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Em novembro 2015 terão passado10 anos desde a derrota do projeto da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) em Mar del Plata.  Esse resultado não deteve aos governos dos EUA. A estratégia norte-americana foi, na sequência, avançar sobre aqueles países onde a resistência era menor. Nesse período assinou tratados de livre comércio (TLCs) com Chile, Peru, Colômbia, América Central e República Dominicana.

Derrotada a ALCA, esboçaram-se duas respostas alternativas. Por um lado, desde o Mercosul foram impulsionadas a União de Nações da América do Sul (UNASUL) e a CELAC (Comunidade de Estados da América Latina e o Caribe). Duas iniciativas visando criar espaços de construção de identidade política regional, porém pouco ambiciosas em matéria econômica já que incluem a países que têm TLCs com os EUA. Entre os governos não alinhados com os EUA a principal estratégia econômica continuou sendo o Mercosul, com nova orientação e buscando sua ampliação regional – ingressaram Venezuela e Bolívia, e Equador está a caminho. Para além de aumentar o comércio entre os países, a região se propôs desenvolver uma nova arquitetura financeira regional – banco de desenvolvimento, fundo de estabilização, comércio entre países com moedas nacionais,  iniciativas todas ainda pendentes de implementação.

A integração regional proposta pelos governos não alinhados com Washington colocava as tarefas de construir um polo político para intervir no cenário internacional e hemisférico (Unasul, Celac) e um espaço econômico onde a integração dos negócios (investimentos, “cadeias regionais de valor”) transforma-se a região em polo econômico emergente no cenário internacional e não em apêndice de um dos centros do capitalismo desenvolvido. Obviamente as principais economias da região – Brasil, Argentina e Venezuela – teriam um papel chave em esse desenho.

Passou o ciclo de preços altos das comodities (agrícolas, minerais, energéticas) exportadas pela região e com isso as condições que facilitavam o financiamento dessa estratégia alternativa.  Com aqueles três países atingidos em cheio por crises econômicas e sem as ferramentas de uma nova arquitetura financeira regional, crescem as pressões para a volta à negociação de TLCs com países do capitalismo desenvolvido. 

Em 2005 também avançava a iniciativa liderada por Venezuela e Cuba denominada Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa (ALBA), que incluiu a Bolívia, Equador, Nicarágua e vários países do Caribe, buscando novas formas de cooperação entre países e novos paradigmas de comércio. Se queremos buscar antecedentes de esta iniciativa, podemos encontrar no discurso do Che Guevara na Conferência Afroasiática em Argélia (24.02.1965) quando questionou que as relações entre países do campo socialista se dessem com critérios do mercado capitalista.

Estão ainda para ser avaliadas iniciativas da ALBA, mas qualquer informe econômico sério nos mostra que várias pequenas economias caribenhas salvaram-se da falência econômica nos anos de altos preços do petróleo graças a PETROCARIBE (um programa complementar a ALBA). E dezenas de milhares de pobres da América Latina agradecem uma das primeiras iniciativas da ALBA – a “Missão Milagre” – que devolveu a visão a pessoas que os sistemas médicos privatizados em seus países se recusavam a atender mesmo para uma relativamente simples cirurgia nos olhos.

Mas tanto as iniciativas do Mercosul como da ALBA são insuficientes para responder às necessidades do desenvolvimento de nossos países. Isso se deve a que as economias latino-americanas continuam em grande medida dependentes do mercado mundial capitalista e subordinadas aos fluxos do capital financeiro internacional. Os governos não alinhados aos EUA tinham resgatado os Estados para aplicar políticas econômicas pós neoliberais que buscavam “desviar” nossos países desse “curso natural” dos países sob a globalização neoliberal. Enfraquecidos nossos Estados nacionais pelas crises econômicas, as empresas multinacionais sediadas aqui e os capitais nacionais voltam a pressionar pela “outra via” – a dos TLCs com os centros do capitalismo desenvolvido.  As multinacionais porque suas sedes centrais estão lá; os empresários brasileiros (e latino-americanos) porque sua vocação é de súditos neocoloniais. 

Os movimentos sociais que impulsionaram a Campanha Continental contra a ALCA tinham clareza de que não era suficiente derrotar essa negociação. Era necessário atacar os alicerces da globalização neoliberal e do imperialismo norte-americano na região: Derrotar a ditadura do capital financeiro internacional, reverter a apropriação da agricultura pelas transnacionais e o capital latifundiário, avançar na autonomia das mulheres contra o patriarcado, impulsionar a economia popular solidária frente à economia dos monopólios capitalistas, avançar uma nova economia pública fazendo retroceder o mercado, superar o consumismo imposto pelo “modo de vida americano” e apontar a novos padrões de vida ambientalmente sustentáveis, fazer da nossa região um espaço de paz sem bases militares norte-americanas.

A derrota da ALCA foi uma batalha decisiva para nossa região, mas não acabou com as ameaças do imperialismo.

Gustavo Codas é economista, assessor da Fundação Perseu Abramo (FSA – Brasil) e participou ativamente da Campanha Continental contra a ALCA.

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