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Dom, Out

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Às vezes dói constatar a superficialidade e carência de consciência, informação e senso crítico exibidos por alguns colegas de profissão, que talvez precisamente em função disto ocupam hoje cargos de certa projeção e influência na mídia que apropriadamente classificamos de burguesa e golpista. Na manhã desta terça, 22, o apresentador da Band News Ricardo Boechat tentou justificar, sorridente e irônico, o posicionamento, em sua opinião neutro e equidistante, que mantém diante dos acontecimentos em curso no país.

Comparou a sua condição à de um narrador de futebol que deve se manter neutro enquanto relata uma partida em respeito às respectivas torcidas, evitando tomar partido e reprimindo a paixão pela equipe de sua preferência. É um comportamento menos nocivo do que o dos coleguinhas que aderiram abertamente à campanha golpista e, como Merdal e Noblat, batem às portas dos quartéis pedindo a intervenção dos militares, como velhas vivandeiras.

Mas a sabedoria popular adverte que não se deve comparar alhos com bugalhos. O que está em curso no país não é uma mera partida de futebol, é um movimento golpista, algo infinitamente mais sério. O que está em jogo é a jovem e ainda frágil democracia no Brasil. As liberdades individuais estão sendo afrontadas e a Constituição Cidadã rasgada.

Cortina de fumaça

O combate à corrupção, parcial e seletivo, é uma cortina de fumaça erguida por uma mídia que está de cabo a rabo comprometida com o golpismo e se comporta como em 1954 (provocando a morte de Getúlio Vargas) e 1964. Parafraseando Paulinho da Viola quando pensamos o futuro não podemos esquecer o passado.

Já imaginaram como seria narrar o movimento das tropas em março de 1964 como uma partida de futebol? Boecht diria, naquelas circunstâncias, que os generais fizeram um gol de placa na partida contra as forças democráticas e populares no dia 1º de abril? Não estaria contando a verdade. Eles deram um golpe cujos efeitos nem em sonho são equiparáveis aos de um Fla-Flu.

Quem mais sofreu as consequências da ditadura (que representantes da mídia golpista chamaram mais tarde de ditabranda) foi o povo brasileiro. Nossa categoria também pagou um preço alto e teve seu mártir na luta contra o regime na figura do jornalista Vladimir Herzog, militante do PCB preso, barbaramente torturado e assassinado pelos golpistas nas dependências do Doi-Codi paulistano em outubro de 1975.

Protagonistas do golpismo

Os sujeitos do golpe (Eduardo Cunha, Gilmar Mendes, Aécio Neves, FHC, Zé Serra, Moro, entre outros) conspiram aberta e diuturnamente. A mídia, que nunca perdeu o DNA golpista (tramou contra Getúlio, Jango, Lula e Dilma), tirou de vez a máscara e se transformou num partido político – o Partido da Imprensa Golpista, PIG, na feliz definição do jornalista Paulo Henrique Amorim.

A versão dos fatos produzida pelos golpistas é uma farsa divulgada massivamente pela mídia burguesa, que se orienta claramente pelo princípio da propaganda nazista segundo o qual uma mentira repetida infinitas vezes transforma-se em verdade para a chamada opinião pública, vira senso comum.

O alvo desta direita neoliberal radicalizada é a democracia, a soberania nacional e as conquistas e direitos do povo trabalhador. Quem tem consciência não pode deixar de se indignar com o movimento golpista e denunciá-lo à sociedade. Esconder-se atrás da suposta neutralidade e imparcialidade jornalística é faltar com a verdade mais profunda dos fatos e dourar a pílula da realidade em nome da conveniência, da comodidade e, me perdoem a franqueza, da covardia. É ser conivente com o golpismo. 


Umberto Martins é Jornalista e assessor da CTB

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