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Na longa história da resistência dos movimentos sociais da América Latina às investidas do imperialismo, nenhuma campanha teve tanta importância, pelos seus resultados, quanto à mobilização continental contra a implantação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Essa campanha, que alcançou a vitória em 2005 com a rejeição da Alca na reunião de cúpula de Mar del Plata, impediu que os países latino-americanos fossem empurrados de volta a uma condição neocolonial, anulando todos os esforços de desenvolvimento econômico e social no século XX e inviabilizando qualquer projeto de avanço para o futuro.

 Para se ter uma idéia do que estava em jogo, podemos imaginar, apenas como exercício, o que teria acontecido no caso de sucesso da tentativa de incorporar todo o nosso continente ao espaço econômico estadunidense. Com a vigência da Alca, não existiriam hoje em dia o Mercosul (absorvido pela nova instituição), nem a Unasul, nem, muito menos, a Alba. Também o surgimento do Brics (articulação política envolvendo o Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) teria escassas chances de acontecer, com a manutenção do Brasil dentro da órbita geopolítica de Washington. Nesse cenário, a Venezuela de Hugo Chávez – inicialmente, o único estadista sul-americano a se insurgir contra a Alca – enfrentaria o desafio de sobreviver isolada, em condições duríssimas, o que limitaria muito a probabilidade de aplicação do amplo leque de políticas sociais que melhoraram a vida da maioria dos venezuelanos nesse período.

É impossível saber se os governos populares da Bolívia e do Equador teriam se constituído e, mesmo em caso afirmativo, encontrariam ao seu redor um ambiente econômico e geopolítico hostil, o que limitaria as suas perspectivas de avanço no caminho da soberania nacional e da emancipação dos trabalhadores. O mesmo pode-se dizer sobre o que se alcançou de positivo em experiências políticas progressistas como as ocorridas na Argentina, Brasil, Uruguai, Chile, Paraguai, Nicarágua e El Salvador a partir do início da década passada. E Cuba, obviamente, estaria numa posição muito mais solitária na sua heróica resistência ao assédio do Tio Sam.

Para entender o significado da Alca, é preciso levar em conta, antes de tudo, os antecedentes históricos dessa proposta. Os Estados Unidos, desde os passos iniciais da sua formação, carregam consigo a ideia arrogante de ser uma nação especial, superior a todas as outras. Os estadunidenses, de modo geral, estão impregnados de uma ideologia os leva a considerar mesmos como um povo predestinado, escolhido por Deus para difundir em âmbito mundial a fé cristã e o que eles entendem por “civilização”. É claro que há muito de hipocrisia nessa crença. Esses mesmos gringos que se consideram “cristãos” não hesitaram em exterminar os índios da América do Norte para tomar as suas terras, em explorar o trabalho dos africanos escravizados como alicerce inicial da sua economia e usar todo o tipo de violência para expandir seu poderio pelo mundo afora.

    O primeiro sinal de um projeto imperialista estadunidense para a América Latina foi emitido em 1820 pelo presidente James Monroe, que, sem consultar nenhum representante da região, atribuiu aos EUA a tarefa de “proteger” os novos países independentes contra eventuais tentativas de potências europeias de restaurar a ordem colonial. Seguiu-se, vinte anos depois, a invasão do México, que perdeu metade do seu território para o belicoso vizinho do Norte. “Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”, comentou mais tarde o ditador mexicano Porfirio Díaz.

    No final do século XIX, o governo de Washington tentou, pela primeira vez, tornar realidade a Doutrina Monroe, com o projeto de criar uma união aduaneira pan-americana. A idéia naufragou diante da má vontade do Brasil e da Argentina, mas o nascente imperialismo ianque estava disposto a usar todos os meios para estender, como um polvo, os seus tentáculos na região. Em 1898, sob o pretexto de ajudar os rebeldes cubanos que lutavam contra o domínio colonial espanhol, os EUA deflagraram uma guerra contra a Espanha. Como resultado, Cuba e Porto Rico passaram a viver sob a ocupação estadunidense – uma situação que se prolonga até hoje no caso dos porto-riquenhos.

