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Seg, Set

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Peço licença para perder o tom de jornalista e fazer como fez o Chico Buarque, nos anos da ditadura, para ser o Julinho da Adelaide e fazer escapar da censura algumas de suas músicas.

Mas é que a coisa aqui tá preta e a gente estava precisando de algo para que as pessoas – a imensa maioria – de bem e da bondade se tocassem do avanço da selvageria que acontece por toda parte, inclusive em nós mesmos.

Porque, como ao zika, ninguém é imune à microcefalia do clima de guerra de torcidas que toma conta da sociedade quando está em jogo o mais caro valor humano, aquilo que Cecília Meirelles disse que era a “palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”: a liberdade.

Porque liberdade não é apenas não estar preso, não senhor, embora a ideia de prender alguém, nem que o alguém seja um passarinho, seja repugnante.

Liberdade é poder pensar como quiser, agir como quiser – desde que não machuque ou prejudique outros -, ser igual (o que nunca se é), ser diferente (o que nunca se é, totalmente).

Mas a liberdade não é só isso. Como Tom, maestro e parceiro do Chico, escreveu sobre ser feliz, também é impossível ser livre sozinho. A solidão, tomada em doses acima das necessárias, é um veneno: torna um ser humano a negação da liberdade, pois estende uma cerca em torno dele, que proíbe de sair e, sobretudo, proíbe de entrar.

Liberdade é um caldo coletivo, onde a gente nada conforme os nossos braços, se esbarrando uns nos outros, acertando às vezes o pé e os cotovelos, brigando aqui e ali, com uma única regra: ninguém pode ou deve ser afogado.

Porque liberdade não é conformismo, tanto quanto não é intolerância.

Quando se perde a tolerância, com ela se vai a liberdade alheia.

Como aconteceu com a do Chico de, simplesmente, andar pela calçada até um táxi.

Parece que o mundo virou um programa policial e o “escracha” a regra de comportamento.

As pessoas não podem ser deixadas em paz, têm de ser classificadas, julgadas, condenadas por darem qualquer opinião diferente daquela “autorizada” pela mídia, o general destes tempos modernos.

Mas, ainda bem, restaram alguns ícones de tempos difíceis, mas bem menos brutos.

De um tempo de delicadeza que, expulso das ruas, sobrevivia dentro de nós.

E que chocou o Brasil ver agredido gratuitamente na provocação ao Chico.

Em moldes terrenos, foi como aquele “chutar a Santa”

Vou fazer um brinde à delicadeza, hoje, neste simpático “rolezinho com o Chico Buarque” que a turma da internet inventou.

Tomo um chope com ele e, como ele não vai estar, tomo o dele também, com a devida licença.

E o levanto, na esperança que o sono da delicadeza não seja tão longo, que não se tenha perdido para toda uma geração.

Fernando Brito é jornalista e blogueiro.

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.