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Muito tem sido escrito sobre o resultado das eleições legislativas de 6 de dezembro na Venezuela, com muitas das análises justificadamente enfocando no fraco desempenho do Partido Socialista (PSUV) e na difícil conjuntura pela qual passa o país. Na verdade, mesmo antes do corpo político esfriar, exames post mortem abundavam na mídia corporativa e alternativa, com a dissecção de aparentemente todos os aspectos da vida política, econômica e social da República Bolivariana.

Mas o que esses jornalistas e analistas políticos muitas vezes ignoram é a determinação do núcleo da Revolução Bolivariana, a base radical que está empenhada em preservar o que Hugo Chávez começou a construir há mais de 17 anos atrás. Esta não é uma revolução que pode ser desfeita através de uma eleição, muito menos pode deixar de existir atravéz das leis. Esta revolução, ao contrário do que alguns cínicos argumentaram, não será derrubada pelo peso de suas próprias contradições, ou pela podridão e corrupção internas, ou por forças externas, tais como assassinatos e desestabilização econômica.

Não, a Revolução vai sobreviver. Será ressurgente. E vai renascer graças ao empenho de milhões de chavistas dedicados.

Essa conclusão não nasce da fé, mas da experiência na Venezuela, nutrida por dezenas de conversas com ativistas e organizadores cujas palavras de amor e de dedicação à revolução só podem ser superadas pelo seu desempenho em construí-la.

Esses homens, mulheres e crianças estão comprometidos com a defesa e com a construção de um processo revolucionário.

As feridas da Revolução

Os resultados eleitorais e os problemas sociais são inegavelmente uma medida sobre o nível de descontentamento que muitos dos venezuelanos hoje sentem, tanto quanto ao governo, quanto ao estado geral de coisas no país. Aqueles que lêem a mídia corporativa, certamente pensam que este é o fim da Revolução Bolivariana e que a derrota nas urnas é um repúdio a todo o programa do PSUV e aos partidos políticos aliados. Mas tal leitura desmente a realidade e a resiliência do processo revolucionário, aquele que viu e superou grandes desafios anteriormente.

Em abril de 2002, a oposição - apoiada pelos Estados Unidos - deu um golpe contra o então presidente Chávez, em uma tentativa desesperada para reafirmar seu controle sobre o país e extinguir a Revolução Bolivariana. Centenas de milhares de venezuelanos saíram às ruas de Caracas, com milhões a mais em outras partes do país, chamando Chávez a restaurar sua posição em seu legítimo escritório e pedindo pela prisão dos líderes do golpe. Não havia dúvidas de que os EUA eram responsáveis por essa tentativa forçada de mudança do regime, com muitos meios de comunicação tradicionais relatando que funcionários de alto escalão da administração Bush estavam intimamente envolvidos na organização do golpe.

Embora possa parecer uma mera nota de rodapé histórica, 13 anos depois, o golpe fracassado foi um divisor de águas na Venezuela - abrindo terreno para a revolução - quando aqueles pra quem Chávez e o processo bolivariano significaram um futuro melhor e ousaram desafiar a hegemonia dos EUA e a tentativa de restabelecimento do poder político pela classe capitalista dominante.

Mas abril de 2002 representou ainda mais do que apenas uma resistência a Washington. A restauração de Chávez ao poder foi uma demonstração da firmeza com que os venezuelanos estavam preparados para defender sua revolução contra ameaças externas, mesmo aquelas que até 1998 pareciam onipotentes. Eles mostraram pela primeira vez (e certamente não a última) que a Revolução não iria, e não poderia, ser desfeita pelos truques sujos do Império e por sua classe no interior do país.

Desde 2002 a Venezuela foi repetidamente alvo de desestabilização política, econômica e social pelos Estados Unidos. Estas tentativas coordenadas aumentaram exponencialmente desde a morte de Chavez em 2013 e a eleição do atual presidente Nicolas Maduro. Essa subversão tem tomado muitos formatos diferentes, incluindo o uso de formas altamente eficazes e bem planejadas de guerra psicológica através da manipulação da mídia e da opinião pública.

