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Seg, Out

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Eu já falei da diferença gritante entre as coberturas feitas pela maior parte das emissoras de televisão, em especial a Rede Globo e a Globo News, das duas últimas grandes manifestações realizadas em diversas cidades do país: a pró-impeachment e a que defendeu a democracia.

Agora eu quero falar de um outro aspecto que tem me incomodado bastante: a forma insistente e rasa com que esta cobertura tenta, de forma equivocada, comparar a estimativa de público entre as diferentes manifestações como se, para determinar os rumos da política do país, tivéssemos que eleger como uma única manifestação legítima aquela que tivesse o maior número de pessoas.

Se assim fosse, poderíamos evocar as milhões de pessoas que participam anualmente da Parada LGBT de São Paulo para “implantar a ditadura gay” (sic), tão alardeada há anos em discursos delirantes de hipócritas, demagogos e mercadores da fé, não é mesmo? 

Essa cobertura desonesta omite as diferenças gritantes na forma de convocação das duas manifestações. Enquanto a pró-impeachment foi financiada e patrocinada pelos plutocratas e partidos de oposição de direita (inclusive por seus governos que liberaram as catracas e colocaram a polícia militar à disposição do fechamento de avenidas), pelo Habib’s, pela FIESP e estimuladas por uma cobertura-convocação da mídia, a outra nasceu de uma reação espontânea em defesa do democracia e do Estado Democrático de Direito, ameaçados pelos atores políticos que estão por trás da primeira manifestação, que, diante de tamanha força econômica e televisiva, é óbvio que atrairia mais gente.

Ainda assim, sem esse apoio da mídia e a força oculta da grana (porque embora o PT, o PCdoB, a CUT, o MST também façam convocações, elas são públicas e notórias), podemos concluir que sim, as manifestações a favor da democracia foram um sucesso. Por isso, do ponto de vista jornalístico elas deveriam ser encaradas como uma pauta mais relevante, sem omissão das circunstâncias que produziram as duas manifestações.

Me pergunto como a Rede Globo não é capaz de aprender com os próprios erros há décadas já desmascarados: a negação das Diretas Já, o sequestro de Abílio Diniz, a manipulação do debate entre Lula e Collor, o direito de resposta de Leonel Brizola e Lula. Como William Bonner e William Waack – os dois William que encarnam a face desse jornalismo desonesto – acham que serão lembrados?

O que está acontecendo é uma disputa de narrativa. Houve um tempo em que a Globo conduzia sozinha essa narração e por isso conseguiram derrubar um governo e estabelecer uma ditadura militar no país por mais de 20 anos; agora ela pode até triunfar ao final desse golpe, mas haverá uma resistência muito maior porque as redes sociais e as novas tecnologias de informação podem ajudar a produzir outros discursos nessa disputa da narrativa.

E por falar nos atores ocultos (mas nem tanto) que estão por trás desse movimento pró-impeachment, uma gravação escandalosa registra uma conversa do deputado Paulinho da Força, principal aliado de Eduardo Cunha e que, junto com o presidente da Câmara, também é réu no STF e responde pelo crime de corrupção. Na conversa, o líder da Força Sindical revela que há “muita gente pra financiar o impeachment” e que todo esse processo só está acontecendo por causa de Cunha.

E aí? Será que a transcrição desse áudio também será lida de forma dramática e repetida no Jornal Nacional? Quem são essas pessoas interessadas em financiar o impeachment, Paulinho da Força?

Jean Wyllys é deputado federal pelo PSol-RJ.

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

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