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Público da final de futebol feminino dos Jogos Mundiais IndígenasPúblico da final de futebol feminino dos Jogos Mundiais Indígenas Uma partida de futebol durante a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Imprensa reunida junto à colônia portuguesa em um espaço cultural na cidade de São Paulo. A seleção Portuguesa perdia para a futura campeã mundial, a Alemanha. O intervalo de jogo, aquele momento em que qualquer torcedor tem para acender um cigarro, analisar com os amigos os gols tomados, comprar mais uma cerveja ou simplesmente curtir em silêncio as frustrações sobre as expectativas em torno do ídolo Cristiano Ronaldo e... Eis que o repórter interrompe: "Você poderia voltar a fazer sua dança típica para entrarmos ao vivo na TV durante o intervalo?"

O caso acima é uma experiência real, não muito distante e longe de ser pontual. Diz respeito a uma relação de inconveniência atribuída aos interesses de um personagem, nesse caso, o repórter, a serviço de uma esfera maior, a imprensa nacional e, no outro grupo, de portugueses e brasileiros, representantes de uma cultura imigrante, cuja identidade é estabelecida através da descendência familiar ou associação.

Escolhi esse exemplo para ilustrar um conjunto de outras observações reunidas durante os primeiros Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (JMPI) realizados nas últimas semanas de outubro na cidade de Palmas, Tocantins. O evento é realizado nacionalmente desde 1996 pelo Comitê Intertribal – Memória e Ciência Indígena (ITC) e parcerias governamentais. Em 2015, pela primeira vez esse encontro esportivo e cultural ganhou dimensão internacional e muita visibilidade midiática.

Mais de vinte etnias brasileiras estavam representadas nas competições, além da mesma quantidade de grupos indígenas de outros países que se reuniram no Brasil para jogar, intercambiar e mostrar para o público um pouco do que é ser indígena em 2015. As propagandas do evento exibidas nos canais abertos de televisão diziam: “Somos todos do mesmo povo, da mesma terra e da mesma família”, ou seja, um desafio e uma provocação destinados principalmente ao “homem branco”, a fim de aproximar culturas historicamente segregadas e nesse momento estimuladas a se aproximarem como iguais e irmãs – apesar do tratamento desigual, violento e civilizatório praticado pelo colonizar desde a sua chegada às Américas.

Se a proposta é o tratamento igualitário ou mesmo a criação de familiaridade com a diferença do outro, o exercício proposto ganha em primeiro lugar um espelhamento traduzido na seguinte pergunta: se EU fosse um índio, como EU gostaria de ser tratado nesse contexto? O uso da #somostodosindígenas infelizmente não foi suficiente para despertar esse tipo de questionamento, mas passível de expor a imagem de centenas de visitantes brancos ao lado dos indígenas nas redes sociais. Afinal, pega bem compartilhar uma foto ao lado de um ser tão exótico, ops, um índio.

Kaly, mascote oficial criado para os JMPI foi obrigado a dividir os cliques dos visitantes da Arena Verde com o assédio de tantos homens e mulheres às índias – de preferência à mais bonita do grupo – e índios encontrados muito bem indumentados. Em depoimento a um jornal local, um representante neozelandês Maori disse ter sido fotografado pelo menos 500 vezes em um dia. Um treinamento e tanto para quem pretende visitar os parques temáticos da Disney e fazer fotos ao lado dos personagens como o Mickey e do Pateta. Aliás, o mascote Kally, nome originário do tronco aruak (Kallyhute), significa “humano de pequena estatura” e representa uma criança guerreira inspirada na etnia Terena. Faz parte da convivência com alguns grupos indígenas a convivência mútua com pessoas idosas e crianças. Sim, as crianças são lindas e muito mais livres do que eu que cresci em um condomínio de prédios. Porém, esses detalhes não permite com que sua imagem seja explorada e desrespeitada, principalmente por um adulto. Se de fato somos todos indígenas, você se importaria que uma centena de curiosos e fotógrafos registrasse e compartilhasse a imagem do seu filho sem consentimento algum? E por favor, mulher branca, não peça para a criança sorrir se ela não quiser... ela tem esse direito.

