma financeira” sem desfaçatez, Wolf, no seu último livro “As transformações e os choques. O que aprendemos – e o que temos ainda que aprender – com a crise financeira” (Companhia das Letras, 2015), encerra com o capítulo sem vacilar: “Conclusão: fogo na próxima vez”. E diz ele ali: “O mais assustador é que, com o passar do tempo, as crises parecem ter se tornado maiores e mais globalmente devastadoras” (p.362).

[4] Ver: “Uma nova crise no horizonte”, entrevista a Robinson Borges, Valor Econômico, 12/06/2015.

 

[5] Elenco partes da transcrição/interpretação da entrevista de Roubini ao Le Monde, por Alejandro Acosta, “Diário Liberdade”, 24/07/2015, no artigo com o título “O novo e inevitável colapso capitalista”. O título do Le Monde à entrevista é “Nouriel Roubini, l’oracle de la crise financière” (“Nouriel Roubini, o oráculo da crise financeira”, 22/07/2015).

[6] Ver: seu longo ensaio “Geopolítica do Declínio Norte-Americano Global. Washington x China no século XXI”. Em: TomDispatch blog, 07-06-2015, tradução da Vila Vudu, redecastorphoto.

[7] Ver: “China versus ocidente: o deslocamento do poder global no século XXI”, DVS, Introdução, 2105.

 

A. Sérgio Barroso é assessor da CTB e diretor de Estudos e Pesquisas da Fundação Maurício Grabois

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