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“A situação está pior do que em 2007. Nossa munição macroeconômica para combater desacelerações (dowturns) no essencial já foi toda gasta”, William White, presidente da comissão de revisão da OCDE e ex-economista-chefe do Banco de Compensações Internacionais –BIS [1]

No finalzinho de dezembro passado, em Berlim, a chefona do FMI (Fundo Monetário Internacional) Cristine Lagarde mandou avisar a todos: o crescimento da economia mundial 2016 será decepcionante, desigual e situado em novos riscos financeiros. Ela imagina que as causas deste cenário se encontram na queda da produtividade, no envelhecimento da população mundial e ainda que os efeitos da crise financeira. Segundo disse, a crise iniciada com a falência do Lehman Brothers, não teria até agora assegurado a estabilidade financeira sistêmica – por ela assim concebida e desejada.

Em fim de mandato - a ser renovado -, Lagarde comentara também que a desaceleração econômica na China e a elevação da taxa básica de juros nos EUA iriam contribuir para maior volatilidade econômica e insegurança em qualquer parte do globo. A Europa – afirmou insuspeitadamente - fecharia o ano com elevação do endividamento público e privado, com baixas taxas de investimento e debilidades no sistema bancário do continente. [2]

Para 2015 a OCDE já havia cortado sua previsão de crescimento global para 2,9% em seu relatório de perspectiva econômica, dos 3% previstos em setembro. A organização tem repetidamente cortado sua perspectiva de crescimento de 2015 ante os 3,7% inicialmente. Disse que o comércio global vai crescer somente 2% este ano, um nível que foi visto apenas cinco vezes nas últimas cinco décadas e que coincide com contrações: 1975, 1982-83, 2001 e 2009: “É profundamente preocupante”, disse a economista-chefe da OCDE, Catherine Mann, na introdução do relatório; alertando que “O comércio mundial tem sido um termômetro da produção global”. [3]

Sim, crise crônica afunda a periferia

De acordo ainda com o último informe da Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (CEPAL), o crescimento da economia mundial em 2015 foi de 2,4 %, levemente inferior ao registrado em 2014, de 2,6 %. Para 2016 espera o órgão leve aceleração que alcançaria uma taxa próxima aos 2,9 % - o que certamente não será alcançado. América Latina e o Caribe, que caíram 0,4% em 2015, nesse ano prevê-se ainda uma estagnação de 0,2 % de seu desempenho econômico.

Desaceleração que desde 2013 passara a atingir quase todas as economias da periferia capitalista, fundamentalmente de modo sincrônico. O que se registra acentuado no caso da Rússia (-3,7% até novembro de 2015), do Brasil (cerca de -3,5% em 2015), mas não do México – sempre conforme com as estimativas que circulam na praça. Afirme-se claramente, contudo, que boa parte das economias emergentes tiveram em 2015 seu pior resultado em quase duas décadas.

CRESCIMENTO DO PIB (Produto Interno Bruto) 1985-2015

FONTE: FMI (Fundo Monetário Internacional)

O que também se relaciona com o problema crônico da oscilação dos preços das commodities, em especial do petróleo: entre julho de 2014 e o fim de 2015 o preço do petróleo desabou 70%! Contrariando expectativas, na primeira semana do ano seus preços caíram mais de 10%, queda inusitada para esses períodos. E conforme relatou o índice agregado Bloomberg World Oil & Gas, nessa primeira semana as 60 maiores companhias de petróleo do mundo perderam cerca de US$100 bilhões em função desse verdadeiro colapso de preço.

Sobre essa questão, é esclarecedora a interpretação trazida à luz pelo economista russo Valentin Katasonov: os manipuladores do mercado petrolífero são os grandes bancos, não mais a OPEP. Que operam através dos contratos futuros de petróleo e de outros seus derivativos ligados ao petróleo. Os preços diários (para transações spot) são estabelecidos pelos preços para entregas futuras (num prazo de um ano, por exemplo). E os preços futuros são o resultado do que se chama “expectativas”. As tais “expectativas” são criadas pelas agências de classificação, os chamados peritos, e a mídia monopólica. Na prática, tudo isto está sob o controle dos grandes bancos. E são os bancos que simplesmente encomendam (place an order) as expectativas “necessárias”. [4]

Instabilidade permanente, falência: o “novo normal”

Segundo Wolf, a economia mundial precisaria encontrar “um novo e poderoso motor de demanda, já que os antigos estão engasgando e morrendo”; não se sabe se ele será encontrado, diz. Mas o resto do mundo está esperando, provavelmente com excesso de otimismo, que os EUA forneçam o que está procurando. E isso não teria ocorrido “mesmo que o Fed tivesse optado por não apertar a política monetária”. “O ajuste futuro para uma economia mundial tão viciada em bolhas de crédito vai ser difícil”. “Também preocupante é a desaceleração do crescimento do comércio - em parte resultado e em parte causa de um crescimento mais fraco”. “A globalização está perdendo dinamismo”, admite resignado ele, o ilustrado e dissimulado porta-voz da grande finança capitalista [5]

Mas William White vai mais fundo. “O mundo enfrenta uma onda de inadimplência de dívidas épicas”: esse é o prognóstico grave do experiente economista do mainstream. Conforme a referida análise de White, credores da Europa provavelmente enfrentarão algumas das maiores perdas (haircuts). Bancos europeus já admitiram US$2 trilhões de empréstimos que não serão pagos: eles estão fortemente expostos a mercados emergentes e estão quase certamente estendendo o prazo (rolling over) de mais dívidas podres que nunca foram reveladas.