A ferramenta fotográfica se mostrou como uma arma potente dentro do contexto dos Jogos – dos equipamentos profissionais aos mais variados aparelhos de celulares. Estranhamente o uso desse equipamento esteve proibido nas primeiras horas da abertura da Arena Verde, mas foi liberado um dia depois. O problema não está no ato de fotografar, mas nas sutilezas que envolvem os seres humanos participantes dessa ação. Ingenuidade pensar que a visibilidade da cultura indígena não foi um dos objetivos propostos pelos idealizadores desse evento, agora, a custo de qual debate? De qual exposição? É natural o deleite estético proporcionado pelos mais distintos fenótipos, pinturas corporais, artesanatos e coloridos penachos nos cocares indígenas, mas para além de uma boa foto, como uma atitude tem a contribuir ou destruir, antes e depois de um clique? Como praticar o respeito e ser solidário a esses grupos que vivenciam questões tão graves na contemporaneidade? Partir do pressuposto que o outro – o indígena – pensa, sente e têm muito mais em comum com você do que se imaginava já é um grande começo. Então, por favor, tire essa câmera da minha cara que eu não lhe autorizei a me fotografar (essa frase foi proferida por um homem e técnico Kaiapó a uma fotógrafa pesquisadora durante a eliminatória do campeonato de futebol).

Se um índio está vestido “ele precisa tirar a camisa para dar entrevista”. Se estão mexendo no facebook no celular “ah... melhor esperar para fazer o clique”. Na torcida, entre dialetos e alguns palavrões reconhecíveis, surge a interrupção do repórter e do pesquisador para que cantem ou façam o grito de sua etnia. Campeonato afunilando, times se classificando, a repórter interrompe a equipe perdedora para saber... “O que quê você achou do jogo?”. Não é de se surpreender que a imprensa esportiva não esteja completamente preparada para lidar com os jogos ocidentais e tradicionais dos povos indígenas. Muitas vezes sem saber o nome do time, ou seja, da etnia, ou sem observar o resultado do jogo e o desempenho dos atletas, eu mesma por vários instantes me senti constrangida pelos colegas brancos. Toda e qualquer chance de saber mais sobre as formas desses grupos jogarem bola, sobre o uso ou não de chuteiras, composição da equipe, peculiaridades, quantidade de campos nas aldeias eram desperdiçadas por uma ansiedade midiática.

Equipe feminina Xerente se prepara para partidaO campeonato de futebol dos JMPI proporcionou um deleite particular, onde mesmo que por algumas horas, brancos e indígenas puderam ser todos indígenas, ou mesmo, todos brasileiros. Além do estádio Nilton Santos, reformado e localizado junto à Arena, os outros dois campos de futebol, localizados em outras áreas da cidade de Palmas - do 1º Batalhão da Polícia Militar e na Ulbra – receberam as eliminatórias masculinas e femininas dos Jogos. Nesses locais alternativos, alguns entusiastas do futebol e torcedores palmenses foram se fidelizando com algumas equipes e em alguns casos, elegendo seus próprios craques – inclusive entre as competidoras mulheres. As semifinais femininas foram marcadas pela formação de um público fervoroso em prol de representantes brasileiras para a final do campeonato. As atletas Guaranis-kayowás foram incentivadas até o último minuto no jogo contra as jogadoras canadenses do Nifa (Associação Nacional de Futebol Indígena, na sigla em inglês), mas infelizmente não conseguiram realizar o terceiro gol para empatar.

As duas grandes finais, realizadas no Estádio Nilton Santos, contabilizaram cerca de 9 mil pessoas nas arquibancadas, quase sua capacidade máxima. Feminino e masculino Xerente competiram o título com equipes estrangeiras. Depois de um jogo muito disputado, decidido nos pênaltis, o Canadá confirmou o favoritismo apesar do difícil duelo contra as tocantinenses da etnia Xerente. O público composto por brancos e indígenas, homens e mulheres, não poupou esforços para incentivar as representantes brasileiras até o chute final. O público aplaudiu de pé, fez “olas” e vibrou a cada jogada do time da casa. Entre os jogadores homens, a disputa foi definida nos pênaltis e os Xerente venceram por 3 a 2 depois de muita emoção, com direito a cobranças desperdiçadas e defesas espetaculares do goleiro brasileiro. Nesse cenário, os Xerentes dançaram e choraram sem nenhum repórter precisar pedir, como fizeram ao longo de todas as outras partidas.

Se quisermos mesmo ser indígenas, ou nos reconhecermos como um coletivo de brasileiros, é nas boas práticas profissionais e pessoais que exerceremos essa máxima. A #somostodosindígenas serve apenas para documentar a contradição dessa relação. Inusitadamente foi no futebol que tive a oportunidade de observar a aproximação desses grupos de brasileiros diferentes, bem longe de uma arena construída para os JMPI que por vezes me remetia a um espaço de rodeio. O futebol se destaca como o esporte mais profusamente praticado entre as mais diferentes e distantes etnias do Brasil, e foi nesse futebol que me reconheci índia.

Aira Bonfim é pesquisadora do Museu do Futebol, localizado no Estádio do Pacaembu em São Paulo desde 2011. Fez parte da implantação do Centro de Referência do Futebol Brasileiro.