Em 2007, a autora e jornalista investigativa Eva Golinger revelou que Washington estava financiando um programa para fornecer apoio financeiro aos jornalistas venezuelanos hostis a Chávez e a Revolução Bolivariana. Na verdade, o esforço era destinado a influenciar a opinião pública através de uma mídia de direita, a fim de moldar a opinião dos venezuelanos contra seu governo. Uma técnica de batalha em desestabilização testada pela CIA, tais táticas de guerra psicológica foram documentadas como CIA’s Psychological Operations in Guerilla Warfare, um manual distribuído aos contras na Nicarágua, quando Washington tentou derrubar o governo sandinista na década de 1980. Como observado aqui, a CIA queria determinar "as necessidades e frustração dos grupos-alvo (…) [e criar uma] hostilidade anti-governo generalizada." O objetivo era forjar a falsa impressão nas mentes da população de que o governo era " a causa maior de sua frustração".

Isso tem sido feito com grande eficácia na Venezuela. Os meios de comunicação de direita no país tem feito tudo ao seu alcance para minar o governo e amontoar toda a culpa sobre o PSUV, inclusive para os efeitos da guerra econômica contra ele. De acordo com a mídia de direita, é o presidente Maduro e todo o seu governo, juntamente com o movimento que ele representa, que criou e exacerbou todos os problemas sociais com sua inépcia e suas políticas fracassadas. Embora, sem dúvida, erros tenham sido cometidos, é igualmente verdade que muitos dos principais problemas do país foram agravados pela sabotagem econômica. O ponto importante aqui é que a guerra econômica se transformou em uma guerra psicológica, que figurou com destaque nas recentes eleições.

Na verdade, a guerra econômica é fundamental para a compreensão do estado atual do país. Na esteira da vitória nas urnas pela oposição, produtos básicos começaram magicamente a reaparecer nas prateleiras das lojas na Venezuela, mais uma indicação de que grande parte da escassez pode ser atribuída não às políticas econômicas fracassadas, mas sim a uma campanha coordenada de subversão econômica. Da mesma forma, alguns dos problemas de inflação e de contrabando podem ser diretamente atribuídos à oposição apoiada pelos Estados Unidos e seus patronos em Miami e Washington. Tudo isso, certamente, não absolve o governo de toda a sua culpa, mas destaca que a Venezuela e a sua revolução foram diretamente alvejados pelas forças do Império.

A desestabilização do país também é muito evidente, com assassinatos desempenhando um papel fundamental. Talvez nenhum assassinato tenha tido um impacto maior sobre o país e sobre a Revolução do que o assassinato de Roberto Serra em 2014, um jovem e promissor legislador do PSUV que foi assassinado por indivíduos ligados ao ex-presidente colombiano e inimigo autodeclarado da Revolução Bolivariana, Alvaro Uribe. Um ativista jovem legislador, fotogênico e profundamente comprometidos, Serra foi visto por muitos como o futuro do PSUV e do movimento chavista no país. Seu assassinato foi interpretado por milhões como um ataque direto à Revolução e ao futuro do país.

Andando pelos bairros operários, 23 de Janeiro e El Valle, é provável que se encontre cartazes e pixações nas paredes com a simples frase simples "Roberto Vive" e a imagem icônica da jovem Serra - o futuro da Revolução, morto a tiros antes mesmo que tivesse a chance de liderá-la.

E esta é a realidade da Revolução: os EUA e seus comparsas tem feito de tudo para destruir o processo bolivariano. E, no entanto, a Revolução continua. Isso é mais do que apenas um slogan da resistência, é um fato objetivo.

Estas eleições, que tiveram lugar em meio a deterioração das condições econômicas e uma intensa guerra psicológica e econômica, ainda viu mais de 5 milhões de venezuelanos lançarem votos sobre o PSUV e sobre a Revolução, pelo socialismo e pelo anti-imperialismo.

Rumores sobre o fim do chavismo têm sido muito exagerados. Este sonho, esta revolução, não irão morrer.


Eric Draitser é fundador do StopImperialism.org e atua no CounterPunch Radio. Ele é um analista geopolítico independente e reside em Nova Iorque.

Artigo originalmente publicado na Carta Maior. Tradução: Allan Brum

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