Ferramentas
Tipografia

Para aqueles que alegremente chocam o ovo da serpente do golpe, mais ou menos iludidos com a cantilena de que prender os petistas significa a libertação do Brasil, um alerta: lembrem-se de Carlos Lacerda.

Lacerda era um entusiastico opositor de João Goulart assim como foi de Getúlio Vargas. É dele a célebre frase, referindo-se a Vargas: "Não pode ser candidato. Se for,não pode ser eleito.Se eleito, não pode tomar posse. Se tomar posse, não pode governar". Ele foi o líder da campanha midiática que levou o governo Vargas a uma situação tal que forçou o suicídio do presidente em agosto de 1954.

Pois bem, Lacerda demorou mas conseguiu o que queria. O suicídio presidencial adiou um pouco seus planos, a heróica campanha da legalidade conduzida por Leonel Brizola e pela União Nacional dos Estudantes, toda a campanha em torno da Petrobras, tudo isso retardou um pouco os intentos de Lacerda e da UDN, mas por fim, com a ajuda dos militares, ele conseguiu se livrar da ameaça trabalhista, que na época ocupava o lugar do PT de hoje. João Goulart deixou o país, exilado. Lacerda ganhara.

Não demorou muito para perceber a grande burrada que tinha feito. Já em julho de 1965, pouco mais de um ano após o golpe, Lacerda rompe formalmente com os militares, e já em 27 de outubro de 1965 assiste perplexo o Ato Institucional nº 2, que dentre outras coisas desativou o pluripartidarismo, instituiu eleição indireta, cassou direitos políticos dos opositores ao regime. Encurralado pela ditadura que ele mesmo ajudou a implantar, Lacerda vai para o exílio e tenta organizar a Frente Ampla de resistência, tendo como aliado seu ex-inimigo João Goulart. Morre em 1977, no exílio. Suspeita-se que tenha sido vítima de um atentado feito pelos mesmos militares que ajudou a tomar o poder pela via golpista anos antes.

O que essa história nos ensina? Que o rompimento das instituições é uma caixa de pandora de perversidades que pode atingir até mesmo aqueles que a produziram. Aqueles desejosos da extinção do PT e da prisão dos petistas, cuidado. Um monstro suficientemente capaz de extinguir um partido político, ou de prender arbitrariamente um líder como Lula, pode ser uma fera indomável e insaciável. Quem disse que o mecanismo parará com a extinção do PT? Quem garante que o monstro do golpe, liberto e sem opositores, não promoverá uma carnificina que inclua a carne inclusive de muitas coxinhas que hoje se exibem patrióticas e convictas nas avenidas paulistas do Brasil?

Nós que ajudamos a eleger Lula e Dilma, iremos pra rua quantas vezes forem necessárias, disso não há dúvida. Mas se eu fosse um opositor de Dilma com um mínimo de senso inclusive de preservação, iria junto, erguendo bem alto o cartaz NÃO VAI TER GOLPE. Não por bondade, nem por nenhum sentimento cívico mais elevado. Somente pela percepção de que se essa horrenda articulação midiatico-judiciária for vitoriosa em seus intentos maiores, sabe-se lá qual será a próxima vítima. A história está aí para com ela aprendermos.


Igor Pereira é secretário de juventude da CTB-RS e técnico-administrativo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.