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Seg, Set

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Não, esta não é uma luta contra a corrupção. Nunca foi. Uma onda fascista invadiu o País. A mídia golpista incitou o ódio dos analfabetos políticos manipuláveis. A partir daí, organizou seu exército de marionetes, cuja bandeira em riste é a do ódio, com um potencial de destruição que não deve ser subestimado. Violência, ignorância, hipocrisia, esquizofrenia política, machismo, intolerância, preconceito. Não é por um Brasil melhor e menos corrupto. Isso está explícito - basta observar quem encabeça a luta dessa “gente de bem”.

Semana passada parei meu carro numa sinaleira em frente ao Palácio do Planalto. Lá havia um grupo de pessoas protestando contra o governo. Não, espera! Seria injusto classificar aquilo de manifestação política. Para descrever com precisão, sendo fiel aos fatos, devo dizer que era um ato ofensivo, misógino, contra a figura da presidenta, sem característica alguma do que talvez se propôs a ser.

Estava com minhas filhas no carro. “Fora Dilma, sua vaca, piranha” e outras palavras de baixo calão, que me recuso a falar, muito menos escrever aqui, davam o tom do movimento. Aumentei o som para poupá-las de ouvirem aquilo. Pior foi constatar que a maioria das ofensas machistas saía da boca das mulheres presentes. 

Enquanto aguardava o sinal abrir, um dos rapazes, playboy arrumadinho, aproximou-se e me convidou para se juntar a eles. Acenei com a mão dizendo que não e fiz um sinal de reprovação com o meu polegar virado para baixo.

Enfurecido, o moço se aproximou, começou a dar murros no vidro do carro, que estava suspenso, e a xingar-me com os mesmos palavrões com que se referiam a Dilma. Não reagi – apenas fiquei olhando, perplexa, assustada. Minhas filhas, com medo, pediram para eu avançar o sinal. Mas fiquei lá, estática, pois aquilo não parecia real.

Histérico, o indivíduo continuou, enquanto o restante da equipe o incentivava: desça do carro agora sua loirinha vadia do PT! Vem aqui, baixa este vidro pra vê o que vai acontecer com você!

Foi quando um policial se aproximou e ele finalmente se afastou. O sinal abriu, segui em frente e comecei a explicar para as meninas o porquê daquilo e como tudo começou. E olha que nem estava vestida de vermelho – talvez isso foi o que me livrou do pior. Daí a constatação de que o ódio, inflado diariamente por uma mídia golpista, seletiva, talvez seja a principal bandeira dessa gente que se intitula "de bem".

Nós, que defendemos a democracia e lutamos por um país mais justo, mais igual, não podemos compactuar com isso, tampouco reservar-nos ao papel de espectadores do golpe. Precisamos impedir esse atentado à ordem democrática e à soberania nacional. Caso contrário, sofreremos graves consequências.

 

 

P.S: Fui questionada por um leitor, que me perguntou como ouvi os insultos do rapaz a mim, se os vidros do carro estavam suspensos e o som alto, como havia relatado.

Esclareço: No momento em que o moço se aproximou tinha justamente abaixado o volume para ouvir algo que a minha filha mais nova, no banco de trás, dizia. Ainda que o som continuasse alto (e não havia aumentado tanto assim), os socos no vidro do meu carro e o tom da voz do mesmo, que gritava ferozmente, me permitiriam ouvir muito bem. 

 

Ruth Helena de Souza é jornalista e assessora da CTB

 

Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.