   Nas primeiras décadas do século XX, a América Central e o Caribe se tornaram uma zona de dominação direta dos EUA, que invadiram várias vezes cada um dos países da região – Guatemala, Nicarágua, Honduras, Haiti, República Dominicana e vários outros. Enquanto isso, sua influência econômica chegava à América do Sul, ocupando, aos poucos, o espaço que antes pertencia ao decadente Império Britânico.

    Após a II Guerra Mundial, o imperialismo estadunidense estabeleceu o controle absoluto da América Latina, incorporada ao jogo global da Guerra Fria. Em nome do combate aos soviéticos, os EUA se juntavam às elites reacionárias de cada um dos países latino-americanos para reprimir as demandas sociais. Com a derrubada do presidente da Guatemala, Jacobo Árbenz, punido pelo crime de decretar a reforma agrária em terras da empresa United Fruits, iniciou-se uma série interminável de golpes militares cometidos com o envolvimento direto de Washington. Para manter a região amarrada à hegemonia gringa, criou-se todo um conjunto de instituições, das quais a mais visível é a Organização dos Estados Americanos (OEA), aquela que, mais tarde, o líder cubano Fidel Castro apelidou de “Ministério das Colônias”.

    A Revolução Cubana foi o primeiro desafio vitorioso ao domínio da América Latina pelos EUA. Seu exemplo insurgente se mantém por mais de 50 anos, apesar da derrota da maioria dos movimentos de libertação no continente, como as guerrilhas lideradas por Che Guevara na Bolívia. No final do século XX, com a crise dos projetos burgueses de desenvolvimento nacional, os EUA retomaram a idéia de anexar as economias da região. Quem deu o pontapé inicial foi o presidente George Bush (pai), que em 1991 lançou a “Iniciativa para as Américas” com o lema publicitário de “o continente unido do Alasca à Patagônia”. Seu sucessor, Bill Clinton, deu um prazo de dez anos, até 2004, para a concretização do projeto, já então denominado de Alca.

   Na maior parte da década de 1990, a instituição da Alca era dada como “jogo jogado”, só restando aos governos e às elites latino-americanas negociar os detalhes. Mas a iniciativa gringa degringolou, por três motivos:

1. Os empresários dos EUA não se mostraram dispostos a abrir mão das barreiras protecionistas contra produtos do agronegócio e da indústria da América do Sul, o que esfriou o entusiasmo da grande burguesia do Brasil e da Argentina com a integração hemisférica;

2. A mobilização popular contra a Alca em escala continental, que teve como ponto alto o plebiscito realizado no Brasil, com mais de 10 milhões de participantes;

3. A formação de um campo de governos progressistas, com destaque para os do Brasil, Venezuela e Argentina, que se uniram em Mar del Plata para sepultar a Alca.

   Derrotados no embate principal, os estrategistas de Washington não desistiram e, desde então, tentam implantar a Alca “comendo pelas beiradas”. Ou seja: tratam de seduzir as elites e os governos sul-americanos para que assinem “tratados bilaterais de comércio” com os EUA, em termos idênticos aos da Alca. Chile, Peru e Colômbia já caíram na conversa, somando-se ao México (amarrado à Área de Livre Comércio da América do Norte) e à América Central, coagida a assinar um acordo regional na mesma linha.

   Agora, numa situação em que os governos progressistas do Brasil e da Venezuela enfrentam sérias dificuldades, o imperialismo retoma a ofensiva, com a Parceria Trans-Pacífico e as pressões para que os países sul-americanos se submetam a “acordos de livre comércio” que sacrificam a sua soberania e suas possibilidades de desenvolvimento econômico e social. A batalha da Alca ainda está muito longe de terminar.

Igor Fuser é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC)

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