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O samba completa cem anos em 2016, o samba de tantas e tantos, mas que se materializou na voz do músico e compositor carioca Donga, criador da canção Pelo telefone, de 1916, considerado o primeiro samba brasileiro. Toda uma ação se constituiu de forma mais que cultural como identidade de um povo, uma população, uma nação. Samba: um bem imaterial.

É provavelmente originário do nome angolano semba, um ritmo religioso, cujo nome significa umbigada, devido à forma como era dançado. De acordo com a Ekedi Maria Moura, que é formanda da primeira turma sobre o carnaval da Universidade Cândido Mendes, militante, socióloga e uma de nossas griôs, o semba chegou ao Brasil nos tumbeiros hediondos que cruzaram o Atlântico, germinando em todo solo nacional. Nasceu da influência de ritmos africanos, adaptados para a realidade dos escravos brasileiros e, ao longo do tempo, sofreu inúmeras transformações de caráter social, econômico e musical. 

O gênero é descendente do lundu, esse ritmo que passou a ser chamando de samba e cujo primeiro registro da palavra foi visto na revista O Carapuceiro, de Pernambuco, em fevereiro de 1838, descrito como canto e dança popular. Conhecido como dança de roda originada em Angola e trazida pelos escravos, o ritmo influenciou todo o nosso continente, principalmente os estados do Maranhão, Salvador e Rio de Janeiro. 

A Ekedi da Casa de Axé Beiru nos relata que esse ritmo consistia em um dançarino no centro de uma roda, que dançava ao som de palmas, coro e objetos de percussão, e dava uma ‘’umbigada’’ em um outro companheiro da roda, convidando-o a entrar no meio do círculo. 

O Rio de Janeiro neste período era o centro econômico do Brasil, os negros eram deslocados em direção à capital do país. Foi no Rio que um grupo de baianos se instalou no bairro da Saúde, perto do Cais do Porto, onde hoje se encontra um sítio arqueológico de grande importância histórica e cultural, que é o Caís do Valongo, situado na Pequena África, onde os homens buscavam vagas na estiva. E as primeiras grandes docas do Rio de Janeiro surgem nesta época. 

A pedra da Prainha, onde os primeiros escravos urbanos chegavam e eram comercializados, logo depois ficou conhecida como Pedra do Sal, onde se formou o primeiro quilombo urbano do Brasil, um verdadeiro cinturão de resistência, tendo sua importância baseada nos valores afetivo, cultural e imaterial de nosso povo. 

Maria Moura se refere à importância das tias baianas, como Bibiana, Amélia, Mônica, Tia Ciata de Oxum e Perciliana. Era em sua casa que aconteciam as festas de terreiro, as umbigadas e as marcações de capoeira ao som de batuques e pandeiros. Essas manifestações culturais propiciariam, consequentemente, a incorporação de características de outros gêneros cultivados na cidade, como a polca, o maxixe e o xote. Assim, o samba carioca urbano ganha a cara e os ritmos conhecidos. 

Samba moderno 

Com ferramenta própria, o samba moderno, esse novo gênero musical, surgiu na então capital brasileira, a cidade do Rio de Janeiro, no início do século XX. O samba moderno deu origem às “escolas de samba”. O termo é resultado do movimento de grandes grupos de sambistas que buscavam aceitação, valorização e edificação de uma cultura. Essas manifestações buscavam se legitimar e romper as barreiras sociais. Várias figuras fizeram parte desta construção. No primeiro momento, estavam Donga, Mauro Almeida, Ernesto Nazaré, Alfredo Carlos Brício, entre outros. Nos anos 1930, há a contribuição de Ismael Silva. 

Popularizada e difundida, mais tarde conhecido e oficializado como patrimônio nacional pelo então Presidente da República, Getúlio Vargas, o Samba ganhou status de “música oficial brasileira”. O samba conquista novos ares. A classe média e alguns ícones da Bossa Nova e da MPB buscam no samba de raiz os mestres como Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Elton Medeiros, Zé Kéti, Cartola, Beth carvalho, Martinho da Vila, Clara Nunes e Bezerra da Silva. 

O mundo do samba se amplia. Agora é a vez do subúrbio e com eles novos ritmos e instrumentos. O banjo e o tantã são as marcas do pagode carioca, que toma corpo e traz consigo novos nomes e nos apresentam figuras como Jovelina Pérola Negra, Jorge Aragão, Almir Guineto, Zeca Pagodinho, Dudu Nobre, Fundo de Quintal e Arlindo Cruz, entre outros, e mais recentemente Leandro Sapucaí. O samba (de roda, de raiz, canção, de enredo) se popularizou ainda mais com o pagode de fundo de quintal, o pagode de mesa, e hoje até o pagofunk. 

Mônica Custódio é secretária da Igualdade Racial da CTB 

*Essa foi uma contribuição, hoje atualizada para a UNEGRO do Rio de Janeiro, na confecção da Revista Samba na Raiz, em 2012.

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

Estação Primeira da Mangueira