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Há uma onda de moralidade míope banhado nosso país de costa a costa, e a Lava Jato tem animado diversas pessoas, criando a sensação de que o problema de corrupção no Brasil será resolvido através dela. Sou meio cético com relação a isto, pois a corrupção é uma das mazelas de nosso país: o velho “rouba mas faz, colar nas provas, furar filas, e o nosso famoso jeitinho”.

Na atualidade estamos em uma crise política e a corrupção é investigada de forma míope, possuímos escândalos de corrupção gigantescos em nosso país: Zelotes, Metrô de São Paulo, as Privatizações como a da Vale do Rio Doce são apenas alguns exemplos disso.

Para resolver o problema de corrupção no Brasil precisamos tratá-lo de forma ampla, imparcial e cultural, para não ocorrer conosco o que aconteceu com a Operação Mãos Limpas, na Itália.

A Mani Pulite (Operação Mãos Limpas) começou em fevereiro de 1992, parecia ser uma operação despretensiosa, mas se expandiu para investigar cinco mil suspeitos, incluindo metade dos membros do parlamento italiano, e apontar cerca de sete bilhões de dólares de recursos destinados à propina. Os principais políticos abandonavam políticos menos importantes que eram pegos na investigação. Esses que eram pegos se sentiam traídos e acusavam os outros, através das famosas delações premiadas, expandindo a operação.

As consequências políticas foram imensas. Nas eleições de dezembro de 1992, a Democracia Cristã, principal partido da época, perdeu metade dos votos. Eventualmente, todos os quatro partidos de 1992 desapareceram. E o que surgiu com força foi a direita e a extrema-direita. É como se, no Brasil, a Lava Jato destruísse o PT, PSDB, PMDB. Há vários fatos pitorescos da investigação que lembram nosso país. Como exemplo, um membro do Partido Socialista acusado defendeu-se dizendo que “recebeu propina, mas todo mundo estava recebendo”.

Em março de 1993, o governo tentou fazer um decreto que permitia que acusações criminais relacionadas à corrupção fossem trocadas por acusações administrativas. A população entendeu que isso iria implicar em anistia aos corruptos e foi para a rua manifestar-se. Sob pressão popular, o presidente se recusou a assinar o decreto. Em julho de 1993, o presidente da companhia de energia estatal, que fazia o papel de Petrobras na investigação italiana, suicidou-se na prisão. Em maio de 1994, o processo sobre a Enimont (joint venture da ENI com a Edison) já atraía menos interesse do público. No fim de 1994, o candidato da direita Silvio Berlusconi, que nunca tinha sido político, foi eleito, se utilizando da grande mídia, a qual ele era dono.

O crescimento da Itália na época estava em torno de 2%. No ano da Mani Pulite, a economia cresceu -1%, mas logo se recuperou. Houve alguma depreciação da Lira, mas aparentemente ocorreu junto com a depreciação de várias moedas europeias, com a crise do Sistema Monetário Europeu.

O que restou de tudo isto foi uma grande sensação de decepção. Dizem que apareceu uma nova geração de políticos corruptos, que a Justiça se mostrou arbitrária, prendendo não os piores, mas os menos espertos. E deixou a sensação de que é possível roubar sem ser pego. Este é o risco que corremos, precisamos fortalecer a democracia e as instituições, retomar o rumo do crescimento, promover acordos de leniência, fortalecer a geração de empregos e de renda, promover a inclusão social e educacional no Brasil. Democracia se resolve no voto.

Alex Santos é secretário de indústria Naval e Offshore da FitMetal e secretário de relações Sindicais da CTB RJ.

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