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Mantendo-se os níveis atuais de polarização sectária da política até as eleições de 2016 e 2018, a situação do País tende a piorar. As eleições municipais de 2016 poderão ser o termômetro disto. E as de 2018 poderão ser o resultado final desse embate despolitizado e caótico.

O debate político está interrompido. De um lado, os ‘petralhas’, de outro, os ‘coxinhas’, com altíssimo grau de intolerância. É óbvio que esta equação contraditória é falsa, mas é mantida pelos meios de comunicação e os agentes políticos como se verdadeira fosse.

A orientação midiática, sobretudo da imprensa, aceita por parcelas expressivas da chamada classe média, é que basta tirar o PT e tudo estará resolvido.

O buraco é mais embaixo e vai exigir união nacional pelo desenvolvimento, pela recuperação da renda e do emprego!

No embate político em curso, tudo que compromete ou pode comprometer e incriminar o PT, Lula e Dilma ganham destaque e dimensão nacionais. É como diz o músico, compositor, escritor brasileiro, que é vocalista da banda Detonautas Roque Clube, Tico Santa Cruz: “falar da vida privada do Lula é notícia; falar da vida privada do FHC é fofoca”.

Quando o mal feito compromete a oposição, em particular o PSDB, do senador Aécio Neves (MG), e a mídia não pode esconder/abafar, veicula-se. Com direito ao contraditório. Como deve ser, mas só para a oposição. Depois desaparece do noticiário como se nunca tivesse existido.

No contexto das eleições, o diretor de Documentação do Diap, Antônio Queiroz, em seu artigo "Perfil dos candidatos às eleições de 2016 e 2018", entre outros aspectos, chama a atenção para a qualidade dos postulantes às próximas disputas (2016 e 2018) em razão da desqualificação do debate político nesta conjuntura de polarização ensandecida.

Ele divide os candidatos em quatro categorias por conta do fim do financiamento empresarial de campanha: 1) os endinheirados ou os ricos, 2) as celebridades, 3) os fundamentalistas, e 4) os candidatos vinculados aos movimentos sociais.

Os endinheirados têm sempre vantagem, porque disputam num ambiente despotilizado em que o dinheiro desequilibra o resultado para o bem ou para o mal. As celebridades por serem muito conhecidas. Os fundamentalistas religiosos, entre outros aspectos, por conta da prevalência da agenda conversadora em curso. E os movimentos sociais, pela sua militância.

Em geral, as três primeiras categorias trazem candidatos, em sua maioria, afinados com a agenda conservadora. Assim, a prevalecer essa média do debate político, tudo indica que a situação não vai melhorar, pelo contrário, como problematiza Queiroz em seu artigo citado acima.

O perfil do Legislativo eleito em 2014 é a confirmação desta preocupação. Há uma unanimidade em afirmar que se trata de o Congresso mais conservador dos últimos 20 anos.

No final das contas, a qualidade dos representantes, nas democracias representativas, como é o caso da democracia brasileira, tem relação com a qualidade dos representados, numa relação dialética. Não é à toa que eleição após eleição, a qualidade dos poderes legislativos nos seus três níveis — municipais, estaduais e federal — tem decaído bastante, com a perda da qualidade dos eleitos.

No governo, a agenda econômica, por exemplo, colocada em prática pela presidente Dilma, neste segundo mandato, por força das circunstâncias, como pondera Queiroz, é a agenda da oposição, com menos radicalidade.

Alguns fatores da intolerância
Em seu longo artigo "Quem é quem no xadrez do impeachment", jornalista Luis Nassif chama a atenção para a falência do modelo neoliberal inaugurado em 1972, e da democracia representativa que vigorou em todo século 20, para entender, entre outras abordagens, alguns fatores da intolerância e da desqualificação da política em curso.

Ele cita ainda o fim do “quadro econômico estável, e com válvulas de escape permitindo administrar os conflitos internos, com relativa abertura para processos lentos de inclusão.” Lembra a crise de 2008, que reacendeu “a insegurança econômica e o medo de perda de status social.”

No Brasil, com a crise, “a busca de bodes expiatórios foi bater nas costas dos novos incluídos, muito mais concretos para atiçar o primarismo da besta do que movimentos financeiros sofisticados ou as grandes jogadas empresariais”, pontifica Nassif.

E acrescenta: “Houve então um estilhaçamento de todas as formas de coordenação e controle da opinião pública em um momento de conflitos étnicos e de ódio interno nos países. A besta arrebentou as grades e invadiu as ruas, as cidades, até as conversas de família.”

Diante desse quadro caótico que inunda a sociedade e as instituições é preciso resgatar o conteúdo do debate político para evitar que essa situação se deteriore, pois os principais prejudicados serão o povo em geral e os trabalhadores em particular.

Marcos Verlaine, jornalista, analista político e assessor parlamentar do Diap