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Em última instância, encontra-se no centro do tabuleiro o projeto de liquidação do Brasil enquanto nação, na atual quadra histórica. É exatamente disto que trata a marcha golpista camuflada na tentativa do impeachment da Presidenta Dilma Rousseff. Passou-se a exigir-se a derrota de correntes políticas avançadas ou de caráter democrático-popular impulsionadoras da reconstrução desenvolvimentista, soberana e provedora de amplas melhorias sociais às massas populares.

A conjugação de interesses entre forças do país e as forâneas acumpliciadas no golpismo responde simultaneamente às exigências de um capítulo na história do capitalismo global, em crise profunda. Porque não há interesses políticos desgarrados daqueles econômicos, de classe.

Num momento em que a desaceleração da economia mundial, uma inflexão severa do comércio internacional e mais crescimento do desemprego são anunciados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o FMI (Fundo Monetário Internacional), a OMC (Organização Mundial do Comércio) e a OIT (Organização Internacional do Trabalho) – aparelhos multilaterais do capital.

Sabidamente, o novo ciclo político progressista (inesperado e) hospedado pelo povo no Brasil e em inúmeros países da América Latina defronta-se a um contra-ataque político-ideológico entrecruzado a uma “depressão econômica” nos países centrais, deflagrada em 2007-2008. Hoje a se espraiar fortemente à periferia do sistema neoliberal, a onda depressiva solapa as condições econômicas da resistência contra-hegemônica, alimenta infame campanha midiática conservadora, falsifica preceitos da própria democracia capitalista em nome da desestabilização institucional progressista e popular, a qualquer custo.

Rapinagem e ultra-concentração do capital

Como mais uma vez pertinentemente alerta Moniz Bandeira, sobre o império americano, em meio à campanha golpista atual, o Brasil está na mira de Wall Street: “O objetivo é destruir as grandes empresas brasileiras, as construtoras que são fatores de expansão mundial do Brasil, e permitir que entrem no mercado brasileiro as multinacionais americanas”.

Paralelamente, cursam as iniciativas dos EUA em impor tratados internacionais [1] que são a tentativa de uma transição global para instituições governamentais acima de estados-nações; ou, por intermédio desses tratados, ao nascimento de um conjunto de instituições privadas acima dos estados-nações: os investidores privados poderão processar um Estado soberano num tribunal arbitral privado!

Do mesmo modo, os tratados visam a eliminar qualquer referência a “investidores estrangeiros” pelos assinantes, liquidando assim a capacidade da produção tecnológica nacional. Igualmente, no alvo a agricultura, terras e minérios dos países em desenvolvimento (subdesenvolvidos). A ampliação maior ainda da desigualdades econômico-sociais e assimetrias serão inevitáveis.

Noutra dimensão, a concentração e centralização do capital levou ao que o economista François Morin (membro do conselho geral do Banco Central francês) chamou de uma “hidra” mundial bancária. Quem já teria tomado “conta de todo o planeta”: apenas 14 bancos com importância sistêmica multiplicam derivativos cujo valor imaginário (o montante dos valores segurados) chega a US$ 710 trilhões, ou mais de 10 vezes o PIB mundial (Produto Interno Bruto)!

Oligopólio bancário advindo no rastro da “globalização financeira” ou da financeirização da riqueza como “o processo de remoção de qualquer presença pública na economia e de converter o excedente econômico em pagamento de juros ao setor financeiro”, resumiu o ex-secretário Assistente do Tesouro dos EUA, Paul C. Roberts (“A reescravização dos povos ocidentais”). [2]

Brasil: derrotar a aliança da traição!

Importa observar então que, após escrever “Brasil: a construção interrompida” (1992), Celso Furtado, no início dos anos 2000, notadamente na América Latina, afirmou que havia se estabelecido o desafio da ultrapassagem do “fracasso das experiências neoliberais que marcam a virada do século”. O que para ele, revelara condicionalidades de, entre outras questões determinativas: a) um processo de globalização que torna “inevitável o avanço da concentração de poder em mãos de poucos”; b) uma evolução estrutural no capitalismo avançado que “escapa aos esquemas teóricos que herdamos do passado”. [3] Os dois fenômenos se amplificaram!

Não tenhamos ilusão: liquidar a construção de um novo Projeto Nacional de Desenvolvimento, eis as razões fundamentais que confluem à marcha golpista no Brasil de agora. Para além da violação aberta da Constituição da República, da empreitada para desmoralizar e destruir o partido político de Dilma e Lula, subjaz uma oposição de caráter e objetivos ultraliberais sintonizada com a estratégia furiosa dos arrivistas imperialistas. Antes do mais, riscar do mapa regional a integração soberana e as melhorias sociais das massas trabalhadoras.

É só atentar para o recente programa “Uma ponte para o futuro”, do PMDB, antes reconhecidamente como partido “centrista”, e hoje sob a batuta de Michel Temer! [4]

NOTAS

[1] Os três principais e complementares são: Tratados Bilaterais de Investimento (TBIs), a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) e a Parceria Trans-Pacífico (TPP). Estão em pauta e têm ainda que ser aprovados formalmente.

[2]Em:sputniknews.com/columnists/20151109/1029803298/us-west-economy-values.htmlTraduzido em resistir.info

[3] Ver, respectivamente “Em busca de novo modelo. Reflexões sobre a crise contemporânea”, Paz e Terra, 2003, p. 8 2ª edição; e “Raízes do subdesenvolvimento”. Civilização Brasileira, 2003, p. 9.

[4] Ver a letra “e” do item “Uma agenda de desenvolvimento”: “realizar a inserção plena da economia brasileira no comércio internacional, com maior abertura comercial e busca de acordos regionais de comércio em todas as áreas econômicas relevantes – Estados Unidos, União Europeia e Ásia – com ou sem a companhia do Mercosul, embora preferencialmente com eles. Apoio real para que o nosso setor produtivo integre-se às cadeias globais de valor, auxiliando no aumento da produtividade e alinhando nossas normas aos novos padrões normativos que estão se formando no comércio internacional”

Aloisio Sérgio Barroso, assessor da presidência da CTB, diretor de Estudos e Pesquisas da Fundação Maurício Grabois.

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