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Os seres humanos são animais que se interpretam. Isso significa que não existe “comportamento automático”, este é sempre influenciado por uma “forma específica de interpretar e compreender a vida”   Jessé Souza

Não por um acaso, mas por uma estratégia ideológica bem definida, o Programa Fantástico, da Rede Globo, vem apresentando à sociedade brasileira um quadro chamado “Chefe Secreto”, baseado em Undercover Boss (“O Chefe Espião”), da CBS, um reality show americano, originário da Grã-Bretanha, onde o chefe de uma grande corporação se passa por funcionário, em um determinado período, em sua própria empresa. Este tem como objetivo principal e óbvio, aos olhos do telespectador, de observar o funcionamento e a produtividade, objetivando os tais ajustes necessários para o melhor “desempenho” de suas atividades.

Assim como os velhos “coronéis” brasileiros, que detinham o mando político, econômico e social nas regiões em que viviam e lançavam mão de seu pequeno exército de jagunços para garantirem a perpetuação de poder e controle sobre seus empregados, a mídia necessita de programas como este para garantir a perpetuação de uma visão unilateral de pensamentos dominantes, conforme observamos nas escrituras de Karl Marx, do século XIX, que ao contrário do que se prega, são muito atuais e recorrentes:

“As ideias da classe dominante são em cada época as ideias dominantes, isto é, a classe que constitui a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força intelectual dominante.” (Marx em “A Ideologia Alemã)

O capitalismo, para manutenção de seu modelo, usa várias artimanhas para obtenção de êxito, assim como os camaleões que se adequam a qualquer ambiente, para se defender e se manter vivo. É perceptível que, historicamente, o Capital vem investindo para ganhar ideologicamente os trabalhadores, buscando adequá-lo de acordo aos seus interesses e ritmos de produção. Prova disto, foi a forma como o fenômeno político denominado neoliberalismo, de maneira fulminante, espalhou-se pelo mundo e, em cerca de duas décadas, transformou-se no guia teórico e prático de muitos partidos e governos da maioria dos países ocidentais.

Na raiz deste fenômeno situam-se as práticas de subtração de direitos e a terceirização, que tanto prejudicam os trabalhadores e trabalhadoras. Acarretando efetivamente a flexibilização das relações de trabalho, objetivando torna-lo o mais versátil possível, no qual o modelo de trabalhador “exemplo” é o mais qualificado e capaz de realizar múltiplas tarefas, tais como operar as máquinas, fazer a manutenção, difundir informações, realizar o controle de qualidade. Portanto, o operário especializado em apenas uma função já não tem lugar nesse ambiente de produção, gerando desemprego, subempregos, pessoas superocupadas, pressão constante por melhorias nas qualificações profissionais e, consequentemente, adoecidas.

Neste sentido, criar o sentimento de pertencimento é fundamental para a nova realidade no mundo empresarial. O trabalhador, devido a um processo de aculturação, não se sente mais trabalhador, mais sim, parte integrante da empresa que explora sua força de trabalho, com único interesse em aumentar cada vez mais o seu controle sobre o trabalhador e aumentar seu capital. O trabalhador passa a defender com todas as forças “sua empresa”, passando a ser chamado de “colaborador”, em detrimento de suas condições sociais, de saúde e familiar. Como vimos no referido programa aqui abordado, exemplos de trabalhadores, doentes, trabalhando em condições precárias, como pudemos observar no caso das instalações inadequadas para um saudável ambiente de trabalho.

Para o total êxito desse pensamento dominante, se faz necessário a desconstrução do conhecimento da concepção de classe, por parte destes trabalhadores. Tais fundamentos ideológicos ficam muito claros no Programa “Chefe Secreto”.

O quadro faz os brasileiros chorarem, trazendo uma visão   “humanizada” do patrão, enraizando um conceito na sociedade, onde as precárias condições no mundo do trabalho, fruto da exploração do homem pelo homem para obtenção do lucro, se dá em razão do “não conhecimento” da real condição da tal empresa. Desta forma, desconsidera-se os elementos concretos de exploração, tira-nos a capacidade de uma leitura mais profunda da realidade brasileira, resultando em uma superficialidade desta realidade posta. Destituindo assim o trabalhador das precondições para entender seu cotidiano e, principalmente, as lutas sociais.

É urgente a necessidade de cada vez mais investir na comunicação e na formação política sindical, como ferramentas estratégicas de combate às doutrinas dominantes, posta a todos os trabalhadores e trabalhadoras como a verdade única, através dos meios de comunicações. Precisamos combater essa tendência muito presente de distanciamento entre sindicatos e trabalhadores, compreendendo o sindicato como ferramenta importante na defesa dos trabalhadores. Resgatando o sentimento de solidariedade e de luta. Afinal, todos os direitos conquistados são fruto de muita luta, dedicação e organização da classe trabalhadoras.

Kátia Gaivoto é graduada em História e mestranda em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local no Centro Universitário UMA, Belo Horizonte - MG. É Diretora de Comunicação do Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho – CES. É da Direção Nacional da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil – CTB

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