Em relação especificamente à situação do Fed (banco central dos EUA), White sentenciou estar agora “num horrível impasse pois tenta libertar-se da QE (Quantitative Easing) e aprumar o navio outra vez. “É uma armadilha da dívida. As coisas estão tão ruins que não há resposta certa. Se subirem as taxas [de juros] isso será detestável. Se não elevarem, isso apenas faz as coisas piores”.

Resumindo: as considerações últimas de Cristine Lagarde (FMI), Martin Wolf (Financial Times) e especialmente de William White convergem para a ideia de que, nos marcos obscuros da continuidade da crise, a elevação em 0,25% da taxa básica de juros pelo banco central americano (FED) em dezembro vai acirrar a guerra cambial (de capitais), reforçará a instabilidade financeira e aprofundará a desaceleração global.

Quinze anos depois da queda, falência!

E desnecessário detalhar o irrefutável e já célebre relatório da ong. britânica OXFAM Internacional (1942) de 18 de janeiro de 2016:

  • Em 2015, só 62 pessoas possuíam a mesma riqueza de 3,6 bilhões da metade mais pobre da humanidade. Em 2010 eram 388 pessoas. Essa riqueza sofreu incremento de 44% em apenas cinco anos. Enquanto isso, essa metade mais pobre sofreu redução0 em mais de U$ 1 bilhão de dólares, um colapso de 41%! Ou 1% de ricos detém a mesma riqueza que 99%! [6]

China: comando nacional de política econômica

A propósito, no último mergulho de 2015 hoouve quem visse na situação do sistema de relações internacional um quadro assemelhado ao pós-1930, antecessor dos acordos internacionais de Bretton-Woods (1944): grande fragmentação geopolítica, formações de blocos e dificuldades crescente par a imposição de um sistema monetário internacional exaurido e inviável ao mundo, contudo ainda sustentado artificialmente numa moeda (dólar).

De fato, de uma parte, cumpre notar que o yuan da China adquiriu ostatus de uma divisa oficial de reserva: a decisão foi tomada pelo Fundo Monetário Internacional em 30 de Novembro de 2015. A moeda chinesa, o yuan, tornou-se a quinta divisa oficial de reserva, juntando-se ao dólar americano, ao euro, ao yen japonês e à libra britânica. Mais ainda: a seguir, com base no peso estabelecido pelo Fundo, o yuan tenha sido imediatamente classificado em terceiro lugar no cesto de divisas de reserva do FMI, à frente do yen e da libra.

De outra parte, a China convive às convulsões sistêmicas da crise capitalista gestada no ventre do declínio americano, simultaneamente à estratégia traçada da necessidade de um “aggiornamento” de um modelo de desenvolvimento baseado fundamentalmente no gigantesco setor exportador para outro de avanço dos serviços de tecnologia mais sofisticada e um comércio voltado fortemente à demanda e consumo internos. Seu crescimento excepcional de 6,9% em 2015 é prova inconteste de seu controle sobre a política econômica nacional.

Considerado grande especialista na economia chinesa, Roberto Dumas (mestre em Economia da China pela Universidade de Fundan e em Economia Mundial pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra) assegura que os fatos registrados na China na segunda-feira, 04/01 (desvalorização da moeda nacional, o yuan, e quedas simultâneas nas duas Bolsas de Valores, de Shangai e Shenzhen), só surpreenderam quem não conhece as decisões das autoridades chinesas: “O que está acontecendo na China nada mais é do que o resultado de uma bem planejada política econômica de Governo, produzindo os efeitos esperados”, informa Dumas. [7]

NOTAS

[1]Ver: “Mundo enfrenta onda de inadimplência de dívidas épicas, teme veterano banco central”, A. Evans-Pritchard, The Telegraph, 19/01/2016. 

http://www.telegraph.co.uk/finance/financetopics/davos/12108569/World-faces-wave-of-epic-debt-defaults-fears-central-bank-veteran.html

[2]Ver: “FMI espera desempenho negativo da economia mundial em 2016”. (http://www.granma.cu/mundo/2015-12-30/fmi-espera-negativo-desempeno-de-la-economia-mundial-en-el-2016-30-12-2015-21-12-52)

[3] Em: “OCDE reduz de novo projeção de crescimento da economia mundial”. http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/11/ocde-reduz-de-novo-projecao-de-crescimento-da-economia-mundial.html.

[4] Ver: “O cartel bancário que dirige o mercado de petróleo”, V. Katasanov. http://www.strategic-culture.org/news/2016/01/18/banking-cartel-that-steers-oil-market.html. Traduzido em resistir.info

[5] Em: “Essa turbulência é resultado do erro do banco central dos EUA”, M. Wolf, Folha de S.Paulo/Financial Times, 13/01/2016.

[6]Ver: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160118_riqueza_estudo_oxfam_fn

[7] Ver: “É preciso entender a China: não é crise – é política econômica”, em: Sputnik [http://bit.ly/1JVHnHx] 07/01/2016.

A.Sérgio Barroso, médico, doutorando em Economia Social e do Trabalho (Unicamp), diretor de Estudos e Pesquisas da Fundação Maurício Grabois

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